Caio
Prado Júnior:
a
derrota do marxismo no Brasil
Para
este dossiê dedicado ao centenário de nascimento de Caio Prado Júnior,
um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX,
desenvolvo um argumento de análise sobre a trajetória e o conjunto
de sua obra centrado numa hipótese explicativa aparentemente ambígua,
qual seja: o Caio Prado Júnior apresentado nas páginas a seguir
definir-se-á como um intelectual demarcado teoricamente pelo
“marxismo soviético” (stalinismo) e politicamente como uma
expressão da visão de mundo autoritária da “democracia” do
positivismo neocorporativista (na matriz durkheimiana). A ambigüidade
da afirmação estaria no fato de se considerar aqui as visões de
mundo stalinista e neocorporativista como antípodas, mas, ao contrário,
o marxismo-stalinista e o positivismo-neocorporativista serão aqui
considerados como termos estruturalmente complementares no que se
refere à definição do que entendo ser o fundamental na
caracterização da visão de mundo expressa no conjunto de obra e
práticas da trajetória caiopradiana.
1.
Trajetória institucional.
Caio
Prado Júnior nasceu em São Paulo, em 1907, filho da família Silva
Prado, uma das mais tradicionais famílias paulistanas. Fez os
estudos básicos no Colégio São Luís, importante colégio da
capital paulista. Adolescente, estudou por dois anos num colégio em
Eastbourn, na Inglaterra. Em 1928, formou-se Bacharel em Direito na
Faculdade de Direito de São Paulo (Faculdade São Francisco que em
1934 foi incorporada à USP). Em 1928, casou-se com Maria Hermínia
Cerquinho Prado. Depois de formado, Caio Prado exerceu por algum
tempo a profissão de advogado, atividade logo abandonada por não
concordar com as práticas profissionais de alguns dos principais
escritórios de São Paulo. Seu casamento foi subvencionado pelos
seus pais até a data de separação, acontecida em 1939. Em 1940,
recebe uma grande herança da avó e junto com Monteiro Lobato, em
1942 utiliza o dinheiro dessa herança no planejamento e execução
do projeto da Editora Brasiliense e da Gráfica Urupês.
Sofreu
a sua primeira prisão por motivos políticos por causa de um
exclamativo: “Viva Getúlio
Vargas!”, dado em 1930 numa festa em homenagem ao candidato Júlio
Prestes acontecida no Clube Trianon em São Paulo. Em 1931,
filiou-se ao PCB. Antes dessa filiação tivera experiência política
frustrada com o Partido Democrata Paulista. Nesse período já era
leitor de algumas das principais publicações sobre o socialismo
soviético[1].
No ano de 1932, fez uma viagem de um mês com sua esposa à URSS.
Dessa viagem resultou o livro, publicado em 1934 – URSS:
Um novo mundo. Após a viagem, Caio Prado Junior ministrou várias
conferências referentes à experiência do socialismo soviético.
Relacionado ainda com a URSS, traduziu e publicou em 1935, pelas Edições
Caramuru (São Paulo) o livro – manual de Nicolau Bukharin – Tratado do Materialismo Histórico (1922). Este livro teve divulgação
mundial e gerou significativa polêmica com alguns dos principais
quadros da Intelligentsia do
marxismo europeu nas décadas de 1920 e 1930, formuladas como duras
críticas à natureza positivista do marxismo bukharinista, pela sua
tentativa de “melhorar” o marxismo, pelo fato do pensador
bolchevique buscar uma aproximação metodológica com as ciências
sociais acadêmicas, principalmente aquelas centradas pelas proposições
da reflexão sociológica durkheimiana[2].
