por DUARTE PEREIRA

Jornalista e Escritor

 

Roderick Macfarquhar and Michael Schoenhals. Mao´s last revolution. The Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge, Massachussetts, USA, and London, England, 2006, illust., 693 pp.

_______________________________

 

Em busca do Socialismo

 

O socialismo é uma formação social muito mais difícil de construir do que as gerações anteriores de socialistas imaginaram. Para começo de debate, o socialismo pressupõe que o poder político seja conquistado e exercido pelos trabalhadores, especialmente pelos trabalhadores assalariados modernos, de modo cada vez mais democrático e participante. Esse objetivo não pode ser alcançado se um partido, mesmo que atuando em nome dos trabalhadores, monopoliza o poder estatal e o exerce de modo cada vez mais centralizado e arbitrário.

O socialismo pressupõe, em seguida, que a propriedade da terra e dos meios modernos de produção seja socializada e que o crescimento planificado e racional da economia prevaleça sobre o espontaneísmo do mercado como mecanismo coordenador. Essa socialização da economia não será efetiva, porém, se os trabalhadores não participarem da elaboração do plano estatal e da administração das empresas estatais e das cooperativas. A socialização não pode ser apenas jurídica, devendo combinar-se com a democratização do Estado e dos métodos de gestão das empresas e cooperativas e com a superação progressiva da divisão entre tarefas de concepção e tarefas de execução e entre trabalho intelectual e trabalho manual. A tecnoburocracia estatal e empresarial, inevitável nas fases iniciais da construção socialista, não pode dobrar-se sobre si mesma, reforçar seus privilégios e transformar os produtores diretos em meros executantes de suas ordens e instruções. Conquistado o poder político e transformado o regime jurídico de propriedade da terra e dos meios modernos de produção, a burocratização se converte, portanto, na grande ameaça à democratização e à socialização almejadas pelos trabalhadores.

Aqui entra o terceiro e mais árduo pressuposto do socialismo, nem sempre levado em conta: para derrotar a burocratização desvirtuadora e impulsionar efetivamente a democratização e a socialização, requer-se um elevado nível de desenvolvimento material e cultural, que libere o conjunto dos trabalhadores de uma vida embrutecida e sem horizontes e o capacite a participar de todas as esferas da convivência social. Para que isso se torne viável, a construção do socialismo não pode ser desvinculada de um incremento acelerado da produção de bens e serviços, da socialização dos processos de trabalho, da redução do tempo dedicado a tarefas econômicas e da educação multilateral dos trabalhadores, o que requer o desenvolvimento das forças produtivas e culturais da sociedade e a criação de uma base técnica moderna, adequada às avançadas relações socialistas de propriedade e de trabalho.

Nessa corrida pela expansão e modernização, inclusive dos meios de defesa, os países que se empenham na construção do socialismo têm que partir, é óbvio, das inovações organizacionais e das tecnologias desenvolvidas pelos países capitalistas. Não podem, contudo, perder de vista que elas não são neutras. No desenvolvimento da organização capitalista do trabalho e das tecnologias capitalistas, o propósito de elevar a produtividade dos trabalhadores se funde com o objetivo de submetê-los completamente ao domínio dos capitalistas e de seus gerentes e especialistas. Ao utilizar essas tecnologias e essas formas de divisão e hierarquização do trabalho, é preciso, portanto, que os países socialistas lutem por transformá-las para que elas se ordenem aos objetivos próprios do socialismo, que não consistem apenas em aumentar a produção nacional e a produtividade dos trabalhadores, mas também em melhorar as condições de trabalho, democratizar o planejamento e a gestão, reduzir o tempo dedicado às tarefas produtivas e favorecer a redistribuição da riqueza e da cultura, garantindo a emancipação material e espiritual dos trabalhadores.

Alcançada a prosperidade comum e garantidas as liberdades democráticas e uma igualdade social fundamental, o socialismo floresce plenamente e os indivíduos podem expressar, de forma mutuamente benéfica e com menos restrições, suas diferenças, predileções e talentos.

Esse complexo de mudanças políticas, econômicas e culturais, por si mesmo difícil, é ainda mais desafiador para os trabalhadores dos países que arrancam, na busca pelo socialismo, de um secular atraso econômico, político e cultural, agravado por devastações decorrentes de guerras civis e agressões externas, e que enfrentam, além disso, bloqueios comerciais e diplomáticos e ameaças militares por parte das grandes potências capitalistas. Nessas condições históricas desfavoráveis e independentes de suas vontades, os trabalhadores desses países são forçados a percorrer um caminho demorado e sinuoso, com etapas diferenciadas, com altos e baixos, tanto nos embates pelo poder político, quanto na construção do socialismo.

