por MARISA M. DEAECTO

Doutora em História (USP)

 

Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Jr.: itinerário de leitura

 

“Os homens que estão um pouco para lá dos seus cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., publicado quando estávamos na escola superior”.[1]

 

A reconstituição dos autores e das obras que marcaram a formação intelectual de Antonio Candido e, como ele mesmo assevera, de toda sua geração, compõe importante painel da história do pensamento brasileiro e levanta algumas curiosidades. Seria interessante, por exemplo, uma história editorial das obras citadas, que revelariam seus diferentes momentos de recepção por parte do público brasileiro e, por que não, internacional.

Passando rapidamente em revista o contexto editorial de Casa Grande e Senzala, livro publicado no Rio de Janeiro, em 1933, pela Livraria Schimdt Editora, podemos constatar que o mesmo vinha coroar um novo selo (fundado em 1930). Curiosamente, tratava-se da edição de um trabalho acadêmico, dissertação realizada na Universidade de Colúmbia, por um estudioso pernambucano ainda pouco conhecido no meio intelectual carioca. A obra de Gilberto Freyre (1900-1987) apareceu com o selo “Maia e Schmidt” e, segundo Laurence Hallewell, “ganhou reputação nacional quase da noite para o dia. Com nova edição em 1936 e outra em 1938, foi também o primeiro grande sucesso da Livraria Schmidt Editora”.[2]

A Livraria e Editora localizada na rua Sachet, no 27, era freqüentada, dentre outros intelectuais, por Hamilton Nogueira, Sobral Pinto, Manuel Bandeira, Afonso Arinos de Melo Franco[3] e Alceu Amoroso Lima, grupo que na época ficou conhecido como Círculo Católico. Na verdade, os habitues da Livraria estavam longe de formar uma congregação de um só credo como deixa entrever o catálogo dos livros editados, embora seja possível afirmar que se houve uma temática ou uma crença comum entre os escritores que orbitavam no grupo de Schimdt, esta foi a crítica à sociedade brasileira e, mesmo, um sentimento de compromisso daquela geração com os novos rumos que se anunciavam após a Revolução de 1930.[4]

Diferente foi a trajetória do livro de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Raízes do Brasil saiu sob a chancela da editora José Olympio, com capa projetada por Santa Rosa, tendo inaugurado uma das mais relevantes coleções de ensaios de interpretação do Brasil nos anos de 1930 e 1940. Referimo-nos à Coleção Documentos Brasileiros, cuja primeira fase foi dirigida por Gilberto Freyre.[5] Uma nova edição, no entanto, sairia apenas em 1947, com novo prefácio, no qual o autor anuncia as mudanças realizadas no plano de redação original.[6] Teria o autor aguardado o tempo necessário para burilar o texto ou mesmo para aclimatá-lo à nova conjuntura brasileira que se anunciava desde a instalação do Estado Novo, em 1937? Ou o livro teve de esperar novo momento histórico para colher do público a fortuna crítica que o alçou a clássico da literatura brasileira? Difícil responder a esta questão, sem um estudo pormenorizado da recepção do livro e de sua trajetória editorial. O que foge ao escopo do presente texto.[7]

Mas é possível subtrair destes exemplos um aspecto da maior relevância, que caracteriza a produção intelectual da década de 1930 e nos aproxima das análises de Caio Prado Jr., o terceiro autor evocado nas memórias de Antonio Cândido. Foi após a Revolução de 30 que diferentes setores da intelectualidade brasileira encontraram arrimo entre novos e promissores editores para a consecução de estudos, ou melhor, de projetos para o Brasil, pautados em análises históricas e de crítica à realidade brasileira.[8]

