Modelos
para o Brasil: Chile?
Em
artigos anteriores, questionei a viabilidade do Brasil voltar a
crescer aceleradamente nos próximos anos e mesmo se a sociedade
brasileira tem real interesse nisto. Também já pus em dúvida, em
outros textos, a possibilidade de resolver todos os problemas
brasileiros apenas com o crescimento da economia. No entanto, parece
evidente que qualquer esperança de futuro para este país implica
num crescimento econômico acelerado (associado à ênfase na educação)
e que, sem ele, tudo o mais será tentar tapar o sol com a peneira.
Sendo
assim, mesmo correndo o risco de pensar alternativas quando ninguém
está muito interessado nelas, é que resolvi refletir sobre a questão
do desenvolvimento brasileiro através do exemplo de outros países.
Com o artigo de hoje, inicio, portanto, uma série de textos que terão
por objetivo pensar a realidade, dentro dos limites disponíveis
nesse espaço, de alguns países que estão crescendo a passos
largos e refletir sobre a possibilidade de seguir o seu exemplo no
Brasil. Exemplo, não no sentido de copiar simplesmente, mas no de
compreender o que eles fizeram que deu certo e avaliar se há algo a
aprender dessa experiência que poderia ser transferido para o
Brasil.
O
primeiro caso que quero avaliar é o do Chile. Este país é muito
mencionado na mídia, já há vários anos, como o país
latino-americano que “deu certo”. Deve-se ler este tipo de
declaração com algum cuidado, pois, afinal, os mesmos veículos de
imprensa que apresentam o Chile, hoje, como um sucesso total, são
os mesmos que endeusavam a Argentina do câmbio fixo pré-colapso de
2002 e que defendem claramente o modelo neo-liberal. Há, pois,
interesses consistentes levando a um bombardeio da mídia sobre este
tópico e é conveniente um pouco de cautela.
Mas,
mesmo se colocarmos os exageros de lado, a experiência chilena
merece ser examinada. Afinal, é este um país que tem apresentado
alguns resultados consistentes em termos de crescimento sustentado,
redução de pobreza, etc. Basta, a propósito, recordar como a
renda per capita chilena, que era igual a brasileira em 1990, agora
nos supera em 60%. Enfim, vale a pena verificar o que ocorreu lá e
como eles conseguiram chegar a isto.
O
primeiro ponto a avaliar é a conjuntura em que o modelo econômico
predominante no Chile hoje foi implantado. Para tanto, torna-se
necessário avaliar a história econômica do Chile durante o
governo Pinochet (1973-1990).
A
partir de 1974, o regime de Pinochet iniciou uma profunda transformação
da economia, seguindo vários modelos de políticas neo-liberais ou
de livre mercado, como se queira chamar. Os primeiros passos foram a
liberação de preços, abertura econômica, liberalização
financeira, redução de impostos a empresas e devolução de terras
estatizadas pelo governo de Salvador Allende.
O
ajuste provocou, num primeiro momento, inflação, desemprego, queda
da massa salarial e outros problemas sociais, abafados por forte
repressão. À crise, o regime respondeu com ainda mais ajustes,
liberação cambial e tarifária. A especulação financeira
floresceu e a bolha estourou em 1982. Seguiu-se uma nova crise e um
novo aprofundamento do modelo, com mais privatização e abertura
comercial, reforma da Previdência e rigor fiscal. Ou seja, se houve
um lugar na América Latina onde o modelo neo-liberal mais criou raízes
(o que não significa que tenha sido implantado, como veremos a
seguir, ao pé da letra) foi o Chile.
Assim,
enquanto a ditadura brasileira estatizava, a chilena privatizava e
abria a economia para o mundo. Para alguns, eles fizeram, na
economia, o correto, ainda que tenham aprofundado a ditadura,
enquanto o governo Geisel, por exemplo, teria avançado na
liberalização política, mas errado na parte econômica.
Separam-se, na verdade, duas metades que não podem ser separadas,
pois essas reformas liberais radicais no Chile só foram possíveis
pelo aprofundamento da ditadura.
É,
no mínimo, desconcertante, aliás, que teóricos do liberalismo,
como Milton Friedman e outros expoentes da escola de Chicago, a
tenham apoiado. Afinal, na tradição anglo-saxã, liberalismo político
e econômico sempre deveriam caminhar, em teoria, de mãos dadas e,
neste “fascismo de mercado”, como o teria classificado Paul
Samuelson, isso não ocorria.
É
questionável, de qualquer modo, se, pensando apenas em termos de
crescimento econômico, a ditadura valeu a pena no Chile. Nos seus
dezessete anos (1973-1990), o PIB cresceu menos, na média, do que
nos dezessete anteriores ao golpe. O mesmo, aliás, pode ser dito
para aqueles que acreditam que a ditadura no Brasil entre 1964 e
1985 foi um preço a pagar pelo “milagre econômico”. Afinal, se
medirmos de ponta a ponta, o período de 1945-1964 representou mais
crescimento do que aquele entre 1964-1985. Ditadura pode facilitar o
crescimento econômico em certos casos, mas esta não é a regra
geral e não compensa a perda das liberdades políticas.
Outro
tópico a observar é que, seja na época de Pinochet, seja hoje, o
liberalismo não é completo no Chile, como, aliás, nunca foi em
lugar nenhum do mundo. O cobre continua estatizado, os gastos
militares são ainda altos e foi adotado, em anos recentes, um
sistema de “superávit estrutural”, pelo qual o Estado economiza
recursos quando a economia vai bem para gastá-los quando houver
possibilidade de recessão e alivia-la. Uma intervenção estatal
bem longe de liberalismo “puro”.
Outras
contradições com o modelo liberal “puro”, além desta, também
são evidentes. A entrada maciça dos produtos chilenos no mercado
mundial, a partir dos anos 80, por exemplo, veio, inicialmente, com
benefícios fiscais e outros promovidos pelo Estado chileno. E os
militares chilenos nunca pensaram, como já indicado, na privatização
da indústria do cobre, que, até hoje, é a área mais estratégica
e que provê mais entradas fiscais para o governo do Chile. Ou seja,
mesmo no país mais liberal da América Latina nesses anos, o modelo
neo-liberal nunca foi aplicado completamente e aquilo que foi feito
só foi possível mediante uma feroz repressão do Estado, do mesmo
Estado que os teóricos liberais execravam.
Assim,
seria errôneo afirmar que o Chile seguiu e segue um modelo liberal
“puro” e que isto o levou ao sucesso. Sua inserção no mercado
mundial só foi possível graças ao apoio do Estado e a sua
principal fonte de divisas, o cobre, ainda é estatal. E foram os
governos de esquerda pós-Pinochet que investiram de forma mais
consistente em termos de habitação, saúde e educação, o que
permitiu ao país ver melhoras nos seus índices sociais hoje.
Além
disso, o sucesso atual do Chile também tem muito a ver com a própria
história do país (cuja educação sempre foi uma das melhores da
América Latina e cuja distribuição de renda, apesar de não
igualitária, nunca foi o escândalo que é a nossa) e com o próprio
ciclo de preços do cobre. Alguns economistas dizem, até mesmo, que
a boa fase da economia chilena pós 1986 coincide com a alta
internacional dos preços do produto e que haverá problemas se
estes caírem.
Há,
contudo, pontos a se aproveitar da experiência chilena. O Chile
encontrou um nicho no mercado global para ao menos diminuir a sua
dependência do cobre e sua reforma do Estado, apesar do imenso
custo social, teve sucesso. Hoje, o Estado é enxuto, mas atuante, o
déficit fiscal é mínimo, a dívida pública é pequena, o
problema previdenciário foi ao menos aliviado, etc.
Dentro
do modelo chileno, esta questão da previdência merece ser
detalhada. A partir de 1981, o Chile encontrou o equilíbrio no
sistema previdenciário através de um sistema no qual cada
trabalhador contribui mensalmente para uma conta pessoal e
individualizada, com o valor da aposentadoria calculado com base no
saldo dessa conta, respeitando-se um valor mínimo. A idade mínima
para a aposentadoria é de 65 anos e há capitalização dos
recursos destinados às aposentadorias.
O
sistema tem a vantagem de permitir ao Estado chileno se livrar de ao
menos parte do déficit previdenciário, que, no Brasil, é, com
certeza, um dos maiores drenos dos recursos públicos, além de
criar uma fonte de financiamento – os fundos de pensão – para a
economia.
