II
- O
marxismo-leninismo: entre
a negação
e a afirmação da tradição stalinista
(1)
Durante
o regime militar, a estratégia do partido se fundamentou na
necessidade da conquistas das liberdades democráticas, da ampliação
dos espaços de atuação política. Essa postura se traduzia na
busca incessante de ampliar ao máximo o leque das forças sociais e
políticas contra a ditadura. A contradição
burguesia-proletariado, ou seja, classe contra classe, embora
compreendida como uma questão estrutural, isto é, inerente ao
sistema capitalista, era, nesse período, secundarizada pela luta
democrática.
O
cerne da luta dos trabalhadores era a conquista da democracia. A idéia
era que, superado o regime militar, a questão classista teria um
ambiente político mais favorável para desenvolver-se – que
poderia favorecer o afloramento de outras questões, como por
exemplo, a problemática nacional. Essa política estava inserida no
quadro da teoria etapista.
Em
decorrência, o esforço de manter a política de frente ampla
justificou o apoio ao Colégio Eleitoral e a adesão à Nova República,
sob o comando do Presidente José Sarney. Tratava-se, na análise
comunista, de garantir a governabilidade para evitar os riscos de
retrocesso político – uma ameaça que estaria presente nas
articulações de setores das forças armadas.
No
início de 1987, o PC do B abandonou a política de apoio
crítico ao governo Sarney e passou à oposição. Esta mudança
não significava qualquer ruptura com a concepção etapista, nem
muito menos com a estratégia da frente democrática. Seu VII
Congresso, realizado em maio de 1988, em São Paulo, referendou a
nova tática política, readequando a atuação partidária às
mudanças na conjuntura nacional.
No
plano da estratégia, não houve grandes modificações. O essencial
foi mantido. No informe apresentado por João Amazonas, em nome do
Comitê Central, e aprovado por unanimidade, o combate ao governo
Sarney foi caracterizado como um fator de aproximação e ligação
com as massas populares, que ajudaria a elevar o nível de consciência
do povo.
Em
sua avaliação, o Brasil atravessava uma crise econômica, política,
social e moral, encontrando-se, portanto, diante de uma encruzilhada
histórica. Foi a partir dessa análise que o partido definiu sua tática.
Esta partia da suposição de que as condições objetivas eram
favoráveis ao avanço do movimento revolucionário – resultante
das contradições que se verificavam na sociedade e da crise política
ligada à sucessão presidencial.
Porém,
os fatores subjetivos ainda estariam frágeis – apesar do enorme
descontentamento entre a população e da existência de várias
lutas, principalmente de caráter econômico. Assim, uma das
principais tarefas do partido seria a ativação dos fatores
subjetivos para colocá-los à altura da realidade objetiva. Isto
significaria estabelecer uma tática realista e flexível, que
soubesse aproveitar as contradições e as divergências, mesmo
secundárias, no campo adversário.
A
aplicação desta tática considerava a correlação de forças
entre dois grandes blocos sociais e políticos: o das forças
conservadoras e reacionárias; e, o das forças democráticas e
progressistas. No primeiro caso, estaria a grande burguesia e os
latifundiários aburguesados; no segundo, o proletariado, o
campesinato pobre, boa parte da classe média e as amplas massas
populares. Entre ambos, haveria um centro composto pela burguesia média
e setores de profissões liberais, os quais ora se deslocariam à
direita, ora à esquerda.
Em
suma, a tática do partido visava agrupar as forças democráticas e
progressistas; neutralizar os setores intermediários vacilantes e
inconseqüentes e derrotar o bloco conservador e reacionário,
politicamente predominante. Para isto, o partido se propôs a criar
um vigoroso movimento de massas amplo e combativo, tendo por base a
unidade da classe operária e a união das forças democráticas e
progressistas. No plano imediato essa orientação se traduziu na
palavra de ordem Fora Sarney, Diretas 88!
A
elaboração da estratégia partia da premissa de que “as
transformações capitalistas produzidas no país (...), não
modificaram, no fundamental, a existência de duas etapas
estratégicas da revolução no Brasil”. Conseqüentemente, as
tarefas nacional, democrática, antiimperialistas e antilatifundiárias
se mantinham atuais. Como extensão da luta antiimperialista
acrescentou-se uma terceira tarefa: o combate à antiga burguesia
nacional que, “devido ao processo de concentração e monopolização
do desenvolvimento capitalista no Brasil, transformou-se, em grande
parte, em grande burguesia monopolista aliada ao capital
estrangeiro”. (PCdoB, 1988: 27-28)
Ao
analisar o capitalismo brasileiro, o partido concluiu que este gerou
uma economia heterogênea, convivendo estágios de desenvolvimento
desiguais, mesclando formas de propriedades atrasadas com relações
sociais mais avançadas. Estas transformações, admitiu o PC do
B, provocaram modificações no caráter da primeira etapa e na
relação entre esta e a segunda.
