Educação
ambiental no período noturno em Curitiba (PR): estudo de caso no
Colégio Estadual Professor Guido Straube
1.
Introdução
Considerada
atualmente como a “capital ecológica” brasileira, a cidade de
Curitiba tem evoluído sobremaneira nos aspectos relativos ao
estabelecimento de uma relação homem-ambiente saudável. Para
Menezes (1996), um dos pontos de sustentação na organização
desse reconhecimento se deu devido à institucionalização da educação
ambiental.
A
educação ambiental orienta para proposições pedagógicas tendo
como cernes a mudança de comportamento, a participação dos
educandos, o desenvolvimento de competências e a capacidade de
avaliação (REIGOTA, 1998). Através de meios efetivos, a escola
deve preparar o aluno para que o mesmo possa compreender os fenômenos
naturais, as ações antrópicas e suas conseqüências para o
ambiente.
O
início do processo de sensibilização a esse campo educativo tem
como marco a Conferência Intergovernamental sobre educação
ambiental realizada em Tsibilisi, Geórgia, em 1977, embora já em
1972, na primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Humano, realizada em Estocolmo, na Suécia, importantes iniciativas
voltadas à educação ambiental adquiriram alcance prático
internacional. A interdisciplinaridade aparece, a partir desse
momento, como importante método à valorização do conhecimento da
natureza e como norteadora à produção do conhecimento ambiental.
No
Brasil, a educação ambiental passou a ser institucionalizada através
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), lançados pelo
Ministério da Educação, orientando a abordagem de forma sistemática
e transversal, em todos os níveis de ensino (BRASIL, 1997) e pela
Lei nº 9.795 (BRASIL, 1999) que instituiu a Política Nacional de
Educação Ambiental, ambos os documentos evidenciam a importância
da interdisciplinaridade no processo da formação do conhecimento.
A
promoção de um enfoque interdisciplinar que resgate e construa
saberes e o estímulo à uma observação global e crítica em relação
às questões ambientais, de um lado, e o desenvolvimento de valores
e comportamentos, de outro, são os principais desafios enfrentados
pelos educadores ambientais (SORRENTINO, 1998).
Segundo
Dias (2002), as promoções ocasionadas por um programa de educação
ambiental efetivo são, concomitantemente, o desenvolvimento do
conhecimento, de atitudes e de habilidades necessárias à preservação
e melhoria da qualidade ambiental.
A
educação ambiental ainda precisa ser mais experimentada,
refletida, discutida, estudada e analisada para que possa favorecer
uma participação responsável no exercício de cidadania. Nesse
sentido, este trabalho tem como objetivo analisar como professores e
alunos do ensino médio noturno do Colégio Estadual Professor Guido
Straube compreendem e praticam a educação ambiental.
2.
Procedimentos metodológicos
A
pesquisa foi realizada no Colégio Estadual Professor Guido Straube,
Curitiba/PR, de março a setembro de 2004.
Inicialmente foi realizado um levantamento
bibliográfico sobre a temática, buscando o aprofundamento teórico
e melhor compreensão das questões ambientais, onde foi possível
identificar papéis legais que norteavam a aplicabilidade do tema
nos diferentes âmbitos da sociedade, servindo de base para a
construção do questionário aplicado em sala.
Os
PCN’s, as diretrizes
da Política Nacional de Ensino Ambiental
e o Projeto Político Pedagógico, guardando suas devidas escalas de
ação, foram os documentos que melhor se encaixaram com a proposta
desse trabalho. Uma análise cuidadosa do Projeto Político Pedagógico
do Colégio foi imprescindível para que se tivesse uma percepção
do direcionamento dado para as questões ambientais no âmbito da
instituição em questão.
No
período de 13 a 17 de setembro foi realizada a aplicação de questionário
para os professores e alunos do ensino médio do turno noturno. A
escolha do colégio e do turno em questão se deu, respectivamente,
devido à localização geográfica, por estar em um bairro nobre da
capital paranaense, e por abarcar um público diferenciado em relação
às pesquisas em educação ambiental, ou seja, discentes adultos.