O
modelo tem atraído uma série de críticas – custo alto para o
Estado para fazer a transição previdenciária; grande quantidade
de pessoas fora do sistema; transferência dos novos trabalhadores
para a iniciativa privada enquanto os antigos devem ser pagos pelo
Estado, altos custos administrativos etc – e deixo aos
especialistas em previdência o debate sobre suas vantagens e
desvantagens. Mas, ao menos, um problema central dentro das finanças
públicas, em todos os países ocidentais, foi enfrentado, enquanto
nós nem mesmo começamos a tentar resolver a questão.
Em
resumo, o modelo chileno, a meu ver, compreende a redução do
Estado a um nível adequado, com pouco endividamento e juros baixos;
preservação do controle estatal de algumas áreas estratégicas da
economia; seleção de algumas áreas da economia mundial em que o
país teria vantagens comparativas e pesado investimento nelas e uso
do poder estatal tanto para favorecer estas áreas como para, nos últimos
anos, aliviar as tensões sociais.
Não
creio que esta opção pelas vantagens comparativas no mercado
global seja de utilidade para o Brasil. O Chile é um país sem indústrias
próprias e com um pequeno mercado interno, pelo que valia a pena,
para ele, se inserir no mercado global nos campos onde ele era
competitivo, ou seja, frutas, peixe, metais, etc., e importar o que
precisava. O grande dilema é que, mesmo tendo diminuído a dependência
histórica do cobre, a economia chilena continua a produzir apenas
celulose, metais, salmão, vinhos, frutas e outros produtos de pouco
valor agregado.
Já
no caso brasileiro, se houvesse a opção por privilegiar apenas
aquilo que nossa geografia nos permite e abríssemos de imediato as
fronteiras, teríamos rapidamente um país que se limitaria consumir
produtos manufaturados básicos da Ásia e mais sofisticados dos
Estados Unidos e Europa e exportar metais e produtos agrícolas. Um
grande canavial, cortado por plantações de soja e pastos, com
minas aqui e ali; um país com grandes fazendeiros ricos,
trabalhadores rurais pobres e uma grande massa sem emprego e renda.
Isto seria o Brasil se seguíssemos o modelo chileno. Nada contra
plantar e exportar metais e produtos agrícolas, mas o futuro de um
país com quase duzentos milhões de habitantes está na indústria
e no investimento em tecnologia e não na volta à nossa origem
agropecuária.
Em
resumo, a economia chilena só atingiu o grau de liberalização
atual a partir de uma ditadura; esse grau de liberalização não é
tão absoluto como se imagina e o modelo produziu resultados razoáveis,
mas que não estão a transformar o tradicional padrão de país
exportador de matéria prima que é típico da América Latina. O
Chile pode até se tornar rico seguindo este modelo (como foram, por
exemplo, Argentina e Uruguai até a Primeira Guerra Mundial), mas
sempre na dependência do mercado global e sem se transformar num
real tigre asiático.
Para
o Brasil, como já indicado, a opção chilena seria inviável (pois
não se liberaliza daquele jeito numa democracia) e seria suicídio.
Dessa experiência, o que podemos aprender, creio, é a necessidade
de equacionar o tamanho do Estado brasileiro, aliviando o problema
da previdência e dos juros, fazendo um uma reengenharia da máquina
do Estado que premiasse a eficiência, etc. Aberturas do mercado
também são aceitáveis, mas não como dogma e solução para tudo.
Se quisermos chamar isto de neo-liberalismo ou de simples bom senso,
tanto faz.
Essa
reforma do Estado não é a panacéia de todos os males, não pode
nem deve ser absoluta e não bastaria para colocar o país de volta
nos trilhos. Não obstante, é perfeitamente defensável para
liberar recursos para a iniciativa privada, assim como para
recuperar a capacidade do Estado para investir em infra-estrutura,
educação, ciência, etc. è ai, portanto, que a experiência
chilena é válida e deve ser observada com atenção. Mas, aplicado
na sua totalidade, supondo que isso fosse possível, o modelo
chileno nos faria voltar ao século XIX e não caminhar efetivamente
para o XXI.
por
JOÃO FÁBIO BERTONHA