Roderick
Macfarquhar and Michael Schoenhals. Mao´s
last revolution. The Belknap Press of Harvard University
Press, Cambridge, Massachussetts, USA, and London, England, 2006,
illust., 693 pp.
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Em
busca do Socialismo
O
socialismo é uma formação social muito mais difícil de construir
do que as gerações anteriores de socialistas imaginaram. Para começo
de debate, o socialismo pressupõe que o poder político seja
conquistado e exercido pelos trabalhadores, especialmente pelos
trabalhadores assalariados modernos, de modo cada vez mais democrático
e participante. Esse objetivo não pode ser alcançado se um
partido, mesmo que atuando em nome dos trabalhadores, monopoliza o
poder estatal e o exerce de modo cada vez mais centralizado e arbitrário.
O
socialismo pressupõe, em seguida, que a propriedade da terra e dos
meios modernos de produção seja socializada e que o crescimento
planificado e racional da economia prevaleça sobre o espontaneísmo
do mercado como mecanismo coordenador. Essa socialização da
economia não será efetiva, porém, se os trabalhadores não
participarem da elaboração do plano estatal e da administração
das empresas estatais e das cooperativas. A socialização não pode
ser apenas jurídica, devendo combinar-se com a democratização do
Estado e dos métodos de gestão das empresas e cooperativas e com a
superação progressiva da divisão entre tarefas de concepção e
tarefas de execução e entre trabalho intelectual e trabalho
manual. A tecnoburocracia estatal e empresarial, inevitável nas
fases iniciais da construção socialista, não pode dobrar-se sobre
si mesma, reforçar seus privilégios e transformar os produtores
diretos em meros executantes de suas ordens e instruções.
Conquistado o poder político e transformado o regime jurídico de
propriedade da terra e dos meios modernos de produção, a
burocratização se converte, portanto, na grande ameaça à
democratização e à socialização almejadas pelos trabalhadores.
Aqui
entra o terceiro e mais árduo pressuposto do socialismo, nem sempre
levado em conta: para derrotar a burocratização desvirtuadora e
impulsionar efetivamente a democratização e a socialização,
requer-se um elevado nível de desenvolvimento material e cultural,
que libere o conjunto dos trabalhadores de uma vida embrutecida e
sem horizontes e o capacite a participar de todas as esferas da
convivência social. Para que isso se torne viável, a construção
do socialismo não pode ser desvinculada de um incremento acelerado
da produção de bens e serviços, da socialização dos processos
de trabalho, da redução do tempo dedicado a tarefas econômicas e
da educação multilateral dos trabalhadores, o que requer o
desenvolvimento das forças produtivas e culturais da sociedade e a
criação de uma base técnica moderna, adequada às avançadas relações
socialistas de propriedade e de trabalho.
Nessa
corrida pela expansão e modernização, inclusive dos meios de
defesa, os países que se empenham na construção do socialismo têm
que partir, é óbvio, das inovações organizacionais e das
tecnologias desenvolvidas pelos países capitalistas. Não podem,
contudo, perder de vista que elas não são neutras. No
desenvolvimento da organização capitalista do trabalho e das
tecnologias capitalistas, o propósito de elevar a produtividade dos
trabalhadores se funde com o objetivo de submetê-los completamente
ao domínio dos capitalistas e de seus gerentes e especialistas. Ao
utilizar essas tecnologias e essas formas de divisão e hierarquização
do trabalho, é preciso, portanto, que os países socialistas lutem
por transformá-las para que elas se ordenem aos objetivos próprios
do socialismo, que não consistem apenas em aumentar a produção
nacional e a produtividade dos trabalhadores, mas também em
melhorar as condições de trabalho, democratizar o planejamento e a
gestão, reduzir o tempo dedicado às tarefas produtivas e favorecer
a redistribuição da riqueza e da cultura, garantindo a emancipação
material e espiritual dos trabalhadores.
