por LARRY HUFFORD

Larry Hufford, Ph.D., é professor de Relações Internacionais na St. Mary’s University em San Antonio, Texas.

 

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A recente visita de Cheney ao Afeganistão e Paquistão

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

O vice-presidente Cheney recentemente fez uma parada no Afeganistão e no Paquistão, antecipando uma ofensiva de Al Qaeda na primavera. Enquanto estava lá, Cheney fez jogo neo-conservador pesado quando conversou com o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, com a intenção de fazer com que Musharraf coloque mais forças militares nas áreas mais remotas do noroeste do país para combater o Taliban e os refúgios de Al-Qaeda. A lógica é que 2007 é um ano decisivo para as forças dos Estados Unidos e da OTAN, assim como para o governo de Karzai no Afeganistão.

Entretanto, esta estratégia neo-conservadora muito provavelmente vai falhar por uma série de razões que Cheney não consegue reconhecer.

Nenhum governo paquistanês jamais conseguiu controlar a região Pashtun do país. Os chefes militares e as milícias locais reinam supremas. A pressão sobre o presidente Musharraf para que ele lute contra a população pashtun poderia colocar em perigo a segurança doméstica do Paquistão e arriscaria a tomada do governo por parte de líderes militares da linha dura ou por islamistas radicais. Lembremo-nos que Musharraf vai ter que enfrentar uma eleição difícil em setembro em um país politicamente dividido.

No Paquistão há pashtuns islamistas e pashtuns nacionalistas. Os islamistas pensam e agem como parte de um movimento regional, enquanto que os nacionalistas favorecem a criação de uma nação independente chamada Pashtunistão, que incluiria a região Pashtun do Afeganistão. A atual divisão entre o Afeganistão e o Paquistão é conhecida como a Linha Durand, demarcada pelo Sir Mortimer Durant da Grã Bretanha em 1893. Para as tribos pashtuns estas fronteiras continuam sendo artificiais.

Do lado afegão, há nacionalistas pashtuns, chefes militares pashtuns ligados ao Paquistão, e chefes militares pashtuns ligados a Al Qaeda. O governo Karzai tem pouco controle do país fora de Kabul e Kandahar, e o Afeganistão é profundamente dividido por etnia, língua, chefes militares e lealdades tribais. Isto foi útil para lutar contra a União Soviética e para desalojar o Taliban, mas as facções solidificaram seu poder no caos descentralizado que sobreveio quando o Taliban caiu.

A unidade da organização tribal afegã é o Quam. Esta é uma rede que une lealdades enraizadas na família, e que abrange a tribo e o grupo étnico. Quams são sociedades dentro da sociedade. Os historiadores apontam para o fato de que desde a Segunda Guerra Mundial todos os esforços para unificar e usar uma lei centralizadora no Afeganistão falharam. O que isto significa? Significa que o “cidadão” afegão ainda tem que ser criado. Ele não existe ainda.

Atualmente no Afeganistão não há nenhuma estrada principal ligando as capitais provinciais ou as estradas que atravessam fronteiras a sistemas ferroviários. A maior parte do país não tem energia elétrica, água potável, nem um sistema de educação ou de saúde. Ao mesmo tempo, o Afeganistão produziu mais de 90% do ópio do mundo. Em 2006, o cultivo da papoula aumentou em quase 60%. O dinheiro de drogas e a corrupção alimentam as divisões políticas. Em resumo: o Afeganistão é um narco-estado descentralizado.

Os relatórios do serviço secreto concluem que, embora seria uma bonança para as relações públicas capturar ou matar Osama bin Laden (se é que ele está vivo) tal fato teria muito pouco impacto real. Vários analistas dizem que Mullah Omar, cuja base de operações é o sudeste do Afeganistão, agora é quem manda. A estratégia de Omar parece ser a de transformar a resistência contra as forças dos Estados Unidos e da OTAN em um movimento nacionalista contra a ocupação do país pelos poderes ocidentais.

Talvez a razão mais básica para explicar por que as forças dos EUA e NATO não serão bem sucedidas na tentativa de evitar a ofensiva da primavera é que o Paquistão não tem interesse doméstico em uma ação que fortaleceria um governo secular e democrático no Afeganistão. Por quê? O Paquistão teme que um estado secular no Afeganistão poderia decidir que uma aliança estratégica com a Índia dominada pelos hindus seria uma maneira de “conter” o Paquistão.

Os Estados Unidos devem rejeitar o dogma neo-conservador, e, ao invés disto, basear-se em esforços diplomáticos e no uso moderado de força na região. O Paquistão é um estado frágil, com armas nucleares. Se a administração Bush-Cheney apertar demais, o país poderia implodir, deixando uma pessoa ou um grupo muito mais radical que Musharraf em controle do arsenal nuclear do país. Enquanto isto, a paz regional não será conseguida ao permitir-se que Mullah Omar e o Taliban retornem ao poder, para não mencionar os abusos aos direitos humanos que re-emergiriam. O uso de diplomacia é crítico, mas só vai funcionar se for baseado em um entendimento histórico, teológico e antropológico do Afeganistão e do Paquistão.

 

por LARRY HUFFORD

 

 

 

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