por JOÃO FÁBIO BERTONHA

Doutor em História, Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e Pesquisador do CNPq.

 

LESSA, Antonio Carlos Lessa. História das Relações Internacionais – A Pax Britannica e o mundo do século XIX. Petrópolis: Vozes, 2005.

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A Pax britannica e a Pax americana

 

Publicado em 2005, o livro ora resenhado pertence à coleção Relações Internacionais, da Editora Vozes, e tem por objetivo apresentar, ao leitor iniciante na temática, a história das relações internacionais do século XIX e, em especial, o papel da Grã-Bretanha no sistema internacional deste século.

Dividido em quatro capítulos e escrito em linguagem simples e acessível, o livro cumpre perfeitamente este objetivo geral. No primeiro deles, se revê a formação do sistema de Estados europeu a partir do século XVI, com o fracasso das várias tentativas (os Habsburgo espanhóis e austríacos, a França dos reis, da Revolução Francesa e de Napoleão) de impor uma grande hegemonia no continente. Neste capítulo, também são apresentados alguns acontecimentos fundamentais para a posterior ascensão da Grã-Bretanha ao posto de primeira potência européia, como a Revolução Inglesa, que criou condições para a posterior evolução do capitalismo industrial no país.

O sistema internacional formado a partir do Congresso de Viena em 1815 e suas manifestações dentro e fora da Europa são os focos do segundo capítulo. A independência das colônias ibéricas e a expansão da Revolução industrial na Inglaterra também são enfatizadas neste capítulo.

O terceiro capítulo, por sua vez, enfoca o período em que a proeminência britânica no mundo esteve mais evidente, ou seja, entre os anos 40 e 70 do século XIX. É o momento em que o Reino Unido atingiu o auge da sua hegemonia política, econômica e militar no mundo e em que impôs a sua versão do capitalismo, a liberal, por quase todo o planeta. Temas correlatos, como a expansão da Revolução Industrial pela Europa, o desenvolvimento norte-americano e as guerras de unificação italiana e alemã também são abordados nesse momento.

O último capítulo, por fim, aborda a lenta decadência da hegemonia britânica no mundo entre 1870 e 1890 e suas causas. A ascensão da Alemanha, com seu desafio ao equilíbrio de poderes continental, a corrida colonial e outros tópicos também são abordados nesse capítulo, que fecha um livro capaz de fornecer, ao leitor, um bom panorama geral do período de hegemonia inglesa sobre a Europa e o mundo.

O valor desse livro é evidente quando sabemos da escassez de material bibliográfico, em português, sobre as relações internacionais do século XIX e, acima de tudo, sobre o imperialismo britânico. Especialmente no que se refere ao seu período áureo, em meados do século XIX, a bibliografia disponível é limitada e aqueles que lêem apenas português podem ser obrigados a tentar entender a economia e a política do século retrasado sem um conhecimento razoável do sistema econômico e político montado pela Grã-Bretanha naqueles anos, o que é, convenhamos, uma tarefa no mínimo ingrata.

O texto chama a atenção também quando revela as conexões existentes entre o Império britânico dos séculos XIX e XX com a atual hegemonia norte-americana no mundo. Não no sentido de conexões absurdas ou a-históricas, mas de certas realidades ou percepções que os Estados Unidos, enquanto potência oceânica e herdeira das tradições britânicas, parecem estar, ainda hoje, levando em conta na formulação de seu pensamento estratégico e na formatação de sua política internacional.

A primeira questão que chama a atenção é o cuidado inglês em manter um cuidadoso equilíbrio de poderes na Europa enquanto direcionava suas energias para a expansão comercial e econômica pelo mundo, ao mesmo tempo em que mobilizava todos os seus esforços para não perder a supremacia naval que era a garantia dessa expansão. Esse esforço duplo acabou por levar à participação britânica nas duas guerras mundiais, quando a tentativa alemã de hegemonizar o continente e desafiar o domínio britânico nos mares foi visto como um desafio intolerável à independência e ao poder de Londres.

Os Estados Unidos também parecem seguir esse princípio. Sua entrada nas duas guerras mundiais levou em conta, entre outros motivos, o risco de uma Alemanha vitoriosa poder construir uma grande força naval capaz de retirar dos anglo-saxões o domínio dos mares. Hoje, a situação não parece muito diferente. Aos que me perguntam se Estados Unidos e China entrarão um dia em guerra, respondo que não sei, mas que, se pensarmos na História, um dos momentos de maior tensão entre as duas potências será quando e se a China pensar em criar uma marinha de guerra verdadeiramente poderosa. O Império britânico não aceitou esse risco frente à Alemanha e os Estados Unidos provavelmente não aceitariam no tocante a China.

Outra característica do imperialismo britânico foi a sua resistência em adquirir colônias diretamente, preferindo controle indireto por comércio, fluxos financeiros, protetorados, etc., já que era muito mais lucrativo e menos custoso. No caso britânico, claro que me refiro ao período do imperialismo mais “liberal” da metade do XIX, quando as conquistas diretas tinham mais a ver com a colonização de povoamento, do que ao período mais próximo do fim do século, quando o imperialismo britânico se tornou mais direto e adquiriu o controle de imensos territórios.

Essa visão parece ter sido compartilhada pelos norte-americanos, que, depois da conquista do seu espaço interior na América do norte, tiveram pouco ânimo para conquistas imperiais diretas, com a exceção de momentos isolados, como a guerra contra a Espanha em 1898. Especialmente após 1945, eles preferiram utilizar seu imenso poder não para conquistar outros povos, mas para se manter como o centro do sistema financeiro e comercial do mundo, o que apenas reforçava sua força militar e política. Aventuras de intervenção direta como o Vietnã e o Iraque são exceções na política externa norte-americana. A cultura política norte-americana e suas tradições antiimperialistas (ao menos no plano do discurso) são importantes para explicar isto, mas o fato dos Estados Unidos serem uma potência oceânica e herdeiros dos britânicos talvez não possa ser esquecido como fator explicativo.