Alcançada
a prosperidade comum e garantidas as liberdades democráticas e uma
igualdade social fundamental, o socialismo floresce plenamente e os
indivíduos podem expressar, de forma mutuamente benéfica e com
menos restrições, suas diferenças, predileções e talentos.
Esse
complexo de mudanças políticas, econômicas e culturais, por si
mesmo difícil, é ainda mais desafiador para os trabalhadores dos
países que arrancam, na busca pelo socialismo, de um secular atraso
econômico, político e cultural, agravado por devastações
decorrentes de guerras civis e agressões externas, e que enfrentam,
além disso, bloqueios comerciais e diplomáticos e ameaças
militares por parte das grandes potências capitalistas. Nessas
condições históricas desfavoráveis e independentes de suas
vontades, os trabalhadores desses países são forçados a percorrer
um caminho demorado e sinuoso, com etapas diferenciadas, com altos e
baixos, tanto nos embates pelo poder político, quanto na construção
do socialismo.
Entre
as revoluções operário-populares do século passado, que deram
origem à construção de formações socialistas, duas se destacam:
a Revolução de Outubro de 1917, que transformou a Rússia czarista
na União Soviética, e a prolongada luta revolucionária no antigo
Império do Meio, que levou à proclamação da República Popular
da China em 1949.
Quem
se atém aos fatos e não a modelos abstratos, não pode negar os
avanços políticos, econômicos e culturais obtidos pelos
trabalhadores das diversas etnias soviéticas na construção do
socialismo e no enfrentamento do sistema capitalista-imperialista
mundial. Esses avanços
beneficiaram, inclusive, os trabalhadores dos outros países,
especialmente das nações mais pobres e vulneráveis. Mas é
indiscutível também que as deformações e os privilégios burocráticos
se acumularam, que não houve empenho em implementar a democracia e
a legalidade socialistas, que as prisões, torturas e execuções
arbitrárias se multiplicaram, que não se procurou combinar a
socialização jurídica e as transformações técnicas com a
democratização dos métodos de planejamento e gestão, nem se
tratou de equilibrar melhor os imperativos da defesa militar com as
necessidades de consumo dos trabalhadores.
Após a morte de Stálin, os novos dirigentes soviéticos
anunciaram a intenção de promover reformas corretivas, mas elas
resultaram numa liberalização burguesa das estruturas autoritárias
existentes mais do que em sua democratização e socialização. As
disparidades entre as nacionalidades também voltaram a crescer e o
desenvolvimento tecnológico e econômico, depois de algum tempo,
estagnou. Para agravar, no confronto com as potências capitalistas,
os dirigentes soviéticos acentuaram os métodos agressivos e
intervencionistas nos assuntos internos de outros países. A
superposição e o aprofundamento desses conflitos levaram à reversão
do regime político implantado em 1917 e à restauração de formas
extremadas de capitalismo nos anos 1990.
A
revolução popular chinesa se inspirou no exemplo da insurreição
de operários, camponeses e soldados, liderada por Lênin, e contou
com a ajuda soviética. Mas não teria triunfado se não se
afastasse da cópia dogmática da experiência russa, elaborando,
sob a liderança de Mao Zedong, um caminho original, sintetizado nas
teorias da nova democracia e da guerra popular prolongada. Após a
vitória em 1949, os comunistas chineses, no esforço para recuperar
a economia nacional e iniciar a transição socialista, voltaram a
inspirar-se na experiência russa, mas, ao contrário do que muitos
avaliam, nunca se limitaram a transplantá-la mecanicamente.
Trataram de elaborar, mais uma vez sob a direção de Mao, formas de
transição adaptadas às condições peculiares da China, como na
implementação gradativa da reforma e da coletivização agrárias
e na aliança política e econômica com setores expressivos da
burguesia nacional.
