Caio
Prado Jr., nosso clássico publicista
Neste
ano de 2007 celebramos o centenário do nascimento de um dos clássicos
do pensamento social brasileiro. O que dizer de Caio Prado cujas
dissertações sobre o Brasil, desde o seu primeiro ensaio de
materialismo histórico (Evolução Política do Brasil, 1933), têm por tema nossas revoluções?
Neste quinto ano seguido de governo das esquerdas militantes,
recordemos, como uma homenagem ao ensaísta, o sentido publicístico
da sua obra e o campo privilegiado de destino dos seus textos: o PCB
e por extensão as demais esquerdas.
Lembrando
esse seu tipo de interpelação, qual o lugar do historiador no PCB
e nas demais esquerdas? Não obstante a trilha seminal que o
converte num clássico da revolução, Caio Prado Jr. terá sua obra
formulativa apropriada de maneira irregular. Ao mesmo tempo em que
fundamentava o agrarismo com o qual o PCB construiria uma rede
sindical no mundo rural, a partir da União dos Lavradores e
Trabalhadores da Agricultura do Brasil (ULTAB) e, depois, da CONTAG,[2]
e também oferecia – sem recepção – argumento a um reformismo
que poria o PCB em melhores condições discursivas naqueles anos
nacional-desenvolvimentistas, o militante era empurrado para a
margem do pecebismo oficial.[3]
Doutra parte, Caio Prado teve alguns textos – especialmente A
Revolução Brasileira – recolhidos por áreas, inclusive de
dissidências comunistas, que depois de 1964 se radicalizaram e
viram naquele opúsculo amparo à luta de confronto armado com o
regime militar no qual iriam se envolver com alto custo.
No
entanto, as dissertações que o historiador produziu durante quase
meio século não eram lidas como partes da interpretação de
Brasil com a qual ele fundamentava sua teoria da revolução. A
dissertação sobre o Brasil-Colônia, o seu capítulo mais aceito,
desenvolvida em Evolução Política
do Brasil (1933) e em Formação
Contemporânea do Brasil (1942), não era vista como uma
narrativa que conferia o sentido geral reestruturador que a revolução
assumiria no Brasil. Os excursos sobre a revolução burguesa (em História
Econômica do Brasil, 1945) também encontraram dificuldade em
serem reconhecidos pela bibliografia como partes do constructo de um
ensaísta que se debruçou sobre nossa formação social com intenções
revolucionárias. A
esses excursos Caio Prado acrescentou instigantes, embora poucas,
alusões ao por ele chamado capitalismo burocrático e ao estado
cartorial, na acepção de Hélio Jaguaribe (em A Revolução Brasileira e no seu adendo de 1977), as quais em certo
sentido atualizavam sua imagem de Brasil originária.
São
essas passagens dissertativas – e não a busca de exclusividade
marxista, para fins ideológico ou científico, como se viu em
certas áreas de esquerda nos anos 1960 e 1970 – que habilitam
Caio Prado como ensaísta de nossa modernização de incorporação
seletiva, classes e vida associativa débeis e cena política, como
ele também dizia, superficial. É num terreno nacional como
este onde teria curso nossa revolução, brasileira, como a chamava
Caio Prado; formulada a partir das dissertações sobre nossa formação
sob a forma da colônia de produção, o desenvolvimento agrário-burguês
e nosso industrialismo e sobre o renovamento do mundo rural por ele
entendido como questão nacional. Nesse sentido, pode-se falar da
obra caiopradiana como uma busca de uma teoria revolucionária desde
os primeiros escritos publicisticos (se já não nos artigos que
escreveu em 1935, bem visível em “Os Fundamentos Econômicos da
Revolução Brasileira”, de 1947, já citado) até os textos também
referidos A Revolução
Brasileira e o seu adendo).
O
marxista de São Paulo debruçar-se-ia sobre uma formação social
que não se constituíra – esta marca percorre toda sua obra –
com base em um processo de criação no próprio povo do mercado
para sua produção, primeiro mercantil, depois burguesa moderna.