Em
novembro de 1935, depois de uma intensa participação política
junto à Aliança Nacional Libertadora (onde fora presidente do
Diretório Provisório de São Paulo), quando dos acontecimentos da
Intentona Comunista, promovida pelo PCB, Caio Prado foi novamente
preso. Nessa ocasião estava em viagem por Porto Alegre. Quando dos
fatos da Intentona, o interventor Flores da Cunha, que era muito
amigo da família de Caio de Prado, sugeriu-lhe uma fuga para a
Argentina. No entanto, afirmando sua inocência frente à organização
dos acontecimentos do levante, recusou-se a fugir. Afirmou às
autoridades policiais que nada sabia do golpe (o que é bem provável),
foi liberado para retornar a São Paulo e ao chegar à capital
paulista, quando se apresentou às autoridades foi imediatamente
preso. Ficou na prisão até 1937, data em que foi solto por falta
de provas quanto à sua participação na Intentona. Imediatamente,
com sua esposa e filhos, viajou para a França num vapor comercial
francês saído do Rio de Janeiro. Viajou até Casablanca, no
Marrocos, e de lá seguiu sozinho para Paris. A esposa e os filhos
continuaram a viagem no mesmo navio, chegando a Paris, dias depois.
Caio Prado e sua família ficam na França até 1939. Ali, tem
contato intenso com a cultura universitária, assistiu aulas de Marc
Bloch, Lucien Febvre, Marcel Mauss, Fernand Braudel. Alguns destes,
principalmente Braudel, já eram amigos seus. Amizade construída
quando a “missão de professores franceses” esteve por vários
anos dando cursos na recém fundada Universidade de São Paulo. Este
ambiente intelectual – de fortes colorações durkheimianas –
foi determinante para o alicerçamento de seus fundamentos teóricos[3].
Em
1933, publicou o seu primeiro livro: Evolução
Política do Brasil. Pequeno ensaio historiográfico que se fez
clássico por sua ênfase numa interpretação materialista da História
que rompia com uma tradicional historiografia descritiva. Com este
livro iniciou-se o debate de Caio Prado com a agenda do PCB, no que
se refere à questão da presença ou não do feudalismo no Brasil
Colônia. Mas, é com o livro Formação
do Brasil Contemporâneo, publicado em 1942, que Caio Prado
atinge seu ápice como historiador. Este é o seu livro fundamental,
mas ao contrário do que se poderia esperar, diante do que escreveu
em 1933, este não é um livro marxista.
Em
1952, sua produção intelectual muda de tema. Publica nesse ano, em
dois volumes, a obra Dialética
do Conhecimento. Trata-se de uma extraordinária apologia
stalinista do marxismo. Nesse trabalho desenvolve o ambicioso
projeto de construir, para o mundo do socialismo que avançava a
largos passos, aquilo que chamará de Lógica
Dialética Positiva, isto é, as bases epistemológicas de um
conhecimento que não deveria se apresentar mais como o negativo dos
sistemas de pensamento do capitalismo. Escudado num positivismo
centrado em psicologias comportamentais procurava reformar
conceitualmente o próprio marxismo. Teve duras respostas do PCB,
mas, ainda assim, foi uma obra muito lida entre os comunistas
brasileiros. O autor complementou as questões levantadas nessa
obra, quando publicou em 1959, o livro Notas Introdutórias à Lógica Dialética. Ambos os livros
procuravam desenvolver aquilo que chamará de Lógica Dialética
Positiva, isto é, um projeto epistemológico para o marxismo
contemporâneo onde a lógica dialética não se apresentasse mais
como o “negativo” da “Metafísica” (a epistemologia do modo
de pensar capitalista) tal como “apresentado” com Marx e Lênin,
com a vitória do comunismo soviético o momento agora era o de
realizar as bases de uma nova “epistemologia”, a epistemologia
do socialismo vitorioso, a Lógica Dialética Positiva. Meu
argumento é o de que para esse projeto filosófico, Caio Prado
desenvolvia o mesmo sentido sugerido na obra de Bukharin, já
citada, isto é, reformar o marxismo, “atualizando-o”, com o que
havia de melhor na ciência contemporânea. Se a aproximação de
Bukharin é com Durkheim, Caio Prado no seu projeto epistemológico
aproxima-se da filosofia da linguagem e de estudos sobre a
neurofisiologia do cérebro.
