Israel
no Oriente Médio
Em
agosto de 2006 terminou a guerra de 34 dias entre Israel e o
Hezbollah, milícia islâmica extremista firmemente entrincheirada
no sul do Líbano, país que sofreu enormes estragos em sua
infra-estrutura e rede urbana.
Mais
de oitocentos mil libaneses abandonaram seus lares e procuraram refúgio
no norte do país. Movimento semelhante, mas em direção ao sul,
ocorreu no norte de Israel. De ambos os lados houve pesadas perdas
em vidas de civis e militares.
O
cessar-fogo celebrado por injunção do Conselho de Segurança das
Nações Unidas por meio da resolução 1701 é precário, dado que
o Hezbollah não se retirou de suas posições e as forças
militares internacionais e o exército libanês não têm como
expulsar e desarmar seus militantes.
A
instabilidade na região que deu origem ao conflito, após o seqüestro
de dois soldados e a morte de oito outros israelenses pelas milícias
do Hezbollah, continua e provavelmente continuará até encontrar-se
um acordo com a Síria e o Irã, dois países que armaram e
treinaram as milícias do Hezbollah.
Se
o Líbano e o Hezbollah sofreram graves perdas, também Israel não
saiu incólume do conflito perdendo centenas de soldados entre
mortos e feridos, e viu suas cidades da região norte submetidas a
um bombardeio constante pelos katyuchas cujos projéteis alcançaram
até a cidade de Haifa, terceira maior do país. Israel declarou
como seu objetivo na guerra a expulsão das milícias do Hezbollah
para trás do Rio Litani, distante 30 km da fronteira.
Os
soldados seqüestrados não foram devolvidos, nem o soldado
capturado pelo Hamas na Faixa de Gaza. Em termos macropolíticos, o
conflito evidenciou o isolamento de Israel apoiado unicamente pelos
EUA, o que deve ter contribuído para as manifestações
anti-israelenses e até anti-semitas por todo o mundo, inclusive no
Brasil.
Quem
ganhou e quem perdeu?
Apesar
das declarações pomposas de Hassan Nasdrallah, chefe supremo do
Hezbollah, de que suas tropas resistiram aos bombardeios das forças
armadas israelenses, o Hezbollah sofreu pesadas perdas estimadas em
400 militantes de um contingente de quatro mil no total. Mas também
Israel não ficou imune aos ataques do Hezbollah.
Alguns
analistas compararam o conflito com a guerra de 1973, em que o
ataque surpresa do Egíto custou a vida de três mil soldados até a
reversão da situação pelo avanço dos israelenses em território
egípcio. Reforçado em sua posição e prestígio, o então
presidente Anwar Sadat propôs um cessar fogo em cuja consequência
houve a celebração da Paz e o reconhecimento de Israel que se
retirou de e restituiu o território do Sinai.
Mas
a comparação é frágil: o conflito no Líbano não afetou
diretamente as relações com os palestinos e o Hamas que se recusa
a reconhecer o Estado de Israel. Donde se pode inferir que negociações
de Paz no Oriente Médio só serão viáveis quando houver um acerto
da situação com os palestinos, implicando em concessões
territoriais inevitáveis.
Mesmo
os países árabes que estabeleceram relações diplomáticas com
Israel, Marrocos, Jordânia e Egito, continuam a pressionar para que
se chegue a um acordo com os palestinos. Seus governantes e também
os dos outros países islâmicos sunitas, Arábia Saudita, Kuait e
os sultanatos autocráticos do Golfo da Pérsia receam a expansão
dos radicais (eleitos!) do Hamas e também dos radicais xiitas, hoje
apoiados sobretudo pelo Irã.
Entretanto,
o conflito no Oriente Médio revela dimensões muito mais amplas do
que a questão do Estado para os palestinos; assunto muito polêmico
entre os próprios judeus e seus partidos políticos, sobretudo
quanto a devolução dos territórios palestinos, ocupados após a
guerra de 1967. Lá vivem hoje mais de 220 mil colonos israelenses.
Na
análise geopolítica da região há de se considerar a emergência
do Irã dos ayatolás, com 70 milhões de habitantes, a maioria na
miséria, mas que resiste firmemente às pressões do mundo
ocidental para que abandone o enriquecimento de urânio para fins
militares.
Beneficiado
pela bonança dos altos preços do petróleo, o Irã apóia
movimentos radicais como o Hezbollah e outros militantes xiitas que
subscrevem a doutrina da destruição do Estado de Israel. Junta-se
o Iraque fracionado e praticamente em guerra civil, o isolamento da
Síria, país laico, e a tensão permanente nos territórios
habitados por palestinos.
A
atuação do Hezbollah como Estado dentro do Estado libanês e a
situação de miséria de dezenas de milhões no Egito, governado
autocraticamente pelo presidente Hosni Mubarak, configuram uma pálida
idéia da explosividade da situação no Oriente Médio.
