Igrejas,
política, turismo e arte
Bem
no centro histórico de Córdoba, na Espanha, se encontra um
edifício interessante e complexo. Para entrar, passamos por
um jardim plantado de laranjeiras, e a fachada, como a maioria
dos prédios históricos em Andaluzia, tem motivos árabes.
Esta é a mesquita-catedral
ou catedral-mesquita da cidade.
Quando
entramos no edifício, nos deparamos com séculos de história
e de luta entre grupos étnicos, línguas e religiões
diferentes. Neste mesmo lugar onde hoje se celebram missas e
outras cerimônias católicas, se vêem as centenas de colunas
da mesquita árabe que uma vez foi considerada a segunda maior
do mundo, só perdendo para a mesquita de Meca. Aquela
mesquita cordobesa, orgulho dos mouros que invadiram a Península
Ibérica em 711, foi feita sobre os escombros de um templo
cristão visigodo, o qual tinha sido construído sobre as ruínas
de um templo romano, o qual, por sua vez, tinha sido erigido
em cima de um templo em que os habitantes locais utilizavam
para suas
cerimônias
religiosas, há mais de dois mil anos. As colunas de sustentação
do prédio mostram marcas de muitos crentes que aqui se
juntaram e rezaram, oraram, tentaram se encontrar com o ser
supremo da sua religião. Marcas de suor, marcas das pequenas
sujeiras que nós trazemos nas mãos, marcas da humanidade que
passou por esta terra há tantos séculos.
O
edifício da mesquita continua de pé, apesar da derrota final
e da expulsão dos mouros nos séculos XV e XVI. Mas, em si só,
o fato do edifício ter permanecido não é surpreendente,
afinal, os cristãos tiveram o bom senso de não destruir vários
outros edifícios mouros, como a Allambra de Granada e outros
alcazares, ou fortes, que simplesmente mudaram de função
quando mudaram de donos. Mas falávamos da catedral de Córdoba:
o que surpreende nela é o fato de que ela está localizada
dentro de uma mesquita.
Na
verdade, a catedral é como um corpo estranho nascido dentro
da floresta de delicadas colunas e arcos bicolores que
constituem o suporte da mesquita. Com suas formas mais sólidas
e pesadas, seus altares cheios de imagens humanas, a catedral
católica se impõe imediatamente como o “outro” da
mesquita, na qual não existem representações do profeta
Maomé, nem de outros representantes da religião, e só se vêem
alto relevos de flores e motivos geométricos, e frases do corão.
Assim é também em outras mesquitas e residências – casas,
palácios – que sobreviveram à retomada da Espanha dos
mouros.
Recentemente,
houve uma polêmica na comunidade cordobesa, quando uma das
autoridades muçulmanas da cidade queria ir até esta famosa
mesquita para fazer as orações da sua religião. Os que
protestaram contra esta idéia disseram que os muçulmanos não
podem reclamar que este é um local seu, já que a mesquita
foi construída sobre uma igreja cristã visigoda.
Logicamente, seria interessante se houvesse algum romano
reclamando que os visigodos construíram sobre seu tempo. E,
ainda mais interessante, se existisse algum seguidor das
antigas religiões locais reclamando que este lugar é sagrado
para a sua religião, e que todas as demais usurparam este
espaço.
A
celeuma entre católicos e muçulmanos continua, e
provavelmente continuará por muitos anos. Mas não teria que
ser necessariamente assim.
2.
É
domingo em Barcelona. Os trens das linhas do metrô indo até
a Sagrada Família estão cheios de gente de todas as cores,
nacionalidades, línguas. Famílias inteiras com várias gerações
representadas, jovens estrangeiros com mochilas às costas,
homens sérios, mães com crianças pequenas, todos descendo
na mesma estação da Sagrada Família.
A
cena que nos espera, logo à saída do metrô, é
impressionante: um prédio de proporções enormes, coberto de
escritas, e de estátuas, e de andaimes e gruas de construção,
tapumes verdes, cercas impedindo a passagem em alguns pontos.
Esta é uma das visitas obrigatórias para qualquer um que vai
a Barcelona.
A
cidade está cheia de monumentos e museus fascinantes, vários
parques, e inclusive algumas casas projetadas pelo mesmo
arquiteto autor dos planos para a Sagrada Família, Antoni
Gaudí. As pessoas visitam estes outros lugares também, mas o
que torna a visita à Sagrada Família espetacularmente
singular é o fato de que praticamente todos que a visitam,
independentemente de religião, origem étnica, língua,
idade, ficam admirados – alguns deslumbrados – com o prédio,
com a sua enormidade, com as esculturas, e até com a altura
dos andaimes e das gruas. Alguns se admiram com a qualidade
artística, outros, se horrorizam com ela. Isto, em si, não
é de se admirar.
