O
Socialismo Venezuelano do Século XXI
As
oligarquias venezuelanas foram responsáveis pela incrível corrupção
e desperdício nos vultosos ingressos oriundos da exportação do
petróleo nas décadas de 70 e 80 (“bonanza petrolera”) do século
passado. No fim dos anos 80, o Presidente Carlos Andrés Perez teve
que negociar com o FMI um pacote econômico muito duro para fazer
frente à queda dos preços do petróleo no mercado internacional.
Isto acarretou o aumento interno dos preços da gasolina e dos bens
de consumo o que irritou as massas e, em fevereiro de 1989, ocorreu
uma revolta popular em Caracas que ficou conhecida como o Caracazo.
Esta rebelião foi esmagada pelo exército com um saldo de 300
mortos segundo dados oficiais e mais de 1000 segundo dados de
ONG’s e partidos políticos de oposição.
Na
esteira deste processo o Coronel Hugo Chávez encabeçou em 1992 um
frustrado golpe militar contra Carlos Andrés Perez que lhe custou
alguns anos de prisão. Na ocasião, o senador Rafael Caldera (pouco
depois seria Presidente da República) proferiu
um discurso condenando a tentativa golpista, e alertando, porém,
que não podia haver uma democracia na Venezuela enquanto perdurasse
a fome e a miséria e as pessoas tivessem que assaltar os
supermercados.
Nas
eleições presidenciais de 1998 o povo venezuelano defrontou-se com
o vazio político devido à corrupção, mas também ao esgotamento
do projeto político dos
partidos políticos tradicionais, a saber: a Acción Democrática
(AD), partido social democrata, que ao passar do tempo foi
adquirindo características populistas, e o Comité de Organización
de Política Electoral Independiente (COPEI), partido social
cristão. Havia ainda candidatos singulares como a ex-Miss
venezuelana. Foi neste contexto que Hugo Chávez foi eleito por uma
avassaladora maioria embora relativa uma vez que o voto é
facultativo e só uns 30% dos eleitores realmente votam. Logo após
a posse o Congresso promulgou uma nova Constituição e Chávez foi
reeleito em 2002; houve uma tentativa frustrada de golpe em 2003. Em
seguida a oposição
convocou o referendo revogatório em 2004. O triunfo de Chávez
no referendo deu-se graças aos excedentes da exportação de
petróleo que têm sido destinados a programas sociais semelhantes
aos implantados pelo governo Lula no Brasil. O petróleo continua
sendo até o presente a maior fonte de divisas na economia
venezuelana (da ordem de 80%) sem que bases materiais mais sólidas
estejam sendo construídas e, apesar da retórica antiimperialista e
antiamericana, os EEUU continuam sendo o maior comprador do petróleo
venezuelano.
Logo
após o referendo de 2004, a esquerda democrática mundial
reconheceu o triunfo de Chávez, mas não lhe deu um cheque em
branco. Exortou-o “a superar a aguda polarização social e política
vigente, e a demonstrar que governaria para todos os venezuelanos.
Isto exigiria muitas negociações e acordos Reiterando o
compromisso democrático e os princípios essenciais do Direito
Internacional...” foram criticadas “as formas caudilhescas e
populistas de governar, o desprezo às instituições republicanas e
a ausência de um partido político que lhe desse sustentação e
governabilidade”, conforme carta recebida pela autora, do Dep.
Cuauthemoc Sandoval Ramírez, do Partido de la Revolución Democrática
(PRD), do México que havia sido observador internacional naquela
ocasião.
Por
sua vez, em 2005, nas últimas eleições parlamentares, a oposição
cometeu um grande equívoco estratégico ao boicotar o pleito
alegando falta de garantias. Em dezembro de 2006 Chávez foi eleito
com uma maioria expressiva num processo eivado de irregularidades.
Nesta oportunidade fui observadora internacional do processo
eleitoral e a presença de militares armados em todos os locais de
votação me pareceu muito intimidadora e antidemocrática. Só
havia visto situações semelhantes nas zonas ocupadas da Palestina
e nas zonas de conflito colombianas. Os militares brasileiros não
ousaram fazê-lo no período ditatorial de 1964-85.
Chávez
acabou assumindo a Presidência por um terceiro mandato. O centro e
a direita venezuelana criaram novos partidos para apresentar-se no
pleito de cara nova. Os votos dos dois partidos tradicionais
migraram para Un Nuevo Tiempo e Primero Justicia que
tiveram votações muito expressivas. A esquerda venezuelana
dividiu-se nesta eleição: a Izquierda Democrática (ID), e
o Movimiento al Socialismo (MAS), partido socialista, recém
ingresso na Internacional Socialista num processo de renovação
desta entidade internacional, apoiaram o candidato oposicionista,
Manuel Rosales e sofreram uma derrota acachapante; enquanto isso os
partidos da esquerda tradicional que não prezam a democracia como
valor universal tiveram um grande crescimento.
A
esquerda democrática venezuelana vem denunciando o cerceamento à
liberdade de expressão e os traços militaristas e fascistóides além
das políticas compensatórias da Escola de Chicago que atingem vários
milhões de pessoas sem tirá-las da pobreza, ao contrário,
mantendo-as na pobreza.
Pavimentado
por um Congresso totalmente favorável a ele, o ato mais recente do
Presidente Chávez foi solicitar à Assembléia Nacional plenos
poderes para passar a governar por decretos e construir o
“socialismo do século XXI”, uma mistura eclética de várias
teorias sem definição. Este pleito já foi aprovado pela Assembléia
Nacional em dois turnos.
A
experiência do “socialismo real” evidenciou a impossibilidade
de construir o socialismo sem liberdade e democracia. A superação
do capitalismo por uma sociedade pacífica, mais justa, libertária
e solidária deve ser uma construção das grandes massas e não um
processo de cima para baixo. Por outra parte, Salomão Malina, último
Presidente do PCB e Presidente de Honra do PPS, afirmava que “os
processos autoritários na América Latina podiam assumir novas
formas distintas dos regimes implantados nos anos 60 e 70 do século
passado”. Aliás, o regime de Alberto Fujimori no Peru pode ter
sido um primeiro exemplar. Mas, nunca é demais lembrar que, apesar
da Constituição democrática promulgada em 1936 na URSS, Stalin pôde
perpetrar os Processos de Moscou dos anos 30 e todos os demais
crimes posteriores. A outra experiência totalitária que não se
pode esquecer, ocorreu na Alemanha em crise nos anos 30. Hitler,
apoiado pelo grande capital e pelo lumpenproletariat, base
social semelhante às de Chávez e Lula, assumiu o poder depois que
o seu partido, que também tinha socialismo no nome (Nazional
Sozialismus - NAZI), ganhou as eleições. Hitler tinha grande
apoio popular até a virada na II Guerra Mundial, jamais revogou a
Constituição de Weimar e só governava por decretos e pode
perpetrar os crimes mais hediondos.
Marx
afirmou que a História só se repete como farsa, mas sempre é bom
lembrar dos fatos para saber onde nos encontramos e para onde
caminhamos.
por
DINA
LIDA KINOSHITA