PRADO
JR, Caio. Formação do
Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2004.
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O
sentido do Brasil
Uma
das obras mais comentadas e importantes da historiografia brasileira
do século XX, “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio
Prado Júnior (1907-1990), publicada originalmente em 1942, continua
sendo atual para a compreensão do nosso país. Este ano marca o
centenário de nascimento deste grande historiador – cujo
pensamento possuía referência no materialismo histórico – nada
melhor, então, do que reavivarmos sua interpretação do Brasil.
O
processo de formação do Brasil é desenvolvido por Caio Prado Jr.
através daquilo que denomina “O sentido da colonização”, no
esforço de esclarecer os meios de atuação da Metrópole para com
o Brasil. O livro está
dividido em três partes: “Povoamento”, “Vida material” e
“Vida social”, cujos argumentos desenvolvidos complementam e
remetem – porque são decorrentes – ao primeiro capítulo, “O
sentido da colonização”.
Sua
análise do período colonial brasileiro toma como pauta o início
do século XIX, momento considerado síntese dos três séculos de
colonização, momento chave para interpretar o Brasil que o autor
vivencia e encontrar um sentido para o país.
O
sentido da colonização estaria nos três séculos de exploração
metropolitana, no que tange de fundamental e permanente, ou seja,
nos fins mercantis e no povoamento necessários para a organização
de gêneros tropicais rentáveis para o comércio. A colonização
dos trópicos fez surgir uma sociedade original, baseada numa
empresa do colono branco, de caráter mercantil, para produção de
gêneros de grande valor comercial, com trabalho de indígenas ou
negros africanos. Este conceito de Caio Prado foi um esforço de
pensar o capitalismo mundial articulado à colonização do Brasil,
que posteriormente seria seguido por outros historiadores.
O
povoamento do território brasileiro, que o autor apontou como
desequilibrado entre o litoral e o interior, foi fruto do caráter
da colonização. Em torno de 60% da população colonial
concentrava-se no litoral. A distribuição irregular da população
foi determinada por alguns fatores como o bandeirismo e a exploração
das minas, as missões católicas catequizadoras na região norte e
a criação de gado no sertão nordestino (que posteriormente,
floresceria no sul).
Em
relação à constituição do povo brasileiro, Caio Prado aponta três
“raças”: brancos, indígenas e os negros africanos. O homem
branco, quase só de origem portuguesa e de preferência como
imigrante, se concentrou nos centros urbanos. Essa imigração se
fez masculina e individualmente, em caráter aventuroso, daí um dos
motivos para a falta de mulheres brancas na Colônia.
Os
índios foram aproveitados pelos portugueses na obra da colonização,
não apenas para obtenção de produtos nativos, mas como elemento
participante da colonização, pois os colonos viam nele um
trabalhador aproveitável e a metrópole, um povoador. Portugal
pretendia utilizar todos os elementos disponíveis e o índio não
podia ser desprezado, mas no contato com os brancos, a população
indígena foi sendo eliminada. Um outro fator da relação entre a
colonização e os indígenas eram as missões religiosas, fundando
“reduções”, onde se aglomeravam indígenas, submetidos a forte
regime disciplinar, sob a autoridade dos padres.
Prado
Jr. diz que a licença de costumes, norma do Brasil Colônia, teve
como contribuição positiva para a formação da nacionalidade
brasileira, a unificação de raças diversas. Portanto, a mestiçagem,
traço mais notável da população brasileira, foi a solução
encontrada pela colonização portuguesa para o problema indígena.
No
caso dos negros, o autor destacou sua contribuição considerável.
Só os escravos constituíam um terço da população total e sua
relevância para a formação da população brasileira se deve ao
fato de, na mestiçagem, ter predominado a combinação
branco-negro.
Caio
Prado Jr. enfatizou a mestiçagem como caráter mais saliente da
formação étnica do Brasil, cujas contribuições das “raças”
tiveram as seguintes características: brancos pela imigração,
negros pelo tráfico, índios pela incorporação à colonização.
Graças à mestiçagem, os poucos colonos brancos puderam impor seus
padrões e sua cultura à colônia, sendo os elementos “puros”
eliminados pelo cruzamento, pois as preocupações de “limpar o
sangue” e estabelecer uma “pureza de raça”, dirigiu um
processo de branqueamento.
Outra
temática tratada, além do povoamento, é a “Vida material” da
Colônia, ou seja, os setores importantes da produção econômica.
