por ARISTÓTELES DE PAULA BERINO

Docente do Departamento de Educação e Sociedade do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (IM/UFRRJ/Nova Iguaçu)

 

Arquitetura da destruição: 

o Manifesto Comunista revisitado

 

O vulcão explodiu, entrou em erupção e a lava que escorreu foi derreter sua mansão. Acordou pra vida com 100 bolhas no corpo, com ladrão apagando na pele dois maços de Marlboro. O ódio atravessou a fronteira da favela pra decretar que paz é só em baixo da terra

Hoje Deus anda de blindado, Facção Central

 

Fonte: http://boortz.com/nuze/200509/09212005.htmlQuando Marx e Engels (1982: 109) disseram, no Manifesto do Partido Comunista, que a burguesia “realizou maravilhas completamente diferentes das pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das catedrais góticas, levou a cabo expedições completamente diferentes das antigas migrações de povos e das cruzadas”, deram uma preciosa indicação a respeito de uma diferença entre as sociedades do passado e a nova era que o capitalismo representava.  O excelso do mundo burguês não estaria na sua mostra monumental nem particularmente na realização periódica de movimentos no território. É que nos períodos anteriores, em que pese este olhar etapista e relativamente simplificado da história, criações e deslocamentos pagavam o pesado tributo da estática provocada por relações sociais caracteristicamente segmentada em ordens e pelo comunitarismo existente. As coisas eram feitas para a reprodução de um mundo pretendido para que os lugares ocupados, as localizações não se modificassem ou pelo menos não se alterassem muito. Daí o valor da tradição, do canônico e da revelação (da palavra que não pode ser contestada, em razão do seu valor definitivo, atribuída a um ser não elementar, intangível) na sociedade feudal.

Assim, o capitalismo não deveria ser principalmente encarado através da física das suas medidas nem dos exageros que comete – que deixam ver sua superfície, mas não sua plástica. O capital, em primeiro lugar, não se obriga a constituição de propriedades fixas e definitivas. Seus agenciamentos são elásticos, sem a antiga ambição pela manutenção de margens finalizadas e terminais. Mais adiante no texto, Marx e Engels (ibidem: 110) vão afirmar: o “permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos distinguem a época burguesa de todas as outras”. 

Em concordância com o pensamento exposto de Marx e Engels, gostaria de destacar, neste breve texto, a importância da seguinte questão para o estudo do capitalismo contemporâneo: mirar o capitalismo nos obriga agora a uma problematização das fronteiras na produção da existência, isto é, discutir como se estilhaçam as áreas limítrofes do espaço social vivido diante das territorialidades que o capital enseja. Retornando ao livreto Manifesto do Partido Comunista (um panfleto, é verdade, mas instigante nas suas intuições), aponto para a destilada ironia dirigida à sociedade burguesa (ibidem): “afogou a sagrada reverência da exaltação devota, do fervor cavalheiresco, da melancolia sentimental do burguês filistino, na água gelada do cálculo egoísta”.

Com uma redação ferina, característica em todo o texto, Marx e Engels particularizam as relações sociais na era do capitalismo diante das sociedades precedentes. Estavam por fim as dependências pessoais como substrato das relações de dominação e produção de riquezas. No lugar da personalidade, do pertencimento a uma ordem ou hierarquia social estanque, assegurada como impermeável aos cruzamentos ou misturas, o que passa a predominar nas relações sociais é, contrariamente, a troca. Isso quer dizer que entre as pessoas, deveria contar menos a eventual distância entre elas (a identificação inicial) para determinar o fim (ou utilidade...) social de cada pertencimento. As linhas divisórias da pessoalidade foram rompidas para que a própria economia (o sistema de trocas) contivesse seus valores de acordo com princípios mais contingentes e mundanos. Daí o “cálculo egoísta” como uma água desprovida de calor (humano).

 Não se trata, evidentemente, de um intercâmbio de posições entre as classes sociais. O que mudou, de uma forma geral, foi o caráter pessoal e direto das relações sociais, convertidas em relações mais impessoais e mediadas por categorias econômicas. Isso, como disse, de uma “forma geral”, porque atravessamentos extra-econômicos (raça, gênero, status ou nacionalidade, por exemplo) de modo algum podem ser ignorados na compreensão de como o capitalismo se realiza historicamente, como será lembrado logo adiante no texto.  Portanto, deve-se evitar aqui um economicismo vulgar. O que o legado de Marx e Engels sugere é a produção, no capitalismo, de relações sociais fundamentadas especialmente em práticas desprovidas dos eventuais atributos relativos às pessoas (nas sociedades antigas, o nascimento ocupava um lugar privilegiado), cultivando no seu lugar, motivações mais abstratas e universalmente reconhecidas pela oportunidade do próprio intercâmbio entre elas (empiricamente concretizadas pelo dinheiro). Em relação às peculiaridades e traços destacados que distinguiam grupos e coletividades, os autores apontam, então, para um processo de condensação pretendida pelo capitalismo (ibidem: 111): “numa palavra, a burguesia cria para si um mundo à sua imagem e semelhança”. Mundo não tem aqui um sentido figurado ou alegórico para o burguês, mas literal.