Entre as revoluções operário-populares do século passado, que deram origem à construção de formações socialistas, duas se destacam: a Revolução de Outubro de 1917, que transformou a Rússia czarista na União Soviética, e a prolongada luta revolucionária no antigo Império do Meio, que levou à proclamação da República Popular da China em 1949.

Quem se atém aos fatos e não a modelos abstratos, não pode negar os avanços políticos, econômicos e culturais obtidos pelos trabalhadores das diversas etnias soviéticas na construção do socialismo e no enfrentamento do sistema capitalista-imperialista mundial.  Esses avanços beneficiaram, inclusive, os trabalhadores dos outros países, especialmente das nações mais pobres e vulneráveis. Mas é indiscutível também que as deformações e os privilégios burocráticos se acumularam, que não houve empenho em implementar a democracia e a legalidade socialistas, que as prisões, torturas e execuções arbitrárias se multiplicaram, que não se procurou combinar a socialização jurídica e as transformações técnicas com a democratização dos métodos de planejamento e gestão, nem se tratou de equilibrar melhor os imperativos da defesa militar com as necessidades de consumo dos trabalhadores.

 Após a morte de Stálin, os novos dirigentes soviéticos anunciaram a intenção de promover reformas corretivas, mas elas resultaram numa liberalização burguesa das estruturas autoritárias existentes mais do que em sua democratização e socialização. As disparidades entre as nacionalidades também voltaram a crescer e o desenvolvimento tecnológico e econômico, depois de algum tempo, estagnou. Para agravar, no confronto com as potências capitalistas, os dirigentes soviéticos acentuaram os métodos agressivos e intervencionistas nos assuntos internos de outros países. A superposição e o aprofundamento desses conflitos levaram à reversão do regime político implantado em 1917 e à restauração de formas extremadas de capitalismo nos anos 1990.

A revolução popular chinesa se inspirou no exemplo da insurreição de operários, camponeses e soldados, liderada por Lênin, e contou com a ajuda soviética. Mas não teria triunfado se não se afastasse da cópia dogmática da experiência russa, elaborando, sob a liderança de Mao Zedong, um caminho original, sintetizado nas teorias da nova democracia e da guerra popular prolongada. Após a vitória em 1949, os comunistas chineses, no esforço para recuperar a economia nacional e iniciar a transição socialista, voltaram a inspirar-se na experiência russa, mas, ao contrário do que muitos avaliam, nunca se limitaram a transplantá-la mecanicamente. Trataram de elaborar, mais uma vez sob a direção de Mao, formas de transição adaptadas às condições peculiares da China, como na implementação gradativa da reforma e da coletivização agrárias e na aliança política e econômica com setores expressivos da burguesia nacional.

Essa procura de um caminho próprio para a construção do socialismo se aprofundou em meados dos anos 1950 pela convergência de três motivos. Em primeiro lugar, crescia a insatisfação interna com o ritmo de crescimento econômico e de melhoria nas condições de vida dos operários e camponeses. Em segundo lugar, os Estados Unidos intensificavam suas investidas imperiais na Ásia, principalmente no Vietnã, e ampliavam o cerco à China. Por último, aumentava a preocupação chinesa com a tendência conciliadora da direção soviética no enfrentamento da escalada norte-americana e também com os sinais de burocratização e aburguesamento na vida da grande nação vizinha. A necessidade de preparar-se para os ataques dos Estados Unidos e de evitar que a restauração capitalista, já pressentida na União Soviética e no Leste europeu, se estendesse à China, passou a ser uma obsessão de uma parte dos dirigentes chineses e em particular de Mao Zedong. Foi nesse contexto que um inusitado movimento político e cultural sacudiu a China entre 1966 e 1976, subvertendo o Partido Comunista e a República Popular e alterando os rumos da construção socialista, até então gradativa e cautelosa.

Essa Revolução Cultural, como ficou conhecida, foi uma iniciativa completamente equivocada de Mao, que somente resultou em perdas para a causa socialista na China e no mundo? Ou, apesar de malograda, trouxe também alguns benefícios para os trabalhadores chineses e deixou ensinamentos que precisam ser levados em conta pelos socialistas atuais? Foi uma experiência desastrosa que deve ser esquecida, ou merece ser reexaminada apesar da gravidade de seus erros?