Estimulado
por vários amigos resolve participar em 1954 de um concurso público
à cátedra de Economia Política na Faculdade de Direito São
Francisco – USP, instituição onde se formara em 1928. Dão-lhe o
título de livre-docente pela tese que defendeu e que depois
publicou em livro – Diretrizes
para uma Nova Política Econômica Brasileira. Ganhou o título,
mas não o concurso. Com esse livro, definia-se o conteúdo programático
do grupo de intelectuais que junto com Caio Prado formam o que se
poderia chamar de “PCB paulista”. Desse livro, estabeleceu-se em
definitivo a agenda política do grupo, que no ano seguinte estará
com Caio Prado na fundação da Revista Brasiliense, revista que
circulou (51 números) até fevereiro de 1964. A edição março-abril
desse ano foi destruída na gráfica pelas forças da repressão.
Esta revista é um marco editorial do período, um dos maiores
documentos de reflexão sobre os projetos que a esquerda
nacionalista desenhou nas conjunturas do período de sua circulação,
e foi também o “partido
comunista” de Caio Prado Júnior. Sua realização foi muito
criticada pelo PCB que por sua dissidência editorial, acabou por se
constituir num espaço editorial amplo e heterodoxo para a expressão
intelectual de esquerda no Brasil. Cumpre lembrar, que na ocasião,
isto é, no período de sua circulação (1955-1964), o PCB também
tinha a sua imprensa. No que se refere ao debate teórico, para o
marxismo brasileiro, a revista pecebista Estudos
Sociais teve também um papel importante na divulgação do ideário
marxista-comunista no Brasil. Nesta revista, aparecem as primeiras
traduções de textos de Georg Lukács, Lucien Goldmann, Antonio
Gramsci, entre outros clássicos que sempre foram marca heterodoxa
dissidente ao stalinismo. Nessa revista apareceram também os
primeiros trabalhos de Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho. Na Revista
Brasiliense, os primeiros trabalhos de Fernando Henrique
Cardoso, Octávio Ianni. Isto é, o marxismo carioca (a princípio
ligado ao PCB e depois plasmado na Universidade) e o marxismo acadêmico
(uspiano) paulista.
No
ano de 1957, publica um interessante livro – Esboço
dos Fundamentos da Teoria Econômica – que é pouco conhecido,
mas creio ser de fundamental importância por ali apresentar,
principalmente nos seus dois últimos capítulos, de modo
antecipado, o sentido de sua argumentação crítica contra a agenda
da Revolução Brasileira proposta pelo PCB, que desenvolverá em
definitivo em 1966, no seu livro de maior repercussão política –
A Revolução Brasileira.
Repercussão essa motivada pelo intenso debate programático sobre o
sentido revolucionário que as esquerdas deveriam manifestar no
Brasil demarcado por uma conjuntura francamente conservadora, como
era aquela gestada após o golpe militar de março de 1964.
Em
1961, junto com sua filha e alguns amigos empreende outra viagem à
URSS. Dessa viagem, Caio Prado escreve o livro – O
Mundo do Socialismo (1962). Este é um livro praticamente
desconhecido. É uma apologia stalinista, uma apologia
“stakhanovista” ao mundo do socialismo em realização no Leste
europeu, para o autor, a prova empírica que lhe justificava o
projeto de redimensionamento epistemológico do marxismo.
O
próximo livro de Caio Prado, publicado em 1966 será A
Revolução Brasileira. Era o seu acerto final de contas com a
agenda teórica e política do PCB. Este livro gerou um intenso
debate no seio da esquerda nacional, contudo, a agenda ali proposta,
não sugeria, como se poderia supor nada que estabelecesse um vínculo
revolucionário no Brasil com práticas socialistas, muito pelo
contrário, a agenda pradiana limitava-se a algumas melhorias
trabalhistas, principalmente para os trabalhadores no campo, mas,
mesmo assim tais propostas pouco avançavam sobre a legislação já
existente. Caio Prado não oferecia absolutamente nada, como
alternativa transformadora da realidade nacional. O curioso é que o
livro por conter uma pesada crítica às diretrizes do PCB, no que
se refere à interpretação do passado colonial e aos caminhos da
revolução brasileira, acabou por ser adotado como referência
basilar a grupos de esquerda dissidente, envolvidos, inclusive,
alguns deles, com a luta armada, aspecto esse que sempre foi
criticado pelo autor.
