LESSA,
Antonio Carlos Lessa. História
das Relações Internacionais – A Pax Britannica e o mundo do século
XIX. Petrópolis: Vozes, 2005.
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A
Pax britannica e a Pax americana
Publicado
em 2005, o livro ora resenhado pertence à coleção Relações
Internacionais, da Editora Vozes, e tem por objetivo apresentar, ao
leitor iniciante na temática, a história das relações
internacionais do século XIX e, em especial, o papel da Grã-Bretanha
no sistema internacional deste século.
Dividido
em quatro capítulos e escrito em linguagem simples e acessível, o
livro cumpre perfeitamente este objetivo geral. No primeiro deles,
se revê a formação do sistema de Estados europeu a partir do século
XVI, com o fracasso das várias tentativas (os Habsburgo espanhóis
e austríacos, a França dos reis, da Revolução Francesa e de
Napoleão) de impor uma grande hegemonia no continente. Neste capítulo,
também são apresentados alguns acontecimentos fundamentais para a
posterior ascensão da Grã-Bretanha ao posto de primeira potência
européia, como a Revolução Inglesa, que criou condições para a
posterior evolução do capitalismo industrial no país.
O
sistema internacional formado a partir do Congresso de Viena em 1815
e suas manifestações dentro e fora da Europa são os focos do
segundo capítulo. A independência das colônias ibéricas e a
expansão da Revolução industrial na Inglaterra também são
enfatizadas neste capítulo.
O
terceiro capítulo, por sua vez, enfoca o período em que a proeminência
britânica no mundo esteve mais evidente, ou seja, entre os anos 40
e 70 do século XIX. É o momento em que o Reino Unido atingiu o
auge da sua hegemonia política, econômica e militar no mundo e em
que impôs a sua versão do capitalismo, a liberal, por quase todo o
planeta. Temas correlatos, como a expansão da Revolução
Industrial pela Europa, o desenvolvimento norte-americano e as
guerras de unificação italiana e alemã também são abordados
nesse momento.
O
último capítulo, por fim, aborda a lenta decadência da hegemonia
britânica no mundo entre 1870 e 1890 e suas causas. A ascensão da
Alemanha, com seu desafio ao equilíbrio de poderes continental, a
corrida colonial e outros tópicos também são abordados nesse capítulo,
que fecha um livro capaz de fornecer, ao leitor, um bom panorama
geral do período de hegemonia inglesa sobre a Europa e o mundo.
O
valor desse livro é evidente quando sabemos da escassez de material
bibliográfico, em português, sobre as relações internacionais do
século XIX e, acima de tudo, sobre o imperialismo britânico.
Especialmente no que se refere ao seu período áureo, em meados do
século XIX, a bibliografia disponível é limitada e aqueles que lêem
apenas português podem ser obrigados a tentar entender a economia e
a política do século retrasado sem um conhecimento razoável do
sistema econômico e político montado pela Grã-Bretanha naqueles
anos, o que é, convenhamos, uma tarefa no mínimo ingrata.
O
texto chama a atenção também quando revela as conexões
existentes entre o Império britânico dos séculos XIX e XX com a
atual hegemonia norte-americana no mundo. Não no sentido de conexões
absurdas ou a-históricas, mas de certas realidades ou percepções
que os Estados Unidos, enquanto potência oceânica e herdeira das
tradições britânicas, parecem estar, ainda hoje, levando em conta
na formulação de seu pensamento estratégico e na formatação de
sua política internacional.
A
primeira questão que chama a atenção é o cuidado inglês em
manter um cuidadoso equilíbrio de poderes na Europa enquanto
direcionava suas energias para a expansão comercial e econômica
pelo mundo, ao mesmo tempo em que mobilizava todos os seus esforços
para não perder a supremacia naval que era a garantia dessa expansão.