O
edifício está em construção há 120 anos. Tal coisa não
é incomum em se tratando de catedrais, porque como vemos nos
livros de história, algumas das catedrais góticas levaram
dois ou três séculos para serem construídas. Algumas das
catedrais mais antigas na Europa inclusive carregam nos
diferentes estilos quase que um manual das transformações
dos gostos e das técnicas de construção atravessados desde
a pedra fundamental à inauguração da catedral. O caso da
Sagrada Família inclui muita lenda sobre seu arquiteto,
devoto católico, que queria que esta catedral fosse seu
testamento e sua herança à humanidade. E quantos arquitetos
já foram beatificados e tiveram um ano dedicado a ele pelo
Papa? Que eu saiba, só Gaudí.
Mas
a Sagrada Família se impõe, assim como a mesquita/catedral
de Córdoba, como um documento de uma situação política.
Durante as primeiras décadas do século XX, a Catalunha, onde
Barcelona se situa, passava por uma época de grande fervor
nacionalista. Houve uma renascença no estado, e Barcelona era
a vitrina desta renascença, com muitos prédios novos, grande
agitação artística e política. A Guerra Civil, e depois, a
ditadura de Franco, puseram uma enorme pressão contra
Catalunha e outros estados que queriam mais independência.
Até a língua catalã foi banida por Franco, e só continuou
existindo graças aos catalães que a mantiveram no seio da
família, esperando por um momento correto de sair de novo às
ruas.
Mas
durante a vida de Gaudi, quando, de acordo com a lenda, ele se
vestia humildemente e pedia dinheiro para a continuação da
obra, a Catalunha ia de vento em popa. As dimensões da
catedral mostram isto. No entanto, durante a Guerra Civil, os
planos do projeto e as maquetes foram queimados pela turba de
anarquistas que invadiu os escritórios da igreja, e não sei
bem por que não destruíram o prédio, como fizeram com quase
todas as outras igrejas de Barcelona. A construção da
Sagrada Família parou.
Foi
preciso outro momento político, e outras forças, para que se
retomasse a construção, e agora a inauguração está
prevista para o ano de 2020. A julgar pelo número de
trabalhadores na obra, é possível que se cumpra a data. A
julgar pelo número de pessoas que visita a obra, sua conclusão
é do interesse do mundo inteiro. A força do turismo mundial
atesta este interesse.
3.
Como
a grande maioria dos brasileiros, eu fui criada em uma família
católica. E todos nós católicos sabemos que a “central”
do catolicismo é Roma, e dentro de Roma o Vaticano, e dentro
do Vaticano a Catedral de São Pedro. Talvez não seja muito
exagerado afirmar que todo católico quer, algum dia, visitar
a Catedral de São Pedro. Embora não seja uma ordem como a
que tem todo muçulmano de visitar Meca, de todas maneiras, os
católicos que podem fazer a viagem, fazem.
Embora
eu não tenha ido à Itália para ir a Roma, uma vez eu fui. E
não pude resistir ao chamado: fui ao Vaticano, e fui à
Catedral Basílica de São Pedro. Impossível negar que sentia
uma grande emoção ao me aproximar do edifício, cuja imagem
tinha visto tantas vezes na televisão, quando se mostrava o
Papa em uma das janelinhas, falando à multidão dos fiéis.
Que esperava desta visita? Embora há muitos anos tenha
deixado de participar da igreja católica com o mesmo fervor
que meus pais, tinha a impressão que dentro do edifício iria
me encontrar com algo sagrado. Talvez, lá dentro,
reencontrasse um pouco da fé e devoção que uma vez, levada
pela mão de meus pais, sentia na igreja. No fundo, no fundo,
todos nós temos um desejo de recuperar algumas das coisas
maravilhosas da infância, e, para mim, uma delas era a
participação na cerimônia religiosa, quando eu via meus
pais tão atentos, tão devotos, murmurando uma oração. A
ida à catedral de São Pedro talvez trouxesse um pouco
daquele sentido do divino, do maravilhoso, de volta à minha
vida.
Mas
quê!
Por
dentro, o edifício é no mínimo lúgubre, com sua enormidade
e seus frios pisos de mármore. Acostumada às nossas igrejas,
eu esperava um altar regular, em que as pessoas pudessem fixar
sua vista, rezar, olhar a velinha acesa.
Mas
quê?
Muitos
altares, muitas capelas, e todas elas coalhadas de ouro.
