por LARRY HUFFORD

Larry Hufford, Ph.D., é professor de Relações Internacionais na St. Mary’s University em San Antonio, Texas.

 

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leia em inglês

 

Os Estados Unidos fazem uma campanha de medo contra o Irã

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

George BushMahmoud AhmadinejadA atual administração Bush está promovendo uma campanha de medo baseada no suprimento de armas aos grupos insurgentes iraquianos. Uma explicação para isto talvez seja que está se tornando cada vez mais claro que, já que o plano neoconservador de refazer o Oriente Médio de acordo com um modelo pró-democrático, pró-ocidente e pró-Israrel é uma tentativa inútil, a administração agora está buscando outro bode expiatório.

Não se requer nenhuma ciência extraordinária para dizer que o Irã está treinando e armando grupos insurgentes iraquianos shiitas. Sabe-se também que o governo de al-Maliki, apoiado pela administração Bush, para permanecer no poder conta com 30 lugares na assembléia legislativa, controlada pelo líder shiita Muqtada a-Sadr.

A campanha de medo que esta administração está fazendo esquece de mencionar que os ricos sunnis no Kwait, Jordânia e Arábia Saudita, talvez com a aprovação de seus respectivos governos, estão dando dinheiro para os grupos insurgentes sunnis do Iraque. Os Estados Unidos, enquanto isto, estão mantendo, treinando e armando a força “policial” na região norte iraquiana, em mãos dos curdos.

A Arábia Saudita já se pronunciou sobre seu desejo de desenvolver capacidades nucleares “pacíficas”, e o mesmo também já disse a Jordânia. O presidente russo Putin esteve recentemente na Arábia Saudita dizendo que seu país poderia ajudar aos nossos “amigos,” os sauditas, a construir reatores nucleares. O Irã olha à sua volta, e vê que a Índia, o Paquistão, Israel e a Rússia têm armas nucleares. O Irã também vê que os Estados Unidos provavelmente não invadirão um país que tenha armas nucleares. Se o Irã shiita tem armas nucleares, então é fácil entender porque o governo sunni da Arábia Saudita quereria entrar neste mesmo jogo. Esta é a essência da realpolitik.

Como podemos entender tudo isto? Rejeitando a ideologia neo-conservadora e retornando ao antigo realismo que está conosco desde que Thucydides escreveu a história da guerra do Peloponeso.

As nações-estado do Oriente Médio estão agindo para preservar sua segurança nacional dentro de uma moldura realista. A razão pela qual as administrações de Reagan e Bush I apoiaram Saddam Hussein e o Iraque durante sua guerra de oito anos contra o Irã é o básico equilíbrio de poder político. Saddam talvez tenha se envolvido em atos de genocídio contra seu próprio povo, mas os Estados Unidos o apoiaram porque o Iraque era um governo secular, sunni, que provia um equilíbrio de poder vis-à-vis o Irã.

Durante a guerra entre Irã e o Iraque, os Estados Unidos tinham conselheiros militares e espias trabalhando com o governo iraquiano, o exército e a aeronáutica do país. Saddam pode ser sido um F.D.P., mas ele estava agindo em concordância com os interesses nacionais percebidos dos Estados Unidos. Com a ideologia neo-conservadora da administração, o equilíbrio realista da política do poder deu lugar ao uso de força militar para criar no Iraque uma democracia militar ao estilo ocidental.

Um princípio simples da teoria realista é que um país nunca deveria invadir outro militarmente e depois sair com o país e a região ainda mais instáveis do que estavam originalmente. Isto foi exatamente o que os ideólogos neo-conservadores (Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, Libby, Feith, Perle, etc), conseguiram, e então, agora precisam fazer do Irã o bode expiatório.

Por causa da necessidade de reabastecimento em pleno ar, e de voar sobre o espaço de outras nações, Israel não poderia fazer um ataque aéreo contra o Irã sem a aprovação e o apoio logístico dos Estados Unidos. Com dois porta-aviões agora estacionados no Golfo Pérsico, os Estados Unidos poderiam lançar um ataque aéreo contra as usinas nucleares iranianas. Entretanto, teria que ser um ataque sustentado por 7 a 10 dias, porque o Irã efetivamente descentralizou suas usinas nucleares, e várias delas estão construídas muito abaixo do nível do solo. É conhecimento de todos que ataques aéreos finalmente necessitam de tropas para se obter estabilidade e contenção, se se quiser evitar a retaliação militar. Neste caso, nós precisaríamos entrar no Irã para garantir que os militares iranianos não respondessem com ataques contra as refinarias de óleo e as fábricas nos estados do Golfo e na Arábia Saudita.

A população do Iraque é de aproximadamente 27 milhões de pessoas, enquanto que a do Irã é mais ou menos 70 milhões. A geografia do Irã é muito mais problemática que a do Iraque. Os Estados Unidos não têm tropas suficientes para uma terceira guerra. Adicionalmente, o Irã poderia criar problemas sérios para as tropas americanas no sul do Iraque, enquanto escoaria as águas do Estreito de Hormuz (que em um ponto tem somente 50 km de largura). Esta medida impediria o suprimento de óleo aos poderes econômicos do mundo.

Quais são as alternativas? Reconhecer o Irã diplomaticamente. Não exigir nenhuma reciprocidade. Começar discussões bilaterais com o Irã, conseguindo-se assim o apoio das vozes políticas moderadas do país. Traçar um calendário para a retirada estratégica das tropas americanas do Iraque. Trabalhar através da ONU para criar uma força multilateral islâmica de paz para atuar na região. Organizar uma reunião de cúpula dos países do Oriente Médio para discutir a estabilidade regional quando terminar o conflito, incluindo o conflito israelense-palestino. Concordar em negociações a longo prazo, não só políticas, mas também militares e econômicas, para criar uma paz que é mais que a simples ausência da guerra.

Qualquer deputado ou senador ou cidadão que se preocupe pelos homens e mulheres militares americanos, ou com os civis no Irã, devem resistir à atual campanha de medo. O país não pode sustentar economicamente outra guerra escolhida, que estaria predestinada a falhar.

Em resumo:

Reconhecer o Irã diplomaticamente.

Não exigir  nenhuma reciprocidade.

Começar discussões bilaterais com o Irã, conseguindo-se assim o apoio das vozes políticas moderadas do país.

Traçar um calendário para a retirada estratégica das tropas americanas do Iraque.

Trabalhar através da ONU para criar uma força multilateral islâmica de paz para aturar na região.

Organizar uma reunião de cúpula dos países do Oriente Médio para discutir a estabilidade regional quando terminar o conflito, incluindo o conflito israelense-palestino.

Concordar em negociações a longo prazo, não só políticas, mas também militares e econômicas, para criar uma paz que é mais que a simples ausência da guerra.

por LARRY HUFFORD

 

 

 

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