O livro de Caio Prado Jr. (1907-1990), Formação do Brasil Contemporâneo: momentos decisivos, publicado em 1942, pela editora Martins, insere-se certamente nesse contexto, mas em outro momento histórico. Como bem observa Antonio Cândido, a obra marcou sua geração no momento em que eles se encontravam na “escola superior”. Lembremos que a Universidade de São Paulo e, no seu bojo, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que congregava estudiosos nas áreas de Sociologia, Geografia e História, celebrava nesta época seu primeiro decênio. Martins se tornou editor de livros universitários, de autores nacionais e de coleções estrangeiras, em particular, francesas. Ao lado dos quadros da jovem Universidade, o editor reunia intelectuais de outras instituições importantes da capital, dentre elas o Departamento de Cultura e de diversas outras coteries que conferiam fôlego renovado à vida cultural paulistana.[9]

Não nos parece, nesse sentido, detalhe fortuito o fato de os dois primeiros autores terem sido editados no Rio de Janeiro, em uma fase de reorientação do mercado editorial carioca, enquanto nosso autor teve sua obra publicada em São Paulo. Desde a década de 1920 a capital paulista se desenvolvia de forma extraordinária, do ponto de vista econômico, social e cultural e, vale sublinhar, a casa fundada por José de Barros Martins gozava de prestígio entre os intelectuais paulistas.

Outrossim, parece ter havido um hiato entre o momento de reorientação do mercado editorial, no início dos anos de 1930 e a fase de recepção de tais obras no seio da intelectualidade brasileira.[10] É pelo menos sugestivo o fato de Raízes do Brasil ter alçado grandes vôos editoriais a partir da década de 1940, quando o nome do autor tem notoriedade nacional e internacional.[11] Também na década de 1940 Caio Prado Jr. logrou editar não apenas sua obra maior, lembrada por Antonio Cândido, como reeditou, agora por seu próprio selo, a Editora Brasiliense, Evolução Política do Brasil – ensaio de interpretação materialista da História do Brasil.[12]

Impresso em 1933, pela Empresa Gráfica Revista dos Tribunais, o livro se insere no momento de efervescência ideológica e de mudanças profundas na composição das classes dominantes do país, apresentando-se fiel à tendência anteriormente assinalada de crítica à realidade brasileira a partir de uma perspectiva histórica. Não obstante, Caio Prado Jr. coloca em cena um elemento de vanguarda, ainda pouco difundido no Brasil, que será de importância fundamental em toda sua produção: o materialismo histórico como método analítico. E embora o livro não tenha obtido nenhum ímpeto editorial na época de seu lançamento, pelo menos ele não figura entre os títulos formadores da geração de Antonio Cândido, consideramos justo o acréscimo deste ensaio no conjunto das obras mencionadas, sem prejuízo, é claro, para as evocações pessoais do autor.

Nesse momento em que se celebra o centenário do nascimento de Caio Prado Jr. torna-se fortuita a elaboração de um itinerário de leitura de Evolução Política, à luz das grandes questões de natureza editorial, lembradas nessa primeira parte do texto e de seus particularismos. É o que veremos nos tópicos que se seguem.

Um ensaio de interpretação materialista

Parafraseando conhecido comentário de Hipólito da Costa sobre a introdução da imprensa no Brasil, podemos dizer que também a literatura marxista passou a circular “tarde, desgraçadamente tarde entre nós”.[13] Muitos foram os fatores que conspiraram contra a difusão de livros de esquerda:

a inexistência de um público leitor que conformasse uma tradição literária socialista. Esta remonta à Europa (em especial à França e à Inglaterra), no final do século XIX, com os autores utópicos. A emergência de uma classe operária consciente e atuante contribuiu para o desenvolvimento das idéias socialistas e a difusão das correntes científicas, em particular, das obras de Marx e Engels;

por conseguinte, os movimentos sociais embrionários que surgiram no Brasil no final do século XIX e, no século XX, as correntes anarquistas que se desenvolveram nos centros urbanos não foram capazes de construir um campo editorial sólido para a difusão de suas idéias. Socialistas e anarquistas europeus circulavam em solo nacional em textos traduzidos em jornais ou publicados em italiano. Nem mesmo após a fundação do PCB, em 1922, houve, de imediato, possibilidade para a consolidação de um mercado editorial voltado para a cultura comunista;

a relação literatura e público mediada pela existência de um mercado editorial autônomo encontra seus primeiro ímpeto após a crise de 1929 e a Revolução de 1930, no contexto de ampliação de projetos editoriais comprometidos, como já o afirmamos, com a elaboração de projetos e a difusão de novas ideologias, da direta à esquerda. Mas, nesse caso, seria mais apropriado avaliar o movimento como um impulso inicial, o que não significa a consolidação de um sistema literário de coloração marxista.[14]

