Garibaldi,
200 anos: uma jornada mundial
Intensa
agenda internacional marca o bicentenário do nascimento de Giuseppe
Garibaldi
O
dia 4 de julho próximo assinala o bicentenário do nascimento de
Giuseppe Garibaldi, uma figura extraordinária que se tornou
mundialmente consagrada como “o herói de dois mundos”, o
italiano mais conhecido na contemporaneidade. Há mais de dois anos,
comunidades e instituições, públicas e privadas, de diversos países
do mundo, planejam atividades para relembrar sua trajetória e
aprofundar laços históricos, culturais e econômicos que aproximam
os continentes em torno da anima garibaldina. Com essa finalidade, o
governo italiano instituiu o “Comitato
Nazionale per le celebrazioni del bicententenario della nascita di
Giuseppe Garibaldi” – www.garibaldi200.it,
que promove uma diversificada agenda de eventos, desde pesquisas,
jornadas de estudos, publicação de livros, exposições, espetáculos
artísticos, concursos escolares, além uma regata internacional que
reunirá velejadores em águas da Europa navegadas por Garibaldi.
Especialmente
para as comunidades do Sul e do Sudeste do Brasil, a forte
identidade italiana simbolizada por Garibaldi resulta do processo de
imigração que se desenvolveu na região a partir do século XIX.
Sua presença hoje integra o imaginário dos povos latino-americanos
e, portanto, cabe recuperar os caminhos que percorreu nessas terras,
assim como a natureza dos elos que o vinculam ao continente. Esse é
um dos objetivos do projeto “Os Caminhos de Garibaldi na América”,
em desenvolvimento pela Laser Press Comunicação, empresa que
publica o site ViaPolítica, com apoio da Fundação Casa America,
de Gênova; Museo Riofreddo, de Roma; Memorial do Ministério Público
do Rio Grande do Sul; Assembléia Legislativa do Estado do Rio
Grande do Sul; Memorial do Estado do Rio Grande do Sul; Ministério
da Cultura; Ministério das Relações Exteriores e representações
diplomáticas. O projeto consiste no lançamento de um livro de
referência, contendo ilustrações e ensaios de especialistas da Itália,
Brasil e Uruguai, complementado por encontros internacionais de
estudos para divulgação da obra, a partir de julho de 2007.
Do
lado italiano da iniciativa, estão entre os autores que participam
do livro “Os Caminhos de Garibaldi na América” o presidente da
Fundação Casa America, Roberto Speciale; Annita Garibaldi Jallet,
cientista política, bisneta de Giuseppe e Anita Garibaldi,
dirigente do Museo Riofreddo, de Roma; a professora Anna Maria
Lazzarino Del Grosso, da Universidade de Gênova; o professor Pietro
Rinaldi Fanesi, da Universidade de Camerino; e Maria Pace Chiavari,
do Instituto Italiano de Cultura, do Rio de Janeiro.
A
contribuição de historiadores e pesquisadores brasileiros também
será significativa. Já estão confirmadas as participações de Núncia
Santoro de Constantino, da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul; Carmen Lícia Palazzo, pesquisadora convidada do
UniCeub, de Brasília; Yvonne Capuano, escritora e biógrafa de
Garibaldi, de São Paulo, e ainda do uruguaio Abelardo M. Garcia
Vieira, ex-diretor do Arquivo Histórico Nacional do Uruguai.
No
ensaio “Garibaldi: republicano e revolucionário internacional”,
a pesquisadora Carmen Lícia Palazzo ressalta que, embora a escrita
da história não se faça mais em torno de relatos puramente
factuais, ou de biografias de grandes personalidades, o estudo das
mentalidades, que se originou da escola dos “Annales”, abriu
caminho para a chamada História Cultural – terreno fértil para
os estudiosos. Os novos paradigmas, entretanto, não excluíram o
interesse por personalidades que merecem ser objeto de pesquisa
porque muito acrescentam ao conhecimento histórico. “O italiano
Giuseppe Garibaldi é um destes casos, e suas ações devem ser
analisadas levando em conta não apenas o agitado contexto da época
mas também os aspectos míticos que passaram a ser incorporados aos
relatos de suas aventuras. Acompanhar sua trajetória é, de certa
forma, mergulhar também nos sonhos, nas esperanças e na violência
de um período conturbado da história ocidental, no qual as lutas
pela liberdade eram travadas, tanto na Europa quanto no continente
americano, sem garantias de vitória.”
Em
suas memórias, datadas de 1859, Garibaldi registrou: “Na América
eu servi – e servi sinceramente – à causa dos povos. Assim fui
adversário do Absolutismo.” Exímio marinheiro e navegador,
corajoso, admirador de Mazzini e do movimento Jovem Itália, o
carbonário Giuseppe participou das lutas pela unificação de seu
país. Condenado à morte, deixou a Europa partindo de Nantes, a
bordo do Nautonier, e chegou ao Rio de Janeiro, onde se integrou a
um ativo grupo de conterrâneos exilados, entre eles Luiggi
Rossetti.
“A
escolha da outrora capital do Brasil como meta do jovem lígure
justifica-se pela posição estratégica de sua localização na
rota dos navios da marinha mercante do Reino de Piemonte e Sardenha,
em direção a Montevidéu e Buenos Aires. Outro fator que deve ter
influenciado a preferência pelo Brasil foi a efervescência da
situação política no período de Regência (1831-1840), definida
por alguns historiadores como uma inusitada ‘experiência
republicana’ no interior do Império, devido à menor idade de D.
Pedro II. Não se pode minimizar, ainda, o interesse econômico, uma
vez que neste período as novas riquezas então produzidas pela
expansão cafeeira na região movimentavam o porto do Rio de Janeiro
e todas as atividades comerciais a ele relacionadas”, escreve
Maria Pace Chiavari no artigo “Rio de Janeiro, a porta de entrada
de Garibaldi para a América Latina”.
Entre
1837 e 1840, Garibaldi lutou na Revolução Farroupilha, no Rio
Grande do Sul, lado a lado com os combatentes farrapos liderados por
Bento Gonçalves. Deixou o Rio Grande do Sul e estabeleceu-se em
território uruguaio, já acompanhado de Anita. Lá chefiou a Legião
Italiana durante o longo cerco a Montevidéu, de 1845 a 1851. Depois
retornou à Itália, para lutar mais uma vez com seus companheiros
camisas-vermelhas pela unificação do país, que ocorreria somente
em 1861. Garibaldi morreu na ilha de Caprera, em 1882, 33 anos
depois de Anita, a brasileira que o amou e acompanhou em uma das
mais emocionantes epopéias da humanidade.
Para
os organizadores de "Os Caminhos de Garibaldi na América",
estudar um vulto histórico de forma apaixonada não significa
idealizá-lo ou colocá-lo num pedestal. Ao contrário, trata-se de
encarar o mito, com todas as suas contradições. E isso só se
torna possível com a soma de pontos de vista diversos, de
especialistas e pesquisadores que investigaram a fundo, em contextos
e ângulos diferentes, as muitas facetas do personagem. Nesse
sentido, a vida de Giuseppe Garibaldi, sem dúvida, representa uma
riqueza ilimitada.
por
SYLVIA
BOJUNGA