Santos, anjos, figuras das mais diferentes eras. Muitas
capelas. E, no centro da nave, mausoléus de mármore e outras
pedras. É difícil entender estes mausoléus que são capelas
extremamente elaboradas e ricas, até que lemos a quem estão
dedicadas: a Papas. Algumas delas, foram mandadas fazer pelos
próprios homenageados, que escolheram entre os maiores
escultores de sua época, os maiores artistas, as melhores
pedras, o ouro mais fino, para render uma homenagem a eles
mesmos, depois de mortos, dentro do edifício que é, para
todos os católicos, o centro do qual emanam os raios da
igreja.
A
única peça dentro da Catedral que me emocionou foi a “Pietá”
de Michelângelo, que, diferentemente das colossais homenagens
que alguns Papas fizeram a si mesmos, trazia Jesus Cristo para
uma dimensão humana: a figura da mãe segurando o corpo do
filho morto.
4.
Quem
já foi à Aparecida do Norte trouxe impressões diversas,
dependendo de quando foi. Eu estive lá em 1994, quando já
existia a chamada “nova igreja”. Mas não visitei a nave
principal. Por aquelas alturas, já tinha desistido de
examinar altares, e já tinha me cansado de criticar a
vestimenta litúrgica, as regalias dos religiosos, as relações
de classe, a evidente hierarquia férrea, o tratamento da
mulher, que percebia na igreja. Mas fui de todas maneiras,
porque estava na região, e assim como Roma é parte do imaginário
do católico
mundial,
Aparecida é parte do imaginário do católico brasileiro.
Resolvi ir direto aos lados da igreja, onde se encontram os
ex-votos.
Aquele
é um lugar emocionante. Senti uma grande afinidade pelas
pessoas que lá se encontravam, e também pelas que haviam
trazidos os objetos representando as partes de seu corpo que
tinham sido curadas pela interseção de Nossa Senhora
Aparecida. Examinando aqueles toscos artefatos, é impossível
não sentir coisas muito contraditórias.
Por
um lado, está a fé popular, esta crença simples e profunda
em uma dimensão divina que, em muitos casos, é a única
valia do desvalido, do desatendido. Por outro lado, por que não
admitir, está a grande admiração pelo que a fé das pessoas
as inspira a fazer. Aqui, uma escultura de madeira mostrando
um pé nas suas mais perfeitas dimensões; ali, um quadrinho
pintado sem a menor arte, mas com uma graça que nem sequer os
grandes artistas alcançaram. Acolá, uma foto de uma criança,
um jovem, um pai de família, e a letra desenhada,
agradecendo, com um pequeno poema, uma frase, um nome. Esta fé,
que dizem que move montanhas, aqui moveu a mão e a inspiração
do devoto, e transformou a todos em artistas. Ademais da
percebida graça alcançada, a cura obtida, aqui está outra:
a habilidade de representar esta graça de uma maneira artística.
Talvez,
em uns cinqüenta ou cem anos, já não existam mais ex-votos
em Aparecida do Norte. Isto representará uma perda em termos
da diminuição da fé religiosa, e também a inexistência de
um espaço para que as pessoas possam explorar seu encontro
com o divino como arte. A não ser que outros espaços sejam
desenvolvidos!
5.
Quantos
maringaenses de hoje se lembram da Catedral Nossa Senhora da
Glória em construção? Somente os mais velhos, e eles são
bem poucos dentro da nova Maringá que recebeu tantos
imigrantes nos últimos anos. Talvez nas escolas ainda se
estude a história da cidade, a questão do traçado das ruas
do centro, e da designação daquele local para a catedral. Não
sei. As coisas mudam muito, e talvez já não se estude isto.
Nos
anos de 1960 e 1970, estudávamos estas coisas, assim como o
hino a Maringá, muitas vezes ensinados pelos próprios
autores, que eram nossos professores. E assistíamos a subida
do prédio da “nossa catedral”. Parecia que ia levar cem
anos para terminar. E quando terminou, parecia que jamais
colocariam os vitrais. Mas tudo foi terminado, e agora está
pronta.
Para
os maringaenses que, como eu, moram fora, a nossa catedral é
um dos símbolos mais queridos da cidade. Mesmo para os que não
são católicos. Afinal de contas, o projeto é diferente de
todas as outras catedrais que conhecemos no Paraná, e seu
estilo arrojado se parece mais às catedrais de cidades muito
mais ricas que as nossas, em estados muito mais importantes
politicamente que o nosso.
Cada
vez que vou a Maringá, a nossa catedral me comove de novo, e
me lembro do dia em que, com um fotógrafo da Folha do
Norte do Paraná, eu subi pelo elevador dos operários até
o ponto em que iam colocar a cruz no outro dia. Lá em cima,
entrevistei dois dos operários, que estavam contentes com a
chegada da cruz. Ao descer, ainda de “pernas bambas” pela
aventura nos ares, não me dei conta de que, provavelmente,
seria a única mulher a subir ao pé da cruz da catedral. Mais
tarde, no jornal, ao escrever uma coluna sobre a catedral, não
me lembrei de agradecer à gentileza e ao cavalheirismo dos
operários que me deram a mão e me ajudaram a conduzir minha
entrevista e fazer o meu trabalho. Agora agradeço. Eles me
proporcionaram uma experiência única, em um momento único
na história da nossa cidade.
