Arquitetura
da destruição:
o Manifesto
Comunista revisitado
O
vulcão explodiu, entrou em erupção e a lava que escorreu foi
derreter sua mansão. Acordou pra vida com 100 bolhas no corpo,
com ladrão apagando na pele dois maços de Marlboro. O ódio
atravessou a fronteira da favela pra decretar que paz é só em
baixo da terra
Hoje
Deus anda de blindado, Facção Central
Quando
Marx e Engels (1982: 109) disseram, no Manifesto do Partido
Comunista, que a burguesia “realizou maravilhas completamente
diferentes das pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das
catedrais góticas, levou a cabo expedições completamente
diferentes das antigas migrações de povos e das cruzadas”, deram
uma preciosa indicação a respeito de uma diferença entre as
sociedades do passado e a nova era que o capitalismo representava. O excelso do mundo burguês não estaria na sua mostra
monumental nem particularmente na realização periódica de
movimentos no território. É que nos períodos anteriores, em que
pese este olhar etapista e relativamente simplificado da história,
criações e deslocamentos pagavam o pesado tributo da estática
provocada por relações sociais caracteristicamente segmentada em
ordens e pelo comunitarismo existente. As coisas eram feitas para a
reprodução de um mundo pretendido para que os lugares ocupados, as
localizações não se modificassem ou pelo menos não se alterassem
muito. Daí o valor da tradição, do canônico e da revelação (da
palavra que não pode ser contestada, em razão do seu valor
definitivo, atribuída a um ser não elementar, intangível) na
sociedade feudal.
Assim,
o capitalismo não deveria ser principalmente encarado através da física
das suas medidas nem dos exageros que comete – que deixam ver sua
superfície, mas não sua plástica. O capital, em primeiro lugar, não
se obriga a constituição de propriedades fixas e definitivas. Seus
agenciamentos são elásticos, sem a antiga ambição pela manutenção
de margens finalizadas e terminais. Mais adiante no texto, Marx e
Engels (ibidem: 110) vão afirmar: o “permanente revolucionar da
produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a
incerteza e o movimento eternos distinguem a época burguesa de
todas as outras”.
Em
concordância com o pensamento exposto de Marx e Engels, gostaria de
destacar, neste breve texto, a importância da seguinte questão
para o estudo do capitalismo contemporâneo: mirar o capitalismo nos
obriga agora a uma problematização das fronteiras na produção
da existência, isto é, discutir como se estilhaçam as áreas limítrofes
do espaço social vivido diante das territorialidades que o capital
enseja. Retornando ao livreto Manifesto do Partido Comunista
(um panfleto, é verdade, mas instigante nas suas intuições),
aponto para a destilada ironia dirigida à sociedade burguesa
(ibidem): “afogou a sagrada reverência da exaltação devota, do
fervor cavalheiresco, da melancolia sentimental do burguês
filistino, na água gelada do cálculo egoísta”.
Com
uma redação ferina, característica em todo o texto, Marx e Engels
particularizam as relações sociais na era do capitalismo diante
das sociedades precedentes. Estavam por fim as dependências
pessoais como substrato das relações de dominação e produção
de riquezas. No lugar da personalidade, do pertencimento a uma ordem
ou hierarquia social estanque, assegurada como impermeável aos
cruzamentos ou misturas, o que passa a predominar nas relações
sociais é, contrariamente, a troca. Isso quer dizer que entre as
pessoas, deveria contar menos a eventual distância entre elas (a
identificação inicial) para determinar o fim (ou utilidade...) social
de cada pertencimento. As linhas divisórias da
pessoalidade foram rompidas para que a própria economia (o sistema
de trocas) contivesse seus valores de acordo com princípios mais
contingentes e mundanos. Daí o “cálculo egoísta” como uma água
desprovida de calor (humano).
Não
se trata, evidentemente, de um intercâmbio de posições entre as
classes sociais. O que mudou, de uma forma geral, foi o caráter
pessoal e direto das relações sociais, convertidas em relações
mais impessoais e mediadas por categorias econômicas. Isso, como
disse, de uma “forma geral”, porque atravessamentos extra-econômicos
(raça, gênero, status ou nacionalidade, por exemplo) de modo algum
podem ser ignorados na compreensão de como o capitalismo se realiza
historicamente, como será lembrado logo adiante no texto.
Portanto, deve-se evitar aqui um economicismo vulgar. O que o
legado de Marx e Engels sugere é a produção, no capitalismo, de
relações sociais fundamentadas especialmente em práticas
desprovidas dos eventuais atributos relativos às pessoas (nas
sociedades antigas, o nascimento ocupava um lugar privilegiado),
cultivando no seu lugar, motivações mais abstratas e
universalmente reconhecidas pela oportunidade do próprio intercâmbio
entre elas (empiricamente concretizadas pelo dinheiro). Em relação
às peculiaridades e traços destacados que distinguiam grupos e
coletividades, os autores apontam, então, para um processo de
condensação pretendida pelo capitalismo (ibidem: 111): “numa
palavra, a burguesia cria para si um mundo à sua imagem e semelhança”.
Mundo não tem aqui um sentido figurado ou alegórico para o
burguês, mas literal.
