Os
Estados Unidos fazem uma campanha de medo contra o Irã
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]

A
atual administração Bush está promovendo uma campanha de medo
baseada no suprimento de armas aos grupos insurgentes iraquianos.
Uma explicação para isto talvez seja que está se tornando cada
vez mais claro que, já que o plano neoconservador de refazer o
Oriente Médio de acordo com um modelo pró-democrático, pró-ocidente
e pró-Israrel é uma tentativa inútil, a administração agora está
buscando outro bode expiatório.
Não
se requer nenhuma ciência extraordinária para dizer que o Irã está
treinando e armando grupos insurgentes iraquianos shiitas. Sabe-se
também que o governo de al-Maliki, apoiado pela administração
Bush, para permanecer no poder conta com 30 lugares na assembléia
legislativa, controlada pelo líder shiita Muqtada a-Sadr.
A
campanha de medo que esta administração está fazendo esquece de
mencionar que os ricos sunnis no Kwait, Jordânia e Arábia Saudita,
talvez com a aprovação de seus respectivos governos, estão dando
dinheiro para os grupos insurgentes sunnis do Iraque. Os Estados
Unidos, enquanto isto, estão mantendo, treinando e armando a força
“policial” na região norte iraquiana, em mãos dos curdos.
A
Arábia Saudita já se pronunciou sobre seu desejo de desenvolver
capacidades nucleares “pacíficas”, e o mesmo também já disse
a Jordânia. O presidente russo Putin esteve recentemente na Arábia
Saudita dizendo que seu país poderia ajudar aos nossos
“amigos,” os sauditas, a construir reatores nucleares. O Irã
olha à sua volta, e vê que a Índia, o Paquistão, Israel e a Rússia
têm armas nucleares. O Irã também vê que os Estados Unidos
provavelmente não invadirão um país que tenha armas nucleares. Se
o Irã shiita tem armas nucleares, então é fácil entender porque
o governo sunni da Arábia Saudita quereria entrar neste mesmo jogo.
Esta é a essência da realpolitik.
Como
podemos entender tudo isto? Rejeitando a ideologia neo-conservadora
e retornando ao antigo realismo que está conosco desde que
Thucydides escreveu a história da guerra do Peloponeso.
As
nações-estado do Oriente Médio estão agindo para preservar sua
segurança nacional dentro de uma moldura realista. A razão pela
qual as administrações de Reagan e Bush I apoiaram Saddam Hussein
e o Iraque durante sua guerra de oito anos contra o Irã é o básico
equilíbrio de poder político. Saddam talvez tenha se envolvido em
atos de genocídio contra seu próprio povo, mas os Estados Unidos o
apoiaram porque o Iraque era um governo secular, sunni, que provia
um equilíbrio de poder vis-à-vis o Irã.
Durante
a guerra entre Irã e o Iraque, os Estados Unidos tinham
conselheiros militares e espias trabalhando com o governo iraquiano,
o exército e a aeronáutica do país. Saddam pode ser sido um
F.D.P., mas ele estava agindo em concordância com os interesses
nacionais percebidos dos Estados Unidos. Com a ideologia
neo-conservadora da administração, o equilíbrio realista da política
do poder deu lugar ao uso de força militar para criar no Iraque uma
democracia militar ao estilo ocidental.
Um
princípio simples da teoria realista é que um país nunca deveria
invadir outro militarmente e depois sair com o país e a região
ainda mais instáveis do que estavam originalmente. Isto foi
exatamente o que os ideólogos neo-conservadores (Cheney, Rumsfeld,
Wolfowitz, Libby, Feith, Perle, etc), conseguiram, e então, agora
precisam fazer do Irã o bode expiatório.
Por
causa da necessidade de reabastecimento em pleno ar, e de voar sobre
o espaço de outras nações, Israel não poderia fazer um ataque aéreo
contra o Irã sem a aprovação e o apoio logístico dos Estados
Unidos. Com dois porta-aviões agora estacionados no Golfo Pérsico,
os Estados Unidos poderiam lançar um ataque aéreo contra as usinas
nucleares iranianas. Entretanto, teria que ser um ataque sustentado
por 7 a 10 dias, porque o Irã efetivamente descentralizou suas
usinas nucleares, e várias delas estão construídas muito abaixo
do nível do solo. É conhecimento de todos que ataques aéreos
finalmente necessitam de tropas para se obter estabilidade e contenção,
se se quiser evitar a retaliação militar. Neste caso, nós
precisaríamos entrar no Irã para garantir que os militares
iranianos não respondessem com ataques contra as refinarias de óleo
e as fábricas nos estados do Golfo e na Arábia Saudita.
A
população do Iraque é de aproximadamente 27 milhões de pessoas,
enquanto que a do Irã é mais ou menos 70 milhões. A geografia do
Irã é muito mais problemática que a do Iraque. Os Estados Unidos
não têm tropas suficientes para uma terceira guerra.
Adicionalmente, o Irã poderia criar problemas sérios para as
tropas americanas no sul do Iraque, enquanto escoaria as águas do
Estreito de Hormuz (que em um ponto tem somente 50 km de largura).
Esta medida impediria o suprimento de óleo aos poderes econômicos
do mundo.
Quais
são as alternativas? Reconhecer o Irã diplomaticamente. Não
exigir nenhuma reciprocidade. Começar discussões bilaterais com o
Irã, conseguindo-se assim o apoio das vozes políticas moderadas do
país. Traçar um calendário para a retirada estratégica das
tropas americanas do Iraque. Trabalhar através da ONU para criar
uma força multilateral islâmica de paz para atuar na região.
Organizar uma reunião de cúpula dos países do Oriente Médio para
discutir a estabilidade regional quando terminar o conflito,
incluindo o conflito israelense-palestino. Concordar em negociações
a longo prazo, não só políticas, mas também militares e econômicas,
para criar uma paz que é mais que a simples ausência da guerra.
Qualquer
deputado ou senador ou cidadão que se preocupe pelos homens e
mulheres militares americanos, ou com os civis no Irã, devem
resistir à atual campanha de medo. O país não pode sustentar
economicamente outra guerra escolhida, que estaria predestinada a
falhar.
Em
resumo: