O
enterro da sardinha: o carnaval na Espanha
Parece
que ninguém sabe dizer ao certo, com certeza baseada em livros,
de onde vem o costume de queimar e enterrar a sardinha na quarta
feira de cinzas na Espanha. Uma fonte diz que, durante o reinado
de Carlos III (que reinou de 1759 a 1788), ele tomou algumas
decisões muito impopulares, e alguém – um gaiato de bom
humor – lhe enviou um lote de sardinhas podres. O soberano
imediatamente mandou queimá-las.
Outras
fontes dizem que a queima tem que ver com o fato de que, durante
a quaresma, todos os ferventes católicos espanhóis vão passar
praticamente comendo só sardinha. Este sempre foi um peixe
barato e abundante na Espanha, tão cercada de mares e oceanos.
O que encontrei de informação, e o que me foi passado por
colegas espanhóis, é muito pouco mesmo. De fonte segura, só
deu pra ver que, na Academia Real de Belas Artes de San
Fernando, em Madri, há um quadro pintado por Goya entre 1812 e
1819, que se chama “El entierro de la sardina”.
É um quadro relativamente pequeno, de 82.5cm por 62cm e pertence à fase madura da
obra de Goya.
Estranhamente, neste quadro não se vê nenhuma sardinha, mas
somente uma multidão composta especialmente por homens, que
circundam duas mulheres jovens vestidas de branco, enquanto um
estandarte com um desenho de uma outra figura masculina,
parecida a um palhaço, ri. Seria este o rei Momo do carnaval?
Seria uma figura política da época do pintor? Os livros de
arte são muito reticentes quanto a esta figura, e ninguém
parece interessado mesmo em estudar o quadro. Ele aparece no
museu e pronto. A
Academia Real de Belas Artes de San Fernando, que foi a escola
onde Salvador Dali desenvolveu sua técnica, e onde o próprio
Goya trabalhou, é um pequeno museu, que perto do mundialmente
famoso Prado, do museu Thyssen e do museu da rainha Sophia (que
tem uma grande coleção de Picasso) fica meio esquecido, e
nenhuma multidão se põe às portas para ver as obras de arte
contidas ali. Também, com a quantidade de quadros e pintores
importantes que a Espanha já produziu, acho que podemos
desculpar os espanhóis pelo “descaso” quanto a esta pintura
que me interessa tanto.
O
que podemos deduzir, pela imagem, é que a multidão está se
divertindo. E que as duas mulheres, vestidas com o branco
virginal, não parecem estar em nenhum perigo imediato. Tudo é
carnaval! Todos estão claramente cantando e dançando, e há até
duas crianças nas imediações das duas mulheres. Nada de ruim
vai acontecer com elas.
O
que me intriga é a ausência da sardinha.
Esta
ausência, no entanto, não foi notada no “enterro da
sardinha” de que participei em Alcalá de Henares nesta última
quarta feira de cinzas. Na verdade, havia muitas sardinhas.
Algumas de verdade, pregadas em uma armação de madeira que
parecia muito com uma cruz, e algumas feitas de madeira e papel,
que eram carregadas pelos “devotos”.
Este
“enterro”, mesmo em uma cidade pequena como Alcalá, atraiu
tanta gente como a que participou das festividades do sábado,
domingo, segunda e terça feira. Esta cidade comemora seu
carnaval nas ruas, com todos da família participando. Não há
festas em clubes. Não há sambódromo. No sábado, domingo,
segunda e terça, apesar da chuva fria as ruas milenares de
Calle Mayor (onde se encontra a casa onde nasceu Cervantes em
1547) a Calle Libreros, e a Plaza Cervantes, se encheram de
gente de todas as idades seguindo muitas “comparsas” –
grupos de pessoas vestidas de roupas feitas especialmente para a
ocasião. Entre estas comparsas havia dois centros de terceira
idade compostos quase que exclusivamente de mulheres vestidas
com roupas super coloridas, um grupo mais sofisticado vestido de
guerreiros agricanos, mais um grupo de homens e mulheres que
trabalham em uma companhia, todos vestidos de ratos, seguindo um
suposto encantador que tocava uma musiquinha muito desanimada. E
mais grupos de pais jovens que se fantasiaram, e aos seus bebês,
e aos carrinhos dos bebês, todos de “joaninhas”, e mais a
escola de dança que trouxe seus mais de cem estudantes vestidos
de Michael Jackson enquanto dançavam e uma caminhonete logo atrás
deles tocava um samba da Bahia, ê ê, samba da Bahia, ê ê
samba da Bahia ê ê!