É evidente que estamos a tratar das condições de difusão da literatura marxista, problema que apenas tangencia aquelas outras atinentes à produção de ensaios ou mesmo de estudos abrangentes que buscassem instrumentalizar questões teóricas do marxismo ou do comunismo para uma reflexão da realidade brasileira. Não foi outro o desafio de Caio Prado Jr. quando da elaboração de Evolução Política do Brasil.

O encontro do autor com a literatura marxista se entrelaça com sua própria trajetória política, cujo marco é o ingresso no Partido Comunista, em 1931. É quando dá inicio à militância e ao estudo das obras de Marx e Engels, cuja admiração testemunha em seu diário: "O Socialismo Marxista é uma idéia força. Além de abrir perspectivas para a teoria também o faz com referência à ação solucionadora".[15]

Antes, porém, é preciso reconhecer em Caio Prado Jr. o homem de família aristocrática, homem culto, amante de viagens, que se bacharelou, em 1928, pela Academia de Direito, no Largo São Francisco. Foi nesse mesmo ano que ingressou no Partido Democrático, onde descobriu uma outra faceta, a do militante aguerrido, que, mais pouco mais tarde, sairia às ruas em defesa do operariado, ao lado dos companheiros comunistas. Mudança radical processada ainda na juventude, em um período de tempo muito curto, porém, intenso. Conta-se que a mudança de postura partidária se deu como conseqüência do desejo de conhecer o país, donde verificou uma situação de miséria e uma nação com diferenças regionais gritantes: “Eu era na realidade um burguês rico, de educação e visão européia, acostumado ao conforto material. Ignorava até então a nossa realidade”.[16]

Como militante do Partido Comunista foi preso, em 1935, no Rio Grande do Sul e trazido para São Paulo, sendo libertado apenas em 1937. Parte para a França, onde mantém contato estreito com o PCF e com refugiados da Guerra Civil Espanhola. Após o retorno a São Paulo participa da campanha pelas eleições em 1945, sendo eleito dois anos mais tarde Deputado Estadual. Tem papel ativo na Assembléia Estadual Paulista, deixando o cargo com a cassação do PCB, entre os anos de 1947 e 1948. Na década de 1950 funda a Revista Brasiliense, da qual é assíduo colaborador e, após o golpe de 1964, é novamente preso por se posicionar em seus escritos contrário ao sistema vigente. Ao longo de sua militância, que é constante, escreve livros sobre Viagens, História, Geografia, Economia e Filosofia.

Por este brevíssimo resumo de sua militância e produção intelectual, podemos inferir que a concretização do primeiro ensaio crítico sobre a história política do Brasil representa um ponto de clivagem na trajetória do autor. O que se reflete na estrutura interna do texto, quando notamos que o ensaio não se limita a uma visão de síntese da temática proposta, ou seja, ao quadro evolutivo da história política de nosso país, mas, antes, a uma interpretação dos fatos observados em função de um método. Ao justificar os recortes e as escolhas “absolutamente necessárias” em uma obra direcionada ao grande público, o autor assume “desprezar circunstâncias cuja falta talvez se faça sentir para a perfeita clareza da exposição”. Ao que pondera: “Mas tratando-se de um método relativamente novo – refiro-me à interpretação materialista – de analisar a história brasileira, não me era dado conhecer as exigências dos autores”.[17]

