A
língua como resistência: uma tentativa sociolingüística de
compreensão das linguagens de negros e homossexuais no Brasil
Considerações
iniciais
Pensar
a língua materna do Brasil, a partir da perspectiva da
homogeneidade, parece, hoje, graças aos estudos lingüísticos,
sobretudo da Sociolingüística, uma grande falácia. Ainda mais
porque os estudos históricos, antropológicos e sociais,
contribuiriam de forma decisiva para o entendimento da sociedade
brasileira de forma heterogênea e plural.
Nesse
“caldeirão” étnico, multirracial que, por mais de cinco séculos,
vem costurando a identidade de nosso país, estiveram presentes o
colonizador europeu, os autóctones, negros escravizados e
imigrantes de várias partes do mundo em suas diversas diásporas.
Os
estudos culturais da atualidade, que têm se preocupado em descrever
o panorama das questões identitárias, a partir das diferenças e
das influências midiáticas e econômicas da globalização, vêm
denominando esses cenários, no dizer do estudioso argentino Néstor
Garcia Canclini (1998), de culturas híbridas.
Como
instrumento social, coletivo e dinâmico, a língua materna
brasileira tem, diacronicamente ou sincronicamente, revelado essa
“hibridização”.
Construída
a partir do Português europeu que, por séculos, interagiu e sofreu
significativa influência e contribuição dos falares de índios,
negros e vários outros imigrantes, nossa língua materna é
testemunha de mais de 500 anos de interação social para a construção
da nossa identidade.
Decerto,
que os interesses hegemônicos, sociais e políticos, exerceram um
importante papel nesse processo de construção identitária e lingüística:
do branco colonizador sobre o índio e o negro escravizado, dos
detentores do conhecimento sistematizado sobre os abandonados
socialmente, e por fim dos ricos sobre os pobres.
Entre
os contributos lingüísticos de formação da língua materna
brasileira, dado suas especificidades sincrônicas, os falares dos
negros africanos, trazidos como escravos para nosso país, foram
decisivos para a construção da resistência histórica e cultural
desses povos que, submetidos à colonização, foram vítimas de
preconceito, segregação e maus tratos.
Como
elemento de resistência cultural, a linguagem dos negros africanos
atravessou séculos, e mesmo ágrafa resistiu e se manteve viva,
ainda que transformada por conta dos anos e das interações com
outras línguas, servindo de alicerce identitário, sobretudo em
decorrência da religiosidade desses povos.
A
partir dos estudos culturais da atualidade, que têm demonstrado que
os velhos desenhos culturais de nacionalidade, classe, gênero,
sexualidade, estão fragmentadas, tal propositura vai ganhar maior
visibilidade (HALL, 1997). Inevitavelmente está ampliado o
tradicional conceito de gênero: além do fortalecimento do
feminino, instaura a homossexualidade como uma das suas vertentes.
Essa
mudança de paradigma revela uma outra possibilidade de abordar um
dos temas que tem envolvido a humanidade desde os seus primórdios.
Trocam-se os critérios religiosos e médicos, que só alimentaram
preconceitos, por uma visão mais ampliada da questão.
Preferências,
características, posições políticas e ideológicas, séculos de
culpa e discriminação, tal como os negros, os homossexuais
traduzem sua história social através de uma linguagem específica,
diferente, particular.
Tudo
fica mais evidente se observado através do processo civilizatório
de construção da nacionalidade brasileira. Negros e homossexuais,
de certo modo, estão unidos através das mesmas forças de exclusão,
preconceito e discriminação. Os primeiros, pela cor, pelo culto as
suas “estranhas” divindades, os outros pela negação dos princípios
da hetero-normatividade. Ambos pelas diferenças com o europeu-cristão-colonizador.
Todos, marginais.
Michael
Pêcheux (2002, p. 47), analisando as velhas práticas do
estruturalismo francês, afirmou que a nova análise do discurso
“(...) obriga os olhares a se voltarem para o que se passa
realmente “em baixo” nos espaços infraestatais que constituem o
ordinário das massas, especialmente em período de crise”.