As
tarefas democráticas e nacionais, próprias da primeira etapa, não
mais poderiam se efetivar “nos marcos do sistema capitalista, ou
por governos burgueses”. Para o PC do B, “a sua completa
realização só será possível com um governo democrático-popular
a caminho do socialismo”. Agora estas tarefas se entrelaçam
“com a luta popular e de certo modo anticapitalista (que) atua no
sentido de aproximar as duas etapas da revolução e
facilitar a passagem mais rápida à segunda etapa”. (Id.,
p. 62. Grifos do original)
A
formação do governo democrático-popular e, conseqüentemente, a
realização da primeira etapa, orienta-se por um programa de caráter
nacional, democrático e popular, expressão das forças sociais que
deverão compor o governo. A ligação desse programa estratégico
com a tática se daria pelo estabelecimento de um programa de ação
imediata, pela democracia, pelo progresso e pela independência
nacional.
Com
base nessa compreensão estratégica, o VII Congresso definiu
a política de alianças
adotada nas eleições municipais de 1988 e, sobretudo, nas eleições
presidenciais de 1989. Foi adotada uma orientação tática para
“influir no surgimento de um concorrente democrático e
progressista, capaz de reunir o apoio da esquerda e também do
centro. E que facilite a criação de um amplo e combativo movimento
democrático, nacional e popular”. (PCdoB, 1988: 30)
O
congresso considerou a possibilidade do fracasso dessa tática.
Neste caso, indicou o caminho do lançamento de candidatura própria,
com o objetivo “de fazer propaganda democrática e progressista e
difundir as idéias do socialismo”. No segundo turno, seria
examinado a possibilidade “de alianças políticas contingênciais”.
(Id.)
Na
avaliação do partido, a direita estava com dificuldade de
encontrar um candidato com chances de vitória; o centro se
encontrava enfraquecido com o deslocamento de parte do PMDB para a
direita; e as forças políticas de centro-esquerda, incluindo
Brizola e Lula, estavam divididas – com o primeiro procurando
“ganhar as boas graças dos militares” e o segundo atrás da
“ajuda do empresariado reacionário”. (Id.)
O
VII Congresso reafirmou a caracterização do PT definida no
congresso anterior, ou seja, como “portador e principal força da
social-democracia em fase de implantação no Brasil”. O PT é
criticado por criar “organizações de massa a ele subordinadas,
como é o caso da CUT” e de procurar “controlar e submeter
outras entidades à sua direção”. (Id., pp. 40-41)
Nas
questões essenciais, o PT teria adotado posições “coincidentes
com a direita reacionária”, avalia o PC do B. Um exemplo
seria a rejeição petista ao colégio eleitoral, o voto no
presidencialismo no Congresso Constituinte etc. (Id., p. 42) Não
obstante esta caracterização, o PC do B admitiu que seria
um erro tático combater o PT em bloco e o incluiu entre os possíveis
componentes da frente ampla.
O
congresso fez um balanço do Congresso Constituinte: reconheceu que
este sofrera sérias limitações, que lhe deram uma “conotação
especialmente fraudulenta” e que teria comprometido o caráter da
constituinte livremente eleita pela qual se lutou. O Partido
detectou avanços em questões significativas, mas considerou que não
ocorrera alterações substanciais na estrutura da sociedade
brasileira.
O
partido considerou acertada a luta pela convocação da Assembléia
Constituinte livre e soberana, bem como, a participação no
Congresso Constituinte de 1986, mesmo com suas deformações. Em sua
análise, o episódio serviu para acabar com as ilusões do povo.
O
VII Congresso passou incólume diante das transformações que se
processavam no âmbito internacional. Manteve sua postura histórica
em relação ao movimento comunista internacional: a crítica ao
revisionismo soviético, a defesa de Stalin e do stalinismo
e o alinhamento com a Albânia – considerada o bastião do
socialismo.
A
glasnost e a perestroika foram caracterizadas como uma
“nova versão e nova ofensiva do revisionismo soviético contra o
movimento revolucionário”, cuja idéia central seria a negação
da luta de classes, da revolução e do materialismo histórico. Na
análise do PC do B, Gorbatchov exalta as “leis objetivas
do sistema capitalista”. Se no período anterior havia um
“capitalismo semi-camuflado” na URSS, agora estaria “às escâncaras”.
(Id., p. 170)
Essas
posições foram referendadas pelo novo estatuto, aprovado no
congresso.
Segundo este, os objetivos finais do partido são o “socialismo e
a edificação da sociedade comunista”. Para atingi-los, guia-se
“pela teoria científica elaborada por Marx e Engels e
desenvolvida por Lênin e Stalin”. (sic.) Sua organização
se fundamenta na concepção marxista-leninista, isto é, na
reafirmação do centralismo democrático.