Referindo-se à especificidade da formação da sociedade brasileira, escreve: “[ela] é o reflexo fiel de sua base material: a economia agrária. Assim como a grande exploração absorve a terra, o senhor rural monopoliza a riqueza e com ela os seus atributos naturais: o prestígio; o domínio”.[18]

O que lhe permite seguir um esquema de análise – semelhante ao que fará no livro publicado em 1942 – que visa ao reconhecimento das especificidades da organização colonial através das formas de ocupação do solo, o que se deu pela organização de capitanias hereditárias, ou seja, de grandes propriedades, de caráter patrimonial; na forma de exploração do solo e evasão de nossas riquezas; e na distinção das hierarquias sociais, numa sociedade marcada, em seus extremos, por senhores e escravos.

Nesse ponto, cumpre ressaltar que o social era fator ainda pouco estudado, pouco valorizado. Que a participação das classes sociais e o processo social, político e econômico eram considerados secundários. Como anota o autor no Prefácio da 1ª. edição: “os nossos historiadores, preocupados unicamente com a superfície dos acontecimentos (...) esqueceram quase que por completo o que se passa no íntimo de nossa história, de que estes acontecimentos não são senão um reflexo exterior”.[19]

Nesse aspecto, cumpre ressaltar que o horizonte historiográfico conhecido e oficialmente aceito era aquele consolidado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, do qual participavam eruditos que tinham como interesse comum a edificação de uma História nacional. A Universidade de São Paulo, já o assinalamos, acabara de sair do projeto e o curso de História e Geografia da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras estava longe de formar uma escola de pensadores da realidade brasileira, como o faria uma geração mais tarde. Ao largo desta importante instituição, estavam os grupos, ou melhor, as coteries agregadas em revistas e jornais, cujas contribuições ganharam vulto, como observamos anteriormente, nos anos de 1920. No mais, dominavam as histórias dos heróis e dos grandes feitos, rechaçadas pelo autor, pois: “não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes, em cujo benefício se faz a história oficial...”.[20]

Todavia, não vemos no radicalismo do autor uma ruptura total com a historiografia oficial. A ruptura, vale frisar, foi metodológica e derivou de sua tomada de posição política. Afinal, era evidente a dívida com os historiadores das velhas instituições, tanto de um IHGB, no Rio de Janeiro, quanto de um Museu Paulista, cujo esforço de tradução e resgate de arquivos d´além-mar viabilizou pesquisas vindouras. O conhecimento que se tinha na época de documentos relativos ao período colonial, que viria embasar o primeiro – e único – volume de Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia, só foi possível graças às árduas pesquisas realizadas, até aquele momento, em arquivos estrangeiros. Acreditamos que a não continuidade da obra, que se limitou ao período colonial, contrariando o projeto de origem, não deve ser explicada por um capricho do autor, ou pelo acúmulo de outras atividades que o teria impedido de perseverar na análise sobre o Império e a República. A abundância de documentos relativos ao período colonial em contraste com o que se conhecia sobre os demais períodos sugere um obstáculo a mais para a consecução do projeto.

Entre o ensaio de interpretação política destinado ao público em geral e a contribuição definitiva para a historiografia brasileira, cujos desdobramentos ainda são observados nos estudos sobre o Brasil Colônia, passaram-se nove anos. É verdade que Evolução Política – a exemplo do que se passara com a edição de Raízes do Brasil – teve condições materiais de atingir um público mais largo apenas na década de 1940. Nessa época, Caio Prado Jr. se apresenta aos seus pares como intelectual conhecido e respeitado, tanto por sua produção bibliográfica, quanto por sua coerência política.