Que
dizer de um espetáculo destes? No sábado, quando fui ver o
primeiro desfile de comparsas, imaginei que seria uma coisa de
meia hora. Já alguns conhecidos da cidade tinham dito que “o
carnaval aqui não é bom. O melhor é em Madri. Em Cádiz e
Tenerife, são os melhores do país, e só perdem para o
carnaval do Rio de Janeiro!” Mas eu gosto de ver os festivais
nas cidades pequenas, assim como gosto de fazer compras nas
cidades pequenas. Daí fiquei por Alcalá mesmo, e foi excelente
estar perto das pessoas, sem medo de assalto, sem preocupações
com metrôs cheios, trens cheios. E o desfile durou umas 2
horas, seguido da premiação no coreto da Plaza de Cervantes.
Antes da premiação, o prefeito, uma mulher que não se
identificou mas foi reconhecida e aplaudida pela multidão, e
uma criança, falaram pela paz, desde a janela da prefeitura.
Enquanto
isto, no meio da praça, mais gente chegava, inclusive alguns
amigos, com os quais assisti a entrega dos prêmios. Foi
emocionante. O dinheiro não significava muito, mas a alegria
dos participantes foi contagiante. Todos aplaudiram todos, e
mesmo o conjunto dos ratos tristes se alegrou, dançando
animadamente para celebrar os demais, que haviam ganho os prêmios.
Quando saí da praça, uma orquestra tomava conta do coreto e
cantava canções internacionais, boleros, tangos, música romântica,
enquanto que a multidão se balançava suavemente, sem dançar.
Voltei
à praça na terça feira para ver o concurso das fantasias, e
depois, na quarta feira, para o enterro da sardinha. Desta vez,
não vi nenhum conhecido. Estávamos, meu marido e eu, sozinhos
com a multidão alcalaína.
Assim
que chegamos à praça de Cervantes, as 19:30, se abria o
“cortejo” com quatro figuras “eclesiásticas”: um bispo,
e três “coroinhas”. Detalhe: as quatro eram mulheres, e
vinham em cima de pernas de pau, que as faziam ter quase cinco
metros de altura. Vinham abençoando a multidão e abrindo
caminho para o primeiro “andor” com uma sardinha,
carregado por uns seis homens. E eram homens sérios, não
fantasiados! Mais tarde, quando li a respeito, fiquei sabendo
que em algumas cidades existem “irmandades do enterro da
sardinha”, cuja função é esta, organizar o enterro e
carregar a sardinha.
Detrás
do primeiro andor, vinham outras sardinhas, algumas parecidas
com a primeira, em um andor, e algumas eram usadas por pessoas,
como chapéus gigantes. Por último, as sardinhas fechavam com
as verdadeiras, que vinham pregadas na tosca armadura p
arecida
com uma cruz. Depois das sardinhas, vinham duas outras figuras
impressionantes, de seis metros de altura: dois bodes/diabos,
com os requisitos chifres, e o corpo coberto de “pelos” que
eram, na verdade, um tipo de tecido que funcionava como
cobertura para a parte inferior dos corpos dos rapazes que
faziam os “diabos”. Para se proteger do frio, eles usavam
camisetas gola olímpica cor da pele, e dançavam. Detrás
deles, um grupo de umas vinte pessoas de gênero indefinido, mas
a maioria eram homens mesmo, vestidos de “viúvas” da
sardinha. Alguns vinham com pernas de pau, outros caminhando
mesmo. Todos usavam roupas tradicionais das mulheres espanholas,
com rendas, pente alto no cabelo, leques, e muitíssima
maquiagem.
E
a música? Vinha em uma caminhonete. Às vezes tocava música fúnebre,
e as “viúvas” “choravam” e diziam o quanto iam sentir
saudade da sardinha. Mas, de repente, a música mudava, e as
“viúvas” cantavam e dançavam. Ouvi, outra vez, “o samba
da Bahia, ê! Ê! samba da Bahia, ê! Ê! samba da Bahia ê! ê!”
Um pouco surreal escutar música brasileira nesta festa, mas o
samba da Bahia, ê! ê! parece que agradou a todos.
O
cortejo se esticou por várias ruas, passando em frente da
catedral dos santos Justo e Pastor, quando o “bispo” e os
“coroinhas” se esforçaram ainda mais para abençoar a
multidão, que cantava, e se esforçava para dançar, enquanto
os diabos também iam benzendo a todos. Um deles inclusive parou
para explicar a um garotinho que ele tinha crescido tanto
“porque comia verduras”, e que se ele quisesse crescer também,
tinha que comer verduras. Taí: um diabo pedagógico.
Passando
por várias ruas e avenidas, o cortejo chegou a uma parte perto
das muralhas da cidade, que foram construídas quando Bernardo
de Sedirac, arcebispo de Toledo, em 1118 tomou “a sangre y
fuego” o castelo que os mouros tinham construído, e acabou
com seu domínio em terra complutense. Agora estas muralhas estão
ainda em pé, mas servem mais como enfeite, já que não se
precisa mais do tipo de proteção que elas representavam. Ao
chegarmos perto das muralhas, entramos todos numa espécie de um
parque do tamanho de meio estádio de futebol. O
“arcebispo”, os “coroinhas” e os “diabos” iam abençoando
todo mundo indiscriminadamente. As crianças cantavam, os avós
cantavam,
os pais e os jovens cantavam, músicas diferentes, sem a menor
intenção de coordenação.
De vez em quando, se ouvia alguém dizer, “pobrecita de la
sardina! Ya se murió!” E um outro
grupinho respondia, “pero vuelve el año que viene!” E assim
seguiram.
Por
fim, as sardinhas foram colocadas numa espécie de pira,
colocada longe do público, e com rodas de água no chão. Não
vi quem foi, mas alguém acendeu a pira, e as sardinhas
queimaram, enquanto diabos, arcebispos, carregadores dos
andores, coroinhas, e público, jubilavam. Quando já ia se
acabando o fogo, todos começaram a voltar para casa. Não
ficamos para ver o que aconteceu com as figuras nas pernas de
pau. Tinha sido uma longa noite.
II
Quando
o generalíssimo Francisco Franco derrotou as tropas
republicanas e tomou o poder depois da guerra civil, ele ordenou
que não houvesse mais carnaval na Espanha. Durante seu reino de
opressão e terror, triunfaram dois tipos de instituição no país:
a igreja católica, que o apoiava, e as forças armadas, das
quais ele veio. Franco determinou que o carnaval era uma
anarquia, e que não se celebraria mais.
Cidades
como Santa Cruz de Tenerife, e Cádiz, continuaram com suas
festas, sob outros nomes. Logicamente, durante a ditadura, a
festa tinha que ser mais comedida. Mas a festa continuou, de
alguma forma. Mas talvez aquele carnaval espanhol sob a ditadura
tenha na verdade sido uma outra maneira de controle imposto pelo
governo. Mesmo um homem como Franco deve ter entendido que era
melhor manter alguma forma de escape para o povo. Os ditadores não
têm que ter lido Foucault ou James Scott para entender que
estas forças não podem ser totalmente eliminadas, e que têm
que ser, de alguma forma, cooptadas e utilizadas. Basta
perguntar aos nossos generais do Brasil. Eles também sabiam
que, na ausência de justiça, então o pão e o circo – ainda
que sob controle – são imprescindíveis.
Com
a morte de Franco, os carnavais voltaram à Espanha. Meus
colegas e amigos da Universidad de Alcalá me dizem que, quando
crianças, não se faziam estas festas nas ruas, mas que se
celebravam em casa, com amigos, cantando e dançando. Um colega
mais velho do grupo disse que se lembra de uma vez, durante a
ditadura, vizinhos dedos duros do prédio em que morava com sua
família chamaram a polícia para dizer que eles estavam
celebrando o carnaval. Quando viram que chegava a polícia,
todos começaram a cantar “parabéns a você”, e convidaram
os policiais para a festa. De fato, a resistência tem que tomar
muitas formas.
III
Mas
por que enterrar a sardinha? Minha primeira impressão, ao ver a
festa, e sem saber de nada sobre a proibição dos carnavais
durante o governo de Franco, foi de que este espetáculo
remontava a eras muito antigas, nos tempos pré-cristãos,
quando os grupos de iberos que viviam aqui certamente tinham
suas festas para celebrar os solstícios, a chegada da
primavera, a mudança das estações, os movimentos da terra e
dos astros. Depois achei que teria que ver com as saturnálias
romanas, já que os romanos invadiram esta região e impuseram
tudo, cultura, religião, e costumes. A presença dos
“diabos-cabras” me lembraram a questão telúrica de muitas
destas festas tradicionais.
Mas
por que a sardinha? Olhando a forma do peixe, é impossível não
notar seu aspecto fálico. Também, a sua abundância no mar
deve ser um aspecto que a relaciona com o espermatozóide. (Esta
abundância logicamente talvez não seja mais tão grande,
porque hoje em dia, em todos lugares, com a contaminação e
diminuição dos cardumes, talvez não haja tantas sardinhas
como antes.) O fim dos excessos do carnaval, que podem ser
tomados como excessos sexuais, e o enterro da sardinha, indicam
o período de preparação para a morte.
No
calendário religioso católico, como sabemos, em 40 dias
teremos a semana santa, no fim da qual se celebra a morte e a
ressurreição de Jesus. A quaresma é um tempo de sacrifício e
de negação aos prazeres da carne. Será que o “enterro” da
sardinha, pela sua forma fálica, indica que as pessoas vão se
abster de sexo durante os 40 dias? Ou será que indica que,
entre outros sacrifícios, terão que comer sardinha e não
comer carne por 40 dias? Qualquer pessoa que tenha vindo à
Espanha sabe da adoração que os espanhóis têm pela carne de
porco, e passar 40 dias sem comê-la deve ter sido um grande
sacrifício, realmente.
A
sardinha, humilde criatura, queimada e enterrada na quarta feira
de cinzas, primeiro dia da quaresma, poderia significar outra
coisa: o enterro, por antecipação, do próprio Jesus Cristo.
Convém lembrar que um dos símbolos dos primeiros cristãos foi
o peixe, numa forma simplificada da sardinha.
IV
Aquelas
quatro figuras “eclesiásticas” foram as mais aplaudidas do
cortejo. Será porque dançaram e cantaram o caminho inteiro?
Será porque elas – três mulheres adolescentes e uma mais
velha – tinham badalos e sinos que tocaram o tempo todo? Os
aplausos maiores foram perto da catedral. O que teriam pensado
os padres e freiras, que existem muitos deles em Alcalá, desta
falta de respeito destas figuras claramente fazendo palhaçada
com suas vestimentas?
Ou,
talvez, eles mesmos estavam por lá, no meio do povo, disfarçados,
se divertindo com a festa. E embora aquelas mulheres vestidas de
figuras religiosas estivessem claramente dando “bananas”
para a igreja de São Justo e Pastor, ninguém pode garantir que
elas não tinham estado na igreja de manhã recebendo as cinzas
de costume daquele dia. O que eu tinha visto, naquela manhã de
quarta feira, quando passei pela igreja a caminho do trabalho,
foi uma multidão muito grande, todos com a cruz de cinza na
testa. Esta multidão, para minha surpresa, não continha
somente os costumeiros velhinhos freqüentadores de igrejas: a
multidão tinha de tudo, jovens, velhos, avós, crianças. E,
pela roupa, se podia ver que vinham de várias classes sociais.
A
Espanha é um país em transição, um país de grandes contradições,
um país surpreendente. A guerra civil estraçalhou o coração
do país, custando por volta de meio milhão de pessoas. A luta
da metade dos bascos pela sua independência tem custado muitas
vidas dos dois lados, e esta luta continua, todos os dias, com
demonstrações, atentados. Em embora a cifra de mortos pela ETA
seja de duas pessoas nos últimos três, a Catalunha ainda tem várias
facções que se dizem dispostas a lutar pela sua liberdade da
Espanha. “Guernica”, de Picasso, atesta os horrores
aplicados a uma população inocente. E os ossos de Federico
García Lorca, assassinado nos primeiros dias da guerra civil,
nunca foram encontrados.
A
Espanha dorme às vezes inquieta, e seus cidadãos sabem, de uma
forma ou de outra, que podem sempre estar pisando em uma
sepultura de alguém morto por um amigo, um vizinho, um parente,
que estava do outro lado durante a guerra civil. Escolheram se
juntar à União Européia, embora isto lhes tenha causado –
pelo menos temporariamente – grandes perdas financeiras.
Especialmente depois da tentativa de golpe de estado em 1981 por
parte dos franquistas depois da morte do generalíssimo, os
espanhóis souberam, com certeza, que a única maneira de
proteger o regime e a figura do rei, era juntar-se a forças
exteriores. A União Européia foi a resposta. Sabem de tudo
isto, e alguns reclamam como sua moeda, a peseta, não se
compara com o euro, e que perderam com a troca. Sabem, mas
preferiram colocar esta perda financeira de lado, esta dor da
morte de tantos na guerra civil de lado, para seguir a vida,
esquecer, deixar pra lá.
Até
que chega a quarta feira de cinzas, e os espanhóis se divertem
enterrando a sardinha, usando a ocasião para representar as forças
da terra voltando à vida, mesmo que seja nesta comemoração de
morte. Tais contradições não são novas para os espanhóis.
Quem mais teria a idéia de fazer da morte de um touro em
perfeita saúde o espetáculo nacional, e depois render-lhe
homenagens a este touro por sua “bravura” e “nobreza”?
Um
período de tempo na Espanha nos coloca a todos diante de algo
que nem sempre podemos reconhecer com tanta clareza: as pulsões
históricas são intimamente ligadas à psique mais profunda de
um povo. Os espanhóis entendem muito bem a morte, e por isto
sabem comemorá-la em uma festa que, sob todos os aspectos, tem
toda a aparência de vida.