Iria discernir que, diferentemente do industrialismo europeu e
americano, aqui, o mercado se tornara a questão básica, enquanto a
produção o fora para a Economia Política da industrialização clássica
e para Marx. De acordo com Caio Prado Jr., essa circunstância
mereceria toda atenção, como passo indispensável à tematização
do desenvolvimento dos países que se haviam formado, como o Brasil,
na periferia capitalista marcados por aquele traço primordial. Caio
Prado chegaria a calibrar o marxismo brasileiro – abrindo sua
Economia Política ao tema do consumo considerado numa acepção,
digamos, nacional-popular – assim visando explicar uma formação
social, ao mesmo tempo dependente (construída naquele sentido da
colônia de produção) e contemporânea (industrializada de modo
“superficial” e pouco incorporador). Dessa gênese e evolução,
ele extrairá uma imagem do
Brasil como uma formação social de modernização tardia e
incompleta, particularmente de classe econômica débil e campo
popular pouco coeso; tema este ultimo inclusive já presente em Evolução
Política do Brasil (1933) e descrito em Formação
do Brasil Contemporâneo (1942).
No
entanto, a bibliografia crítica
daquele traço “circulacionista” não discernia que era ele que
distanciava o marxismo de Caio Prado da sua tradição
marxista-leninista. É esse marxismo que orienta as dissertações
sobre o Brasil com as quais o historiador delinearia não só um
programa de reformas reestruturantes do nosso capitalismo, como
ainda, fiel à tradição, enraizaria sua teoria revolucionária na
economia, na luta de classes e no Estado, tomando-o, porém, como
esfera de uma generalidade chamada a processar os “interesses da
maioria da população”; noção esta última intercambiável com
o tema da nacionalidade como ele derivava daquele padrão civilizatório.
Tampouco o publicista
se confunde com a demiurgia muito freqüente no nosso primeiro ensaísmo
clássico. Mesmo sem formalizar um constructo, o historiador procuraria
divisar impulso transformador em atores cujo potencial estaria dado
pela dinâmica da vida nacional, deitava raízes no terreno dos
interesses econômico-sociais e no associativismo permanente.
Ao recortar o campo da ação revolucionária na interseção
daquelas três dimensões – economia, classes e poder –, Caio
Prado, por conta da fraqueza da vida produtiva e debilidade dos
protagonistas, atribuía relevo à opinião pública, a qual
ganharia força à medida que se desenvolvessem os “grandes
debates nacionais” e manifestaria seu sentido renovador, quando
tais debates se polarizassem em função dos “interesses da
maioria da população”.
Caio
Prado mantém o argumento ao longo do tempo (pelo menos desde 1945,
em História Econômica do Brasil) até 1977 (visível tanto
em A Revolução Brasileira quanto no seu adendo desse ano).
Chama a atenção os artigos publicados na Revista
Brasiliense, nos quais Caio Prado examinara a conjuntura dos
anos nacional-desenvolvimentistas até o golpe de 1964 sob o prisma
das dissertações sobre nossa contemporaneidade. É notável ver
como em A Revolução Brasileira Caio Prado retoma o
argumento: sob evolução espontânea, a industrialização
substitutiva não alargaria “social e territorialmente” sua
capacidade de incorporação já muito seletiva. Daí, aliás, o
tema da “integração” percorrer todo esse volume. Esta visão
de uma grande reestruturação da vida nacional diferia o pensamento
do historiador dos padrões da esquerda daquela época cujas áreas
mais militantes estavam fortemente marcadas pela idéia de revolução
diruptiva e socialista em tanto alteração radical do regime de
propriedade.
Essas
são conjecturas com as quais queremos revisitar o marxismo político
de Caio Prado, neste ano de celebração do seu centenário;
marxismo político ao qual o historiador chegara tendo que remontar
a mentalidade marxista-leninista e a adesão ao socialismo real que
partilhava com o seu mundo comunista como ideologia ao tempo que as
mantinha suficientemente longe das suas dissertações sobre o
Brasil.
por
RAIMUNDO
SANTOS