A
partir de tais convicções e seguindo a compreensão de Aléong
(2001), para quem uma das funções da linguagem, além de demarcar
a identidade do falante, é sublinhar uma distinção social, o
objetivo deste trabalho é tentar demonstrar que parece estar
ocorrendo um certo intercambiamento com a linguagem de negros e
homossexuais motivado, inicialmente, pelas mesmas razões e por
motivos partilhados em comum que alcançam os planos estruturais,
sobretudo, o semântico.
Para
além do gueto: a língua intermedeia o divino... E o social
O
desprestígio da linguagem dos negros africanos, escravizados pelo
branco, contribuiu ainda mais para acentuar a segregação entre os
povos em solo brasileiro, se de um lado o branco senhor dono de tudo
jamais desceria da sua condição para aprender a língua dos
escravizados, os negros se viram na obrigação de ter que aprender
a língua dos seus senhores. Deste esforço, surgem os dialetos
crioulos. Dialeto das senzalas, das minas, do candomblé (PÓVOAS,
1989, p. 7).
Relegados
aos guetos, os dialetos crioulos continuaram sendo um poderoso
instrumento de unidade entre falantes que partilham da mesma concepção
de sagrado e, historicamente, do mesmo passado e do mesmo presente
de segregação, injustiça, preconceito e discriminação impostos
pela civilização colonizadora:
O
candomblé da Bahia tem suas origens perdidas nas senzalas, onde os
negros escravos transmitiam aos seus filhos os segredos dos òrìsà,
a fé em Olórum e a esperança em Ósàlá.
Esses segredos resistiram a toda forma de opressão evangelizadora
católica, à perseguição policial e a toda sorte de repressões e
preconceito (PÓVOAS, 1989, p.9, grifos do autor).
Dos
dialetos crioulos falados, chagam até nossos dias o do candomblé,
embora não se possa negar as influências sobre ele de todos os
demais.
Se
é indiscutível que a linguagem dos negros atravessou os séculos e
chegou até nós, sobretudo por conta da sua função religiosa,
também é inegável que ainda seja vista de forma preconceituosa
pelo cânone estabelecido pela “norma culta”. Afinal, tal língua(gem)
ainda traduz uma classe social econômica e socialmente
desprestigiada, e, sobretudo, é e foi elemento místico do culto
religioso divergente dos adotados pelas classes normatizantes,
impedidos, por décadas, de praticá-los por coação violenta,
inclusive e muitas vezes, da polícia.
Como
elemento de culto, a aquisição da linguagem yorubá ocorre de
forma estratificada. A incursão dos iniciados do candomblé com a língua
dos afro-descendentes ocorre por etapas, concomitantemente com o
envolvimento religioso. O professor Ruy do Carmo Póvoas, ao
analisar os níveis sociolingüísticos de integração
afro-portuguesa, comenta que tal incursão ocorre em cinco etapas,
que dura em torno de no mínimo sete anos, quando “... já se pode
penetrar nos segredos da liturgia e da teologia” (PÓVOAS, 1998,
p. 44).
Embora,
como toda língua, a do candomblé, mesmo protegida pelos muros dos
terreiros e dos dogmas religiosos, foi influenciada e
influenciadora. Através da interação com a língua portuguesa,
com a qual co-habitou no ambiente do sagrado, sofreu consideráveis
mudanças. Bilíngües,
os iniciados do candomblé redimensionam a linguagem até não poder
ter mais o seu controle. Mesmo sendo elemento de interação com o
divino, extrapola o ambiente geográfico de culto para ganhar o
social, re-significada, com suas cargas de sentido completamente
ampliadas:
Assim,
camarinha, matança,
sacudimento, salão, terreiro, embora vernáculos,
africanizam-se em nível semântico, no momento em que se referem ao
mundo religioso e se tornam tão sagrados quanto aos dos seus
correspondentes nàgô. Este léxico vernáculo é contagiado por novos conteúdos
semânticos, ganhando novos semas e, por isso mesmo, torna-se
sagrado (PÓVOAS, 1998, p. 20, grifos do autor).
E
como a relação língua e sociedade é dialética: “Por sua vez,
a interferência do português no nagô ocasiona o uso do léxico
africano com uma semântica brasileira, proporcionando o
aportuguesamento do léxico do candomblé” (PÓVOAS, 1998, p. 21).
E
ainda: “(...) todo enunciado é intrinsecamente suscetível de
tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente
de seu sentido para derivar para um outro (...)” (PÊCHEUX, 2002,
p.53).
É
exatamente o que irá ocorrer. Dinâmica, a língua cumpre seu papel
social: extravasa suas funções místicas e de preservação
identitária, para ir além dos muros, redimensionar o conceito de
gueto.
Para
dentro do gueto: a linguagem intermédia a marginalidade... E a
resistência
A
história da homossexualidade no ocidente pode ser contada a partir
da Inquisição, da Medicina e da Polícia, sobretudo, a partir do
entendimento de “sexualidade” como preconiza Foucault (1994),
como sendo uma experiência historicamente singular de algo invariável,
quando submetido a diferentes formações históricas repressivas.
Contrariando
os preceitos normativos da religiosidade cristã, para quem o sexo
era exclusivamente fonte de procriação, a homossexualidade foi
imputada, pela Igreja, como pecado, aliás, o pior deles, o pecado
nefando, que segundo o dicionário Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira, significa: “Indigno
de se nomear; abominável, execrável, execrando, aborrecível,
infando. 2. Sacrílego, ímpio. 3. Perverso, malvado, nefário”
(FERREIRA, 2004).
No
Brasil, a prática da homossexualidade remonta aos primeiros
habitantes. Em 1576, o
português Pero de Magalhães Gândavo já observara entre os índios
brasileiros a prática. O botânico alemão Carl Friedrich von
Martius, que esteve por estas terras no princípio do século XIX,
declarou, em 1843, que os descobridores do Brasil ficaram
assombrados ante a constatação dos autóctones “maculados pelo peccatum nefandum e pela antropofagia”. O pesquisador Abelardo Romero, em seu livro Origem da imoralidade no Brasil (1967), afirma que nada mais chocava
os cristãos que chegaram por aqui que a prática do “pecado
nefando”, “sodomia” ou “sujidade” que “grassava há séculos,
entre os brasis, como uma doença contagiosa” (TREVISAN, 2004).
Em
1707, o Arcebispado da Bahia, através das Constituições
Primeiras qualifica a homossexualidade de “hediondo pecado, péssimo
e horrendo, provocador da ira de Deus e execrável até pelo próprio
Diabo” e que podia ser punida com morte na fogueira (FRAY &
MACRAE, 1991, p.60). E mais:
Por
implicar o máximo de desordem possível na procriação a sodomia
era considerada como um pecado gravíssimo, que não prescrevia
jamais, continuando digno de punição por muito tempo. Como se
tratava de um desvio ditado diretamente pelo demônio, a Igreja e a
Inquisição associavam a pratica da sodomia com a bruxaria e as
heresias dos cátaros e templários (TREVISAN, 2004, p. 110).
Com
a presença da Inquisição no Nordeste, entre os anos de 1591 e
1620, várias confissões e denúncias de práticas homossexuais
foram feitas ao Santo Ofício. O antropólogo Luiz Mott, da
Universidade Federal da Bahia, estudando documentos da época,
conseguiu identificar 135 sodomitas (FRAY & MACRAE, 1991, p.50).
Nas
primeiras décadas do século XIX, por conta da alta taxa de
mortalidade e das condições sanitárias de muitos lares no Brasil,
o Estado liberal intervém nas classes menos favorecidas com
campanhas de moralização e higiene coletiva:
Com
livre trânsito nesse espaço outrora impenetrável à ciência, o médico-higienista
acabou impondo sua autoridade em vários níveis. Além do corpo,
também as emoções e a sexualidade dos cidadãos passaram a sofrer
interferências desses especialistas cujos padrões higiênicos
visavam melhorar a raça e, assim, engrandecer a pátria. [...]
criavam-se rigorosos modelos de boa conduta moral, através da
imposição de uma sexualidade higienizada dentro da família (TREVISAN,
2004, p.172).
Muda-se
então o paradigma para interpretar a sexualidade fora dos padrões
da hetero-normatividade. Os médicos irão reivindicar o direito de
falar sobre a sexualidade, transformando a homossexualidade de
“crime” e “pecado” em “doença”. O crime merece punição,
a doença “cura” e “correção” (FRAY & MACRAE, 1991,
p.61),
(...)
a medicina penetrou com grande aparato nos prazeres do casal:
inventou toda uma patologia orgânica, funcional ou mental,
originada das práticas sexuais ‘incompletas’; classificou com
desvelo todas as formas de prazeres anexos; integrou-os ao
‘desenvolvimento’ e às ‘perturbações’ do instinto;
empreendeu a gestão de todos eles (FOUCAULT, 1997, p. 41, grifos do
autor).
Está
aberta, então, a possibilidade para o entendimento da
homossexualidade como patologia, para a segregação dos
homossexuais nos sanatórios e outras entidades psiquiátricas bem
como as “experiências científicas” de “cura”.
Embora
o homossexualismo jamais tenha sido considerado crime pelos Códigos
Penais do Brasil, homossexuais, sobretudo os mais “afetados” e
principalmente travestis, sempre foram perseguidos pela polícia:
Para
realizar prisões de travestis [...] além da famosa acusação de
‘vadiagem’, usa-se também a de ‘Imputação Ofensiva ao
Pudor’ [...] uma portaria baixada, em 1976, pelo então delegado
de polícia da Seccional Centro São Paulo, determinava a prisão em
flagrante de travestis encontrados na via pública [...] (TREVISAN,
2004, p. 420, grifos do autor).
Essa
intolerância é histórica. Segundo Foucault (1997), por conta de
sua lógica hipócrita, nossas sociedades burguesas, alegando não
haver em seu cerne espaço para as sexualidades “ilegítimas” e
forçadas a fazerem algumas concessões, condicionaram tais práticas
a locais pré-determinados. Se for preciso dar lugar às
sexualidades desviantes, que seja o “rendez-vous
e a casa de saúde”.
No
Brasil a segregação alcançará outros espaços, sobretudo, por
conta do aceitamento sem restrições. O destaque é para os cultos
afros, espaços de abrigo, acolhimento e proteção aos divergentes
da heteronormatividade, embora nunca tivessem um discurso articulado
de defesa da livre orientação sexual. O candomblé não
transformou a sexualidade em discurso, porque nunca foi seu
interesse interditá-la, contrariamente ao que ocorreu com nossas
sociedades: “falar para poder proibir”, “falar para exercer
controle e poder” (FOUCAULT, 2001).
O
culto religioso de exaltação à natureza, onde seres encantados
(orixás) partilham da mesa com seus
filhos, onde a sexualidade não constitui pecado, a ambigüidade
sexual festejada através de santos,
da possibilidade de receber divindades masculinas e/ou femininas
independente do sexo, e, sobretudo, no entendimento festejado de que
a orientação sexual não é um impeditivo nem razão discriminatória
da vivência coletiva e do compartilhamento com o divino, vai
constituir-se num grande atrativo para aqueles que, igual aos
negros, foram vítimas de séculos de exclusão e intolerância.
Entretanto,
a identificação de homossexuais com os cultos religiosos africanos
no Brasil extrapola a coincidência do preconceito pela diferença e
das perseguições políticas e religiosas. É certo que, se traçarmos
um paralelo entre os povos trazidos da África como escravos e os
homossexuais, pelo viés da intolerância, veremos historicamente
compartilham dos mesmos problemas, mas, foi a religiosidade do
candomblé, cuja prática, inclusive anterior à chegada em território
brasileiro, a responsável pela aproximação dos dois grupos:
Nos
cultos dos orixás da África Ocidental, já existia a tradição de
considerar como não-desviantes muitos aspectos da homossexualidade.
Além disso, o travestimo é comum nos rituais, em que os sacerdotes
africanos costumavam a usar vestimentas nupciais femininas do século
XIX. [...] O próprio nome iaô,
dado aos iniciados no Brasil, significa ‘esposa dos deuses’.
[...] No panteão dos deuses, existem outras entidades igualmente
andrógenas – Oxumaré, Logum-Edé, Ossanha, etc. (TREVISAN, 2004,
p. 479, grifos do autor).
