LÖWY,
Michael (org.) O marxismo na América Latina: uma antologia de
1909 aos dias atuais. São Paulo: Editora da Fundação
Perseu Abramo, 2006 (2ª edição ampliada), 585p.
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O
marxismo na América Latina: rupturas, continuidades e crítica ao
eurocentrismo
A
introdução a O marxismo na América Latina, escrita por
Michael Löwy, que também organizou esta coletânea, é essencial
para a leitura e compreensão dos documentos e textos que compõem a
obra e também dos dilemas e evolução do marxismo
latino-americano. Como observou Isabel Loureiro, no texto das
orelhas, a introdução “é bem articulada teoricamente, cujo
grande mérito é dar uma visão estruturada do campo altamente
complexo formado pelas diferentes tendências e vertentes do
pensamento marxista latino-americano”.
No
primeiro capítulo, o organizador selecionou textos de Juan B. Justo
e Luis Emilio Recabarren referentes aos primeiros tempos do marxismo
na América Latina. A seguir, enfocou o período revolucionário,
dos anos 20 a meados da década de 1930. São documentos da
Internacional Comunista e textos que nos permitem averiguar não
apenas como as lideranças e os organismos internacionais viam a América
Latina, mas também como os acontecimentos vinculados à Revolução
Russa impactaram os pioneiros do marxismo latino-americano. Este foi
um período de relativa autonomia para os comunistas na América
Latina.
Nesta
fase, esboçou-se entre nós a perspectiva do desenvolvimento de um
marxismo vinculado às particularidades latino-americanas. José
Carlos Mariátegui (1895-1930), fundador do comunismo no Peru, é um
dos pensadores que se destacam. Sua originalidade possibilitou a
construção de uma “síntese dialética entre o universal e o
particular, o internacional e o latino-americano”. Em Sete
ensaios de interpretação da realidade peruana, publicado em
1928, sua principal obra, Mariátegui apresenta uma das primeiras
tentativa “de análise marxista de uma formação latino-americana
concreta”, superando o eurocentrismo e o excepcionalismo aprista.
(LÖWY, 2006, págs. 17 e 18). Os textos publicados nesta coletânea
são ilustrativos da preocupação deste autor em incorporar a questão
indígena, isto é, a tradição e a continuidade da identidade
latino-americana inca. Nas palavras de Michael Löwy:
“Na
realidade, seu pensamento caracteriza-se justamente por uma fusão
entre os aspectos mais avançados da cultura européia e as tradições
milenares da comunidade indígena, e por uma tentativa de assimilar
a experiência social das massas camponesas numa reflexão teórica
marxista” (id.).
As
lutas internas na pátria do socialismo e, por decorrência, no
interior da Internacional Comunista (IC), aliado às mudanças na
conjuntura política mundial, incidiram sobre a realidade do
marxismo latino-americano. As transformações políticas no
movimento comunista internacional, isto é, a bolchevização e a
stalinização da IC, com a conseqüente imposição da linha política
stalinista, abortaram as iniciativas originais dos marxistas em solo
latino-americano. Lideranças como José Carlos Mariátegui e Julio
Antonio Mella (1903-1929), fundador do Partido Comunista Cubano,
tiveram seus espaços reduzidos e logo foram suplantados pelos novos
líderes vinculados ao aparato da IC. Estes se mantiveram fiéis às
orientações, ainda que contraditórias, emanadas da Meca
socialista e implementadas pelas diversas seções da Internacional
Comunistas, os partidos comunistas nacionais. Com a hegemonia do
stalinismo consolida-se também a perspectiva eurocentrista do
marxismo.
O
período stalinista, de meados da década de 1930 até 1959, é o
tema do terceiro capítulo desta coletânea. As palavras impressas
nestas páginas são também um testemunho de uma cultura política-ideológica
que sobrevive ao stalinismo e marca a nossa formação. Acompanhemos
os argumentos, a concepção etapista sobre a revolução democrática-burguesa,
as reviravoltas na linha política – da Frente Popular nos anos
1930 ao caminho pacífico da revolução brasileira de 1958
– e estudemos, por exemplo, a trajetória do Partido dos
Trabalhadores e dos principais partidos comunistas em nosso país e,
talvez, possamos entender a atualidade. A estratégia etapista – e
a sua crítica – é o fio condutor para o entendimento da linha
política predominante, que se manteve mesmo com os ziguezagues
conjunturais.