O cultivo do capitalismo propaga um ideal de homem difuso, historicamente identificado, sobretudo, na concepção de ascensão representada pela cidade atraída para o desenvolvimento e o progresso. As cidades que devem estar em rede: coerentes e unidas a um circuito de produção de riquezas e modos de vida correntes, correlatos à natureza calculada e integral do sistema. É neste sentido original, ontológico para o capital, que as fronteiras esgotam-se como repartição e limite tangente do social. Visto como constituinte do ser, que pela primeira vez na história é amplamente referido como um ente comum, porque universalmente requerido e formado (o processo civilizatório), o capitalismo tem uma arquitetura destruidora. 

Fonte: http://www.dvdversatil.com.br/vejamais.aspx?id=386 No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (Undergagens Arkitektur) há uma interessante hipótese que acho oportuno lembrar aqui. O nacional-socialismo foi concebido como uma obra, uma ação artística com as finalidades de beleza e perfeição, para a edificação da Alemanha. Admitida uma exclusividade identitária, um trabalho de saúde e purificação deveria resultar na preservação de uma raça e a eliminação das diferenças, ou seja, a subtração de tudo que pudesse corromper e adulterar o que havia sido definido como completo e limpo. Não seriam aceitas mestiçagens, nenhuma mistura. Era preciso proteger as fronteiras na constituição do sujeito. Tratava-se de um projeto burguês autoritário e rival, enquanto se distinguia da concepção democrático-liberal do capitalismo (nem sempre democrático, nem sempre liberal). Mas em comum, entre os projetos burgueses de sociedade, havia a perspectiva de uma reforma dos costumes, a sedimentação de novos hábitos e a aquisição de uma mentalidade nova para a construção de uma identidade nacional (alemã, neste caso). Uma realização política, mas também estética, dirigida por uma elite com elevadas pretensões culturais e artísticas, é a tese original do filme de Peter Cohen sobre o nazismo.

É claro, não é possível afirmar que as democracias burguesas possuíam um projeto homogêneo e absolutamente antagônico aos regimes fascistas. Podemos dizer que existiam também trocas e correspondências com esses regimes. Em relação à concepção de sujeito, particularmente essencial para os projetos de Estado-Nação democrático-burguês ou fascista, poderíamos notar uma diferença e uma proximidade, encontrada também no centro de uma tensão a respeito da governamentalização das identidades no capitalismo avançado (ou pós-moderno, como diriam alguns). É que “a incerteza e o movimento eternos”, referidos por Marx e Engels, colocam, lado a lado, o desmoronamento sucessivo da produção material e subjetiva criadas para a acumulação capitalista e a necessária ordenação da paisagem social e das mentalidades para o efeito de controle do próprio sistema. Sumariamente, o capitalismo é desregulador e prisioneiro das fabulações e ações humanas.

Assim, para o crítico do capitalismo, é preciso ter um olho no trabalho de dissolução levado a cabo pelo capital e o outro na ambição da estabilidade na vida social. Se o nazi-fascismo propagou este anseio de paz social abertamente através da existência de um Estado totalitário, é bom verificar também o propósito das políticas identitárias que hoje o Estado quer dirigir. Isso porque a cultura constitui território privilegiado das lutas sociais na contemporaneidade do capitalismo, quando os encontros, empréstimos e substituições ocorridos entre comunidades (juventudes, gênero ou nacionalidades, por exemplo) parecem ameaçadoras para a integridade do projeto político hegemônico. Não é que o econômico perdeu o significado primário adquirido no pensamento marxista, como querem alguns coveiros (teorias do fim da história, fim da centralidade sociológica do trabalho, sociedade do conhecimento, etc). O trabalho como propriedade original da produção da existência deve continuar onde sempre esteve na epistemologia marxista. Por outro lado, é preciso saber reconhecer que o conflito forte da luta de classes só pode ser adequadamente percebido no cenário das vivências relativas à cultura.

É através da vida cultural que o capital produz suas ultrapassagens, isto é, quando cotidianos são atingidos e modos de vida alterados. A história dos costumes e práticas sociais, que, por exemplo, tem seu início com a comercialização do walkman e nos alcança com o cobiçado iPod, não é possível de ser feita olhando apenas para as transformações da indústria eletrônica e digital. É preciso olhar para o cultural produzido com a atual globalização. E é aí também que o capital enfrenta irradiações contrárias cada vez mais agudas hoje: o “vulcão explodiu”, mano. O mundo desejado como “imagem e semelhança” da burguesia não passa de uma quimera, um sonho irrealizável. A fantasia deste mundo esgota a sua realidade nas fronteiras que são cruzadas pelos indivíduos, que se deslocam entre a posição precária que lhes é reservada pelo sistema e o lugar que criam para suas vidas, transformando a cortante escassez em motivo de incontida revolta. Na canção rap que serviu de epígrafe para este texto, o grupo Facção Central narra a violência (econômica, política e policial) e a indiferença das elites, sem, contudo, a admissão da eternidade. Diante do “abalar ininterrupto de todas as condições sociais”, nada, nem ninguém, está seguro: “hoje Deus anda de blindado, cercado e protegido por 10 anjos armados. A pomba branca tem dois tiros no peito (bum, bum) dois tiros no peito”.

 

por ARISTÓTELES DE PAULA BERINO

 

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Referência bibliográfica:

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. In: Obras Escolhidas. Lisboa: “Avante!”; Moscou: Progresso, 1982.  p. 95 - 136. TOMO I.

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