A
recente visita de Cheney ao Afeganistão e Paquistão
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]
O
vice-presidente Cheney recentemente fez uma parada no Afeganistão e
no Paquistão, antecipando uma ofensiva de Al Qaeda na primavera.
Enquanto estava lá, Cheney fez jogo neo-conservador pesado quando
conversou com o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, com a
intenção de fazer com que Musharraf coloque mais forças militares
nas áreas mais remotas do noroeste do país para combater o Taliban
e os refúgios de Al-Qaeda. A lógica é que 2007 é um ano decisivo
para as forças dos Estados Unidos e da OTAN, assim como para o
governo de Karzai no Afeganistão.
Entretanto,
esta estratégia neo-conservadora muito provavelmente vai falhar por
uma série de razões que Cheney não consegue reconhecer.
Nenhum
governo paquistanês jamais conseguiu controlar a região Pashtun do
país. Os chefes militares e as milícias locais reinam supremas. A
pressão sobre o presidente Musharraf para que ele lute contra a
população pashtun poderia colocar em perigo a segurança doméstica
do Paquistão e arriscaria a tomada do governo por parte de líderes
militares da linha dura ou por islamistas radicais. Lembremo-nos que
Musharraf vai ter que enfrentar uma eleição difícil em setembro
em um país politicamente dividido.
No
Paquistão há pashtuns islamistas e pashtuns nacionalistas. Os
islamistas pensam e agem como parte de um movimento regional,
enquanto que os nacionalistas favorecem a criação de uma nação
independente chamada Pashtunistão, que incluiria a região Pashtun
do Afeganistão. A atual divisão entre o Afeganistão e o Paquistão
é conhecida como a Linha Durand, demarcada pelo Sir Mortimer Durant
da Grã Bretanha em 1893. Para as tribos pashtuns estas fronteiras
continuam sendo artificiais.
Do
lado afegão, há nacionalistas pashtuns, chefes militares pashtuns
ligados ao Paquistão, e chefes militares pashtuns ligados a Al
Qaeda. O governo Karzai tem pouco controle do país fora de Kabul e
Kandahar, e o Afeganistão é profundamente dividido por etnia, língua,
chefes militares e lealdades tribais. Isto foi útil para lutar
contra a União Soviética e para desalojar o Taliban, mas as facções
solidificaram seu poder no caos descentralizado que sobreveio quando
o Taliban caiu.
A
unidade da organização tribal afegã é o Quam. Esta é uma rede
que une lealdades enraizadas na família, e que abrange a tribo e o
grupo étnico. Quams são sociedades dentro da sociedade. Os
historiadores apontam para o fato de que desde a Segunda Guerra
Mundial todos os esforços para unificar e usar uma lei
centralizadora no Afeganistão falharam. O que isto significa?
Significa que o “cidadão” afegão ainda tem que ser criado. Ele
não existe ainda.
Atualmente
no Afeganistão não há nenhuma estrada principal ligando as
capitais provinciais ou as estradas que atravessam fronteiras a
sistemas ferroviários. A maior parte do país não tem energia elétrica,
água potável, nem um sistema de educação ou de saúde. Ao mesmo
tempo, o Afeganistão produziu mais de 90% do ópio do mundo. Em
2006, o cultivo da papoula aumentou em quase 60%. O dinheiro de
drogas e a corrupção alimentam as divisões políticas. Em resumo:
o Afeganistão é um narco-estado descentralizado.
Os
relatórios do serviço secreto concluem que, embora seria uma bonança
para as relações públicas capturar ou matar Osama bin Laden (se
é que ele está vivo) tal fato teria muito pouco impacto real. Vários
analistas dizem que Mullah Omar, cuja base de operações é o
sudeste do Afeganistão, agora é quem manda. A estratégia de Omar
parece ser a de transformar a resistência contra as forças dos
Estados Unidos e da OTAN em um movimento nacionalista contra a ocupação
do país pelos poderes ocidentais.
Talvez
a razão mais básica para explicar por que as forças dos EUA e
NATO não serão bem sucedidas na tentativa de evitar a ofensiva da
primavera é que o Paquistão não tem interesse doméstico em uma ação
que fortaleceria um governo secular e democrático no Afeganistão.
Por quê? O Paquistão teme que um estado secular no Afeganistão
poderia decidir que uma aliança estratégica com a Índia dominada
pelos hindus seria uma maneira de “conter” o Paquistão.
Os
Estados Unidos devem rejeitar o dogma neo-conservador, e, ao invés
disto, basear-se em esforços diplomáticos e no uso moderado de força
na região. O Paquistão é um estado frágil, com armas nucleares.
Se a administração Bush-Cheney apertar demais, o país poderia
implodir, deixando uma pessoa ou um grupo muito mais radical que
Musharraf em controle do arsenal nuclear do país. Enquanto isto, a
paz regional não será conseguida ao permitir-se que Mullah Omar e
o Taliban retornem ao poder, para não mencionar os abusos aos
direitos humanos que re-emergiriam. O uso de diplomacia é crítico,
mas só vai funcionar se for baseado em um entendimento histórico,
teológico e antropológico do Afeganistão e do Paquistão.
por LARRY HUFFORD