Em
1968, um novo concurso para docência, agora no departamento de História
da USP, para a cátedra de História do Brasil. Concurso que visava
preencher a vaga de Sérgio Buarque de Holanda, que se aposentara em
protesto às prisões de vários colegas e alunos da universidade
pela repressão da ditadura militar. Curiosa situação essa a do
intelectual comunista tentando preencher a vaga de um professor que
se aposentara compulsoriamente porque protestava contra a ditadura
militar. Caio Prado inscreveu-se para o concurso com a tese “História
e Desenvolvimento” que publicou em 1974. Nesta tese sintetizava
sua programática teórica desenvolvida desde a década de 1930. O
regime militar, contudo, não permitiu a realização do concurso.
Mais uma vez a universidade fechava-lhe as portas, ainda que
acabasse depois por participar dela com certa regularidade, como argüidor
de bancas de tese.
Por
causa de uma entrevista, que foi mal editada, a um periódico
estudantil da Faculdade de Direito foi preso mais uma vez em 1969.
Prisão que durou até meados de 1971. Nesse período teve um grande
choque emocional, com a notícia do suicídio do seu filho, Roberto
Mioac Prado de apenas 21 anos, filho do seu segundo casamento com a
senhora Helena Mioac. Nunca se recuperou desse fato. Sua filha,
Danda Prado, afirmou-me que foi por causa de tal acontecimento que o
seu pai de maneira cada vez mais progressiva passou a sofrer de
grave doença neurológica ao longo da década de 1970, doença essa
que o levou à perda definitiva de sua consciência em 1980. De 1980
a 1990, viveu praticamente em estado vegetativo graças à ajuda de
aparelhos. Faleceu em setembro de 1990.
Enfim,
com estas rápidas notas sobre a trajetória pessoal é possível
ter-se uma idéia sintética sobre os caminhos da obra e pensamento
de Caio Prado. A seguir apresento um sumaríssimo esboço sobre o
sentido estrutural de seu projeto político que o conjunto de sua
obra apresenta.
2.
Projeto teórico.
Durante
a sua vida, o período em que Caio Prado Júnior mais intensamente
esteve envolvido com a política foi, sem dúvida, aquele da ação
da Aliança Nacional Libertadora (ANL - 1934 - 1935).
Numa
série de oito artigos, publicados no jornal paulista A
Platéa, em julho e agosto de 1935, jornal que era dirigido por
Brasil Gerson e que foi um dos principais órgãos do movimento
aliancista em São Paulo, Caio Prado Júnior fundamentou não só as
premissas do seu modelo, como também caracterizou o sentido geral
do movimento. Comenta nesses artigos o programa da Aliança.
Fundamentalmente, a posição política do movimento escudar-se-ia
em dois aspectos: o antiimperialismo e a posição contrária ao
sistema agrário em vigência. Contra o imperialismo por este ser responsável
pela nossa situação de semicolônia das grandes potências que
dominavam o mundo, fato esse que gerava a impossibilidade do país
constituir para si uma estrutura econômica nacional, própria e autônoma.
O caráter de semicolônia devia-se em grande parte à organização
do sistema agrário de fazenda,
que em larga escala estava fundado
na exploração agrícola do trabalho assalariado, ou
semi-assalariado de camponeses sem terra. E o aspecto característico
dessa estrutura agrária dava-se pela produção de gêneros
tropicais, atendendo somente as necessidades dos mercados externos.
Como corolário dessas marcas estruturais e como proposta de
transformação desse estado de coisas, Caio Prado sugere
fundamentalmente a criação e realização de um sólido mercado capitalista interno,
porque só com esse é que se caracterizaria então um Brasil
economicamente autônomo. E concluía, afirmando que a
criação de uma economia nacional e progressista só pode [ria] ser
obtida com a transformação do regime agrário, isto é, pela abolição
do sistema de fazendas e grandes propriedades e entrega das terras
aos camponeses [4].