Porem,
nenhuma força política hegemônica é eterna. A crítica à estratégia
democrática-burguesa, ainda que minoritária, mas já presente nos
autores do período revolucionário, desafiou a ortodoxia stalinista
afirmando a possibilidade da revolução socialista. Isto
significava reconhecer a incapacidade da burguesia nacional em
cumprir as tarefas que historicamente são debitadas à sua
responsabilidade.
Por
outro lado, há que considerar as mudanças históricas e o desafio
que elas representaram para o domínio stalinista. Novos processos
revolucionários abrem novos focos de crítica à sua hegemonia. A
Revolução Chinesa e a Revolução Cubana, ainda que tenham se
mantido inicialmente na órbita de Moscou, desempenharam este papel.
Abriu-se um novo período revolucionário, cujos textos selecionados
no quarto capítulo são essenciais para compreendê-lo. As forças
hegemônicas, isto os partidos e organizações comunistas
stalinizados em cada país, se vêem obrigados a enfrentar a nova
realidade expressa pelo castrismo e guevarismo da revolução
cubana, o maoísmo e até mesmo o trotskismo, que ganha novo alento
com a crise da hegemonia stalinista. Torna-se possível a construção
de uma nova esquerda em ruptura com o stalinismo e a nova geração
ideologicamente assimilada ao marxismo. Além de representarem fonte
de referenciais alternativos, as revoluções chinesa e cubana
colocaram o socialismo na ordem do dia, em contraposição à tese
da etapa democrática-burguesa.
No
quinto e último capítulo, o organizador apresenta textos sobre as
novas tendências do marxismo latino-americano. Na conjuntura política
da década de 1980 e 1990, os marxismos, vinculados ou não à tradição
stalinista, se vêem confrontados com as novas forças e idéias
representadas pelo movimento feminista, a crescente influência da
Teologia da Libertação na esquerda latino-americana e outras
manifestações de movimentos sociais como o MST brasileiro e o EZLN
no México. No Brasil, esta experiência é sintetizada pelo Partido
dos Trabalhadores. São textos de intervenção e análise escritos
por militantes como Elizabeth Souza-Lobo, Frei Betto, Enrique Dussel,
João Pedro Stédile e Frei Sérgio entre outros. Há também
documentos do Partido dos Trabalhadores e do Exército Zapatista de
Libertação Nacional (EZLN).
Esta
obra possibilita o resgate da história do marxismo
latino-americano, suas formulações teóricas e políticas para a
luta social e as polêmicas em seu interior. Um olhar neste passado
contribui para compreendemos com maior acuidade a esquerda
brasileira e latino-americana atual em suas diversas manifestações.
O estudo aprofundado sobre o marxismo nos ajuda a detectar os
fatores que representam a ruptura e aqueles que, a despeito de se
apresentarem como novidades, nada mais são do que a repetição da
história em novo contexto. E mesmo o que parece radicalmente novo
carrega em si as marcas da tradição. O “novo” embute em si o
“velho”, a ruptura pressupõe também a continuidade.
Toda
seleção de textos, como admite Michael Löwy, “tem certo grau de
arbitrariedade” (p.65). Ela também representa a subjetividade do
organizador. Não obstante, ele logra superar os riscos inerentes a
uma obra com esta característica e oferece ao leitor, estudioso
e/ou militante, um excelente panorama sobre o marxismo na América
Latina.
Uma
das principais contribuições dessa obra é a exposição dos traços
que permitem identificar uma certa continuidade cultural e histórica
essencialmente eurocêntrica e que, simultaneamente, nos revela a
possibilidade da crítica. O ponto de partida é a admissão de que
desconhecemos a América Latina, seus povos, particularidades e história.
Nossos olhares, e nem me refiro à elite econômica brasileira e/ou
à classe média consumista e perdulária, volta-se para a Europa e
Estados Unidos. A nossa cultura é impregnada pelos valores europeus
e estadunidenses. No cinema e na TV, a produção hollywoodiana e de
baixo nível se impõe. A nossa segunda língua é o inglês.
Na
esquerda, isto é, entre os que se consideram não alienados e
lutadores por um outro mundo que, dizem, é possível, não é muito
diferente. Nossas raízes políticas e ideológicas são eurocêntricas.