O
questionário foi aplicado a todos os alunos e professores presentes
nas classes do primeiro, segundo e
terceiro ano do ensino médio durante o período da pesquisa, sendo
composto de questões objetivas e subjetivas, dez questões o dos
alunos e dezessete o dos professores. Os resultados foram
organizados, tabulados e analisados.
3.
Resultados e discussões
A
abordagem por questionário atingiu o universo de cinqüenta e seis
indivíduos, sendo oito professores e quarenta e oito alunos. Há de
se ressaltar que o quadro docente noturno do Colégio Estadual Guido
Straube é composto por dez
professores, dos quais dois se recusaram a responder o questionário,
e um dos que responderam também exerce o cargo de diretora no mesmo
colégio e turno em questão.
A
análise dos dados obtidos junto aos professores mostrou uma
distribuição regular ao que tange o sexo, 50% para ambos. A
maioria do quadro de professores possui idade acima dos quarenta
anos, 87,5%; mesmo percentual de docentes com mais de doze anos de
atuação, o que demonstra a elevada experiência destes na docência.
No
quesito formação acadêmica, 100% dos professores possuem graduação,
destes, 25% contam também com especialização e somente um
professor, 12,5%, o título de mestre. Os benefícios provenientes
dos anos de prática e formação compatível podem ser
“mascarados” negativamente devido à grande carga horária de
trabalho, pois 75% lecionam também no turno matutino e/ou
vespertino, e pelo fato de que nem todos os docentes lecionam as
disciplinas de sua formação acadêmica.
Após
um conhecimento da composição social, o questionário se pautou em
focar tópicos de domínio ambiental. Um número expressivo de
educadores, 87,5%, entende que as questões ambientais são muito
importantes na formação do aluno, entretanto, a maioria dos
professores não aplicam ou mesmo desconhecem publicações básicas
e fundamentais para a prática da educação ambiental. O mesmo
percentual desconhece a Agenda 21, ao passo que apenas um,
correspondente a 12,5%, conhece e utiliza este documento sempre que
julga necessário. Já a Agenda 21 brasileira e o Estatuto da Cidade
de Curitiba são incógnitos para todos os professores.
Na
prática, esses dados são confirmados, pois nenhum professor
afirmou participar de audiência pública para discutir o EIA-RIMA
(Estudo de Impacto ambiental e Relatório de Impacto Ambiental) à
implantação de algum empreendimento em sua cidade e/ou comunidade.
A
Lei n.º 9795/99, que dispõe sobre a Política Nacional de Educação
Ambiental, é conhecida, integral ou parcialmente, por metade dos
docentes, mesmo quantitativo que desconhece totalmente, ou não
conhece na íntegra. Esse fato pode significar que discussões tão
importantes que ocorrem em escala local não estão chegando às
escolas. Os próprios professores sentem-se pouco preparados (62,5%)
ou mesmo (37,5%) não tiveram oportunidade de aprofundar a discussão
na temática ambiental em sua formação.
Apesar
desse cenário, os professores possuem visão próspera,
reconhecendo que está na educação as soluções dos problemas
ambientais, sendo que para 75% todas as disciplinas deveriam
trabalhar a temática e para 25% somente Geografia e Biologia. Além
da educação, foram citadas a política, a tecnologia, e as ações
sócio-culturais como outras formas que contribuiriam para
equacionar tais problemas.
Outro
retorno positivo na análise prospectiva da educação ambiental no
Colégio Estadual Professor Guido Straube foram as respostas
indicadas aos objetivos a serem cumpridos na educação ambiental,
questão de múltipla escolha, onde 87,5% dos professores afirmaram
ser o aumento da consciência da população em relação à
preservação/conservação da natureza e 37% apontaram para a
resolução dos problemas de contaminação e de poluição da
Terra, a contribuição para o desenvolvimento de uma sociedade
sustentável e mais justa socialmente, ou o aumento da participação
social nas decisões políticas sobre o espaço vivido.
Ainda
são poucos os professores que acreditam ou compreendem que a
participação nas decisões de nossa cidade, da nossa comunidade,
ou nosso bairro, podem de fato influenciar as decisões políticas e
os rumos das questões ambientais, que estão diretamente ligadas à
qualidade de vida.
Fica
claro que a formação profissional dos professores não ofereceu ou
não oferece subsídios para que o processo de ensino e aprendizagem
se concretize através da educação. Vale reforçar que nenhum dos
profissionais entrevistados afirmou se sentir bem preparado para
abordar temas referentes à questões ambientais.
O
questionário aplicado aos alunos indicou que 50% destes cursam o
terceiro ano, única série com duas turmas, 33,4% o primeiro ano e
16,6% o segundo ano. Do total, 54,17% pertencem ao sexo feminino e
45,83% ao sexo masculino. A maioria dos alunos (70,83%) possuem
idade que varia entre os quinze e vinte anos, 22,92% estão entre
vinte a vinte e cinco anos, e apenas 4,17% estão entre os vinte e
cinco e trinta anos, enquanto que o percentual remanescente, 2,08%,
estão em idade acima de trinta anos.
O
estudo no período noturno constitui uma dificuldade extra ao
aprendizado, pois, via de regra, os alunos costumam exercer outras
atividades durante o dia. No Colégio
Estadual Professor Guido Straube, apesar da baixa média de idade, 62,5%
trabalham durante o dia e 37,5% somente estudam, alguns desses
estando desempregados.
Convergindo
com as informações obtidas através do questionário aplicado ao
corpo docente, o baixo nível de aproximação com as temáticas
ambientais é confirmado nas respostas do alunado. 100% dos
discentes não conhecem a Agenda 21, destes 2% “já ouviu
falar”, todavia desconhecem o conteúdo. A lei sobre a Política
Nacional de Educação Ambiental é desconhecida por grande parte
dos alunos, 93,75%, os que conhecem, 6,25%, não obtiveram tal
informação no colégio.
Os
mesmos percentuais se repetem quando solicitadas informações sobre
três ações ligadas à temática ambiental que tenham sido
desenvolvidas na escola, a grande maioria, 93,75%, não preencheu os
dados pedidos, argumentando que o colégio não desenvolve tais ações
ou nunca souberam de projetos ligados à temática ambiental
desenvolvidos no colégio.
A
participação em projetos do colégio ligados à educação
ambiental foi confirmada por apenas um aluno. Apesar de metade dos
alunos afirmarem que já participaram de visitas técnicas, 97,91% não
participam de nenhum projeto do colégio ligado à educação
ambiental.
A
ligação efetiva ou não do aluno a assuntos relacionados a essa
temática, pode impedir que os mesmos notem a importância das questões
ambientais na formação do cidadão. 12,5% confirmaram não saber o
valor do aprendizado no assunto, pois não são motivados a estudar
com esse enfoque. Outros 4,17%, mesmo identificando a abordagem em
sala, não o consideram importante, ao passo que 27,08% reconhecem
tal explanação e sua importância, e 56,25%, mesmo admitindo a ausência
do conteúdo ambiental, reconhecem a sua importância.
Quando
cruzadas as informações obtidas através do corpo docente com a
dos discentes, o processo causa-efeito de algumas categorias de análise
fica evidente. O ensino noturno possui um cotidiano de características
singulares, pois recebe um alunado que, em sua grande maioria, chega
à escola após uma jornada de trabalho (GONÇAVES, 2005). No Colégio
Estadual Professor Guido Straube este fato evidenciou-se não
somente entre os alunos, mas também sobre o educador.
O
tempo diário de trabalho exercido pela maioria dos professores pode ser o principal complicador de desempenho não só para
a educação ambiental, mas a todo currículo do ensino regular.
Esse
fato pode explicar o desconhecimento de documentos importantes de
cunho ambiental por parte dos educadores, pois os mesmos não
tiveram oportunidade ou tempo, de aprofundar a discussão sobre a
temática, reafirmando a autocrítica quanto à falta de preparo
para abordagem nessa questão.
O
reflexo do despreparo dos professores incide diretamente sobre os
alunos. A Agenda 21 pode ser tomada como exemplo dessa convergência
desanimadora, o documento desconhecido pela maioria dos professores,
é também desconhecido por todas as turmas em análise, ou seja, já
que os educadores não conhecem as noções, conseqüentemente não
as aplicam, legando aos alunos a ausência da prática/teórica na
formação em educação ambiental.
Um
outro elemento que pode ter contribuído para a impossibilidade da
prática docente em educação ambiental está baseada no
estabelecimento e prática do Projeto Político Pedagógico, visto
que, esse documento em nenhum momento aborda a educação ambiental,
seja na concepção filosófica, nos fundamentos epistemológicos e
princípios pedagógicos, ou mesmo na concepção de educação,
adotados no colégio.
4.
Considerações finais
Não
há prática de educação ambiental no ensino médio noturno do Colégio
Estadual Professor Guido Straube. Tanto professores quanto alunos não
participam de nenhuma atividade nesse campo de aprendizado. A produção
de conhecimento em meio ambiente é restrito às disciplinas
“tradicionais” desse segmento, Geografia e Biologia, o que
contrapõe as propostas metodológicas em educação ambiental,
devendo essa ser aplicada de forma transversal e interdisciplinar.
Ficou
evidenciado que tanto alunos quanto professores compreendem
superficialmente as questões ambientais. Esse quadro causa uma
divergência ao que sugerem os PCN’s, as diretrizes da Política
Nacional de Ensino Ambiental e demais documentos legais em educação
ambiental.
O
período noturno do Colégio Estadual Professor Guido Straube
precisa passar por todo processo já iniciado há décadas por
outras instituições de ensino se realmente pretende proporcionar
ao aluno condições e atividades que permitam a ele construir
permanentemente seu próprio conhecimento em um processo de interação
social, como cita em seu Projeto Político Pedagógico. A vantagem
dessa situação está na quantidade de trabalhos, discussões,
exemplos e modelos disponíveis atualmente nessa área educacional.
A
construção de um novo Projeto Político Pedagógico e a capacitação
profissional dos professores faz-se necessário. O investimento na
atualização do corpo docente poderá ajudar sobremaneira na
construção de um eventual Projeto Político Pedagógico,
contribuindo à inserção da temática ambiental nesse documento,
com a participação dos professores, alunos e da comunidade.
Novos
questionamentos surgem com a conclusão desse trabalho, tais como:
é possível uma prática em educação ambiental no período
noturno? Como se deve praticar educação ambiental aos alunos desse
turno? Qual a situação da educação ambiental do período noturno
em colégios particulares? Como aplicar a educação ambiental aos
alunos do período noturno, já que as dificuldades são bem
características para alunos e professores desse turno? Todavia os
embates a esses questionamentos devem ser feitos com a produção de
trabalhos correlatos, para que seja possível a comparação das
realidades e o conseqüente embasamento às reflexões e debates a
futuros.
Referências
bibliográficas
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Lei Federal Nº 9.795, de
27 de abril de 1999: Dispõe sobre a educação ambiental, institui
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Marcos. De Tbilisi a Tessaloniki, a educação ambiental no Brasil.
In: JACOBI, Pedro et al. (orgs.). Educação,
meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São
Paulo: SMA. 1998.
por
EDELVIRA PEREIRA DA
SILVA & PATRICK
THOMAZ DE AQUINO MARTINS