O
afundamento da educação no Brasil
(observações
angustiadas do ponto de vista dos estudantes)
É
uma obviedade, quase uma tautologia, aos olhos de qualquer pessoa
medianamente bem educada, afirmar-se que a educação constitui um
elemento essencial na qualificação produtiva e na prosperidade de
qualquer país, avançado ou em desenvolvimento. Ela constitui, também,
o principal fator de inserção nos mercados de trabalho, no plano
individual, e um elemento chave do perfil distributivo nacional,
quando se considera a repartição social da renda.
Parece
haver um acordo tácito na sociedade quanto a isso. Mas esse
consenso é falso. Não existe terreno comum entre duas abordagens
opostas quanto ao papel da educação no processo de
desenvolvimento. O Brasil constitui uma prova viva disso. O
desentendimento começa no próprio enunciado das finalidades da
educação, tal como expresso acima. De um lado, um grupo, mais
identificado com os próprios educadores, considera que a educação
tem um papel “libertador”, no plano pessoal, e que os indivíduos
têm de ser educados numa visão humanista, acima e além das exigências
“do mercado”, que no mundo capitalista pretenderia apenas,
segundo representantes desse grupo, que a escola seja
“produtora” de trabalhadores treinados para as empresas. De
outro lado, pesquisadores identificados com o desempenho adequado do
processo produtivo pretendem, justamente, que a mão-de-obra seja a
mais qualificada possível, não apenas para atender às
necessidades das empresas, mas também para melhorar os níveis de
produtividade da economia como um todo, pois isto se traduziria em
riqueza social e prosperidade para o país e para a sua população,
com reflexos na distribuição de renda. Posso estar simplificando a
dicotomia, mas ela representa, grosso modo, duas visões do mundo
que parecem contrapor-se na atualidade.
Parece
evidente, aos olhos de quem observa a realidade presente no Brasil,
que os rumos da educação no país vêm sendo determinados pelo
primeiro grupo, uma grande comunidade de trabalhadores dos setores público
e privado, formada por burocratas do MEC, por pedagogos de várias
afiliações, por professores, administradores, sindicalistas,
pesquisadores ou por simples curiosos, sem contar os políticos e
outros líderes comunitários que “vivem” da educação. Não é
tampouco novidade para ninguém que a qualidade da educação no
Brasil vem se deteriorando a olhos vistos nos últimos tempos. Pode
ser que não exista nenhuma relação de causa a efeito entre essas
duas realidades, mas o tema é suficientemente grave para merecer
uma reflexão.
Tendo
estas realidades em mente, pretendo tratar, neste texto, de alguns
problemas atuais da educação no Brasil, com um enfoque
ligeiramente negativo, ou razoavelmente pessimista como o próprio título
deixa sugerir. Isto não deve causar espanto, uma vez que fazer
elogios por algum sucesso não contribui em nada para a melhoria
daquilo que está indo bem, apenas fazem com que os seus responsáveis
se acomodem nas situações estabelecidas, deixando de introduzir as
mudanças necessárias para que um desempenho determinado se dê de
maneira ainda mais efetiva (pelo menos, até que alguma surpresa
desagradável desponte no horizonte à frente). Apenas aprendemos
com erros e fracassos, que nos ajudam a corrigir nossas insuficiências
mais gritantes. O que me parece ocorrer atualmente, no caso da educação
brasileira, é justamente um quadro de resignação e de acomodação
com os péssimos resultados do setor, em vários níveis, evidentes
em quaisquer tipos de medidas objetivas que possam ser feitas.
Não
pretendo ocupar-me da educação superior, um setor bem conhecido
dos leitores, pois todos eles são pessoas bem informadas, aliás,
formadas e graduadas, razoavelmente conhecedoras da triste realidade
pedagógica e da lamentável situação material que atinge, hoje em
dia, a maior parte das IFES, em grande parte por sua própria
incapacidade de reformar-se e de justificar repasses de recursos
adicionais por parte dos poderes públicos. Tenho apenas uma palavra
sobre elas, independentemente de que sejam públicas ou privadas:
salvo poucas conhecidas exceções de praxe, a maior parte dessas
instituições caminha rapidamente para uma decadência substantiva,
digna de nota, visível, por exemplo, na disseminação de cursos de
pós-graduação e de extensão, que tentam cobrir a
posteriori as lacunas de uma graduação cada vez mais medíocre.
