por SYLVIA BOJUNGA

 

Jornalista e editora de Via Política. Consultora em planejamento e execução de projetos e programas de comunicação, com ênfase em cultura, educação, mobilização social, voluntariado e meio ambiente.

 

Garibaldi, 200 anos: uma jornada mundial

Intensa agenda internacional marca o bicentenário do nascimento de Giuseppe Garibaldi

 

O dia 4 de julho próximo assinala o bicentenário do nascimento de Giuseppe Garibaldi, uma figura extraordinária que se tornou mundialmente consagrada como “o herói de dois mundos”, o italiano mais conhecido na contemporaneidade. Há mais de dois anos, comunidades e instituições, públicas e privadas, de diversos países do mundo, planejam atividades para relembrar sua trajetória e aprofundar laços históricos, culturais e econômicos que aproximam os continentes em torno da anima garibaldina. Com essa finalidade, o governo italiano instituiu o “Comitato Nazionale per le celebrazioni del bicententenario della nascita di Giuseppe Garibaldi” – www.garibaldi200.it, que promove uma diversificada agenda de eventos, desde pesquisas, jornadas de estudos, publicação de livros, exposições, espetáculos artísticos, concursos escolares, além uma regata internacional que reunirá velejadores em águas da Europa navegadas por Garibaldi.

Especialmente para as comunidades do Sul e do Sudeste do Brasil, a forte identidade italiana simbolizada por Garibaldi resulta do processo de imigração que se desenvolveu na região a partir do século XIX. Sua presença hoje integra o imaginário dos povos latino-americanos e, portanto, cabe recuperar os caminhos que percorreu nessas terras, assim como a natureza dos elos que o vinculam ao continente. Esse é um dos objetivos do projeto “Os Caminhos de Garibaldi na América”, em desenvolvimento pela Laser Press Comunicação, empresa que publica o site ViaPolítica, com apoio da Fundação Casa America, de Gênova; Museo Riofreddo, de Roma; Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul; Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul; Memorial do Estado do Rio Grande do Sul; Ministério da Cultura; Ministério das Relações Exteriores e representações diplomáticas. O projeto consiste no lançamento de um livro de referência, contendo ilustrações e ensaios de especialistas da Itália, Brasil e Uruguai, complementado por encontros internacionais de estudos para divulgação da obra, a partir de julho de 2007.

Do lado italiano da iniciativa, estão entre os autores que participam do livro “Os Caminhos de Garibaldi na América” o presidente da Fundação Casa America, Roberto Speciale; Annita Garibaldi Jallet, cientista política, bisneta de Giuseppe e Anita Garibaldi, dirigente do Museo Riofreddo, de Roma; a professora Anna Maria Lazzarino Del Grosso, da Universidade de Gênova; o professor Pietro Rinaldi Fanesi, da Universidade de Camerino; e Maria Pace Chiavari, do Instituto Italiano de Cultura, do Rio de Janeiro.

A contribuição de historiadores e pesquisadores brasileiros também será significativa. Já estão confirmadas as participações de Núncia Santoro de Constantino, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; Carmen Lícia Palazzo, pesquisadora convidada do UniCeub, de Brasília; Yvonne Capuano, escritora e biógrafa de Garibaldi, de São Paulo, e ainda do uruguaio Abelardo M. Garcia Vieira, ex-diretor do Arquivo Histórico Nacional do Uruguai.

No ensaio “Garibaldi: republicano e revolucionário internacional”, a pesquisadora Carmen Lícia Palazzo ressalta que, embora a escrita da história não se faça mais em torno de relatos puramente factuais, ou de biografias de grandes personalidades, o estudo das mentalidades, que se originou da escola dos “Annales”, abriu caminho para a chamada História Cultural – terreno fértil para os estudiosos. Os novos paradigmas, entretanto, não excluíram o interesse por personalidades que merecem ser objeto de pesquisa porque muito acrescentam ao conhecimento histórico. “O italiano Giuseppe Garibaldi é um destes casos, e suas ações devem ser analisadas levando em conta não apenas o agitado contexto da época mas também os aspectos míticos que passaram a ser incorporados aos relatos de suas aventuras. Acompanhar sua trajetória é, de certa forma, mergulhar também nos sonhos, nas esperanças e na violência de um período conturbado da história ocidental, no qual as lutas pela liberdade eram travadas, tanto na Europa quanto no continente americano, sem garantias de vitória.”

Em suas memórias, datadas de 1859, Garibaldi registrou: “Na América eu servi – e servi sinceramente – à causa dos povos. Assim fui adversário do Absolutismo.” Exímio marinheiro e navegador, corajoso, admirador de Mazzini e do movimento Jovem Itália, o carbonário Giuseppe participou das lutas pela unificação de seu país. Condenado à morte, deixou a Europa partindo de Nantes, a bordo do Nautonier, e chegou ao Rio de Janeiro, onde se integrou a um ativo grupo de conterrâneos exilados, entre eles Luiggi Rossetti.

“A escolha da outrora capital do Brasil como meta do jovem lígure justifica-se pela posição estratégica de sua localização na rota dos navios da marinha mercante do Reino de Piemonte e Sardenha, em direção a Montevidéu e Buenos Aires. Outro fator que deve ter influenciado a preferência pelo Brasil foi a efervescência da situação política no período de Regência (1831-1840), definida por alguns historiadores como uma inusitada ‘experiência republicana’ no interior do Império, devido à menor idade de D. Pedro II. Não se pode minimizar, ainda, o interesse econômico, uma vez que neste período as novas riquezas então produzidas pela expansão cafeeira na região movimentavam o porto do Rio de Janeiro e todas as atividades comerciais a ele relacionadas”, escreve Maria Pace Chiavari no artigo “Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina”.

Entre 1837 e 1840, Garibaldi lutou na Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul, lado a lado com os combatentes farrapos liderados por Bento Gonçalves. Deixou o Rio Grande do Sul e estabeleceu-se em território uruguaio, já acompanhado de Anita. Lá chefiou a Legião Italiana durante o longo cerco a Montevidéu, de 1845 a 1851. Depois retornou à Itália, para lutar mais uma vez com seus companheiros camisas-vermelhas pela unificação do país, que ocorreria somente em 1861. Garibaldi morreu na ilha de Caprera, em 1882, 33 anos depois de Anita, a brasileira que o amou e acompanhou em uma das mais emocionantes epopéias da humanidade.

Para os organizadores de "Os Caminhos de Garibaldi na América", estudar um vulto histórico de forma apaixonada não significa idealizá-lo ou colocá-lo num pedestal. Ao contrário, trata-se de encarar o mito, com todas as suas contradições. E isso só se torna possível com a soma de pontos de vista diversos, de especialistas e pesquisadores que investigaram a fundo, em contextos e ângulos diferentes, as muitas facetas do personagem. Nesse sentido, a vida de Giuseppe Garibaldi, sem dúvida, representa uma riqueza ilimitada.

 

por SYLVIA BOJUNGA

 

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* Publicado originalmente em Via Política

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