De
acordo com este estatuto, a organização de base do partido (a célula)
pode ser estruturada em nível territorial, por local de trabalho,
moradia ou de estudo e é constituída onde houver três ou mais
membros filiados. Nas entidades de massa e outras frentes de luta, o
partido adota as frações, sob a direção e controle dos comitês
correspondentes.
O
anti-revisionismo do PC do B, isto é, anti-sovietismo,
funcionou como um pára-raios contra a tempestade que varreu o Leste
Europeu e proporcionou uma travessia menos traumática na grande
onda que afundava o socialismo real. Porém, este antídoto
contra a influência burguesa e pequeno-burguesa – como é em
geral caracterizada toda e qualquer crítica passível de minar a
unidade do partido – não resistiu à evolução da realidade.
Se
no plano da nacional tivera que assimilar os desdobramentos da
transição conservadora e mudar a tática – e mesmo ensaiar a
reelaboração da teoria etapista – logo, ele seria pressionado a
reavaliar criticamente as verdades absolutas e unilaterais que
cultivava sob o período stalinista.
As
eleições presidenciais de 1989
Seguindo
as diretrizes do VII Congresso, a Direção Nacional manteve a política
de frente ampla, propondo a união das forças democráticas e
populares, visando a sucessão presidencial e a democracia efetiva.
O programa, base da aglutinação destas forças, propugnava por
“transformações democráticas e progressistas, em sintonia com
as necessidades do progresso social e com as aspirações da imensa
maioria”.
Em
maio o Comitê Central decidiu participar da Frente Brasil
Popular. “O
candidato da Frente Brasil Popular tem grande potencialidade
devido aos seus vínculos com o movimento popular e operário, pelo
programa democrático-popular que defende e pelo fato de unificar a
verdadeira esquerda do país”, avaliou. (A Classe Operária,
31.05.1989)
Ainda
em maio, o PC do B apresentou sua contribuição para a
formulação do programa da FBP. Sua plataforma era de caráter
democrático-popular: pela democratização da vida nacional, a
implementação de reformas estruturais, a defesa dos interesses
nacionais etc. Em sua avaliação, este programa, ainda que não
apontasse “soluções revolucionárias”, deveria ser avançado e
capaz de ajudar na mobilização e conscientização dos
trabalhadores. (ACO, 17.05.1989)
A
defesa deste programa requeria a máxima ampliação da FBP.
Nesta perspectiva, o PC do B, aliado ao PSB,
pressionou pela aceitação de Bisol à vice-presidência na chapa
de Lula. Diante da ameaça de ruptura da FBP, a cúpula petista
majoritariamente decidiu aceitar a composição Lula-Bisol.
Exultante, a II Convenção Nacional do PC do B, realizada em
julho, reafirmou, por unanimidade, seu compromisso com a FBP.
A
implantação do governo democrático e popular ganhou contornos
estratégicos. No entanto, o partido alertou para os limites deste
projeto político. Rabelo, membro da executiva nacional do PC do
B e da coordenação FBP, considerou que esta limitação
era determinada pela realidade brasileira. Para ele, deveria se
levar em conta que o êxito eleitoral das forças populares e democráticas
e a subseqüente configuração de um governo de base popular
encontraria profunda resistência impingida pela forças políticas
conservadoras. Isto impediria a plena aplicação do programa
proposto. (RABELO, 20.09.1989, p. 9)
Assim,
de um ponto de vista marxista – expressado por Rabelo –
tornar-se-ia necessário ir além da vitória eleitoral, ou seja,
que as forças democráticas e populares tomassem o poder político.
Isto pressupunha uma “mudança qualitativa” profunda, “uma
revolução”. (Id.)
Mesmo
pregando a unidade das forças democráticas e populares, o PC do
B não poupou críticas à candidatura de Leonel Brizola,
comparado a outros candidatos como Mário Covas, Afif, Caiado,
Fernando Collor etc. Todos estariam comprometidos com os grandes
capitalistas, as multinacionais e os senhores da terra. Já o
candidato do PCB estaria realizando um “papel diversionista,
de suma necessidade para a burguesia” e, com isso, encenando “a
farsa da divisão das forças de esquerda”. (RABELO, 06.09.1989,
p. 7)
Após
a derrota da candidatura Lula, o PC do B reafirmou a
necessidade da unidade popular. Diante do governo Collor e do seu
projeto neoliberal, o partido se dirigiu a todas as forças democráticas
no sentido de criar um movimento democrático de oposição “capaz
de barrar a marcha, antipovo e antinacional do governo Collor e
gerar condições favoráveis às mudanças de fundo que o país
reclama”. (CC PCdoB, 22.02.1990, p. 5)
Esta
política se expressaria em coligações partidárias diferenciadas
e até mesmo conflitantes, nas eleições de 1990.
Tratava-se de conquistar uma forte e numerosa bancada parlamentar no
Congresso Nacional e nas Assembléias Legislativas e de garantir a
vitória dos candidatos progressistas e democráticos nos diversos
Estados da federação.
[continua]