Com
a afirmação da necessidade de uma economia nacional, de um mercado
nacional, como o elemento da transformação fundamental, isto é, a
base da revolução brasileira, Caio Prado aponta-nos também o
sujeito de tal transformação: o Estado Nacional. Um Estado
marcadamente interventor. Não sugere qualquer indicativo de
estatização, indica apenas a necessidade de regulação. Adianto
também a afirmação de que não se trata de um Estado similar ao
modelo keynesiano. Um Estado nacional que procuraria obstaculizar
internamente a presença das atividades econômicas do imperialismo
(agregadas principalmente ao latifúndio) e ao fazer isso estaria
estimulando a efetividade do mercado interno e isso traduziria a
superação das práticas remanescentes do antigo sistema colonial
(em síntese, esta é a súmula do projeto político do autor).
Em
meados da década de 1950, como já afirmei, o autor funda com um
grupo de intelectuais a Revista Brasiliense. O contexto político
é distinto, mas os problemas estruturais do país são os mesmos
apontados no diagnóstico de 1935. Sem vínculos partidários e
aceitando textos assinados por intelectuais dos vários setores
progressistas da sociedade, a revista assume nítidas feições
nacionalistas. E este nacionalismo tem como epicentro argumentativo
a produção teórica de Caio Prado Júnior. Um ano antes do
primeiro número da revista, em 1954, Caio Prado publicou o livro –
Diretrizes para uma nova política econômica brasileira, que,
conforme já mencionado, tratava-se da monografia do concurso à cátedra
de Economia Política da Faculdade de Direito. Segundo Elias Chaves
Neto, a ocasião da defesa pública deste trabalho constituiu-se em
grande acontecimento para a intelectualidade paulista, e que as
teses ali apresentadas acabaram por balizar a discussão da proposta
nacionalista junto aos setores da inteligência progressista
paulistana que acabaram por organizar a Revista Brasiliense.
Nesse
livro, Caio Prado constata que o Brasil tinha ainda uma tarefa básica
a realizar: romper com as amarras ainda existentes do “sistema
colonial”. Romper com a situação que afirmava o Brasil como país
dependente no cenário internacional, como um apêndice da economia
internacional, assim, o Brasil teria que ainda construir o seu
capitalismo, para com isso deixar de ser apenas um produtor de matérias-primas
destinadas ao abastecimento de mercados externos, porque tal situação
preservava a estrutura da anomalia histórica, a de uma economia que
continuava girando em círculos, tal como no passado, montando e desmontando ao
sabor daqueles centros, empresas produtoras que são como apêndices
longínquos deles. Ou seja, quase duas décadas depois, o mesmo
diagnóstico que já vinha apresentando desde a década de 1930 e
praticamente com as mesmas alternativas de transformação. Três
aspectos haveriam de nortear as alternativas superadoras desse
legado imperialista: a consolidação do Mercado interno, a efetivação
da produção industrial nacional, sob a ação efetiva do Estado
Nacional.
Caio
Prado sugere mais uma vez que o mercado interno passe a condicionar
uma atividade produtiva verdadeiramente nacional. O autor entende
que a produção não se impõe por si mesma, mas deveria ser
determinada pelo mercado interno. Esse mercado interno, na década
de 1950, já apresentava uma força significativa, a atividade
industrial paulista. Com a indústria nacional em afirmação, Caio
Prado encontrava as bases da negação do sistema colonial, isto
porque, nela se encontrariam as possibilidades do alargamento do
mercado interno, sugeria uma revolução
capitalista brasileira feita pelos consumidores, contudo, tal
mercado não se definia a priori conforme o modelo clássico
liberal. Como corolário de tal processo, impunha-se a necessidade
da reforma agrária, porque o trabalhador rural ao ter sua situação
melhor definida economicamente, conseqüentemente estaria ampliando
o consumo no mercado interno. No que se refere ao papel do Estado, o
autor em momento algum sugere, volto a dizer, qualquer estatização.
O que propõe é um Estado com capacidades regulatórias e argumenta
que o Estado Nacional deveria juntar-se às forças sociais
progressistas: o proletariado, o campesinato e a burguesia
industrial e comercial livre de compromissos com o imperialismo e
capital financeiro internacional.