Para responder a essas perguntas, é necessário, antes de mais nada, partir dos fatos e  reconstruir com  rigor e multilateralidade a origem, o desdobramento e o desfecho da Revolução Cultural, inclusive com recurso às novas informações hoje disponíveis. Quem se disponha a fazer esse reexame, conta agora com a ajuda de um relato atualizado, documentado e exaustivo: o livro do jornalista e historiador britânico Roderick Macfarquhar e do cientista político sueco Michael Schoenhals, A última revolução de Mao, lançado simultaneamente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha faz alguns meses. Quem se interessa basicamente pela situação atual da China, também pode ler o livro com proveito, porque, como escrevem os autores, “para entender o porquê da China de hoje, é preciso entender o quê da Revolução Cultural”.

Macfarquhar e Schoenhals são especialistas na história do Partido Comunista da China e trabalharam na pesquisa dos motivos e do desenvolvimento da Revolução Cultural durante três décadas, tendo publicado estudos parciais sobre o tema, agora consolidados e desenvolvidos na obra abrangente que redigiram a quatro mãos. Fluentes no idioma oficial da China, o mandarim, puderam consultar documentos e relatos inacessíveis à maioria dos pesquisadores ocidentais.

Para seu conhecimento detalhado das turbulências e reviravoltas da Revolução Cultural, contribuíram também as circunstâncias pessoais de que Macfarquhar cobriu aquele período crítico para a BBC de Londres e para periódicos britânicos e Schoenhals estudava na Universidade Fudan, em Xangai, no ano final do movimento. Nas décadas seguintes, ambos retornaram à China para viagens de estudo e Schoenhals desenvolveu o hábito de procurar, em sebos e em feiras populares de livros, documentos e boletins da época e testemunhos autobiográficos de participantes dos acontecimentos. A coleção preciosa que reuniu, integra a extensa bibliografia relacionada no final da obra. Enriquecido com fotografias reveladoras e com um índice remissivo cuidadosamente elaborado, o livro conta ainda com um glossário biográfico dos principais políticos e intelectuais chineses envolvidos nos episódios, muito útil para consultas rápidas e para tirar dúvidas.

Macfarquhar e Schoenhals organizaram sua narrativa numa estrutura didática. Abrem com uma introdução, na qual recapitulam a conjuntura em que a Revolução Cultural foi deflagrada, enfatizando as relações entre a União Soviética e a China e o surgimento da nova orientação soviética considerada pela liderança chinesa como “revisionista”. Seguem-se, em ordem cronológica, 25 capítulos em que eles reconstroem as grandes etapas do movimento entre 1966 e 1976 e seus momentos mais tensos e definidores. Uma conclusão expõe a apreciação final de Macfarquhar e Schoenhals sobre o processo relatado. Na composição do livro, portanto, os autores se esforçaram para separar, na medida do possível e com elogiável integridade intelectual, a reconstrução factual de suas opiniões críticas.

Comparando-se o relato de Macfarquhar e Schoenhals com outras narrativas publicadas recentemente, inclusive com a incluída na História do Partido Comunista Chinês: 1921-1991, redigida sob a direção de Hu Sheng, diretor do Centro de Estudos da História do Partido subordinado ao Comitê Central e presidente da Academia de Ciências Sociais da China, obra publicada em 1994, verifica-se que já se firmou entre os historiadores, chineses e ocidentais, uma ampla área de consenso na reconstituição dos principais acontecimentos e marcos da Revolução Cultural. A essa visão consolidada do processo, Macfarquhar e Schoenhals adicionam os detalhes enriquecedores da transcrição de documentos, discursos, cartas e autobiografias, assim como a elucidação do papel desempenhado pelas personagens mais destacadas desse drama político e a remontagem pormenorizada de alguns de seus lances decisivos, aos quais ainda não se havia dado a atenção devida nos relatos mais conhecidos.

É o caso, por exemplo, da tomada do poder em Xangai em janeiro de 1967; da tentativa de interromper a qualquer custo a destruição dos comitês partidários e das administrações populares, liderada no mês seguinte por marechais do Exército Popular, heróis da resistência antijaponesa e da guerra de libertação, tentativa conhecida como a “contracorrente direitista de fevereiro”, frustrada pela oposição de Zhu Enlai; da revolta militar em Wuhan, em meados de 1967, que levou ao seqüestro de dois dirigentes do Grupo Central da Revolução Cultural e quase envolveu o presidente Mao, obrigado a retirar-se apressadamente para Xangai; ou da Conspiração de 16 de Maio, esquerdista e sectária, que culminou no incêndio da Legação Diplomática da Grã-Bretanha e resultou na destituição e prisão de Wang Li, um dos membros do Grupo Central da Revolução Cultural.

Muito esclarecedoras também são as informações coligidas pelos autores sobre as atividades do Grupo Central para Exame de Casos, incumbido de montar os dossiês acusatórios contra os dirigentes derrubados e presos. Esse órgão, sobre o qual muito pouco se conhecia até as investigações pioneiras de Schoenhals, teve um papel decisivo nos acontecimentos, ao lado do Grupo Central da Revolução Cultural, selecionando os alvos principais dos ataques da Guarda Vermelha e dos processos movidos pelo Partido Comunista e pelo Estado, muitas vezes com base em acusações escandalosamente frágeis ou infundadas.

Sobre outros incidentes cruciais, como a fuga e a morte de Lin Biao e familiares em 1971, após uma tentativa de golpe contra Mao, ou a prisão de Jiang Qing e dos três dirigentes mais associados a ela em 1976, após a morte de Mao, os autores avançam no detalhamento dos episódios, mas reconhecem honestamente que eles ainda precisam ser melhor esclarecidos, quando forem autorizadas pesquisas independentes nos arquivos do Comitê Central do Partido e do Conselho de Estado.

Amarrando as numerosas pontas dessa história acidentada e dolorosa, Macfarquhar e Schoenhals chegam, ao fim de sua longa narrativa, a uma avaliação profundamente negativa do movimento político e cultural lançado por Mao. Virando contra ele uma de suas observações favoritas, a de que coisas boas podem originar-se de coisas ruins, apontam como o principal e inesperado resultado positivo do movimento a reação que suscitou e que levou às reformas econômicas iniciadas sob a liderança de Deng Xiaoping em 1978 – de tipo capitalista, segundo avaliam –, às quais esperam que se sigam reformas políticas e culturais claramente inspiradas nos regimes democráticos burgueses. Como registram com ironia, “a Revolução Cultural foi um desastre tão grande que provocou uma revolução cultural ainda mais profunda, precisamente a que Mao queria evitar”.

Essa conclusão ferina de Macfarquhar e Schoenhals evidencia que, para construir uma história crítica da Revolução Cultural consistente com os interesses nacionais da China e com as aspirações emancipadoras de seus trabalhadores, não bastam a pesquisa meticulosa nos arquivos, nem a remontagem apurada dos fatos. É preciso também que os historiadores se coloquem do ângulo de classe dos trabalhadores e da luta, ainda tão inicial, pelo socialismo. A capitulação às pressões ideológicas dos que vêem, como formas insuperáveis de organização social da humanidade, a economia capitalista de mercado, o regime democrático sob hegemonia burguesa e a cultura de fundo individualista, conduz a apreciações equivocadas e a que se negligencie, inclusive, uma parcela essencial dos fatos.

É o que acontece, por exemplo, com a introdução de Macfarquhar e Schoenhals, que passa batida pelas investidas dos Estados Unidos contra a China. Não destacam o bloqueio diplomático, nem o embargo comercial, que perduraram até as famosas visitas de Kissinger e Nixon. Também não emprestam o peso necessário ao cerco crescente da China por forças militares dos Estados Unidos, iniciado com a proteção aérea e naval à província rebelde de Taiwan ao leste, ampliado com a presença de tropas na península coreana ao nordeste, estendido com a agressão ao Vietnã, ao Laos e ao Camboja ao sul, agravado com o estímulo a golpes militares e à implantação de regimes direitistas em vários países vizinhos ao sudoeste, e reforçado com o apoio ao levante separatista no Tibete ao noroeste, no final dos anos 1950.