Coube a Nelson Werneck Sodré a percepção das semelhanças e mesmo do caráter complementar destas duas obras, embora, evidentemente, reconhecesse a superioridade de Formação:

“Com Caio Prado Junior vamos encontrar os primeiros ensaios históricos feitos em bases modernas. A Evolução Política do Brasil constitui o primeiro trabalho fundado no materialismo histórico. É uma obra inacabada, onde há lacunas mas em que se encontram idéias e orientações das melhores, verdadeiras chaves de interpretação dos acontecimentos e fases principais da nossa existência. Formação do Brasil Contemporâneo, de que só apareceu o primeiro volume, abrangendo a época colonial, é um dos grandes livros brasileiros, indispensável à compreensão do nosso passado, escrito com rigor, com largueza de traços, com inteligência singular”.[21]

A crença da História

Se no capítulo destinado à Colônia, como citamos no tópico anterior, o autor elabora as linhas preliminares do que futuramente ficará registrado como “sentido da colonização”,[22] também os principais fatos que marcaram a história do Império ganham, em Evolução Política, interpretação revolucionária.

Pioneiro é o tratamento dado pelo autor à chegada da Família Real, em 1808. O “processo de interiorização da metrópole”, tema que Maria Odila Leite da Silva Dias desenvolverá em ensaio de mesmo título,[23] marca uma nova fase da política brasileira:

“são abolidas, uma atrás da outra, as velhas engrenagens da administração colonial, e substituídas por outras já de uma nação soberana. Caem as restrições econômicas e passam para um primeiro plano das cogitações políticas do governo os interesses do país. São estes os efeitos diretos e imediatos que mesmo um governo propriamente nacional não poderia ultrapassar”.[24]

Nesse capítulo, não por acaso intitulado “Revolução”, o autor desenvolve os elementos de contradição da sociedade de dantes: os conflitos de interesses classistas e o contraste entre a nova e a antiga estrutura; a centralização do Estado; o protecionismo face à intervenção estrangeira, o que demonstra a insegurança do governo diante do gigante europeu.

Nos tópicos dedicados às sedições que marcaram o Primeiro Reinado e, sobremaneira, o Período Regencial e parte do Segundo Reinado, temos uma síntese das transformações sócio-políticas da época, na qual entram em cena grupos de homens livres cuja força era ignorada pela historiografia. São eles representantes

“das camadas médias e inferiores e não atuavam sobre elas fatores capazes de lhes darem coesão social e possibilidades de uma eficiente atuação política. Havia nela a maior disparidade de interesses, e mais do que classes nitidamente constituídas, formavam antes simples aglomerados de indivíduos”.[25]

A inserção do país no circuito do capitalismo industrial ocorre durante o Segundo Reinado. Nesse momento, é possível entrever a formação de posturas políticas e partidárias definidas, que tinham de

“se inclinar ou para a bandeira desfraldada desde 1866 pela Opinião Liberal, em que se inscreviam medidas radicais, como o Senado temporário e eletivo, o sufrágio direto e generalizado, a extinção do Poder Moderador, a substituição do trabalho servil pelo trabalho livre; ou então voltar ao ponto de partida – o status quo. É esta a alternativa adotada com a formação do gabinete de 16 de julho de 1868. O império se definia francamente pelo passado... Daí por diante é a degringolada”. [26]

À guisa de conclusão, não nos parece demasiado reafirmar o caráter revolucionário do ensaio em análise. Revolução metodológica que se evidencia na estrutura da obra e que o autor faz transbordar na linguagem, como pudemos constatar nas passagens citadas. Particularmente no que diz respeito ao capítulo “Revolução” e ao “Império”, ou “Segundo Reinado”, o autor parece fazer uso de categorias analíticas e de impasses de natureza política que são muito próximas das questões de seu tempo. A frase final “Daí por diante é a degringolada” nos remete a um forte desencanto com o Brasil, este Brasil profundo incapaz de levar às últimas conseqüências uma revolução. Porém, ao optar pela análise histórica para a compreensão da realidade nacional, o autor deixar entrever um horizonte possível para a transformação. Afinal, a crença na História é (também e sobretudo) uma crença no progresso. No futuro. No tempo. Pois, como declara o autor em discurso proferido no ano de 1946: “Nada de sólido se faz sem o concurso do tempo”.[27]

 

__________

[1] Antonio Cândido, “O significado de Raízes do Brasil”. In: Sérgio Buarque de Holanda. 20ª. edição comemorativa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987, p. xxxix. [Texto publicado pela primeira vez em 1967].

