por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Meus 50 anos: “Tempus Fugit”[1]

 

Relógio (Salvador Dali)Cheguei aos 50 anos. É meio século. Embora os índices do Japão, Alemanha, EUA, e até do Brasil, estão cada vez mais otimistas (média de vida = acima de 70 anos), provavelmente, daqui pra frente, irei descer a serra da vida.

“Aos 50 tenho consciência de que quase todo mundo é mais moço que eu”, diz o personagem do livro de Gabriel García Márquez[2], ao completar 90 anos.

“Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço”[3]. Tal como um e-mail que recebi de um anônimo, também eu acho que já não tenho tempo para lidar com ignorâncias gratuitas e mediocridades vestidas com um pomposo título acadêmico.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados transpirando sadismo com um verniz de polidez. Não suporto gabolices. Inquieto-me com invejosos cujo propósito é destruir os que merecem nossa admiração e respeito.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em encontros de faz-de-conta, geradores de ressentimentos e falsidades.

“Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral”. Mário de Andrade afirmava que "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".

Aviso aos utopistas: já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, únicos, que pretendem transformar radicalmente o mundo por meio de revoluções. Não participarei de conferências, reuniões e movimentos fundamentalistas que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Continuo pertencendo a uma ‘certa’ esquerda que se pauta pela liberdade de expressão e pela democracia; portanto, não darei ouvidos ao canto de sereia do autoritarismo, que, infelizmente, tem sido a tradição desse lado da política.

Embora não mais acredite em revoluções e profecias auto-realizadoras, tenho o dever de sustentar a esperança, para além de todos os ‘ismos’ ideológicos. Não sou partidário do niilismo. Dum spiro, spero [“enquanto respirar não perco as esperanças”], diz o provérbio latino.

Já não tenho tempo para conviver com pessoas pouco razoáveis, principalmente, quando são arrebatadas pelo enceguecimento histérico de uma causa política ou religiosa, e facilmente perdem o auto-controle.

Meu tempo tornou-se escasso para debater com ressentidos cujo discurso falta consistência.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver – e aprender – ao lado de gente comprometida mais com sabedoria para a vida prática do que com um conhecimento abstrato; quero conviver com gente pautada mais pela razoabilidade do que pela racionalidade; quero aprender com gente que sabe rir de seus tropeços, fazer autocrítica dos erros, que não se encanta com triunfos, e não se considera eleita para a "última hora"; gente que não foge de sua mortalidade, que defende a dignidade da vida, a sobrevivência do nosso planeta, que deseja andar humildemente respirando a poluição das cidades ou o ar puro do campo quando for passear. 

Daqui pra frente, evitarei, especialmente, os chatos que não sabem ouvir, nem conversar e conviver com as diferenças demasiadamente humanas[4]. “O chato pressupõe que tudo que tem a declarar é do máximo valor para o outro”; ele funciona como um “vampiro da nossa paciência”, nos alertava Machado de Assis. Tenho horror a dois tipos de chatos: o ressentido e o fanático. Incapaz de fazer autocrítica, o “ressentido” acha que a culpa de seus fracassos é sempre dos outros – das pessoas ou do sistema. Daí a repetição chata de suas queixas, obviamente, ressentidas. Os “fanáticos” made in seitas religiosas ou políticas são chatos mais perigosos porque almejam a redenção da humanidade ‘em nome de Deus’, do “seu Deus”, ou de uma ‘grande teoria’ supostamente ‘científica’ e salvadora. Como tais seitas geralmente elegem "um grande líder”, pretendo não engrossar o rebanho que cultua personalidades, não importa se à direita ou à esquerda. 

Pretendo curtir a vida com as pessoas que sabem valorizar os “instantes”, conforme orienta o poema de Nadine Stair e atribuído a J. L. Borges. Continuarei lendo os clássicos da filosofia e da literatura, com prazer, sem ligar para as pressões tecnocráticas e canônicas da academia. Mas, não pretendo trocar uma boa conversa ou um encontro existencial único com a leitura de um bom livro. Tal como aquela psicanalista defende “uma certa anormalidade”, também defendo “uma certa dose de alienação” para ser feliz num mundo cada vez mais complexo e confuso.

Após os 50 anos, prometo a mim mesmo me esforçar, no sentido de aprimorar minhas virtudes e contribuir para tornar os meus ‘próximos’ mais leves, coerentes, polidos, e de bem com a vida. É minha “moral provisória”[5]. Porque só tenho essa vida. Enfim, o “tempo foge”.

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

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[1] “O tempo foge”.

[2] MARQUEZ, G.G. Memória de minhas putas tristes. 9.ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.

[3] Obs.: Algumas partes desse texto, entre aspas, foram inspiradas num texto anônimo recebido por e-mail.

[4]Sobre chatos e chatices I e II”, ler na Revista Espaço Acadêmico, números 48 e 49.

[5]   Descartes (1696-1650) também escreveu sua moral provisória no Discurso do Método. (Ver: “Os pensadores”. SP: Nova Cultural, 1991.

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