O
Estado Nacional para Caio Prado não deveria afirmar-se como
representação de classe, mas como um representante geral dos
interesses nacionais. Um Estado antiimperialista que deveria
estimular o que chama de economia
integrada. No seu livro de 1966 – A
Revolução Brasileira – definiu economia integrada como uma
prática que só poderia propor-se pela íntima articulação, no
mercado nacional, da produção e do consumo junto à ação
reguladora do Estado. Para Caio Prado, a iniciativa privada dentro
de um processo de efetivação de uma economia integrada deveria ter
outro papel, do que aquele que normalmente desenvolve, ou seja, as
atividades econômicas teriam de
ser controladas por fatores além e acima da iniciativa privada.
Contudo, em momento algum da sua obra, o autor defende a eliminação
da iniciativa privada, o que sugere efetivamente é a eliminação
da “livre” iniciativa privada, como afirma, não uma iniciativa privada deixada a seu arbítrio e livre, mas
estritamente regularizada e encaminhada para aqueles setores de
atividade onde a necessidade dela se faça mais sentir frente aos
interesses do país. E complementada e substituída sempre que
convier pela ação direta do Estado. Poder-se-ia caracterizar
esta argumentação como uma tese keynesiana no modelo de economia
política do autor, mas esta também é uma tese de Azevedo Amaral,
assim parece-me mais factível aproximar Caio Prado da agenda de
Azevedo Amaral desenvolvida junto ao Estado Novo do que à de
Keynes, ainda mais porque o modelo keynesiano pontua sua agenda
frente à reorganização do capitalismo. Ora, no Brasil a questão
era como organizar o capitalismo, não como reorganizá-lo, por
isso, e também pela aproximação da noção pradiana de “economia integrada” com a noção de Azevedo Amaral de “economia
equilibrada”, creio ser esta uma premissa mais adequada para
contextualizar historicamente o projeto pradiano: apresentá-lo como
um modelo tardio no quadro do pensamento autoritário da década de
1930.
Em
1961, o autor manifestava preocupação com o caráter
“incipiente” do investimento capitalista no Brasil, que diante
de um quadro de aceleração da inflação, via-se em situação de
prejuízo para com as atividades produtivas, fato esse que poderia
então comprometer o
funcionamento da economia nacional em conjunto. Além da inflação
a alta taxação dos lucros, segundo o autor, que também era empresário,
também poderia levar à descapitalização
das empresas, privando-as dos recursos financeiros de que necessitam
para seu desenvolvimento, e comprometendo assim o próprio
desenvolvimento do país. Não sei se estava ou não preocupado
com os seus investimentos capitalistas particulares, mas o fato é
que em 1961, numa conjuntura de extrema densidade política para a
esquerda brasileira, o autor sugeria nela um modelo alternativo de
prevenção de crises do capitalismo nacional, uma proposta de harmonizar
a situação e que não prejudicasse o financiamento
que as empresas necessitam e que também pudesse atenuar o sacrifício dos trabalhadores. Na sua proposta sugeria a criação
de um fundo que organizasse a capitalização de uma
parte dos lucros nas próprias empresas que os produziram, mas em
favor não dos capitalistas titulares das mesmas empresas e sim do
Estado, em modelo similar aos pactos corporativos do fascismo
brasileiro dos anos 1937 – 1945, o autor afirma que esse fundo
deveria ser administrado pelo
Estado através de algum órgão paraestatal. Esse fundo teria participação no
capital de todas as empresas do país – das de maior significação
e vulto pelo menos, e aplicaria os benefícios daí decorrentes em
programas de assistência social. E quais poderiam ser as
conclusões políticas do modelo que Caio Prado Júnior sugeria como
o seu exemplo de agenda para a Revolução Brasileira? Afirma que o
principal fato resultante seria o de que com o fundo ninguém teria
prejuízo, haveria apenas, por parte dos capitalistas, um sacrifício pessoal (sic) e não para as suas empresas porque essas
teriam os recursos de reinvestimento assegurados, contudo, o mais
importante é que em termos políticos, com tal gesto, os
capitalistas poderiam então passar a contar
com muito mais boa vontade de seus empregados, porque esses
passariam a estar se esforçando não
mais apenas para o lucro e o engrossamento dos capitais de seus patrões,
mas naquela circunstância, os esforços do seu trabalho seriam também
por uma entidade pública que tem participação na empresa e que os beneficia
através da assistência que presta [5].