Esse esforço duplo acabou por levar à participação britânica
nas duas guerras mundiais, quando a tentativa alemã de hegemonizar
o continente e desafiar o domínio britânico nos mares foi visto
como um desafio intolerável à independência e ao poder de
Londres.
Os
Estados Unidos também parecem seguir esse princípio. Sua entrada
nas duas guerras mundiais levou em conta, entre outros motivos, o
risco de uma Alemanha vitoriosa poder construir uma grande força
naval capaz de retirar dos anglo-saxões o domínio dos mares. Hoje,
a situação não parece muito diferente. Aos que me perguntam se
Estados Unidos e China entrarão um dia em guerra, respondo que não
sei, mas que, se pensarmos na História, um dos momentos de maior
tensão entre as duas potências será quando e se a China pensar em
criar uma marinha de guerra verdadeiramente poderosa. O Império
britânico não aceitou esse risco frente à Alemanha e os Estados
Unidos provavelmente não aceitariam no tocante a China.
Outra
característica do imperialismo britânico foi a sua resistência em
adquirir colônias diretamente, preferindo controle indireto por comércio,
fluxos financeiros, protetorados, etc., já que era muito mais
lucrativo e menos custoso. No caso britânico, claro que me refiro
ao período do imperialismo mais “liberal” da metade do XIX,
quando as conquistas diretas tinham mais a ver com a colonização
de povoamento, do que ao período mais próximo do fim do século,
quando o imperialismo britânico se tornou mais direto e adquiriu o
controle de imensos territórios.
Essa
visão parece ter sido compartilhada pelos norte-americanos, que,
depois da conquista do seu espaço interior na América do norte,
tiveram pouco ânimo para conquistas imperiais diretas, com a exceção
de momentos isolados, como a guerra contra a Espanha em 1898.
Especialmente após 1945, eles preferiram utilizar seu imenso poder
não para conquistar outros povos, mas para se manter como o centro
do sistema financeiro e comercial do mundo, o que apenas reforçava
sua força militar e política. Aventuras de intervenção direta
como o Vietnã e o Iraque são exceções na política externa
norte-americana. A cultura política norte-americana e suas tradições
antiimperialistas (ao menos no plano do discurso) são importantes
para explicar isto, mas o fato dos Estados Unidos serem uma potência
oceânica e herdeiros dos britânicos talvez não possa ser
esquecido como fator explicativo.
Também
na baixa prioridade dada aos gastos militares, a história
norte-americana se aproxima da do Império britânico. Segundo o
autor, a ênfase inglesa no comércio, na indústria e nas finanças
era tamanho que não apenas eles seguiram uma política externa que
visava, dentro do possível, a prevenção de conflitos, como
acabaram por descuidar de um dos atributos centrais de qualquer ator
hegemônico que quer manter o status
quo, ou seja, a força militar. O Exército, especialmente, era
muito negligenciado, o que se revelou desastroso em momentos em que
a força terrestre foi necessária, como na Guerra da Criméia.
Apenas ao nos aproximarmos do final do século XIX tal situação
teria começado a mudar, com maiores investimentos militares, ainda
que sem conseguir acompanhar a escalada militar, por exemplo, da
Alemanha.
Os
Estados Unidos parecem ter seguido, grosso modo, essa filosofia até
a Segunda Guerra Mundial, com baixos investimentos militares (e
concentrados na Marinha), cuidando mais do seu crescimento econômico
e restringindo as suas intervenções armadas ou nas áreas de maior
chance de ganho econômico ou nas estratégicas para a sua segurança,
como a América Latina e o Oriente.
Resta
a pergunta, contudo, se os Estados Unidos não estão se afastando
destas tradições da época liberal da Inglaterra e seguindo a
mesma trajetória desta na direção de um imperialismo mais direto.
Afinal, depois de 1945, e hoje ainda mais, os Estados Unidos se
converteram na maior força militar já existente sobre o mundo e
parecem dispostos a tudo para não perder este domínio, além de
estarem caminhando para uma perigosa agressividade, especialmente
nos últimos anos.