As divergências entre a União Soviética e a China, às quais Macfarquhar e Schoenhals dedicam muita atenção, não podem ser separadas dessas pressões imperialistas dos Estados Unidos sobre ambos os países. E, quando as divergências entre os dois partidos se transferiram também para choques entre os dois estados, até então aliados, o cerco à China se completou, com a suspensão da ajuda econômica e a concentração de tropas da União Soviética ao norte, o que acabaria levando a combates fronteiriços em 1969 e ao risco de uma invasão até Pequim, à semelhança do que já havia acontecido na Hungria e na Tchecoslováquia. Os próprios Macfarquhar e Schoenhals confirmam que os governos de Washington e de Moscou chegaram a discutir a eventualidade de um ataque aéreo às instalações nucleares da China, recusado inicialmente pela direção soviética e depois pelo governo americano, quando este já se movia para uma retirada do Vietnã e uma reaproximação com a China.

Essas ameaças militares, além do perigo que representavam para a soberania chinesa e para a permanência de Mao à frente do Partido Comunista, acentuavam também as dificuldades econômicas do país, obrigando-o a desviar recursos para reforçar a defesa nacional, construir abrigos anti-aéreos, deslocar indústrias costeiras para o centro e o oeste e apoiar a resistência dos povos da Indochina. Nesse grave contexto, as divergências do ministro da Defesa Peng Dehuai com Mao não se limitaram às políticas do Grande Salto à Frente e das Comunas Populares, mas também à estratégia de segurança da China e às relações com a União Soviética.

Por não levar em conta essa dimensão crucial, Macfarquhar e Schoenhals não mencionam, em nenhum momento, o artigo de Lin Biao, Viva o triunfo da guerra popular, divulgado em 1965, com a indicação de uma estratégia de defesa baseada na mobilização popular, e a edição do livrinho vermelho de Citações do presidente Mao Zedong em 1964, preparado como instrumento de unificação das fileiras do Exército Popular e só depois brandido como arma ideológica pelas Guardas Vermelhas de estudantes universitários e secundaristas. Essa organização juvenil, aliás, além de ser vista como uma escola para a formação prática de sucessores revolucionários, representava também uma força de reserva do Exército Popular. Infelizmente, recorrendo à violência no combate a posições políticas erradas ou a tradições arraigadas na cultura chinesa, e dividindo-se em facções que se guerrearam entre si, as Guardas Vermelhas terminaram forçando o Exército a intervir para dissolvê-las e restabelecer a ordem pública.

As ameaças externas precisam ser acrescentadas às dificuldades econômicas internas e às tendências de acomodação e aburguesamento de quadros do Partido Comunista e do Estado para que se possa reconstruir, com mais precisão, a conjuntura em que emergiu a Revolução Cultural. A insistência na complexidade da situação enfrentada pela China não significa, porém, que devam ser desprezados os três erros básicos cometidos por Mao no lançamento e na condução desse movimento insólito, os quais podem ser identificados claramente depois de várias décadas de pesquisas historiográficas e reavaliações críticas.

Em primeiro lugar, não se pode negar que Mao tolerou as arbitrariedades e as violências praticadas pelas Guardas Vermelhas e por setores de esquerda do Partido Comunista e do Estado. Mesmo que Mao não tenha tomado conhecimento de todos os excessos cometidos, e mesmo que tivesse razão na crítica política e ideológica a setores do Partido Comunista e do Estado seduzidos por posições liberais, os métodos adotados para combatê-los não se justificavam.  Como o próprio Mao insistiu em outras oportunidades, nem todo erro político e ideológico deve ser punido com a destituição e prisão dos responsáveis, sem falar na inadmissibilidade de torturas em qualquer hipótese, ou de execuções sem os devidos processos judiciais.

Nessa questão dos métodos, a Revolução Cultural foi marcada por uma profunda contradição. A resolução sobre o movimento, aprovada pelo Comitê Central do Partido Comunista em 8 de agosto de 1966, afirmava enfaticamente: “No curso do debate, é essencial adotar o método que consiste em pôr as cartas sobre a mesa, explicar as razões e convencer o povo com a verdade. Não se deve aplicar o método da repressão à minoria do povo que sustenta opiniões diferentes. A minoria deve ser protegida, porque às vezes a verdade está com a minoria”.Por outro lado, a resolução insistia que as massas deviam “educar-se a si mesmas no movimento” e aprender por elas mesmas “a distinguir o justo do injusto” e “os métodos corretos dos errados”. Essas orientações de fundo espontaneísta, reforçadas por outras opiniões ambíguas de Mao, como a de ser preciso destruir antes de construir, ou a de que uma nova ordem nasce necessariamente do caos, travaram o papel orientador e pedagógico do Partido Comunista e bloquearam os deveres do Estado com a ordem pública e a preservação dos direitos dos cidadãos, levando o movimento a escapar do controle das autoridades e até do próprio e aclamado Mao.

