Mulheres
na Economia Popular e Solidária: desafios para a emancipação
feminina e a igualdade de gênero
1.
Introdução
O
modo de produção capitalista estabelece, em sua estratégia de
dominação e exploração, o endeusamento do mercado, o qual passa
a ser, em seu juízo, incontestável, imutável, inegável e
imprescindível para o “bom” funcionamento da sociedade. Diante
deste contexto, a maior parcela da população mundial encontra-se
cada vez mais excluída dos processos sociais, econômicos e políticos,
ocasionando, principalmente em países do terceiro mundo e em
desenvolvimento, um círculo vicioso de desemprego, miséria, fome e
barbárie. Em debates recentes, começa a ser esboçado, a nível
mundial,
um movimento denominado de “Economia Popular e Solidária”, o
qual baseia-se em iniciativas de solidariedade e cooperação entre
seus membros, como forma de resistência ao mercado capitalista e na
tentativa de gerar trabalho e renda para esta parcela excluída da
sociedade.
Neste
processo de construção da Economia Popular e Solidária vários
grupos de mulheres têm se organizado,
cada vez mais, em todo o Brasil. Portanto, pretendemos analisar de
que maneira a Economia Popular e Solidária pode influenciar,
modificar e gerar melhorias na vida das mulheres e até que ponto
este movimento pode vir a proporcionar a busca da igualdade de gênero
e contribuir para a emancipação feminina.
2.
A situação estrutural das mulheres no mercado de trabalho
As
diferentes condições em que vivem homens e mulheres não são
ocasionadas pela diferença biológica existente entre ambos, mas
sim pelas construções sociais e econômicas, as quais geraram uma
relação social de sexo (KOLLONTAI, 1977: 13). Estas diferenças são
observadas no mundo do trabalho através da divisão sexual do
trabalho, sendo o trabalho hierarquizado. As
relações de gênero são sustentadas e estruturadas por uma rígida
divisão sexual do trabalho, onde o trabalho
masculino ainda é, na sua maioria, mais valorizado que o feminino.
Os homens são responsáveis pelo “sustento da família”,
trabalhando, portanto, na produção e exercendo funções de
elevado valor social agregado (políticas, religiosas, militares)
enquanto as mulheres são excluídas da esfera pública, cabendo a
elas as atribuições da reprodução (BEAUVOIR, 1968).
Assim, num equivocado julgamento de
valor social, o trabalho feminino é considerado “leve”,
“insignificante”, caracterizado como uma “ajuda” à família.
Ao longo do
processo histórico, as mulheres têm sido responsabilizadas pelas
“obrigações” familiares, trabalho este não remunerado,
realizado gratuitamente para os outros membros da família,
considerado de secundária importância e, portanto, um trabalho
invisível, “feito não para si, mas para os outros, sempre em
nome da natureza, do amor e do dever maternal” (KERGOAT, 2003:
56).
Como
“oficialmente” os homens são considerados os provedores da família,
o trabalho realizado pelas mulheres é encarado como complementar às
suas “obrigações familiares”, sua “verdadeira” ocupação
e responsabilidade. Portanto, os salários recebidos pelas mulheres
em funções iguais às exercidas por homens, na maioria das vezes,
são inferiores.
Neste contexto, as empresas e o poder público são coniventes com
esta estrutura social e econômica, contribuindo para que as
mulheres, tendencialmente, abdiquem de um trabalho formal, para
atender às “necessidades” familiares, sacrificando, assim, suas
liberdades e desejos pessoais, em nome do “bem coletivo”.
3.
Economia Popular e Solidária: um desafio para as mulheres
A
Economia Popular e Solidária ocupa lacunas deixadas pelo modo de
produção capitalista que nem o mercado, nem o poder público
conseguiram solucionar: o desemprego, a exclusão social, econômica
e política, a insegurança alimentar, o acesso à educação e saúde,
etc (GUÈRIN, 2003: 75). Este movimento social é uma forma de
organização econômica, o qual adota os valores da democracia
dentro do contexto econômico, prezando pelo trabalho coletivo, pela
igualdade entre os membros, pela divisão do poder de decisão,
pelos iguais direitos diante de decisões, pela fidelidade na
representatividade do grupo, sendo a igualdade e a democracia
elementos centrais deste novo movimento econômico (SINGER,
2004). Portanto, a
Economia Popular e Solidária reúne um conjunto de iniciativas econômicas
privadas direcionadas para o interesse coletivo e baseadas na
democracia, na solidariedade e na cooperação, sendo realizada a
elaboração conjunta da oferta e demanda a partir dos espaços públicos
de proximidade, os quais favorecem uma rearticulação econômica,
social e política (GUÈRIN, 2003: 75).
