Meus
50 anos: “Tempus Fugit”
Cheguei
aos 50 anos. É meio século. Embora os índices do Japão,
Alemanha, EUA, e até do Brasil, estão cada vez mais otimistas (média
de vida = acima de 70 anos), provavelmente, daqui pra frente, irei
descer a serra da vida.
“Aos
50 tenho consciência de que quase todo mundo é mais moço que
eu”, diz o personagem do livro de Gabriel García Márquez,
ao completar 90 anos.
“Sinto-me
como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As
primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas,
rói o caroço”.
Tal como um e-mail que recebi de um anônimo, também eu acho que já
não tenho tempo para
lidar com ignorâncias gratuitas e mediocridades vestidas com um
pomposo título acadêmico.
Não
quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados transpirando
sadismo com um verniz de polidez. Não suporto gabolices.
Inquieto-me com invejosos cujo propósito é destruir os que merecem
nossa admiração e respeito.
Não
quero ver os ponteiros do relógio avançando em encontros de
faz-de-conta, geradores de ressentimentos e falsidades.
“Detesto
fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário do coral”. Mário de Andrade afirmava que "as
pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
Aviso
aos utopistas: já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, únicos,
que pretendem transformar radicalmente o mundo por meio de revoluções.
Não participarei de conferências, reuniões e movimentos
fundamentalistas que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria
do mundo. Continuo pertencendo a uma ‘certa’ esquerda que se
pauta pela liberdade de expressão e pela democracia; portanto, não
darei ouvidos ao canto de sereia do autoritarismo, que,
infelizmente, tem sido a tradição desse lado da política.
Embora
não mais acredite em revoluções e profecias auto-realizadoras,
tenho o dever de sustentar a esperança, para além de todos os
‘ismos’ ideológicos. Não sou partidário do niilismo. Dum
spiro, spero [“enquanto respirar não perco as esperanças”],
diz o provérbio latino.
Já
não tenho tempo para conviver com pessoas pouco razoáveis,
principalmente, quando são arrebatadas pelo enceguecimento histérico
de uma causa política ou religiosa, e facilmente perdem o
auto-controle.
Meu
tempo tornou-se escasso para debater com ressentidos cujo discurso
falta consistência.
Sem
muitas jabuticabas na bacia, quero viver – e aprender – ao lado
de gente comprometida mais com sabedoria
para a vida prática do que com um conhecimento
abstrato; quero conviver com gente pautada mais pela razoabilidade
do que pela racionalidade;
quero aprender com gente que sabe rir de seus tropeços, fazer
autocrítica dos erros, que não se encanta com triunfos, e não se
considera eleita para a "última hora"; gente que não
foge de sua mortalidade, que defende a dignidade da vida, a sobrevivência
do nosso planeta, que deseja andar humildemente respirando a poluição
das cidades ou o ar puro do campo quando for passear.
Daqui
pra frente, evitarei, especialmente, os chatos que não sabem ouvir,
nem conversar e conviver com as diferenças demasiadamente humanas.
“O chato pressupõe que tudo que tem a declarar é do máximo
valor para o outro”; ele funciona como um
“vampiro da nossa paciência”, nos alertava Machado de
Assis. Tenho horror a dois tipos de chatos: o ressentido e o fanático.
Incapaz de fazer autocrítica, o “ressentido” acha que a culpa
de seus fracassos é sempre dos
outros – das pessoas ou do sistema. Daí a repetição chata de
suas queixas, obviamente, ressentidas. Os “fanáticos” made
in seitas religiosas ou políticas são chatos mais perigosos
porque almejam a redenção da humanidade ‘em nome de Deus’, do
“seu Deus”, ou de uma ‘grande teoria’ supostamente ‘científica’
e salvadora. Como tais seitas geralmente elegem "um grande líder”,
pretendo não engrossar o rebanho que cultua personalidades, não
importa se à direita ou à esquerda.
Pretendo
curtir a vida com as pessoas que sabem valorizar os “instantes”,
conforme orienta o poema de Nadine Stair e atribuído a J. L.
Borges. Continuarei lendo os clássicos da filosofia e da
literatura, com prazer, sem ligar para as pressões tecnocráticas e
canônicas da academia. Mas, não pretendo trocar uma boa conversa
ou um encontro existencial único com a leitura de um bom livro. Tal
como aquela psicanalista defende “uma certa anormalidade”, também
defendo “uma certa dose de alienação” para ser feliz num mundo
cada vez mais complexo e confuso.
Após
os 50 anos, prometo a mim mesmo me esforçar, no sentido de
aprimorar minhas virtudes e contribuir para tornar os meus ‘próximos’
mais leves, coerentes, polidos, e de bem com a vida. É minha
“moral provisória”.
Porque só tenho essa vida. Enfim, o “tempo foge”.
por
RAYMUNDO DE LIMA