Essa
procura de um caminho próprio para a construção do socialismo se
aprofundou em meados dos anos 1950 pela convergência de três
motivos. Em primeiro lugar, crescia a insatisfação interna com o
ritmo de crescimento econômico e de melhoria nas condições de
vida dos operários e camponeses. Em segundo lugar, os Estados
Unidos intensificavam suas investidas imperiais na Ásia,
principalmente no Vietnã, e ampliavam o cerco à China. Por último,
aumentava a preocupação chinesa com a tendência conciliadora da
direção soviética no enfrentamento da escalada norte-americana e
também com os sinais de burocratização e aburguesamento na vida
da grande nação vizinha. A necessidade de preparar-se para os
ataques dos Estados Unidos e de evitar que a restauração
capitalista, já pressentida na União Soviética e no Leste
europeu, se estendesse à China, passou a ser uma obsessão de uma
parte dos dirigentes chineses e em particular de Mao Zedong. Foi
nesse contexto que um inusitado movimento político e cultural
sacudiu a China entre 1966 e 1976, subvertendo o Partido Comunista e
a República Popular e alterando os rumos da construção
socialista, até então gradativa e cautelosa.
Essa
Revolução Cultural, como ficou conhecida, foi uma iniciativa
completamente equivocada de Mao, que somente resultou em perdas para
a causa socialista na China e no mundo? Ou, apesar de malograda,
trouxe também alguns benefícios para os trabalhadores chineses e
deixou ensinamentos que precisam ser levados em conta pelos
socialistas atuais? Foi uma experiência desastrosa que deve ser
esquecida, ou merece ser reexaminada apesar da gravidade de seus
erros?
Para
responder a essas perguntas, é necessário, antes de mais nada,
partir dos fatos e reconstruir
com rigor e multilateralidade a origem, o desdobramento e o
desfecho da Revolução Cultural, inclusive com recurso às novas
informações hoje disponíveis. Quem se disponha a fazer esse
reexame, conta agora com a ajuda de um relato atualizado,
documentado e exaustivo: o livro do jornalista e historiador britânico
Roderick Macfarquhar e do cientista político sueco Michael
Schoenhals, A última revolução
de Mao, lançado simultaneamente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha
faz alguns meses. Quem se interessa basicamente pela situação
atual da China, também pode ler o livro com proveito, porque, como
escrevem os autores, “para entender o porquê
da China de hoje, é preciso entender o quê
da Revolução Cultural”.
Macfarquhar
e Schoenhals são especialistas na história do Partido Comunista da
China e trabalharam na pesquisa dos motivos e do desenvolvimento da
Revolução Cultural durante três décadas, tendo publicado estudos
parciais sobre o tema, agora consolidados e desenvolvidos na obra
abrangente que redigiram a quatro mãos. Fluentes no idioma oficial
da China, o mandarim, puderam consultar documentos e relatos inacessíveis
à maioria dos pesquisadores ocidentais.
Para
seu conhecimento detalhado das turbulências e reviravoltas da
Revolução Cultural, contribuíram também as circunstâncias
pessoais de que Macfarquhar cobriu aquele período crítico para a
BBC de Londres e para periódicos britânicos e Schoenhals estudava
na Universidade Fudan, em Xangai, no ano final do movimento. Nas décadas
seguintes, ambos retornaram à China para viagens de estudo e
Schoenhals desenvolveu o hábito de procurar, em sebos e em feiras
populares de livros, documentos e boletins da época e testemunhos
autobiográficos de participantes dos acontecimentos. A coleção
preciosa que reuniu, integra a extensa bibliografia relacionada no
final da obra. Enriquecido com fotografias reveladoras e com um índice
remissivo cuidadosamente elaborado, o livro conta ainda com um glossário
biográfico dos principais políticos e intelectuais chineses
envolvidos nos episódios, muito útil para consultas rápidas e
para tirar dúvidas.
Macfarquhar
e Schoenhals organizaram sua narrativa numa estrutura didática.