O
cultivo do capitalismo propaga um ideal de homem difuso,
historicamente identificado, sobretudo, na concepção de ascensão
representada pela cidade atraída para o desenvolvimento e o
progresso. As cidades que devem estar em rede: coerentes e unidas a
um circuito de produção de riquezas e modos de vida correntes,
correlatos à natureza calculada e integral do sistema. É neste
sentido original, ontológico para o capital, que as fronteiras esgotam-se
como repartição e limite tangente do social. Visto como
constituinte do ser, que pela primeira vez na história é
amplamente referido como um ente comum, porque universalmente
requerido e formado (o processo civilizatório), o
capitalismo tem uma arquitetura destruidora.
No
filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (Undergagens
Arkitektur) há uma interessante hipótese que acho oportuno lembrar
aqui. O nacional-socialismo foi concebido como uma obra, uma ação
artística com as finalidades de beleza e perfeição, para a
edificação da Alemanha. Admitida uma exclusividade identitária,
um trabalho de saúde e purificação deveria resultar na preservação
de uma raça e a eliminação das diferenças, ou seja, a subtração
de tudo que pudesse corromper e adulterar o que havia sido definido
como completo e limpo. Não seriam aceitas mestiçagens, nenhuma
mistura. Era preciso proteger as fronteiras na constituição do
sujeito. Tratava-se de um projeto burguês autoritário e rival,
enquanto se distinguia da concepção democrático-liberal do
capitalismo (nem sempre democrático, nem sempre liberal). Mas em
comum, entre os projetos burgueses de sociedade, havia a perspectiva
de uma reforma dos costumes, a sedimentação de novos hábitos e a
aquisição de uma mentalidade nova para a construção de uma
identidade nacional (alemã, neste caso). Uma realização política,
mas também estética, dirigida por uma elite com elevadas pretensões
culturais e artísticas, é a tese original do filme de Peter Cohen
sobre o nazismo.
É
claro, não é possível afirmar que
as democracias burguesas possuíam um projeto homogêneo e
absolutamente antagônico aos regimes fascistas. Podemos dizer que
existiam também trocas e correspondências com esses regimes. Em
relação à concepção de sujeito, particularmente essencial para
os projetos de Estado-Nação democrático-burguês ou fascista,
poderíamos notar uma diferença e uma proximidade, encontrada também
no centro de uma tensão a respeito da governamentalização das
identidades no capitalismo avançado (ou pós-moderno, como diriam
alguns). É que “a incerteza e o movimento eternos”, referidos
por Marx e Engels, colocam, lado a lado, o desmoronamento sucessivo
da produção material e subjetiva criadas para a acumulação
capitalista e a necessária ordenação da paisagem social e das
mentalidades para o efeito de controle do próprio sistema.
Sumariamente, o capitalismo é desregulador e prisioneiro das fabulações
e ações humanas.
Assim,
para o crítico do capitalismo, é preciso ter um olho no trabalho
de dissolução levado a cabo pelo capital e o outro na ambição da
estabilidade na vida social. Se o nazi-fascismo propagou este anseio
de paz social abertamente através da existência de um Estado
totalitário, é bom verificar também o propósito das políticas
identitárias que hoje o Estado quer dirigir. Isso porque a cultura
constitui território privilegiado das lutas sociais na
contemporaneidade do capitalismo, quando os encontros, empréstimos
e substituições ocorridos entre comunidades (juventudes, gênero
ou nacionalidades, por exemplo) parecem ameaçadoras para a
integridade do projeto político hegemônico. Não é que o econômico
perdeu o significado primário adquirido no pensamento marxista,
como querem alguns coveiros (teorias do fim da história, fim da
centralidade sociológica do trabalho, sociedade do conhecimento,
etc). O trabalho como propriedade original da produção da existência
deve continuar onde sempre esteve na epistemologia marxista. Por
outro lado, é preciso saber reconhecer que o conflito forte da luta
de classes só pode ser adequadamente percebido no cenário das vivências
relativas à cultura.
É
através da vida cultural que o capital produz suas ultrapassagens,
isto é, quando cotidianos são atingidos e modos de vida alterados.
A história dos costumes e práticas sociais, que, por exemplo, tem
seu início com a comercialização do walkman e nos alcança com o
cobiçado iPod, não é possível de ser feita olhando apenas para
as transformações da indústria eletrônica e digital. É preciso
olhar para o cultural produzido com a atual globalização. E é aí
também que o capital enfrenta irradiações contrárias cada vez
mais agudas hoje: o “vulcão explodiu”, mano. O mundo desejado
como “imagem e semelhança” da burguesia não passa de uma
quimera, um sonho irrealizável. A fantasia deste mundo esgota a sua
realidade nas fronteiras que são cruzadas pelos indivíduos, que se
deslocam entre a posição precária que lhes é reservada pelo
sistema e o lugar que criam para suas vidas, transformando a
cortante escassez em motivo de incontida revolta. Na canção rap
que serviu de epígrafe para este texto, o grupo Facção
Central narra a violência (econômica, política e
policial) e a indiferença das elites, sem, contudo, a admissão da
eternidade. Diante do “abalar ininterrupto de todas as
condições sociais”, nada, nem ninguém, está seguro: “hoje
Deus anda de blindado, cercado e protegido por 10 anjos armados. A
pomba branca tem dois tiros no peito (bum, bum) dois tiros no
peito”.
por
ARISTÓTELES
DE PAULA BERINO