A economia colonial foi subordinada ao “sentido da colonização”,
ou seja, produzir e exportar gêneros tropicais de alto valor
comercial. Logo, a história do Brasil foi marcada pela grande produção
agrária exportadora, cujo eixo de sustentação se apoiou em três
formas que combinavam e se complementavam: grande propriedade,
monocultura e trabalho escravo. No século XVIII a mineração
ganhou relevo, organizada de maneira idêntica à agricultura:
grandes unidades trabalhadas por escravos. O terceiro grande setor
da economia destacada por Prado Jr. é a extração de produtos
nativos do Amazonas. Como característica básica da organização
econômica dos três setores apresentados, tem-se a grande unidade
produtora e muitos trabalhadores subordinados. Nesse sentido, o
autor inferiu que a evolução econômica da colônia foi cíclica,
oscilando com altos e baixos, gerando destruição, miséria e
concentração de riqueza. Outros fatores da economia colonial também
são analisados, com destaque para a pecuária, a produção dos gêneros
de consumo interno e o comércio, principalmente aquele do ramo de
importação de escravos através do tráfico, que comprovava o
elemento escravo negro o sinônimo de açúcar, algodão e ouro.
O
último tema tratado por Caio Prado Jr. é a “Vida social” na
Colônia. A organização social brasileira foi caracterizada pela
escravidão, que veio desacompanhada de qualquer elemento
construtivo. Mas o desafio lançado por Caio Prado às suas próximas
gerações de historiadores e sociólogos foi sua interpretação
quanto a contribuição do escravo negro ou índio a nossa
“cultura”. O autor a identificou como muito passiva, resultado
da difusão do sangue, à medida que a cultura africana ou indígena
teria sido abafada, se não aniquilada, deturpada pelo estatuto
social, material e moral a que se viu reduzida o seu portador. Em
outras palavras, a escravidão teria degradado e eliminado do negro
qualquer conteúdo cultural que tivesse trazido. Daí o vigor com
que a do branco se impôs e predominou.
Outra
característica da escravidão moderna foi a diferença moderna
profunda de raças que separou os escravos de seus senhores, reforçou
a rigidez da estrutura do sistema social e incitou um forte
preconceito discriminador das raças. Os termos “negro” ou
“preto” eram, na Colônia, pejorativos, empregados como sinônimos
de “escravo”. O negro não teve, no Brasil, a proteção de
ninguém, sendo assim, tratado com descasos no que diz respeito à
sua formação moral e intelectual.
Existiu
ainda a população, segundo o autor, vegetativa na Colônia, como
os caboclos, quilombolas, agregados, desocupados e nas cidades,
indivíduos desamparados, chamados de vadios. A aristocracia
colonial detinha riquezas, poder e autoridade, características da
família patriarcal com autoridade absoluta do chefe, cercado de
respeito e prestígio.
A
administração da sociedade brasileira foi uma extensão do sistema
português, e uma destas esferas foi a Igreja, importante na assistência
social ao pauperismo e indigência, à velhice e infância
desamparadas, aos enfermos, e também à educação. O Padroado
permitia ao rei português uma ingerência nos negócios eclesiásticos,
possuindo o Estado, autorização para estabelecer Ordens
religiosas, o que limitou a independência e autonomia da Igreja.
Caracterizando
a sociedade organizada social e politicamente, Caio Prado Jr. resume
uma sociedade fundada na regulamentação dos instintos econômicos
e sexuais. O primeiro, marcado por relações de trabalho, o
segundo, por relações de família. Uniformidades de
“atitudes”, de usos, de crenças, de língua, de cultura,
serviriam de base moral e psicológica para a formação do Brasil
como nação. Para a Colônia resultou um tom geral de inércia, de
estagnação, de preguiça, de moleza e de pobreza.
Em
síntese, o autor apresenta uma panorâmica da sociedade colonial:
“incoerência e instabilidade no povoamento; pobreza e miséria na
economia; dissolução nos costumes; inépcia e corrupção nos
dirigentes leigos e eclesiásticos” (p.355).
Críticas
à parte, principalmente aquelas feitas pela historiografia
posterior, que tange a questão das raças e da sexualidade, esta
obra clássica de Caio Prado Jr. pensada e elaborada na década de
1930, desperta ainda hoje reflexões para se pensar o sentido do
Brasil, suas desigualdades sociais, suas polêmicas questões políticas,
suas relações econômicas com o mundo capitalista, competitivo e
globalizado. Feita a leitura atenta, podemos nos questionar se, como
ressaltou o próprio autor na introdução escrita há mais de 60
anos, aquele passado que parece longínquo, ainda nos cerca de todos
os lados. Fundamental, este livro contribui inestimavelmente para a
historiografia brasileira; apaixonante, é uma boa recomendação de
leitura a todo cidadão brasileiro.
por
MAURO DILLMANN TAVARES