Abrem com uma introdução, na qual recapitulam a conjuntura em que
a Revolução Cultural foi deflagrada, enfatizando as relações
entre a União Soviética e a China e o surgimento da nova orientação
soviética considerada pela liderança chinesa como “revisionista”.
Seguem-se, em ordem cronológica, 25 capítulos em que eles
reconstroem as grandes etapas do movimento entre 1966 e 1976 e seus
momentos mais tensos e definidores. Uma conclusão expõe a apreciação
final de Macfarquhar e Schoenhals sobre o processo relatado. Na
composição do livro, portanto, os autores se esforçaram para
separar, na medida do possível e com elogiável integridade
intelectual, a reconstrução factual de suas opiniões críticas.
Comparando-se
o relato de Macfarquhar e Schoenhals com outras narrativas
publicadas recentemente, inclusive com a incluída na História
do Partido Comunista Chinês: 1921-1991, redigida sob a direção
de Hu Sheng, diretor do Centro de Estudos da História do Partido
subordinado ao Comitê Central e presidente da Academia de Ciências
Sociais da China, obra publicada em 1994, verifica-se que já se
firmou entre os historiadores, chineses e ocidentais, uma ampla área
de consenso na reconstituição dos principais acontecimentos e
marcos da Revolução Cultural. A essa visão consolidada do
processo, Macfarquhar e Schoenhals adicionam os detalhes
enriquecedores da transcrição de documentos, discursos, cartas e
autobiografias, assim como a elucidação do papel desempenhado
pelas personagens mais destacadas desse drama político e a
remontagem pormenorizada de alguns de seus lances decisivos, aos
quais ainda não se havia dado a atenção devida nos relatos mais
conhecidos.
É
o caso, por exemplo, da tomada do poder em Xangai em janeiro de
1967; da tentativa de interromper a qualquer custo a destruição
dos comitês partidários e das administrações populares, liderada
no mês seguinte por marechais do Exército Popular, heróis da
resistência antijaponesa e da guerra de libertação, tentativa
conhecida como a “contracorrente direitista de fevereiro”,
frustrada pela oposição de Zhu Enlai; da revolta militar em Wuhan,
em meados de 1967, que levou ao seqüestro de dois dirigentes do
Grupo Central da Revolução Cultural e quase envolveu o presidente
Mao, obrigado a retirar-se apressadamente para Xangai; ou da
Conspiração de 16 de Maio, esquerdista e sectária, que culminou
no incêndio da Legação Diplomática da Grã-Bretanha e resultou
na destituição e prisão de Wang Li, um dos membros do Grupo
Central da Revolução Cultural.
Muito
esclarecedoras também são as informações coligidas pelos autores
sobre as atividades do Grupo Central para Exame de Casos, incumbido
de montar os dossiês acusatórios contra os dirigentes derrubados e
presos. Esse órgão, sobre o qual muito pouco se conhecia até as
investigações pioneiras de Schoenhals, teve um papel decisivo nos
acontecimentos, ao lado do Grupo Central da Revolução Cultural,
selecionando os alvos principais dos ataques da Guarda Vermelha e
dos processos movidos pelo Partido Comunista e pelo Estado, muitas
vezes com base em acusações escandalosamente frágeis ou
infundadas.
Sobre
outros incidentes cruciais, como a fuga e a morte de Lin Biao e
familiares em 1971, após uma tentativa de golpe contra Mao, ou a
prisão de Jiang Qing e dos três dirigentes mais associados a ela
em 1976, após a morte de Mao, os autores avançam no detalhamento
dos episódios, mas reconhecem honestamente que eles ainda precisam
ser melhor esclarecidos, quando forem autorizadas pesquisas
independentes nos arquivos do Comitê Central do Partido e do
Conselho de Estado.