Tantos
anos depois, a catedral de Maringá é para mim, assim como
para muitos maringaenses, um lugar onde se celebraram grandes
momentos de alegria, casamentos, batismos, crismas, e também
um local em que nos despedimos com lágrimas dos nossos entes
queridos. Quer gostemos da arquitetura ou não, quer nos
lembremos da construção do prédio, vagarosa, poeirenta, ou
não, este edifício faz parte da história de nossa cidade, e
da história de todos os maringaenses.
E
tem potencial turístico? Imagino que sim, porque suas formas,
tão diferentes das catedrais tradicionais, refletem um
momento da história da arquitetura brasileira, e, como gostávamos
de nos gabar antigamente, quando foi terminada era o décimo
primeiro edifício mais alto do mundo! Ou seria o décimo
segundo?
6.
Por
que falar de catedrais e igrejas? Por que nos ocuparmos deste
assunto, especialmente num tempo em que, ao que tudo indica, a
fé religiosa está em plena decadência? Creio que há várias
razões.
Uma
delas é que as igrejas e catedrais, ou locais de reunião de
devotos de qualquer religião, sempre marcam um espaço do
social, e de como o social é compreendido dentro de um
determinado tempo. Tomemos como exemplo as catedrais góticas
da Europa: elas levaram séculos para ser construídas, e são
o testemunho vivo do trabalho e da dedicação não só da
nobreza, mas também do povo que a construiu. Juntamente com o
trabalho de artesãos e artistas, também os fiéis contribuíram
com sua oferta monetária, com o trabalho que ofereceram, e
também com sua presença nestes lugares. Se não houvesse fiéis,
não haveriam igrejas, muito menos catedrais. O fato desta fé
e devoção nem sempre terem sido espontâneas indica que,
muitas vezes – alguns diriam que sempre – o religioso é
escrito com as forças da política. Ou da polícia, como no
caso do tempo da Inquisição.
Em
outras palavras: conhecer como um povo trabalhou ou trabalha a
questão da fé é uma maneira de conhecer a sua história, e
as relações de poder em diferentes épocas.
Também
podemos conhecer a evolução da arte dentro destas épocas.
Como algumas dessas igrejas e catedrais mais antigas levaram
tanto tempo para serem construídas, elas são como um livro
de arte ao vivo.
Finalmente,
estudar as igrejas e catedrais nos leva a perguntar o que está
acontecendo com elas hoje em dia. Quem as mantêm? Que função
têm atualmente?
Para
responder a esta pergunta, basta ver a catedral da Sagrada Família
em Barcelona: as energias que a estão construindo são de
base exclusivamente turística. É possível dizer-se que,
enquanto as catedrais dos séculos passados foram o resultado
da doação de nobres e do povo da comunidade regional ou
nacional, as grandes catedrais que se constroem hoje são o
resultado da contribuição de peregrinos, turistas e curiosos
do mundo inteiro, e não só da Barcelona ou da Espanha. Isto
quer dizer que, independentemente da religião da pessoa, sua
contribuição financeira é parte do que constrói a igreja,
catedral, ou basílica. Quando estiver terminada, a Sagrada
Família não vai ser somente uma obra do gênio de Gaudi e
dos arquitetos que reconstruíram os planos. Também não vai
ser somente o resultado do esforço dos catalãos.
Como
se sentem os moradores da cidade de Barcelona sobre esta situação?
Deveriam estar contentes que esta igreja vai ser terminada,
com a ajuda dos turistas. Sim? Uma placa no telhado de uma
casa em Barcelona, ao lado do Parque Güell diz, “Why call
it tourist season if we can't shoot them?” – “ Por que
dizer estação de turistas se não podemos atirar neles?” A
placa está voltada na direção do parque, para que os
turistas que param no mirador para olhar a cidade de Barcelona
vejam. Esta é uma clara indicação de que, como sempre, as
coisas não são nada simples. Qualquer pessoa de Barcelona
com um mínimo de inteligência deve saber que o dinheiro
trazido pelo turismo é parte importantíssima da receita da
cidade e que ajuda a manter os monumentos, a terminar a
construção da catedral. O turismo trouxe à Espanha 44 milhões
de pessoas em 2006, e esta é a indústria mais forte do país.
Por que então esta placa, escrita em inglês? Seria uma
brincadeira? Deixo a cada um a sua conclusão final.