por RITA DE CÁSSIA SOUTO MAIOR SIQUEIRA LIMA

Mestranda do Programa de Pós-graduação em Letras e Lingüística da Universidade Federal de Alagoas (PPGL/UFAL). Bolsista CNPq.

 

 

As teorias e as suas verdades relativas

 

Procusto (clique e veja o texto do blog da autora)As várias interpretações do mundo dão vazão a que se conceba várias formas de construções teóricas para se tentar compreendê-lo. E é isso que as teorias fazem, seja qual for o objeto a que se refiram.

Granger (apud GERALDI, 1991:79) explicita a maneira como um estudo adquire status de cientificidade; esse autor diz que há pelo menos três construtos nesse processo de produção, a saber: a) as experiências, isto é, os fatos totalizantes, sejam humanos ou naturais; b) o fenômeno, que se refere ao olhar que é dado a esses fatos e já seria uma descrição sistemática da experiência; e c) o objeto, ou seja, a abstração do fenômeno, que é construído com leis internas do próprio conjunto de significação e que estipula valores dentro do sistema constitutivo. Para a elaboração de uma reflexão científica e, portanto, na passagem desses três construtos assinalados acima, resíduos são produzidos (GERALDI, 1991: 80). Esses resíduos são deixados de lado por conta do foco necessário que se dá a determinado acontecimento. Logo, quaisquer que sejam os paradigmas, sempre haverá resíduos, porque nenhum estudo poderia dar conta do acontecimento em sua totalidade: “A cada abstração, há definição de um ‘sistema’ e ao mesmo tempo o esquecimento de resíduos”.

Pensando nisso consideramos que, quando tratamos de observar os trabalhos científicos, há riscos que devemos evitar. Um deles seria o não reconhecimento desses resíduos, acima descritos, risco que o próprio Geraldi (op. cit.) aponta. E um outro, talvez o mais importante, a aceitação de uma falsa postura de vale-tudo. Parte-se para um olhar acrítico diante dos fenômenos, que refletiria, na verdade, a conseqüência da cegueira descrita no primeiro risco.

Nos dois casos, acreditamos que a não percepção do recorte que é dado – no sentido de aceitar limitações, mas, ao mesmo tempo, confiar em sua inteligibilidade científica, ou necessidade de sistematização –, na realidade, levaria os sujeitos a caírem na armadilha do dogmatismo dos dois extremos.

O primeiro extremo é a falsa consciência de apreensão do Real, de uma única forma para isso, por um único caminho viável; e o segundo, a crença de que pelo fato da multiplicidade de “fazeres científicos” não há nada que configure o que é certo e o que é errado dentro do escopo da ciência.

Em resposta aos defensores do primeiro extremo, podemos conjecturar que a própria realidade pode ser questionada quanto à validade de uma “suposta verdade” em detrimento de “uma outra”. O que seria realidade, para determinada concepção poderia não ser para outra, e vice e versa. A representação de uma realidade não pode ser a própria realidade pelo simples fato de que não há consenso em defini-la. Se essa fosse tangível de uma, apenas uma, classificação, definição, representação, etc, poderíamos dizer que o “autor x” DESCOBRIU o que significa “discurso”, ou ainda, que o “autor y” finalmente ENCONTRA o significado, ou condição, de “ser sujeito”. Por esse motivo, Morin (2004:85) assume que as “idéias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade, que podem traduzir de maneira errônea. Nossa realidade não é outra senão nossa idéia de realidade”. Diríamos mais ainda, a “realidade” tem feitio de “um enlatado qualquer”, pois o que um estudo traduz hoje como válido para essa nossa atualidade pode, daqui a algum tempo, não mais responder a anseios e “perder sua validade”, ficar podre e servir como adubo para a matéria prima do porvir.