[2] Laurence Hallewell, O Livro no Brasil – sua história. 2ª. edição revista e ampliada. São Paulo: Edusp, 2005, p.427.

[3] Que mais tarde dirigiria a Coleção Documentos Brasileiros, de José Olympio.

[4] “É assim, nesta fase transitória e incerta, de aparente vitória tenentista, que surge no Rio de Janeiro, sob a direção de Augusto Frederico Schmidt, a Coleção Azul, tentativa única na época, que pretende ser, nesse clima de decepção e incertezas posterior à Revolução de 1930, um instrumento de análise e orientação ideológica da pequena burguesia”. Edgard Carone, Leituras marxistas e outros estudos. Organizado por Lincoln Secco e Marisa M. Deaecto. São Paulo: Xamã, 2004, pp.127-128.

[5] É o que anuncia Gilberto Freyre, no texto de apresentação de Documentos Brasileiros: “A série que hoje se inicia com o trabalho de Sérgio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil, vem trazer ao movimento intellectual que agita o nosso paiz, á ancia de introspecção social que é um dos traços mais vivos da nova intelligencia brasileira, uma variedade de material, em grande parte ainda virgem. Desde o inventário á biographia; desde documento em estado quase bruto á interpretação sociológica em forma de ensaio”. Gilberto Freyre, “Documentos Brasileiros”. In: Sérgio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil. 1ª. edição. São Paulo: José Olympio, 1936, s.n.p.

[6] O texto definitivo foi publicado a partir da 5ª. edição. Cf. Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, op. cit., p. xv.

[7] Isso não nos impede o anúncio de algumas pistas para pesquisas futuras. A citada 20ª. edição apresenta “fac-símile do recibo dos direitos autorais da 1ª. edição de Raízes, passado por Sérgio Buarque de Hollanda no dia do lançamento do livro em 19.10.1936, na rua do Ouvidor no 110. Como habitualmente fazia, o Editor pagava integralmente os direitos ao Autor ao lançar o livro”. A mesma nota anuncia terem sido tirados 150 exemplares para publicidade e 20 exemplares em papel especial. Também a edição apresenta anúncio do livro na revista literária de Gastão Cruls, Boletim de Ariel, de novembro de 1936. A nota não nos dá notícia, contudo, da tiragem da primeira edição. Idem, ibidem, p. liv.

[8] Em certo sentido, esta tendência foi observada após a Primeira Guerra e, de modo decisivo, nos anos de 1920. É quando aparecem análises pautadas em diversas disciplinas, História, Geografia, Etnologia, Lingüística, Literatura. Exemplar profícuo deste tipo de produção foi a Revista do Brasil, como o demonstra Tânia Regina de Luca, em A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. São Paulo: Editora Unesp, 1999.

[9] O próprio Martins foi convidado a dirigir o Departamento de Cultura. Durante sua gestão “promove cursos nos bairros, estimula a instalação de bibliotecas nos pontos distantes do centro, leva música e balé às fábricas, aos grandes conglomerados que beiram a capital. Na Biblioteca da Consolação, organiza conferências, convidando para proferi-las Érico Veríssimo José Lins do Rego, Moisés Velhinho, Franklin de Oliveira, além de muitos outros intelectuais paulistas e de diferentes procedências. Queria estar à altura da obra admirável iniciada pelo seu amigo e mestre, Mário de Andrade. Assim dizia e assim fazia”. “Breve história de uma editora, ou Memorial de um amigo do, da e dos Martins”, por Mario da Silva Brito. In: Martins, 30 Anos. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1967, p.xxiii. Tal envolvimento entre um editor e o meio intelectual de seu tempo só acontecera vinte anos antes, quando Monteiro Lobato congregou em sua editora grandes nomes das letras paulistas e nacionais. A este respeito, ver Cilza Carla Bignotto, Novas perspectivas sobre as práticas editoriais de Monteiro Lobato (1918-1925). Tese de doutorado, Unicamp, IEL, 2007.