Também na baixa prioridade dada aos gastos militares, a história norte-americana se aproxima da do Império britânico. Segundo o autor, a ênfase inglesa no comércio, na indústria e nas finanças era tamanho que não apenas eles seguiram uma política externa que visava, dentro do possível, a prevenção de conflitos, como acabaram por descuidar de um dos atributos centrais de qualquer ator hegemônico que quer manter o status quo, ou seja, a força militar. O Exército, especialmente, era muito negligenciado, o que se revelou desastroso em momentos em que a força terrestre foi necessária, como na Guerra da Criméia. Apenas ao nos aproximarmos do final do século XIX tal situação teria começado a mudar, com maiores investimentos militares, ainda que sem conseguir acompanhar a escalada militar, por exemplo, da Alemanha.

Os Estados Unidos parecem ter seguido, grosso modo, essa filosofia até a Segunda Guerra Mundial, com baixos investimentos militares (e concentrados na Marinha), cuidando mais do seu crescimento econômico e restringindo as suas intervenções armadas ou nas áreas de maior chance de ganho econômico ou nas estratégicas para a sua segurança, como a América Latina e o Oriente.

Resta a pergunta, contudo, se os Estados Unidos não estão se afastando destas tradições da época liberal da Inglaterra e seguindo a mesma trajetória desta na direção de um imperialismo mais direto. Afinal, depois de 1945, e hoje ainda mais, os Estados Unidos se converteram na maior força militar já existente sobre o mundo e parecem dispostos a tudo para não perder este domínio, além de estarem caminhando para uma perigosa agressividade, especialmente nos últimos anos. 

Aliás, para alguns historiadores, a decadência britânica começou justamente quando ela abandonou o seu imperialismo “liberal”, extremamente lucrativo e pouco complexo (já que manter rotas comerciais abertos e protetorados exigia pouco) em favor daquele clássico, de dominação direta. Este teria levado a imensos gastos militares e a uma necessidade/desejo de envolvimento nos assuntos mundiais que teria acabado por arruinar a economia britânica e, por fim, o próprio Império. Resta perguntar se os Estados Unidos estão seguindo o mesmo caminho.

Nesse aspecto, a propósito, vale a pena recordar as advertências do escritor Rudyard Kipling, que, por volta de 1900, advertia o Império britânico sobre os riscos de superestimar o próprio poder e, movido pela arrogância, tentar mudar o mundo à sua imagem. Kipling falava de uma Grã-Bretanha ainda formidável em todos os aspectos, mas que estava perdendo a hegemonia do mundo, enquanto nós vemos uma superpotência que desfruta de um grau de poder, especialmente militar, inigualável na História. Mas talvez suas advertências devessem ser escutadas pelos herdeiros do Império britânico instalados na Casa Branca.

Por fim, o livro é um lembrete de como certas ideologias e princípios devem ser lidos historicamente. Ao analisar o período mais “liberal” da história e como os valores do liberalismo econômico e político eram realmente considerados os fundamentais para o progresso de qualquer nação, o autor não deixa de considerar, com razão, como a aplicação desses princípios foi fundamental para o desenvolvimento do capitalismo na Europa e na América do norte. Acrescentaria, até, que a falta desta aplicação foi danosa na América Latina, impedindo-nos de ter, aqui, uma verdadeira mentalidade capitalista e, entre outros motivos (como a própria questão da dependência) de nos industrializarmos junto com as áreas mais adiantadas do mundo.

Não obstante, o autor destaca como nunca, mesmo na Inglaterra ou nos Estados Unidos, os princípios do liberalismo foram aplicados ao pé da letra. Até a década de 1860, todos os países europeus que quiseram se industrializar adotaram tarifas tarifárias altas para proteger suas indústrias nascentes e mesmo a Grã-Bretanha só adotou realmente o livre comércio em 1846, quando sua indústria já era suficientemente forte para competir. Mesmo os Estados Unidos só pararam de proteger seu mercado interno muito depois, o que permitiu que a indústria nascente se desenvolvesse e prosperasse.

Defesa de livre mercado como valor absoluto, ontem e hoje, só ocorre quando um país se sente suficientemente forte para competir e vencer no mesmo, e nunca antes. Ou seja, a abertura econômica, muitas vezes, é positiva ao estimular a concorrência e os males do protecionismo excessivo já estão claros. Mas, muitas vezes, algum nível de proteção tarifária (temporária, que seja) ou de outro tipo pode ser perfeitamente adequado, conforme a circunstância. O que não é possível é imaginar protecionismo ou abertura de mercado como valores absolutos, a serem aplicados não quando é conveniente, mas em toda e qualquer circunstância, como num dogma religioso.

Em resumo, fica claro, com este exemplo, como a leitura dos clássicos é algo realmente importante, mas que não se pode ficar apenas neles. Conhecer a experiência marxista implica em ler Marx, mas também em conhecer como, na prática, se deu a experiência dos que tentaram aplicar as suas idéias na China, na URSS e em outros locais. Do mesmo modo, ler Smith ou Ricardo é importante, mas convém também saber como suas idéias foram aplicadas na prática, no mundo real. Mais uma vez, cabe à História trazer a realidade para dentro das discussões teóricas de nossos colegas economistas, cientistas políticos e outros.

 

por JOÃO FÁBIO BERTONHA

   

 

 

 

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