Morin (2003, 2004) problematiza a incerteza do real, e questiona, também, a incerteza das representações dessa. O enfrentamento dessas incertezas pode nos levar para o enfrentamento das possibilidades de apreensão da realidade. E é nesse ponto que se faz necessário o trabalho das múltiplas possibilidades de visão teórica. Nenhuma subjugando a outra, nenhuma ignorando a outra. O mútuo reconhecimento das diversas vertentes pode ser proveitoso, pelo menos, no que se refere a novos posicionamentos diante do objeto. Há uma fertilização dos modos de conceber a realidade quando pontos de vistas diferentes se tocam, se entrecruzam. O “nascimento” de um novo posicionamento, de uma nova descoberta de olhar, supõe sempre um contraponto, uma mesclagem, ou mesmo, uma reivindicação. A própria história já nos revela isso.

As grandes ou pequenas revoluções que se dão no seio quer da história, da ciência, ou da própria formação ideológica, não partiram da imobilidade, e sim de seu inverso. As forças antagônicas dão a luz a novas formas de concepção que dão seqüência ao processo inextinguível e ininterrupto de transformação do mundo. Negar uma possibilidade de explicação é como se pretendêssemos parar o tempo, matá-lo.

Se estivermos todos de costas para o Real e, dele, só virmos a sombra na parede, negar outras interpretações dessas sombras é querer estar sozinho na gruta, ou rodeados de cegos.

A própria concepção de ciência, ou seja, a própria cientificidade de um estudo, às vezes, é posta em xeque, devido à idéia de que somente uma corrente deve ser seguida porque somente uma corrente deve ser seguida. A tautologia gritante dessas afirmações levanta uma outra questão: para que fazer ciência?

Os vários olhares a um objeto, no mínimo, cercariam-no a ponto de se não o esgotar (já que seria incoerente com a própria característica de atualização permanente da língua, do social, da história), de o compreender nos diferentes lugares em que ele pode ser observado. “As demarcações científicas são relativas às concepções de realidade e não podem reclamar exclusividade” (DEMO, 1987:30), porque reclamar exclusividade seria anular o papel do outro no mundo, como já descrevemos acima, ancorados no mito da caverna de Platão.

Não é possível sequer assumir um conceito de ciência como paradigma geral, como algo inquestionável. Devemos ter a consciência de que não podemos nomear algo como inquestionável, nossas posições, ou visões são possibilidades entre outras tantas.

Se não devemos negar teorias irmãs ou totalmente antagônicas àquela em que nos identificamos como sujeito, também, dentro dessa última, devemos sempre esperar o inesperado. “O inesperado surpreende-nos. É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e idéias, e estas não têm estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo brota sem parar” (MORIN, 2004:30). Já dissemos acima que as teorias se constroem com leis internas, ou seja, há uma montagem para a percepção do fenômeno. Mas essa sistematização não pode funcionar como a cama da mitologia que quando o sujeito nela não cabia, por ser maior ou menor, bastaria que se cortasse ou esticasse o indivíduo.

As construções teóricas produzem resíduos, como já foi dito. Temos, pois, que conviver com eles, assumi-los, passando-os adiante, reconhecendo que o outro pode e deve tentar dar conta dessas arestas. O outro, por sua vez, ao sistematizar a partir dessas sobras, também produzirá resíduos...Esse encadeamento de fatos faz lembrar o trabalho em um formigueiro, cada qual com sua função, cada qual com seu valor.

Sejamos então formigas em prol de verdades momentâneas, assumindo que o inverno chegará e tudo aquilo que foi construído, guardado, não existirá mais no próximo verão, e, ao mesmo tempo, existirá sim, nas experiências de cada um e de todos. O verão é o tempo em que nós formigas trabalhamos de novo. E de novo, e de novo...

 

por RITA DE CÁSSIA SOUTO MAIOR SIQUEIRA LIMA

 

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Referências bibliográficas

DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1987.

GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

MORIN, Edgar. Edgar Morin: Ética, cultura e educação. 2.ed. Organizado por Alfredo Pena-Veja, Cleide R. S. Almeida e Izabel Petraglia. São Paulo: Cortez, 2003.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2004.

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