Amarrando
as numerosas pontas dessa história acidentada e dolorosa,
Macfarquhar e Schoenhals chegam, ao fim de sua longa narrativa, a
uma avaliação profundamente negativa do movimento político e
cultural lançado por Mao. Virando contra ele uma de suas observações
favoritas, a de que coisas boas podem originar-se de coisas ruins,
apontam como o principal e inesperado resultado positivo do
movimento a reação que suscitou e que levou às reformas econômicas
iniciadas sob a liderança de Deng Xiaoping em 1978 – de tipo
capitalista, segundo avaliam –, às quais esperam que se sigam
reformas políticas e culturais claramente inspiradas nos regimes
democráticos burgueses. Como registram com ironia, “a Revolução
Cultural foi um desastre tão grande que provocou uma revolução
cultural ainda mais profunda, precisamente a que Mao queria
evitar”.
Essa
conclusão ferina de Macfarquhar e Schoenhals evidencia que, para
construir uma história crítica da Revolução Cultural consistente
com os interesses nacionais da China e com as aspirações
emancipadoras de seus trabalhadores, não bastam a pesquisa
meticulosa nos arquivos, nem a remontagem apurada dos fatos. É
preciso também que os historiadores se coloquem do ângulo de
classe dos trabalhadores e da luta, ainda tão inicial, pelo
socialismo. A capitulação às pressões ideológicas dos que vêem,
como formas insuperáveis de organização social da humanidade, a
economia capitalista de mercado, o regime democrático sob hegemonia
burguesa e a cultura de fundo individualista, conduz a apreciações
equivocadas e a que se negligencie, inclusive, uma parcela essencial
dos fatos.
É
o que acontece, por exemplo, com a introdução de Macfarquhar e
Schoenhals, que passa batida pelas investidas dos Estados Unidos
contra a China. Não destacam o bloqueio diplomático, nem o embargo
comercial, que perduraram até as famosas visitas de Kissinger e
Nixon. Também não emprestam o peso necessário ao cerco crescente
da China por forças militares dos Estados Unidos, iniciado com a
proteção aérea e naval à província rebelde de Taiwan ao leste,
ampliado com a presença de tropas na península coreana ao
nordeste, estendido com a agressão ao Vietnã, ao Laos e ao Camboja
ao sul, agravado com o estímulo a golpes militares e à implantação
de regimes direitistas em vários países vizinhos ao sudoeste, e
reforçado com o apoio ao levante separatista no Tibete ao noroeste,
no final dos anos 1950.
As
divergências entre a União Soviética e a China, às quais
Macfarquhar e Schoenhals dedicam muita atenção, não podem ser
separadas dessas pressões imperialistas dos Estados Unidos sobre
ambos os países. E, quando as divergências entre os dois partidos
se transferiram também para choques entre os dois estados, até então
aliados, o cerco à China se completou, com a suspensão da ajuda
econômica e a concentração de tropas da União Soviética ao
norte, o que acabaria levando a combates fronteiriços em 1969 e ao
risco de uma invasão até Pequim, à semelhança do que já havia
acontecido na Hungria e na Tchecoslováquia. Os próprios
Macfarquhar e Schoenhals confirmam que os governos de Washington e
de Moscou chegaram a discutir a eventualidade de um ataque aéreo às
instalações nucleares da China, recusado inicialmente pela direção
soviética e depois pelo governo americano, quando este já se movia
para uma retirada do Vietnã e uma reaproximação com a China.
Essas
ameaças militares, além do perigo que representavam para a
soberania chinesa e para a permanência de Mao à frente do Partido
Comunista, acentuavam também as dificuldades econômicas do país,
obrigando-o a desviar recursos para reforçar a defesa nacional,
construir abrigos anti-aéreos, deslocar indústrias costeiras para
o centro e o oeste e apoiar a resistência dos povos da Indochina.
Nesse grave contexto, as divergências do ministro da Defesa Peng
Dehuai com Mao não se limitaram às políticas do Grande Salto à
Frente e das Comunas Populares, mas também à estratégia de
segurança da China e às relações com a União Soviética.