Acrescenta-se a presença em todos os países da região de
contingentes variáveis de militantes alinhados com a doutrina e prática
de Osama Bin Laden e de sobreviventes do Talibã no Afeganistão.
Visto
sob esta perspectiva e em retrospectiva do último século, os
intermináveis conflitos travados entre Israel e seus vizinhos –
1948, 1956, 1967, 1973, 1982 e as Intifadas quase ininterruptas até
a guerra recente com o Hezbollah – uma possível saída e solução
só se afiguram por um entendimento com os palestinos, o que poderia
conferir a legitimidade e segurança de Israel entre seus vizinhos e
em muitos países do mundo.
Por
outro lado será inevitável chegar-se a um acordo com a Síria, o
que implica a devolução do território estratégico do Golã,
ocupado por Israel desde o conflito de 1967.
A
sociedade israelense continua presa ao sonho de uma pátria nos
termos bíblicos, abrangendo territórios que pertencem a outros países.
A idéia de que somente assim conseguiriam proteger-se era e
continua sendo equivocada. Mudou a concepção do Estado nacional
porque a globalização exige cooperação mais estreita entre países
geograficamente vizinhos, nas áreas de comércio, serviços, educação
e cultura.
Israel
permanece isolado de seus vizinhos, enquanto alguns países árabes
despertaram tardiamente para um nacionalismo débil que mistura
ideologias anti-israelenses com elementos religiosos e extremistas.
A
maioria da população israelense continua convencida de sua
superioridade tecnológica e militar e se recusa a encarar a dura
realidade das transformações ao seu redor. Mantém a visão e a
ideologia de um Estado que incorporaria terras árabes como o Golã
(da Síria), e do lado ocidental do rio Jordão (dos palestinos)
onde foram instalados dezenas de milhares de colonos.
Ademais,
Israel também tem gente fanaticamente religiosa que não admite a
cessão da terra “sagrada”, chegando até assassinar o Primeiro
Ministro Ytzhak Rabin. Junta-se a este quadro a presença de 1,3
milhão de árabes palestinos dentro das fronteiras atuais do
Estado, para visualizar toda a complexidade do problema.
Os
defensores do Estado de Israel alegam que este tem o direito e, aos
olhos de seus cidadãos, o dever de se defender contra as agressões
como o seqüestro de soldados, bombardeios com mísseis Kassem na
Faixa de Gaza e dos Katyushas do Hezbollah no Líbano.
A
maioria da mídia e dos analistas recusa este argumento,
apresentando o chamado princípio da proporcionalidade em guerras
tradicionais, supostamente rompido pelo uso maciço da força aérea
israelense.
A
discussão pode parecer abstrata – o que é uma guerra justa? –
mas remete a Santo Agostinho que já no século IV d.C. pregou o jus
ad bellum – o direito de ir à guerra em casos extremos.
Dezesseis
séculos depois, com a existência da diplomacia, das normas
internacionais e dos princípios dos Direitos Humanos, questiona-se
o uso de armamentos pesados, principalmente pelo Human Rights Watch,
que recusa o argumento de que o primeiro ataque partiu do Hezbollah.
Apontam, também, para os danos causados à infra-estrutura do Líbano
– destruição de pontes, estradas e centrais elétricas, além de
numerosos edifícios civis.
Na
realidade, é difícil fazer a distinção entre o jus ad bellum
e o jus in bellum, uma questão que envolve a ética da
guerra, a qual se subordina a questão de que tipos de armas se
“pode” utilizar. Hoje, diríamos que os fins não justificam os
meios e, não raramente, os meios invalidam os próprios fins.
Indubitavelmente,
as imagens e relatos sobre os danos causados ao Líbano, dos
milhares de refugiados perambulando pelas estradas, e o constante
incitamento pela mídia, não só iraniana, levaram ao
fortalecimento das forças anti-israelenses. Mesmo o clero iraniano,
que não simpatiza com o Hezbollah, clamou por uma união entre
sunitas e xiitas contra Israel.
Vejamos
as reações ao conflito em Israel, particularmente entre os mais
extremistas, em favor da continuação das ações bélicas. Mal
cessados os combates, começaram a surgir críticas de todos os
lados manifestando uma insatisfação com a forma como foram
conduzidas as operações militares. Várias falhas na condução
das operações foram apontadas pela mídia e pela opinião pública
em geral.
Além
das falhas dos serviços de inteligência militar e do alto comando
das forças armadas que foram apanhadas de surpresa – tanto pelo
seqüestro de soldados quanto o uso simultâneo de mísseis
Katyushas que semearam o pânico entre a população da região
norte – criticou-se a excessiva confiança no poderio militar e
sua força aérea que poderia vencer sozinha o conflito. Apontou-se
para o despreparo dos soldados para a guerrilha urbana em que se
enfrentou uma força bem armada, treinada, organizada e com forte
motivação religiosa.
A
aparente falta de planos para conter um ataque do Hezbollah, apesar
de precedentes, teria levado à entrada tardia da força terrestre
na guerra que sofreu pesadas perdas (34 soldados mortos) nos dias 10
e 14 de agosto, data de cessar-fogo. Mesmo assim, não faltaram
vozes entre a população israelense clamando por uma retomada da ação
bélica.