Com este exemplo descrito da interpelação política conjuntural do
intelectual Caio Prado Júnior, temos uma das marcas emblemáticas
da derrota do marxismo do Brasil.
3.
Caio Prado Júnior: a derrota do marxismo no Brasil.
Diante
do que afirmei podem-se depreender os principais aspectos que
matrizam o ideário de Caio Prado Júnior. O primeiro deles é que
em momento algum de sua obra defende uma revolução brasileira de
tintas socialistas. A revolução no Brasil seria fundamentalmente
capitalista, mas propositora de um capitalismo nacional, isto é, um
tipo de capitalismo diferenciado do capitalismo imperialista. As práticas
capitalistas nacionais haveriam de combater os laços internos de
alguns setores vinculados estreitamente com as práticas
imperialistas externas, justamente os setores que ainda demarcavam a
presença do antigo sistema colonial – o caso do latifúndio é clássico.
Assim, ao combater as heranças do sistema colonial combatia-se o
imperialismo, logo, a natureza estrutural do capitalismo brasileiro
seria diferenciada daquela do capitalismo internacional. A razão de
tal fato estaria dada pela tipicidade societária brasileira, uma
sociedade não seviciada pela lógica dos egoísmos societais
impostos pela ordem capitalista liberal, essa característica
brasileira seria uma das principais resultantes da evolução histórica
nos “nexos morais” de tipo superior que sugere na argumentação
apresentada no seu livro de 1942, que, é preciso que se ressalve
(pelo contexto em que foi publicado – durante o holocausto racista
do nazismo), era um livro demarcado por passagens expressivamente
racistas, além de apresentar também ambíguas influências de
teses similares àquelas de Oliveira Viana e Gilberto Freyre.
Em
segundo lugar, pela persistência das práticas institucionais do
velho modelo do sistema colonial na contemporaneidade do país, e
como não se haviam efetivado práticas genuinamente capitalistas
(conforme o modelo liberal ocidental) na sociedade brasileira (tese
fundamental apresentada no livro de 1962, que a maioria dos
estudiosos “oficiais” da obra pradiana se esquiva de comentar),
com a ação normativa do Estado, o capitalismo a ser construído
pautar-se-ia então por práticas altruístas – esse seria o organismo
em franca e ativa transformação que (afirma isso de modo
peremptório no seu livro de 1942) não tinha se estruturado no
Brasil ainda em linhas definitivas. Como as práticas do capitalismo
internacional (vistas na sua essenciabilidade pela marca do egoísmo
liberal) não tinham deitado raízes nas práticas sociais do
Brasil, o capitalismo nacional brasileiro em formação não teria
esse vício de origem, isto é, não teria práticas sociais egoístas
típicas do individualismo da cultura liberal. O Capitalismo
Brasileiro seria composto por bases altruísticas, de
solidariedade orgânica e o que garantiria tal especificidade seria,
sem dúvida, o Estado Nacional regulador. Desse modo, para Caio
Prado Júnior, o Estado nunca seria um espaço de interesses
privados, mas dos interesses gerais da sociedade pensados e
articulados em voz uníssona. Ora, tal ideário era uma das marcas
substantivas do positivismo reformador, tão presente na cultura política
brasileira, positivismo que remonta a Saint-Simon, Auguste Comte, e
noutra variação mais “sofisticada”, a Emile Durkheim (que
tinha inclusive, na sua proposta coletivista uma tese de socialismo
evolucionário, oriundo não das contradições da exploração
capitalista, mas das características de uma prática capitalista de
espírito regulatório). Nesse sentido, tenho como premissa global
de interpretação do modelo pradiano o fato de que o conjunto de
sua obra e de suas práticas institucionais deveria ser considerado
pela análise historiográfica como exemplo de um modelo tardio inserido no quadro do pensamento autoritário
brasileiro, o quadro daqueles que como Azevedo Amaral, por
exemplo, defenderam junto ao Estado Novo os emblemas da democracia autoritária,
no caso pradiano, uma democracia autoritária neocorporativista
[6].
por
JOÃO
ALBERTO DA COSTA PINTO