Por
não levar em conta essa dimensão crucial, Macfarquhar e Schoenhals
não mencionam, em nenhum momento, o artigo de Lin Biao, Viva
o triunfo da guerra popular, divulgado em 1965, com a indicação
de uma estratégia de defesa baseada na mobilização popular, e a
edição do livrinho vermelho de Citações
do presidente Mao Zedong em 1964, preparado como instrumento de
unificação das fileiras do Exército Popular e só depois brandido
como arma ideológica pelas Guardas Vermelhas de estudantes
universitários e secundaristas. Essa organização juvenil, aliás,
além de ser vista como uma escola para a formação prática de
sucessores revolucionários, representava também uma força de
reserva do Exército Popular. Infelizmente, recorrendo à violência
no combate a posições políticas erradas ou a tradições
arraigadas na cultura chinesa, e dividindo-se em facções que se
guerrearam entre si, as Guardas Vermelhas terminaram forçando o Exército
a intervir para dissolvê-las e restabelecer a ordem pública.
As
ameaças externas precisam ser acrescentadas às dificuldades econômicas
internas e às tendências de acomodação e aburguesamento de
quadros do Partido Comunista e do Estado para que se possa
reconstruir, com mais precisão, a conjuntura em que emergiu a
Revolução Cultural. A insistência na complexidade da situação
enfrentada pela China não significa, porém, que devam ser
desprezados os três erros básicos cometidos por Mao no lançamento
e na condução desse movimento insólito, os quais podem ser
identificados claramente depois de várias décadas de pesquisas
historiográficas e reavaliações críticas.
Em
primeiro lugar, não se pode negar que Mao tolerou as
arbitrariedades e as violências praticadas pelas Guardas Vermelhas
e por setores de esquerda do Partido Comunista e do Estado. Mesmo
que Mao não tenha tomado conhecimento de todos os excessos
cometidos, e mesmo que tivesse razão na crítica política e ideológica
a setores do Partido Comunista e do Estado seduzidos por posições
liberais, os métodos adotados para combatê-los não se
justificavam. Como o próprio
Mao insistiu em outras oportunidades, nem todo erro político e
ideológico deve ser punido com a destituição e prisão dos
responsáveis, sem falar na inadmissibilidade de torturas em
qualquer hipótese, ou de execuções sem os devidos processos
judiciais.
Nessa
questão dos métodos, a Revolução Cultural foi marcada por uma
profunda contradição. A resolução sobre o movimento, aprovada
pelo Comitê Central do Partido Comunista em 8 de agosto de 1966,
afirmava enfaticamente: “No curso do debate, é essencial adotar o
método que consiste em pôr as cartas sobre a mesa, explicar as razões
e convencer o povo com a verdade. Não se deve aplicar o método da
repressão à minoria do povo que sustenta opiniões diferentes. A
minoria deve ser protegida, porque às vezes a verdade está com a
minoria”.Por outro lado, a resolução insistia que as massas
deviam “educar-se a si mesmas no movimento” e aprender por elas
mesmas “a distinguir o justo do injusto” e “os métodos
corretos dos errados”. Essas orientações de fundo espontaneísta,
reforçadas por outras opiniões ambíguas de Mao, como a de ser
preciso destruir antes de construir, ou a de que uma nova ordem
nasce necessariamente do caos, travaram o papel orientador e pedagógico
do Partido Comunista e bloquearam os deveres do Estado com a ordem pública
e a preservação dos direitos dos cidadãos, levando o movimento a
escapar do controle das autoridades e até do próprio e aclamado
Mao.