A
que atribuir esta belicosidade?
Há
uma tradição de décadas, praticamente desde o início do
sionismo, que exalta “Eretz Israel shlema” (“Israel
integral”) incluindo as colinas do Bashã, Gilead, o vale do Jordão
e a região montanhosa do Golã.
Esta
visão irrealista imobilizou politicamente a sociedade israelense e
foi estimulada por todos os governos, desde o primeiro de Ben Gurion,
após a criação do Estado em 1948 até o atual, de Ehud Olmert.
Do
sonho de uma sociedade mais justa, uma pátria que os defendesse
contra ataques anti-semitas no mundo, surgiu um Estado militarizado
e sua população cega às mudanças que se operaram no mundo e na
própria sociedade israelense. A maioria da população israelense
continua convencida de sua superioridade tecnológica e militar,
recusando-se a encarar a dura realidade das transformações ao seu
redor.
Não
perceberam que toda equação estratégica de Israel como potência
estava equivocada à luz da globalização e da necessidade irrecusável
de uma associação mais estreita entre países vizinhos
geograficamente, procurando fortalecer e incrementar as relações
comerciais, culturais e políticas, sob forma de cooperação
regional (União Européia, Mercosul, ASEAN etc.). Israel ficou
isolado num mundo em que estão mudando a concepção do Estado
nacional e a segurança de suas fronteiras.
O
mundo islâmico e árabe mudou. Modernizaram-se graças aos ganhos
imensos pela exportação de petróleo; instalaram indústrias e
adquiriram armas e tecnologia. A guerra – se houver outra – será
de mísseis contra mísseis, com efeitos devastadores em territórios
tão próximos quanto Israel e seus vizinhos.
Os
dois principais grupos que lutam contra Israel e se recusam a
reconhecer o direito de existir do Estado judeu, o Hamas e o
Hezbollah, contam com armamentos modernos, homens disciplinados,
treinados e movidos por um fanatismo religioso que os motiva e os
capacita a lutar de igual para igual com as tropas israelenses. Têm
apoio na população, sobretudo os mais pobres, para os quais
construíram e mantêm creches, escolas e postos de saúde.
Esses
grupos extremistas têm o apoio, direto e indireto, de
um bilhão de islâmicos – um quinto da população do
mundo os quais, apesar de enormes divergências e inimizades
internas, concordam quanto ao ódio a Israel. Dentro do Estado judeu
vive hoje 1,3 milhão de árabes, com uma taxa de crescimento
populacional maior que a dos israelenses.
Mesmo
os governos mais moderados, Egito, Turquia, Jordânia e Paquistão,
que receiam a expansão dos extremistas da Al Qaeda, Talibã e
outros, se sentem atingidos pela situação dos palestinos e, mais
recentemente, pelos conflitos no Líbano. Mas a população
israelense, convencida de sua superioridade tecnológica e militar,
recusa-se a encarar as transformações necessárias em sua política
em relação aos árabes.
A
visão messiânica de um Estado de Israel
A
cada dia fica mais patente que Israel não pode depender
exclusivamente do apoio político e militar dos EUA. Os esforços de
manter as forças armadas dotadas de equipamentos mais modernos têm
exaurido a economia do jovem Estado, aumentando a desigualdade
social e o desemprego.
A
ocupação de terras palestinas e a construção de um “muro de
segurança” têm consumido bilhões de dólares e os especialistas
calculam que a desocupação e a reinstalação dos colonos irão
exigir aproximadamente outros 20 bilhões de dólares.
Por
isso, a sobrevivência de Israel exige um entendimento e uma futura
cooperação com os países árabes. O governo e a população
israelenses devem compenetrar-se da realidade e aceitar que nenhum
pedaço de terra compensa a perda de milhares de jovens, vítimas de
décadas de conflito e que afastaram cada vez mais a perspectiva da
Paz.
A
política de subestimar ou demonizar os árabes levou Israel a um
beco sem saída. Haverá visão estratégica e coragem das lideranças
dos dois lados para levar a maioria das populações a consentir
numa solução negociada?
A
população libanesa duramente atingida pelo conflito iniciado pelo
Hezbollah certamente apoiará os esforços de pacificar a região
sul onde se travaram violentos combates. Também, a maioria dos
palestinos, sofrendo as sanções dos EUA e da União Européia que
cortaram os subsídios após a ascensão do Hamas ao poder, gostaria
de ver a normalização das relações com o Estado judeu, o que
garantiria para ela trabalho e renda – meios para a existência e
sobrevivência.
Finalmente,
os maiores beneficiados da celebração de um acordo de paz serão
as populações árabe e israelense, com a cooperação econômica e
técnica entre os vizinhos que permitirá o pleno desenvolvimento de
seu potencial tecnológico, científico e humano.
por
HENRIQUE
RATTNER