Conhecemos mais a historia do movimento operário alemão do que a
nossa própria história. Sabemos mais sobre a revolução francesa,
o iluminismo e os grandes pensadores do século XIX, do que sobre os
movimentos sociais latino-americanos, suas formas de organização
política, lideranças e ideologias. Comemoramos cinqüentenários,
centenários etc. de fatos históricos, nascimentos e morte dos ícones,
datas de publicação desta ou daquela obra “santificada”.
Reverenciamos, e praticamente beatificamos, os líderes revolucionários
da Europa Ocidental e de países com a Rússia.
Compreendo
a necessidade de reverenciar os mestres, chorar
e homenagear os mártires, festejar e rememorar datas que
marcaram a caminhada de luta e sangue derramado. Compreendo o desejo
de resgatar os fatos, nomes,
eventos e obras impactantes. Até mesmo entendo que isso seja feito como um ritual profano que alimenta os
mitos. Tudo isso é necessário
à alma humana. Mesmos os ateus precisam acreditar em algo!
Não
obstante, nossa razão e emoção permanecem impregnadas pelo
eurocentrismo. Isto produziu graves problemas para o marxismo
latino-americano, com seqüelas que marcaram a nossa história. A crítica
à nossa formação eurocêntrica é fundamental. Como escreve Löwy:
“Foi
o eurocentrismo, mais do que qualquer outra tendência, que devastou
o marxismo latino-americano. Com esse termo queremos nos referir a
uma teoria que se limita a transplantar mecanicamente para a América
Latina os modelos de desenvolvimento econômica socioeconômico que
explicam a evolução histórica da Europa ao longo do século XIX.
Para cada aspecto da realidade européia estudado por Marx e Engels
– a contradição entre as forças produtivas capitalistas e relações
feudais de produção, o papel historicamente progressista da
burguesia, a revolução democrático-burguesa contra o Estado
feudal absolutista – procurou-se laboriosamente o equivalente
latino-americano, transformando o marxismo em um leito de Procusto,
sobre o qual a realidade era impiedosamente “recortada” ou
“esticada” conforme as necessidades do momento. (...) Nessa
problemática, toda a especificidade da América Latina foi implícita
ou explicitamente negada, e o continente concebido como uma espécie
de Europa tropical, com seu desenvolvimento retardado de um século,
e sob o domínio do império norte-americano” (pp. 10-11).
O
eurocentrismo é mais do que uma teoria, é uma forma de pensar que,
a despeito das divergências no interior do marxismo, se tornou
predominante. É mais do que um pensamento teórico, é uma cultura
e prática militante. Não obstante, a crítica ao eurocentrismo não
significa negar a positividade do pensamento europeu ocidental, nem
substituir um dogma por outro. Não se trata de absolutizar a
peculiaridade cultural e histórica das sociedades
latino-americanas, mas de construir uma síntese entre o marxismo
importado e a realidade da América Latina.
Por um lado, não há como negar a influência eurocêntrica
incorporada em nossa história desde o século XIX – vale lembrar
que o marxismo em nossa região tem suas raízes na imigração
européia. Por outro lado, é preciso recusar a pretensão desta
em ditar os modelos teóricos de organização e ação política,
como se fosse a única possibilidade de agir diante do mundo.
Esta
obra, Marxismo na América Latina, nos permite avançar na
perspectiva da crítica ao eurocentrismo e para além das nossas
eternas verdades. Ela contribui para o conhecimento de uma realidade
sócio-política pertinentes à nossa história social, mas nem
sempre reconhecida como deveria. Romper com o eurocentrismo é
afirmar a nossa autonomia de pensar e agir a partir da nossa própria
realidade histórica, é admitir a nossa ignorância da história
latino-americana, mesmo com as exceções.
Precisamos
conhecer a história do marxismo no Brasil e na América Latina. A práxis militante sem este conhecimento favorece a
continuidade da veneração de ícones e teorias assimilados
acriticamente. Em vez da ação consciente e que leve em conta a especificidade
da nossa realidade história e cultural, tendemos a formar “militantes papagaios”, autômatos
que repetem slogans, palavras-de-ordem, teorias deslocadas no tempo
e no espaço histórico e que cultuam os profetas mortos e/ou os que se
impõem na moda do presente. Eis um bom início para quem deseje
superar tais limitações.
por
ANTONIO OZAÍ DA SILVA