O
segundo erro é que Mao atuava como se a maioria dos quadros
dirigentes do Partido Comunista e do Estado já houvessem aderido ao
caminho da restauração do poder burguês e do sistema capitalista,
enquanto a Resolução sobre a Revolução Cultural assegurava que a
maioria dos quadros eram bons, avaliação confirmada pelos
acontecimentos posteriores. É
verdade que Mao enfrentava uma resistência crescente na direção
do Partido Comunista e do Estado às proposições que começara a
defender em meados dos anos 1950. Trata-se de uma eventualidade a
que não nenhum líder pode fugir, quando se observa o princípio de
direção coletiva. Na difícil conjuntura interna e externa
enfrentada pela China, Mao imaginou, ao contrário de outros
dirigentes, que os desafios poderiam ser suplantados se o país avançasse
mais rápido. Mas a idéia de acelerar o crescimento além das
possibilidades objetivas e subjetivas e de dar um salto para formas
comunistas, rurais e urbanas, num momento de grandes dificuldades e
num nível de desenvolvimento econômico, político e cultural ainda
muito baixo do país e dos trabalhadores, era uma proposta
voluntarista, como a experiência mostrou.
Desse
erro de cunho utópico decorreu o terceiro: esbarrando em oposições
a suas propostas, Mao chegou à conclusão de que as forças
burguesas e revisionistas tinham voltado a predominar na
superestrutura política e cultural, inclusive na direção central
do Partido Comunista, e, portanto, se tornava necessária uma nova
revolução política, para que se rompessem as resistências
conservadoras e se viabilizasse a realização de mudanças avançadas
na infra-estrutura econômica, garantindo as modernizações da
agricultura, da indústria, da defesa e da ciência e tecnologia,
com as quais concordava. Deslocou, assim, a tarefa central do
desenvolvimento econômico para uma nova luta de classe dos
trabalhadores pelo poder político supostamente perdido.
Apesar
desses erros que estão na base da Revolução Cultural, não parece
que se possa sustentar que o movimento foi inteiramente negativo. A
economia se recuperou da situação enfrentada nos anos críticos de
1960 a 1962, a industrialização rural lançou raízes, houve avanços
na defesa do país, as pressões e investidas norte-americanas e
soviéticas foram derrotadas, a abertura diplomática teve início,
o Partido Comunista se reconstruiu e o regime popular sobreviveu e
se firmou. Além disso, a agenda da construção socialista foi
enriquecida com questões ainda hoje incontornáveis para o combate
à burocratização e à mera socialização jurídica.
Se
a China escapou da derrocada sofrida pela União Soviética e pelos
países do Leste europeu, inclusive pela Albânia; se a orientação
de reforma interna e abertura externa como caminho para viabilizar
as quatro modernizações, adotada a partir de 1978, pôde apoiar-se
nos quatro pilares da via socialista, do regime democrático
popular, da direção do Partido Comunista e das teorias
orientadoras do marxismo-leninismo e do pensamento de Mao Zedong; e
se foi possível, com base nesses pilares, derrotar duas tentativas
de liberalização burguesa favorecidas pelos erros de secretários
gerais do Partido Comunista escolhidos após o desfecho da Revolução
Cultural, esses avanços – do ângulo dos trabalhadores e dos
socialistas – não podem ser desvinculados de aspectos positivos
da Revolução Cultural, apesar de sua essência voluntarista e sectária.
A
História do Partido Comunista Chinês, já mencionada, escreveu que
“os erros cometidos por Mao Zedong foram erros de um grande
revolucionário proletário, o qual, na busca de um socialismo puro
e perfeito, acreditava ter encontrado uma nova via, que permitiria
evitar a restauração do capitalismo e desenvolver o socialismo. De
fato, ele se tornara prisioneiro de conceitos desligados da
realidade”. Que daqui a alguns anos não se possa dizer o mesmo
dos atuais dirigentes chineses, escrevendo que, apesar de suas intenções
generosas, eles perderam o controle das forças burguesas por eles
desencadeadas, ao subestimarem a luta de classes e sua inevitável
repercussão na base econômica, inclusive nas formas de
desenvolvimento das forças produtivas.
por
DUARTE PEREIRA