Pretendo
tratar de três aspectos, apenas, que atingem os ciclos fundamental
e médio do ensino básico no Brasil. Três exemplos de desperdício
de recursos, de desorientação quanto aos objetivos fundamentais da
escola, de desvio de finalidades educativas, de equívocos cruciais
que podem comprometer ainda mais a qualidade do ensino e o
funcionamento das instituições do ciclo fundamental, por anos e
anos à frente. Esses três aspectos, que poderiam facilmente ser
enquadrados naquilo que eu chamo de “teoria da jabuticaba” –
para uma versão resumida deste “mal brasileiro”, ver este link:
http://institutomillenium.org/2006/07/05/teoria-da-jabuticaba-ii-estudos-de-casos/
–, estão consubstanciados, respectivamente, na obrigatoriedade de
ensino de temas afrobrasileiros e de espanhol, no ciclo fundamental,
e de filosofia e de sociologia, no médio. Elas foram introduzidas a
partir de 2003 e expressam de maneira fiel a “visão do mundo” a
que me referi ao início deste ensaio. Esclareço que o meu ponto de
vista é o dos estudantes.
1)
Estudos afrobrasileiros
Considerando-se
que a sociedade brasileira é extremamente diversa em sua composição
étnica e em suas manifestações culturais, com intensa osmose
entre suas comunidades imigrantes e um processo crescente de
“cross-fertilization” – termo que se poderia aproximar de
“fundição recíproca” –, qualquer tentativa de separar e
apresentar como mais relevante, no plano histórico ou populacional,
qualquer um desses componentes sociais equivale, à falta de melhor
conceito, a uma tentativa de construção de um “apartheid”
cultural e social, quando não diretamente racial.
Não
encontro outro equivalente funcional para designar essa tentativa
mal concebida, mal inspirada e, sobretudo, terrivelmente mal
implementada no sentido de destacar nossas supostas raízes
“africanas” no cadinho multicultural e multirracial brasileiro.
Tendo já tratado em outro ensaio dos problemas acarretados pelo
novo apartheid representado pela ideologia afrobrasileira (ver: http://www.espacoacademico.com.br/040/40pra.htm),
não vou aprofundar a discussão de um problema que ultrapassa de
muito a dimensão estrita de sua aplicação nas salas de aula do
primeiro grau. Gostaria apenas de confirmar que vejo essa iniciativa
funesta como uma semente de racismo e de intolerância, gerando possíveis
distorções nos conteúdos curriculares, em função da manipulação
anti-histórica que esse infeliz conceito é suscetível de receber
por parte de seus promotores. Sem entrar em suas especificidades
substantivas, é presumível que o conteúdo de tal
“disciplina”, num país dotado de raras pesquisas de boa
qualidade sobre a história da África ou seu possível legado
transatlântico, sofra deformações de tal ordem por parte dos
encarregados da matéria que o conteúdo será um arremedo de
protesto social, eivado de ideologia antiescravista, com fortes
colorações políticas e tênue embasamento histórico. Imagino que
toda uma mitologia da resistência negra será igualmente servida a
descendentes de colonos europeus, nas escolas do sul do país, sem
que estes recebam sequer alguma informação sobre sua cultura “eurobrasileira”.
Os
resultados, obviamente, não poderiam ser mais perniciosos do ponto
de vista da boa formação escolar de crianças que teriam o direito
de se considerar apenas brasileiras, sem outro prefixo falsamente
identificador de alguma origem étnica ou geográfica. Não hesito
em afirmar que tal iniciativa contribui poderosamente para a construção
do racismo em nosso país.
2)
Ensino de espanhol
Outro
resultado de um equívoco fundamental – o de que o processo de
integração será necessariamente beneficiado com o estudo obrigatório
da língua espanhola para as crianças do primeiro grau –, essa
medida unilateral, sem reciprocidade nos demais países da região
(o português é ignorado nos currículos nacionais), vem acarretar
apenas despesas adicionais sem que se antevejam resultados práticos,
ou sequer “lingüísticos”, para o processo de integração.
Este já padece de conhecida tendência à introversão e ao
enclausuramento recíproco – quando o correto seria a abertura ao
exterior e a utilização das complementaridades existentes para
maior inserção no processo de globalização – e esse tipo de
medida apenas reforça suas características “hacia adentro”.
Como no caso dos estudos brasileiros, ela demandará a formação
improvisada de centenas, ou mais provavelmente milhares, de mestres
supostamente capacitados em “portunhol”, carregando ainda mais
um currículo já penetrado por várias outras inutilidades
“disciplinares”.
Supõe-se
que um bom ciclo fundamental seja constituído de estudos de boa
qualidade na língua pátria, na matemática elementar, nas ciências
naturais fundamentais e nos estudos sociais básicos (história e
geografia), apenas isto. Se alguma outra língua tiver de ser
aprendida, nos primeiros anos de estudo, supõe-se que a escolhida
seja a língua franca da ciência moderna e da globalização, isto
é, a que mais usualmente é utilizada para pesquisa na internet, ou
seja, inglês. A obrigatoriedade do espanhol servirá apenas para
desviar recursos humanos e materiais voltados para a formação de
primeiro grau, num país tão carente de ambos. Trata-se de um falso
espírito integracionista e um equívoco educacional de conseqüências
potencialmente danosas para seus supostos beneficiários. A integração
regional, aliás, nunca padeceu de “déficit lingüístico”.
3)
Sociologia e filosofia no ciclo médio
A
aprovação dessa outra obrigatoriedade pelo Conselho Nacional de
Educação, em 2006, foi saudada pelos sindicatos de professores e
pelas associações profissionais da área como uma indiscutível
vitória para a categoria. Pode até ser. O fato é que se trata de
uma indiscutível derrota para os estudantes do ciclo médio, desde
que se adote o ponto de vista dos próprios estudantes, é claro.
Como isso nunca esteve em causa no tratamento da matéria, eles, que
obviamente nunca foram ouvidos, verão reduzidos os horários
alocados a outras disciplinas fundamentais para a sua formação,
para acomodar as duas novas obrigatoriedades oficiais, que já eram
facultativas numa infinidade de estabelecimentos escolares em todo o
Brasil, segundo suas próprias conveniências.
O
Brasil, como é sabido, adora criar obrigatoriedades no papel. O
mesmo se dá, por exemplo, no caso da contratação obrigatória de
“jornalistas” para qualquer empreendimento que se possa conceber
que trate de “comunicação social”, ademais da absurda reserva
de mercado, sancionada em lei, para toda e qualquer empresa
classificada como de comunicação de massa. O resultado é uma
multiplicação de faculdades medíocres dedicadas à fabricação
de canudos para pessoas medianamente alfabetizadas que encontram um
mercado garantido apenas em virtude do reconhecimento profissional.
Não será surpresa, assim, se novos cursos de “sociologia” e de
“filosofia” passarem a ser oferecidos pelas conhecidas “indústrias
universitárias” apenas como resultado do novo mercado cativo
introduzido por uma legislação irracional e dispensável.
Cria-se,
assim, uma verdadeira reserva de mercado para sociólogos
desempregados e para filósofos em disponibilidade, a um custo
inimaginável para as secretarias estaduais de educação e para as
escolas privadas. Como as carências já detectadas para professores
secundários em física, biologia, matemáticas ou mesmo português
são propriamente astronômicas, imagine-se o que tal medida vai
acarretar em termos de desorganização ainda maior do ciclo médio
de ensino. Isso obviamente não importa para o sindicato dos ideólogos,
perdão, sociólogos, que visa apenas garantir a já referida
reserva de mercado para a formação dos jovens secundaristas na
perspectiva da “escola crítica”. Como já imaginamos o que
possa haver de “crítico” nessa escola, o único resultado possível
será a extensão do marxismo vulgar que já é ensinado em outras
matérias – como geografia e história, quando não em literatura
– para as duas novas debutantes do ensino médio. Quando digo
marxismo vulgar, o sentido é o mais vulgar possível, pois não
conheço mais marxistas universitários ou secundaristas que
verdadeiramente tenham lido Marx-Engels, apenas a vulgata que se
transmite em nome dos dois profetas e seus epígonos. (Parênteses
para os que me pretendem acusar de direitista ou reacionário: como
bom marxista, não religioso, eu li Marx e sei exatamente do que
estou falando, e lamento que muitos dos que se pretendem hoje
seguidores dessa ideologia estejam servindo de correias (inúteis?)