Para que isto ocorra efetivamente, é fundamental o estabelecimento
de relações de confiança entre os membros. Muitas reuniões,
conversas, debates e discussões são importantes para estabelecer a
coesão necessária para que a economia solidária, de fato, aconteça.
As
mulheres, no decorrer da história, têm dedicado muito de sua vida
para manter as relações de reciprocidade que proporcionam coesão
à família e à sociedade, sendo estas expressas nas práticas de
se reunir em grupos, seja no clube de mães, na igreja ou
comunidade, nas relações familiares e comunitárias, o que
facilita seu engajamento em um movimento. Tendencialmente, as
mulheres são as primeiras a se auto-organizarem também devido às
dificuldades materiais que o mundo feminino apresenta, como o acesso
à propriedade, à terra e ao crédito.
O
trabalho assalariado das mulheres, produzido na sociedade capitalista,
pode representar para elas a libertação da dependência econômica
dos homens (MENSCHIK, 1978: 59). Porém, facilitar o acesso
das mulheres a atividades geradoras de renda, não garante a
igualdade real entre homens e mulheres.
Como
a Economia Popular e Solidária pode colaborar para romper com a
separação entre produção e reprodução, com a divisão sexual
do trabalho e ampliar a noção de trabalho?
Segundo GUÈRIN (2003: 76 ff.), a Economia Popular e Solidária
apresenta-se como uma possibilidade de superar as diferenças de gênero,
por se tratar de uma organização que prima pela solidariedade e
cooperação entre seus membros. Assim sendo, a tomada de consciência
de que as mulheres têm mais dificuldades de fazer valer seus
direitos, pode ocasionar um engajamento conjunto entre elas e/ou
juntamente com os homens para superar desigualdades sociais e
transformá-las em direitos reais. Embora os grupos de Economia
Popular e Solidária se reúnam por necessidades imediatas e
cotidianas, é preciso superar este imediatismo e incidir também
sobre a elaboração de políticas públicas que contribuam para a
ruptura da divisão sexual do trabalho, inclusive nos
empreendimentos de Economia Popular e Solidária. Outro desafio
importante do Movimento da Economia Popular Solidária em relação
às questões de gênero, é debater e proporcionar a mudança
cultural não só nas relações de trabalho, mas também partilhar
entre mulheres e homens as necessidades do cuidado com o outro,
deixando de ser esta uma “obrigação” familiar naturalizada do
sexo feminino e passando a ser encarada como uma responsabilidade da
família, das autoridades públicas,
do mercado e da sociedade civil, ultrapassando assim, as fronteiras
entre o domínio monetário e não-monetário e dos interesses
particulares e gerais (GUÉRIN, 2003: 81ff.).
Numa
avaliação geral, sob a ótica das relações de gênero e emancipação
feminina, a Economia Popular e Solidária pode contribuir de várias
formas: a) para aliviar o cotidiano das mulheres, pois estas
partilham o peso de suas “obrigações”, contribuindo para uma
melhor articulação entre a vida familiar e profissional; b) no
contexto de trabalho solidário, as mulheres contam com espaços de
discussão privilegiados para expressar reivindicações e
pressionar efetivamente as autoridades públicas para a construção
de políticas públicas de gênero, ajudando assim, no
desenvolvimento da capacidade da mulher contribuir para as mudanças
sociais e institucionais mais favoráveis para elas; c) viabiliza o
acesso ao crédito e d) proporciona a emancipação financeira da
mulher. Enfim, dentro da Economia Popular e Solidária o maior
desafio é transformar as relações interpessoais e de gênero, ao
mesmo tempo em que se busca mudanças estruturais na sociedade, na
economia e na cultura (NOBRE, 2003: 28).
Ao ingressarem no mundo do trabalho, as mulheres são exploradas
duplamente. Por um lado vendem sua força de trabalho no
“mercado” a um preço mais baixo que o dos homens. Além
disso, seu corpo é mercantilizado através da propaganda. Por
outro lado, as mulheres mantiveram suas “obrigações
familiares”, gerando uma sobrecarga de trabalho e
responsabilidades.
por
ROSÂNGELA ANGELIN
& CECÍLIA MARGARIDA BERNADI