O segundo erro é que Mao atuava como se a maioria dos quadros dirigentes do Partido Comunista e do Estado já houvessem aderido ao caminho da restauração do poder burguês e do sistema capitalista, enquanto a Resolução sobre a Revolução Cultural assegurava que a maioria dos quadros eram bons, avaliação confirmada pelos acontecimentos posteriores.  É verdade que Mao enfrentava uma resistência crescente na direção do Partido Comunista e do Estado às proposições que começara a defender em meados dos anos 1950. Trata-se de uma eventualidade a que não nenhum líder pode fugir, quando se observa o princípio de direção coletiva. Na difícil conjuntura interna e externa enfrentada pela China, Mao imaginou, ao contrário de outros dirigentes, que os desafios poderiam ser suplantados se o país avançasse mais rápido. Mas a idéia de acelerar o crescimento além das possibilidades objetivas e subjetivas e de dar um salto para formas comunistas, rurais e urbanas, num momento de grandes dificuldades e num nível de desenvolvimento econômico, político e cultural ainda muito baixo do país e dos trabalhadores, era uma proposta voluntarista, como a experiência mostrou.

Desse erro de cunho utópico decorreu o terceiro: esbarrando em oposições a suas propostas, Mao chegou à conclusão de que as forças burguesas e revisionistas tinham voltado a predominar na superestrutura política e cultural, inclusive na direção central do Partido Comunista, e, portanto, se tornava necessária uma nova revolução política, para que se rompessem as resistências conservadoras e se viabilizasse a realização de mudanças avançadas na infra-estrutura econômica, garantindo as modernizações da agricultura, da indústria, da defesa e da ciência e tecnologia, com as quais concordava. Deslocou, assim, a tarefa central do desenvolvimento econômico para uma nova luta de classe dos trabalhadores pelo poder político supostamente perdido.

Apesar desses erros que estão na base da Revolução Cultural, não parece que se possa sustentar que o movimento foi inteiramente negativo. A economia se recuperou da situação enfrentada nos anos críticos de 1960 a 1962, a industrialização rural lançou raízes, houve avanços na defesa do país, as pressões e investidas norte-americanas e soviéticas foram derrotadas, a abertura diplomática teve início, o Partido Comunista se reconstruiu e o regime popular sobreviveu e se firmou. Além disso, a agenda da construção socialista foi enriquecida com questões ainda hoje incontornáveis para o combate à burocratização e à mera socialização jurídica.

Se a China escapou da derrocada sofrida pela União Soviética e pelos países do Leste europeu, inclusive pela Albânia; se a orientação de reforma interna e abertura externa como caminho para viabilizar as quatro modernizações, adotada a partir de 1978, pôde apoiar-se nos quatro pilares da via socialista, do regime democrático popular, da direção do Partido Comunista e das teorias orientadoras do marxismo-leninismo e do pensamento de Mao Zedong; e se foi possível, com base nesses pilares, derrotar duas tentativas de liberalização burguesa favorecidas pelos erros de secretários gerais do Partido Comunista escolhidos após o desfecho da Revolução Cultural, esses avanços – do ângulo dos trabalhadores e dos socialistas – não podem ser desvinculados de aspectos positivos da Revolução Cultural, apesar de sua essência voluntarista e sectária.

A História do Partido Comunista Chinês, já mencionada, escreveu que “os erros cometidos por Mao Zedong foram erros de um grande revolucionário proletário, o qual, na busca de um socialismo puro e perfeito, acreditava ter encontrado uma nova via, que permitiria evitar a restauração do capitalismo e desenvolver o socialismo. De fato, ele se tornara prisioneiro de conceitos desligados da realidade”. Que daqui a alguns anos não se possa dizer o mesmo dos atuais dirigentes chineses, escrevendo que, apesar de suas intenções generosas, eles perderam o controle das forças burguesas por eles desencadeadas, ao subestimarem a luta de classes e sua inevitável repercussão na base econômica, inclusive nas formas de desenvolvimento das forças produtivas.

por DUARTE PEREIRA

 

leia +

Manifesto defensivo e contraditório

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

[Resenha publicada originalmente na revista Retrato do Brasil / Reportagem, dirigida por Raimundo Rodrigues Pereira e Armando Sartori, São Paulo, ano 1, n° 4, dezembro de 2006]

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2007 - Todos os direitos reservados