Aliás,
para alguns historiadores, a decadência britânica começou
justamente quando ela abandonou o seu imperialismo “liberal”,
extremamente lucrativo e pouco complexo (já que manter rotas
comerciais abertos e protetorados exigia pouco) em favor daquele clássico,
de dominação direta. Este teria levado a imensos gastos militares
e a uma necessidade/desejo de envolvimento nos assuntos mundiais que
teria acabado por arruinar a economia britânica e, por fim, o próprio
Império. Resta perguntar se os Estados Unidos estão seguindo o
mesmo caminho.
Nesse
aspecto, a propósito, vale a pena recordar as advertências do
escritor Rudyard Kipling, que, por volta de 1900, advertia o Império
britânico sobre os riscos de superestimar o próprio poder e,
movido pela arrogância, tentar mudar o mundo à sua imagem. Kipling
falava de uma Grã-Bretanha ainda formidável em todos os aspectos,
mas que estava perdendo a hegemonia do mundo, enquanto nós vemos
uma superpotência que desfruta de um grau de poder, especialmente
militar, inigualável na História. Mas talvez suas advertências
devessem ser escutadas pelos herdeiros do Império britânico
instalados na Casa Branca.
Por
fim, o livro é um lembrete de como certas ideologias e princípios
devem ser lidos historicamente. Ao analisar o período mais
“liberal” da história e como os valores do liberalismo econômico
e político eram realmente considerados os fundamentais para o
progresso de qualquer nação, o autor não deixa de considerar, com
razão, como a aplicação desses princípios foi fundamental para o
desenvolvimento do capitalismo na Europa e na América do norte.
Acrescentaria, até, que a falta desta aplicação foi danosa na América
Latina, impedindo-nos de ter, aqui, uma verdadeira mentalidade
capitalista e, entre outros motivos (como a própria questão da
dependência) de nos industrializarmos junto com as áreas mais
adiantadas do mundo.
Não
obstante, o autor destaca como nunca, mesmo na Inglaterra ou nos
Estados Unidos, os princípios do liberalismo foram aplicados ao pé
da letra. Até a década de 1860, todos os países europeus que
quiseram se industrializar adotaram tarifas tarifárias altas para
proteger suas indústrias nascentes e mesmo a Grã-Bretanha só
adotou realmente o livre comércio em 1846, quando sua indústria já
era suficientemente forte para competir. Mesmo os Estados Unidos só
pararam de proteger seu mercado interno muito depois, o que permitiu
que a indústria nascente se desenvolvesse e prosperasse.
Defesa
de livre mercado como valor absoluto, ontem e hoje, só ocorre
quando um país se sente suficientemente forte para competir e
vencer no mesmo, e nunca antes. Ou seja, a abertura econômica,
muitas vezes, é positiva ao estimular a concorrência e os males do
protecionismo excessivo já estão claros. Mas, muitas vezes, algum
nível de proteção tarifária (temporária, que seja) ou de outro
tipo pode ser perfeitamente adequado, conforme a circunstância. O
que não é possível é imaginar protecionismo ou abertura de
mercado como valores absolutos, a serem aplicados não quando é
conveniente, mas em toda e qualquer circunstância, como num dogma
religioso.
Em
resumo, fica claro, com este exemplo, como a leitura dos clássicos
é algo realmente importante, mas que não se pode ficar apenas
neles. Conhecer a experiência marxista implica em ler Marx, mas
também em conhecer como, na prática, se deu a experiência dos que
tentaram aplicar as suas idéias na China, na URSS e em outros
locais. Do mesmo modo, ler Smith ou Ricardo é importante, mas convém
também saber como suas idéias foram aplicadas na prática, no
mundo real. Mais uma vez, cabe à História trazer a realidade para
dentro das discussões teóricas de nossos colegas economistas,
cientistas políticos e outros.
por
JOÃO FÁBIO BERTONHA