As
teorias e as suas verdades relativas
As
várias interpretações do mundo dão vazão a que se conceba várias
formas de construções teóricas para se tentar compreendê-lo. E
é isso que as teorias fazem, seja qual for o objeto a que se
refiram.
Granger
(apud GERALDI, 1991:79) explicita a maneira como um estudo adquire
status de cientificidade; esse autor diz que há pelo menos três
construtos nesse processo de produção, a saber: a) as experiências,
isto é, os fatos totalizantes, sejam humanos ou naturais; b) o fenômeno,
que se refere ao olhar que é dado a esses fatos e já seria uma
descrição sistemática da experiência; e c) o objeto, ou seja, a
abstração do fenômeno, que é construído com leis internas do próprio
conjunto de significação e que estipula valores dentro do sistema
constitutivo. Para a elaboração de uma reflexão científica e,
portanto, na passagem desses três construtos assinalados acima, resíduos
são produzidos (GERALDI, 1991: 80). Esses resíduos são
deixados de lado por conta do foco necessário que se dá a
determinado acontecimento. Logo, quaisquer que sejam os paradigmas,
sempre haverá resíduos, porque nenhum estudo poderia dar conta do
acontecimento em sua totalidade: “A cada abstração, há definição
de um ‘sistema’ e ao mesmo tempo o esquecimento de resíduos”.
Pensando
nisso consideramos que, quando tratamos de observar os trabalhos
científicos, há riscos que devemos evitar. Um deles seria o não
reconhecimento desses resíduos, acima descritos, risco que o próprio
Geraldi (op. cit.) aponta. E um outro, talvez o mais importante, a
aceitação de uma falsa postura de vale-tudo. Parte-se para um
olhar acrítico diante dos fenômenos, que refletiria, na verdade, a
conseqüência da cegueira descrita no primeiro risco.
Nos
dois casos, acreditamos que a não percepção do recorte que é
dado – no sentido de aceitar limitações, mas, ao mesmo tempo,
confiar em sua inteligibilidade científica, ou necessidade de
sistematização –, na realidade, levaria os sujeitos a caírem na
armadilha do dogmatismo dos dois extremos.
O
primeiro extremo é a falsa consciência de apreensão do Real, de
uma única forma para isso, por um único caminho viável; e o
segundo, a crença de que pelo fato da multiplicidade de “fazeres
científicos” não há nada que configure o que é certo e o que
é errado dentro do escopo da ciência.
Em
resposta aos defensores do primeiro extremo, podemos conjecturar que
a própria realidade pode ser questionada quanto à validade de uma
“suposta verdade” em detrimento de “uma outra”. O que seria
realidade, para determinada concepção poderia não ser para outra,
e vice e versa. A representação de uma realidade não pode ser a
própria realidade pelo simples fato de que não há consenso em
defini-la. Se essa fosse tangível de uma, apenas uma, classificação,
definição, representação, etc, poderíamos dizer que o “autor
x” DESCOBRIU o que significa “discurso”, ou ainda, que o
“autor y” finalmente ENCONTRA o significado, ou condição, de
“ser sujeito”. Por esse motivo, Morin (2004:85) assume que as
“idéias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade, que
podem traduzir de maneira errônea. Nossa realidade não é outra
senão nossa idéia de realidade”. Diríamos mais ainda, a
“realidade” tem feitio de “um enlatado qualquer”, pois o que
um estudo traduz hoje como válido para essa nossa atualidade pode,
daqui a algum tempo, não mais responder a anseios e “perder sua
validade”, ficar podre e servir como adubo para a matéria prima
do porvir.
Morin
(2003, 2004) problematiza a incerteza do real,
e questiona, também, a incerteza das representações dessa. O
enfrentamento dessas incertezas pode nos levar para o enfrentamento
das possibilidades de apreensão da realidade. E é nesse ponto que
se faz necessário o trabalho das múltiplas possibilidades de visão
teórica. Nenhuma subjugando a outra, nenhuma ignorando a outra. O mútuo
reconhecimento das diversas vertentes pode ser proveitoso, pelo
menos, no que se refere a novos posicionamentos diante do objeto. Há
uma fertilização dos modos de conceber a realidade quando pontos
de vistas diferentes se tocam, se entrecruzam. O “nascimento” de
um novo posicionamento, de uma nova descoberta de olhar, supõe
sempre um contraponto, uma mesclagem, ou mesmo, uma reivindicação.
A própria história já nos revela isso.
As
grandes ou pequenas revoluções que se dão no seio quer da história,
da ciência, ou da própria formação ideológica, não partiram da
imobilidade, e sim de seu inverso. As forças antagônicas dão a
luz a novas formas de concepção que dão seqüência ao processo
inextinguível e ininterrupto de transformação do mundo. Negar uma
possibilidade de explicação é como se pretendêssemos parar o
tempo, matá-lo.
Se
estivermos todos de costas para o Real e, dele, só virmos a sombra
na parede, negar outras interpretações dessas sombras é querer
estar sozinho na gruta, ou rodeados de cegos.
A
própria concepção de ciência, ou seja, a própria cientificidade
de um estudo, às vezes, é posta em xeque, devido à idéia de que somente
uma corrente deve ser seguida porque somente
uma corrente deve ser seguida. A tautologia gritante dessas
afirmações levanta uma outra questão: para que fazer ciência?
Os
vários olhares a um objeto, no mínimo, cercariam-no a ponto de se
não o esgotar (já que seria incoerente com a própria característica
de atualização permanente da língua, do social, da história), de
o compreender nos diferentes lugares em que ele pode ser observado.
“As demarcações científicas são relativas às concepções de
realidade e não podem reclamar exclusividade” (DEMO, 1987:30),
porque reclamar exclusividade seria anular o papel do outro no
mundo, como já descrevemos acima, ancorados no mito da caverna de
Platão.
Não
é possível sequer assumir um conceito de ciência como paradigma
geral, como algo inquestionável. Devemos ter a consciência de que
não podemos nomear algo como inquestionável, nossas posições, ou
visões são possibilidades entre outras tantas.
Se
não devemos negar teorias irmãs ou totalmente antagônicas àquela
em que nos identificamos como sujeito, também, dentro dessa última,
devemos sempre esperar o inesperado. “O inesperado surpreende-nos.
É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e idéias,
e estas não têm estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo
brota sem parar” (MORIN, 2004:30). Já dissemos acima que as
teorias se constroem com leis internas, ou seja, há uma montagem
para a percepção do fenômeno. Mas essa sistematização não pode
funcionar como a cama da mitologia que quando o sujeito nela não
cabia, por ser maior ou menor, bastaria que se cortasse ou esticasse
o indivíduo.
As
construções teóricas produzem resíduos, como já foi dito.
Temos, pois, que conviver com eles, assumi-los, passando-os adiante,
reconhecendo que o outro pode e deve tentar dar conta dessas
arestas. O outro, por sua vez, ao sistematizar a partir dessas
sobras, também produzirá resíduos...Esse encadeamento de fatos
faz lembrar o trabalho em um formigueiro, cada qual com sua função,
cada qual com seu valor.
Sejamos
então formigas em prol de verdades momentâneas, assumindo que o
inverno chegará e tudo aquilo que foi construído, guardado, não
existirá mais no próximo verão, e, ao mesmo tempo, existirá sim,
nas experiências de cada um e de todos. O verão é o tempo em que
nós formigas trabalhamos de novo. E de novo, e de novo...
por
RITA DE CÁSSIA SOUTO
MAIOR SIQUEIRA LIMA