de transmissão para novas formas de fascismo educacional, baseado
numa visão do mundo ultrapassada, justificando autoritarismos e
incentivando confrontos classistas e raciais que já deveriam estar
na lata de lixo da história.)
Numa
apreciação geral, surpreende-me que os “planejadores
educacionais” – supondo-se que eles existam neste país e não só
trabalhem como tenham voz no MEC – não tenham avaliado os custos
e as dificuldades vinculados às obrigatoriedades para os ciclos de
ensino pertinentes. Pergunto-me se as avaliações catastróficas
efetuadas a cada ano quanto à qualidade do ensino no Brasil –
inclusive e principalmente em escala internacional – não ajudaram
ainda os pedagogos oficiais a refletir sobre o que anda errado no
ensino brasileiro e o que poderia ser feito para remediar (já não
digo melhorar radicalmente) esse estado de coisas. É propriamente
estarrecedor constatar que, com tantos problemas já detectados nos
módulos mais elementares de educação – vinculados ao ensino
correto da língua, ao domínio da matemática simples e das noções
mais corriqueiras das ciências físicas e naturais –, os responsáveis
pelo setor se permitam ainda fazer novos experimentos com as crianças
e os jovens, sobrecarregando os currículos com excrescências tão
terríveis como as mencionadas aqui.
É
óbvio que os adeptos dessas “inovações curriculares” julgarão
o que estou dizendo uma demonstração inequívoca de
tradicionalismo, de rejeição à integração ou de aversão ao
“espírito multidisciplinar” envolvido nas novas ideologias
servidas como menu obrigatório nas escolas de todo o país. Pode
ser. Mas apenas porque eles não se colocaram do ponto de vista das
crianças e jovens, ou do simples ponto de vista do reforço da
qualidade educacional nas disciplinas básicas. Quando pretendem fazê-lo,
se equivocam novamente de objetivos e de métodos, como as duas soluções
“milagre” que vêm sendo aventadas ultimamente: a “inclusão
digital”, via laptop de
cem dólares, e o aumento das verbas para educação no orçamento,
de 5% para 7% do PIB.
Duas
pequenas palavras sobre essas propostas. Computador portátil a cem
dólares – que não será conectado e não custará cem dólares
– não é garantia de qualidade de ensino, cuja base é, como
nunca deixou de ser, a boa formação do próprio corpo docente,
algo hoje dificultado pela mentalidade sindical-corporativa da
categoria. A ferramenta – ou seja, o hard
do computador – jamais poderá substituir o soft
do conteúdo ministrado em classe. Quanto à maior participação
dos gastos com educação no PIB, ela não é tampouco garantia de
melhoria: o Brasil já gasta na média da OCDE, mas gasta mal e
administra de forma errada sua distribuição entre os ciclos.
Com
essas três “inovações” nos currículos, apenas posso prever
novos retrocessos na qualidade do ensino oficial (público e
privado) do Brasil. Em outros termos, teremos com elas a garantia
segura de que o país continuará andando para trás nos anos à
nossa frente. Lamentável que isto ocorra, mas trata-se de uma
escolha consciente dos atuais dirigentes dessa área, na mais
completa indiferença da sociedade. O preço a pagar será
certamente alto, em termos de atrasos e novos desvios na formação
de base, na capacitação para o mercado de trabalho e nos ganhos de
produtividade para o sistema econômico do país. De certa forma,
esse preço já começou a ser descontado, sob a forma de
desempenhos cada vez mais desastrosos nos exercícios de avaliação.
Infelizmente, não há nada que salve nossas crianças das opções
desavisadas dos adultos...
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA