por EDELVIRA PEREIRA DA SILVA * & PATRICK THOMAZ DE AQUINO MARTINS**

 

* Graduada em Pedagogia pela Universidade Tuiutí do Paraná (UTP), Curitiba (PR)

 

** Mestrando em Geografia, Universidade Federal de Sergipe – UFS, Núcleo de Pós-Graduação em Geografia – NPGEO

 

Educação ambiental no período noturno em Curitiba (PR): estudo de caso no Colégio Estadual Professor Guido Straube[1]

 

Ônibus biarticulado e estação-tubo na praça Rui Barbosa, em Curitiba (fonte: www.curitiba-parana.net/)1. Introdução

Considerada atualmente como a “capital ecológica” brasileira, a cidade de Curitiba tem evoluído sobremaneira nos aspectos relativos ao estabelecimento de uma relação homem-ambiente saudável. Para Menezes (1996), um dos pontos de sustentação na organização desse reconhecimento se deu devido à institucionalização da educação ambiental.

A educação ambiental orienta para proposições pedagógicas tendo como cernes a mudança de comportamento, a participação dos educandos, o desenvolvimento de competências e a capacidade de avaliação (REIGOTA, 1998). Através de meios efetivos, a escola deve preparar o aluno para que o mesmo possa compreender os fenômenos naturais, as ações antrópicas e suas conseqüências para o ambiente.

O início do processo de sensibilização a esse campo educativo tem como marco a Conferência Intergovernamental sobre educação ambiental realizada em Tsibilisi, Geórgia, em 1977, embora já em 1972, na primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Humano, realizada em Estocolmo, na Suécia, importantes iniciativas voltadas à educação ambiental adquiriram alcance prático internacional. A interdisciplinaridade aparece, a partir desse momento, como importante método à valorização do conhecimento da natureza e como norteadora à produção do conhecimento ambiental.

No Brasil, a educação ambiental passou a ser institucionalizada através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), lançados pelo Ministério da Educação, orientando a abordagem de forma sistemática e transversal, em todos os níveis de ensino (BRASIL, 1997) e pela Lei nº 9.795 (BRASIL, 1999) que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental, ambos os documentos evidenciam a importância da interdisciplinaridade no processo da formação do conhecimento.

A promoção de um enfoque interdisciplinar que resgate e construa saberes e o estímulo à uma observação global e crítica em relação às questões ambientais, de um lado, e o desenvolvimento de valores e comportamentos, de outro, são os principais desafios enfrentados pelos educadores ambientais (SORRENTINO, 1998).

Segundo Dias (2002), as promoções ocasionadas por um programa de educação ambiental efetivo são, concomitantemente, o desenvolvimento do conhecimento, de atitudes e de habilidades necessárias à preservação e melhoria da qualidade ambiental.

A educação ambiental ainda precisa ser mais experimentada, refletida, discutida, estudada e analisada para que possa favorecer uma participação responsável no exercício de cidadania. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo analisar como professores e alunos do ensino médio noturno do Colégio Estadual Professor Guido Straube compreendem e praticam a educação ambiental.

2. Procedimentos metodológicos

A pesquisa foi realizada no Colégio Estadual Professor Guido Straube, Curitiba/PR, de março a setembro de 2004. Inicialmente foi realizado um levantamento bibliográfico sobre a temática, buscando o aprofundamento teórico e melhor compreensão das questões ambientais, onde foi possível identificar papéis legais que norteavam a aplicabilidade do tema nos diferentes âmbitos da sociedade, servindo de base para a construção do questionário aplicado em sala.

Os PCN’s, as diretrizes da Política Nacional de Ensino Ambiental e o Projeto Político Pedagógico, guardando suas devidas escalas de ação, foram os documentos que melhor se encaixaram com a proposta desse trabalho. Uma análise cuidadosa do Projeto Político Pedagógico do Colégio foi imprescindível para que se tivesse uma percepção do direcionamento dado para as questões ambientais no âmbito da instituição em questão.

No período de 13 a 17 de setembro foi realizada a aplicação de questionário para os professores e alunos do ensino médio do turno noturno. A escolha do colégio e do turno em questão se deu, respectivamente, devido à localização geográfica, por estar em um bairro nobre da capital paranaense, e por abarcar um público diferenciado em relação às pesquisas em educação ambiental, ou seja, discentes adultos.

O questionário foi aplicado a todos os alunos e professores presentes nas classes do primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio durante o período da pesquisa, sendo composto de questões objetivas e subjetivas, dez questões o dos alunos e dezessete o dos professores. Os resultados foram organizados, tabulados e analisados.

3. Resultados e discussões

A abordagem por questionário atingiu o universo de cinqüenta e seis indivíduos, sendo oito professores e quarenta e oito alunos. Há de se ressaltar que o quadro docente noturno do Colégio Estadual Guido Straube é composto por dez professores, dos quais dois se recusaram a responder o questionário, e um dos que responderam também exerce o cargo de diretora no mesmo colégio e turno em questão.

A análise dos dados obtidos junto aos professores mostrou uma distribuição regular ao que tange o sexo, 50% para ambos. A maioria do quadro de professores possui idade acima dos quarenta anos, 87,5%; mesmo percentual de docentes com mais de doze anos de atuação, o que demonstra a elevada experiência destes na docência.

No quesito formação acadêmica, 100% dos professores possuem graduação, destes, 25% contam também com especialização e somente um professor, 12,5%, o título de mestre. Os benefícios provenientes dos anos de prática e formação compatível podem ser “mascarados” negativamente devido à grande carga horária de trabalho, pois 75% lecionam também no turno matutino e/ou vespertino, e pelo fato de que nem todos os docentes lecionam as disciplinas de sua formação acadêmica.

Após um conhecimento da composição social, o questionário se pautou em focar tópicos de domínio ambiental. Um número expressivo de educadores, 87,5%, entende que as questões ambientais são muito importantes na formação do aluno, entretanto, a maioria dos professores não aplicam ou mesmo desconhecem publicações básicas e fundamentais para a prática da educação ambiental. O mesmo percentual desconhece a Agenda 21, ao passo que apenas um, correspondente a 12,5%, conhece e utiliza este documento sempre que julga necessário. Já a Agenda 21 brasileira e o Estatuto da Cidade de Curitiba são incógnitos para todos os professores.

Na prática, esses dados são confirmados, pois nenhum professor afirmou participar de audiência pública para discutir o EIA-RIMA (Estudo de Impacto ambiental e Relatório de Impacto Ambiental) à implantação de algum empreendimento em sua cidade e/ou comunidade.

A Lei n.º 9795/99, que dispõe sobre a Política Nacional de Educação Ambiental, é conhecida, integral ou parcialmente, por metade dos docentes, mesmo quantitativo que desconhece totalmente, ou não conhece na íntegra. Esse fato pode significar que discussões tão importantes que ocorrem em escala local não estão chegando às escolas. Os próprios professores sentem-se pouco preparados (62,5%) ou mesmo (37,5%) não tiveram oportunidade de aprofundar a discussão na temática ambiental em sua formação.

Apesar desse cenário, os professores possuem visão próspera, reconhecendo que está na educação as soluções dos problemas ambientais, sendo que para 75% todas as disciplinas deveriam trabalhar a temática e para 25% somente Geografia e Biologia. Além da educação, foram citadas a política, a tecnologia, e as ações sócio-culturais como outras formas que contribuiriam para equacionar tais problemas.

Outro retorno positivo na análise prospectiva da educação ambiental no Colégio Estadual Professor Guido Straube foram as respostas indicadas aos objetivos a serem cumpridos na educação ambiental, questão de múltipla escolha, onde 87,5% dos professores afirmaram ser o aumento da consciência da população em relação à preservação/conservação da natureza e 37% apontaram para a resolução dos problemas de contaminação e de poluição da Terra, a contribuição para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável e mais justa socialmente, ou o aumento da participação social nas decisões políticas sobre o espaço vivido.

Ainda são poucos os professores que acreditam ou compreendem que a participação nas decisões de nossa cidade, da nossa comunidade, ou nosso bairro, podem de fato influenciar as decisões políticas e os rumos das questões ambientais, que estão diretamente ligadas à qualidade de vida.

Fica claro que a formação profissional dos professores não ofereceu ou não oferece subsídios para que o processo de ensino e aprendizagem se concretize através da educação. Vale reforçar que nenhum dos profissionais entrevistados afirmou se sentir bem preparado para abordar temas referentes à questões ambientais.

O questionário aplicado aos alunos indicou que 50% destes cursam o terceiro ano, única série com duas turmas, 33,4% o primeiro ano e 16,6% o segundo ano. Do total, 54,17% pertencem ao sexo feminino e 45,83% ao sexo masculino. A maioria dos alunos (70,83%) possuem idade que varia entre os quinze e vinte anos, 22,92% estão entre vinte a vinte e cinco anos, e apenas 4,17% estão entre os vinte e cinco e trinta anos, enquanto que o percentual remanescente, 2,08%, estão em idade acima de trinta anos.

O estudo no período noturno constitui uma dificuldade extra ao aprendizado, pois, via de regra, os alunos costumam exercer outras atividades durante o dia. No Colégio Estadual Professor Guido Straube, apesar da baixa média de idade, 62,5% trabalham durante o dia e 37,5% somente estudam, alguns desses estando desempregados.

Convergindo com as informações obtidas através do questionário aplicado ao corpo docente, o baixo nível de aproximação com as temáticas ambientais é confirmado nas respostas do alunado. 100% dos discentes não conhecem a Agenda 21, destes 2% “já ouviu falar”, todavia desconhecem o conteúdo. A lei sobre a Política Nacional de Educação Ambiental é desconhecida por grande parte dos alunos, 93,75%, os que conhecem, 6,25%, não obtiveram tal informação no colégio.

Os mesmos percentuais se repetem quando solicitadas informações sobre três ações ligadas à temática ambiental que tenham sido desenvolvidas na escola, a grande maioria, 93,75%, não preencheu os dados pedidos, argumentando que o colégio não desenvolve tais ações ou nunca souberam de projetos ligados à temática ambiental desenvolvidos no colégio.

A participação em projetos do colégio ligados à educação ambiental foi confirmada por apenas um aluno. Apesar de metade dos alunos afirmarem que já participaram de visitas técnicas, 97,91% não participam de nenhum projeto do colégio ligado à educação ambiental.

A ligação efetiva ou não do aluno a assuntos relacionados a essa temática, pode impedir que os mesmos notem a importância das questões ambientais na formação do cidadão. 12,5% confirmaram não saber o valor do aprendizado no assunto, pois não são motivados a estudar com esse enfoque. Outros 4,17%, mesmo identificando a abordagem em sala, não o consideram importante, ao passo que 27,08% reconhecem tal explanação e sua importância, e 56,25%, mesmo admitindo a ausência do conteúdo ambiental, reconhecem a sua importância.

Quando cruzadas as informações obtidas através do corpo docente com a dos discentes, o processo causa-efeito de algumas categorias de análise fica evidente. O ensino noturno possui um cotidiano de características singulares, pois recebe um alunado que, em sua grande maioria, chega à escola após uma jornada de trabalho (GONÇAVES, 2005). No Colégio Estadual Professor Guido Straube este fato evidenciou-se não somente entre os alunos, mas também sobre o educador.

O tempo diário de trabalho exercido pela maioria dos professores  pode ser o principal complicador de desempenho não só para a educação ambiental, mas a todo currículo do ensino regular.

Esse fato pode explicar o desconhecimento de documentos importantes de cunho ambiental por parte dos educadores, pois os mesmos não tiveram oportunidade ou tempo, de aprofundar a discussão sobre a temática, reafirmando a autocrítica quanto à falta de preparo para abordagem nessa questão.

O reflexo do despreparo dos professores incide diretamente sobre os alunos. A Agenda 21 pode ser tomada como exemplo dessa convergência desanimadora, o documento desconhecido pela maioria dos professores, é também desconhecido por todas as turmas em análise, ou seja, já que os educadores não conhecem as noções, conseqüentemente não as aplicam, legando aos alunos a ausência da prática/teórica na formação em educação ambiental.

Um outro elemento que pode ter contribuído para a impossibilidade da prática docente em educação ambiental está baseada no estabelecimento e prática do Projeto Político Pedagógico, visto que, esse documento em nenhum momento aborda a educação ambiental, seja na concepção filosófica, nos fundamentos epistemológicos e princípios pedagógicos, ou mesmo na concepção de educação, adotados no colégio.

4. Considerações finais

Não há prática de educação ambiental no ensino médio noturno do Colégio Estadual Professor Guido Straube. Tanto professores quanto alunos não participam de nenhuma atividade nesse campo de aprendizado. A produção de conhecimento em meio ambiente é restrito às disciplinas “tradicionais” desse segmento, Geografia e Biologia, o que contrapõe as propostas metodológicas em educação ambiental, devendo essa ser aplicada de forma transversal e interdisciplinar.

Ficou evidenciado que tanto alunos quanto professores compreendem superficialmente as questões ambientais. Esse quadro causa uma divergência ao que sugerem os PCN’s, as diretrizes da Política Nacional de Ensino Ambiental e demais documentos legais em educação ambiental.

O período noturno do Colégio Estadual Professor Guido Straube precisa passar por todo processo já iniciado há décadas por outras instituições de ensino se realmente pretende proporcionar ao aluno condições e atividades que permitam a ele construir permanentemente seu próprio conhecimento em um processo de interação social, como cita em seu Projeto Político Pedagógico. A vantagem dessa situação está na quantidade de trabalhos, discussões, exemplos e modelos disponíveis atualmente nessa área educacional.

A construção de um novo Projeto Político Pedagógico e a capacitação profissional dos professores faz-se necessário. O investimento na atualização do corpo docente poderá ajudar sobremaneira na construção de um eventual Projeto Político Pedagógico, contribuindo à inserção da temática ambiental nesse documento, com a participação dos professores, alunos e da comunidade.

Novos questionamentos surgem com a conclusão desse trabalho, tais como: é possível uma prática em educação ambiental no período noturno? Como se deve praticar educação ambiental aos alunos desse turno? Qual a situação da educação ambiental do período noturno em colégios particulares? Como aplicar a educação ambiental aos alunos do período noturno, já que as dificuldades são bem características para alunos e professores desse turno? Todavia os embates a esses questionamentos devem ser feitos com a produção de trabalhos correlatos, para que seja possível a comparação das realidades e o conseqüente embasamento às reflexões e debates a futuros.

 

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei Federal Nº 9.795, de 27 de abril de 1999: Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9795.htm>. Acesso em 19 out. 2006.

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC, 1997

DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 1992.

GONCALVES, Lia Rodrigues; PASSOS, Sara Rozinda Martins Moura Sá dos; PASSOS, Álvaro Mariano dos. Novos rumos para o ensino médio noturno: como e por que fazer? Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, vol. 13, no. 48, p.345-360, jul./set. 2005.

MENEZES, Cláudio Luiz. Desenvolvimento urbano e meio ambiente: a experiência de Curitiba. Campinas: Papirus, 1996.

REIGOTA, Marcos. Desafios à educação ambiental escolar. In: JACOBI, Pedro et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São Paulo: SMA, 1998.

SORRENTINO, Marcos. De Tbilisi a Tessaloniki, a educação ambiental no Brasil. In: JACOBI, Pedro et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São Paulo: SMA. 1998.

 

por EDELVIRA PEREIRA DA SILVA & PATRICK THOMAZ DE AQUINO MARTINS

 

[1] À Profª Drª Maria Eugênia Bruck de Moraes e a Profª Fátima Nascimento Santos pela leitura crítica do manuscrito. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de bolsa de Mestrado ao segundo autor

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