[10] Havia, por certo, a demanda por obras de síntese que dessem conta da compreensão da realidade brasileira. Em 1945, escreve Nelson Werneck Sodré: “Apesar de parecer sempre que quem organiza um trabalho deste tipo tende ao esquecimento e lida com as dificuldades da abundância, vamos ter a franqueza de afirmar que foi falta, em regra, a nossa dificuldade, porque, entre nós, houve sempre mais esforço em superfície do que em profundidade; há um acúmulo enorme de livros narrativos e uma falta alastrada de livros de interpretação. Estes, apenas começam a surgir e não podem, ainda, abranger todos os assuntos e todos os setores da vida brasileira. Setores há em que não existe uma obra de súmula, capaz de servir de base ao estudo de iniciação, nem mesmo para situar os problemas, deixando a outras a tarefa de desenvolvê-lo”. Nelson Werneck Sodré, O que se deve ler para conhecer o Brasil. 1a. edição. Rio de Janeiro: Cia. Editora Leitura, 1945, p.16.

[11] As primeiras edições estrangeiras datam de 1955, em espanhol e 1954, em italiano.

[12] O sub-título “Ensaio de interpretação materialista da História do Brasil” figura apenas na primeira edição. A partir da segunda edição, de 1947, o ensaio passa a ser publicado pela Editora Brasiliense. A mesma esgotou-se, tendo sido reeditada em 1953, agora sob o título Evolução Política do Brasil e outros estudos. Em todas as edições assinaladas o autor mantém o Prefácio da 1a. Edição. Sobre a produção de Caio Prado Jr., ver Paulo Henrique Martinez, A dinâmica de um pensamento crítico: Caio Prado Jr. (1928-1935). Tese de Doutorado, USP, FFLCH, 1999.

[13] Apud. Caio Prado Jr., “O Tamoio e a política dos Andradas na Independência do Brasil”. In: Evolução Política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1953, p.187.

[14] Para estudo aprofundado de todas estas questões, ver Edgard Carone, Leituras marxistas, op. cit.; O marxismo no Brasil (das origens a 1964). Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986 e Da esquerda à direita. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991. Esta questão foi tratada em pequena contribuição nossa, ver Marisa M. Deaecto e Lincoln Secco, “A difusão dos livros marxistas na América Latina e no Brasil”. América Latina: encruzilhada da História Contemporânea. Organizado por Osvaldo Coggiola. São Paulo: Xamã, 2003, pp.69-80.

[16] Apud. Maria Cecília Naclério Homem, “Do palacete à enxada”. História e Ideal. Organizado por Maria Aparecida D´Incao. São Paulo: Ed. Unesp; Brasiliense; Secretaria de Estado da Cultura, 1989, p.47.

[17] Caio Prado Jr., Evolução Política, op. cit., p. 7.

[18] Idem, ibidem, p.22.

[19] Ibidem, p.7.

[20] Ibidem, p..8.

[21] Nelson Werneck Sodré, O que se deve ler..., op. cit., p. 128.

[22] Em síntese, conclui o autor que “o choque de forças, interesses nacionais e lusitanos, no terreno econômico; autonomia local, representada pela auto-administração dos colonos, e sujeição administrativa, representada pelo poder soberano da Coroa portuguesa, no terreno político; o choque destas forças assinala a contradição fundamental entre o desenvolvimento do país e o acanhado regime de colônia”. Caio Prado Jr., Evolução Política, op. cit., p. 28.

[23] cf. 1822: Dimensões. Organizado por Carlos Guilherme Mota. São Paulo: Perspectiva, 1972.

[24] Caio Prado Jr., Evolução Política, op. cit., p. 45.

[25] Idem, ibidem, p.64.

[26] Ibidem, p.96.

[27] Ibidem, p.220.

por MARISA M. DEAECTO

 

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