Excluídos
socialmente, sobretudo os de menor poder aquisitivo e educacional,
os homossexuais terão no candomblé, assim como teve a língua
yorubá, o espaço existencial protegido para viverem suas diferenças,
tanto que:
No
Norte e Nordeste do Brasil, os candomblés são vistos como
‘lugares de bicha’, e, de fato, grande número de pais e mães-de-santo
são homossexuais, inclusive alguns dos mais famosos e bem
sucedidos. Os candomblés não têm nenhum preconceito em relação
a homossexualidade e não é raro que um rapaz ou uma menina que
tenha dificuldades em casa por causa de constantes acusações de
‘maricas’ ou ‘sapatão’ encontre nessas comunidades
religiosas um lugar onde serão aceitos. [...] O candomblé, então,
oferece a possibilidade de um jovem rapaz ou menina transformar seu
estigma social em vantagem (FRAY & MACRAE, 1991, p.54, grifos do
autor).
Essa
hibridização produzirá resultados visíveis nos hábitos, no convívio
social, e, sobretudo, na língua. Os homossexuais se apropriarão da
linguagem de resistência cultural dos afro-descendentes para
constituir um modo todo particular de expressão oral.
Considerações
finais
Para
Bernstein, (apud MARCUSCHI,
1975), os indivíduos aprendem seu papel social mediante os
processos de comunicação.
Isso
nos remete para uma convicção: a maneira de falar situa o indivíduo
dentro da estrutura social a que pertence, e mais, que está aí
definida o seu status e
sua identidade no grupo social.
O
estudioso inglês, ao averiguar as implicações da linguagem como
instrumento social, vai muito mais além. Para ele, as diferentes
formas de relações sociais podem fazer surgir sistemas lingüísticos
completamente diversos, com diferenciadas estratégias atuando sobre
o plano verbal. Entre
elas, está a elaboração de um código
restrito, que possuiu função
de defesa, dentro do grupo que é utilizado, produzindo uma espécie
da proteção “contra grupos ou classes sociais, acentuando assim
a dicotômica divisão de classes” (MARCUSCHI, 1975, p. 45).
Além
de “proteger” seus usuários, esses códigos lingüísticos também
serão os responsáveis pela transmissão de uma cultura e
produtores da identidade social de seus falantes. É o que parece
ter ocorrido na linguagem dos homossexuais a partir da interação
com a do povo de candomblé.
Assimilando,
inicialmente, a capacidade hermética da língua dos
afro-descendentes, através de práticas religiosas, de resistência
cultural de seus falantes, e pelas inevitáveis transformações que
toda língua sofre em contato com outra, os homossexuais freqüentadores
dos terreiros de candomblé, viram no dialeto yorubá muito mais que
uma forma de comunicação ou de interação com o divino. Viram
nesta linguagem uma forma eficiente de se proteger da sociedade que
normatiza, discrimina e marginaliza, assimilando e alterando
semanticamente palavras, principalmente as utilizadas no culto
religioso, criando do mesmo modo um código fechado e específico,
que passou a garantir aos seus usuários, além da comunicação, a
sensação de pertencimento, de unidade e integração, elementos
que de certo modo traduzem proteção.
Vê
na eficiência histórica de preservação da cultura yorubá através
do fechamento, da segurança identitária e de resistência
oferecida a seus falantes, a possibilidade de integração ao grupo
que os acolheu sem preconceito, ao mesmo tempo em que tenta se
preservar das ameaças que vem “de fora”.
Por
isso, tal como os afro-descendentes que,
por conta da bipolaridade do mundo do candomblé,
fazem a “adoção de uma linguagem que justifica a mistura de
duas línguas, o nagô e o
português, dando origem ao dialeto do povo-de-santo” (PÓVOA,
1989, p. 62), os homossexuais, sobretudo os de baixa renda,
utilizaram no processo de comunicação um dialeto de construção
bilíngüe português/nagô, que traduzirá, também, suas resistências
a uma sociedade heteronormativa, que os rejeita e discrimina.
A
construção desse dialeto se dará de forma inversa como fizeram os
negros, que utilizaram lexemas do português para atribuir carga semântica
específica do candomblé (PÓVOAS, 1989, p. 43). Os homossexuais
utilizarão palavras yorubá para revestir de significados voltados
para seu universo:
Pelo
Brasil afora, muitos travestis e gays, sobretudo de classes mais
humildes, incorporaram palavras de inspiração nagô (ou yorubá,
que é a mesma coisa) em seu linguajar diário. Alguns exemplos: mona=mulher;
adé=gay; aló=lésbica; edi=pênis; ocan=bunda; ocó=homem; uó=coisa
ruim, etc. [...] Como outros "dialetos" grupais, é
uma forma de através de linguagem cifrada evitar que pessoas de
fora entendam conversas mais íntimas dos próprios homossexuais
(MOTT, 2006, grifos meus).
Numa
clara demonstração que a linguagem dos homossexuais extrapola os
ambientes restritos ao grupo, a Folha
de São Paulo, em sua edição de 26/07/2005, no suplemento Revista
da Folha, publicou matéria intitulada: Fique
por dentro do vocabulário Gay, onde elenca uma série de
expressões utilizadas por homossexuais, muitas oriundas do universo
yorubá.
Em
comunidades virtuais voltadas ao público GLS, é comum encontrar
palavras utilizadas pelos homossexuais relacionadas a seus
significados, e às vezes, tratando de sua origem, no que chamam de
“dicionário gay”, que dentre tantas expressões, apresenta:
Alibã – Policial:
Sai fora que os alibãs chegaram: Vai embora que os policiais
chegaram. Esta palavra foi aportuguesada-. Tem um filme chamado O
Amuleto de Ogum, que em determinado momento que os policiais iam
prender o pai-de-santo ele invoca Ogum dizendo: ‘Ogum
ka pe dan megi, dan pelú oniban’, ou seja: ‘Ogum chamou
duas cobras, para brigar com os senhores das armas’. (Não traduzi
a frase ao pé da letra, ok?). Então, oniban
é senhor das armas, o que foi aportuguesado para alibã.
Aqué – Dinheiro:
Também de origem yorubá. Ebó
mau despachado - Pessoa não bem vinda, Indesejada: O ebó é um
conjunto de elementos onde concentra toda a negatividade de uma
pessoa, através de folhas, raízes, comidas e etc., para ser
despachado num rio, mar, mata.... Edí
– Ânus: Também de origem yorubá. Olha
a pemba!!!! - Exclamação quando alguém está cheirando cocaína.
No candomblé de Angola, no início da cerimônia, a mãe-de-santo
sopra nos quatro cantos do terreiro um pó branco feito de dandá,
pichulin, nós moscada e etc. para limpar o ambiente. Como a cocaína
é um pó branco, as bibas fizeram essa relação (sic)
(NET GAY, 2005, grifos do autor).
Essa
re-elaboração lingüística, fundando um novo código, e suas
interfaces sociais, fica mais clara se procurarmos entendê-la no âmbito
do discurso, como assinala Michael Pêcheux:
Esse
discurso-outro, enquanto presença virtual na materialidade descritível
da seqüência, marca, do interior da materialidade, a instância do
outro como lei do espaço social e da memória histórica. Logo,
como o próprio princípio do real sócio-histórico (PÊCHEUX,
2002, p.55).
Deste
modo, somos obrigados a reconhecer que tanto a linguagem dos negros
como a dos homossexuais utiliza-se dos aspectos fonéticos, fonológicos,
sintáticos e semânticos de suas línguas para extrapolar a
comunicação verbal imediata, alcançando uma outra dimensão de
significado. É a tradução mais perfeita de mais de cinco séculos
de interações lingüísticas, preconceitos e discriminações. Sob
a estrutura verbalizada de seus enunciados comunicativos estão
presentes, além da hibridização cultural que caracteriza nosso
tempo, uma contemporânea e coextensiva resistência, bem aos moldes
de Foucault (2001, p. 38): “Para resistir, é preciso que a resistência
seja como o poder. Tão inventiva, tão móvel, tão produtiva
quanto ele. Que como ele, venha de ‘baixo’ e se distribua
estrategicamente.” Parece que é o que está acontecendo.
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