Cooperativas
articuladas em rede e o mercado: o sucesso das estratégias da
Cooperação Cooperativa Mondragón
1.
Introdução
Com
o mercado cada vez mais competitivo, as empresas devem traçar
estratégias para obter sucesso. A articulação em rede se
apresenta como uma estratégia. O objetivo deste artigo é
demonstrar, através do conceito de redes já estruturado por alguns
autores, que a articulação de redes de empresas é o ambiente propício
para o desenvolvimento do empreendedorismo e o desenvolvimento
local, além de instrumento importante para promover o
desenvolvimento econômico de cooperativas. Haja vista que as
cooperativas se mostram como estruturas frágeis perante o movimento
do mercado.
Como
as cooperativas são constituições empresariais coletivas e solidárias,
a cooperação entre elas deve respeitar os princípios que norteiam
o cooperativismo. Por isso, a necessidade de pesquisar os tipos de
formação de redes que vêem ao encontro destes princípios.
Casarotto(2001)
desenvolveu conceitos de redes em cima de experiências de pequenos
empreendimentos que se organizaram em forma de rede na Itália. Com
isso, deduziu que as redes estão separadas em dois tipos: as redes Topdown
e as redes flexíveis ou horizontais. Ambas formas existem cada uma
com seus lados positivos e negativos. O objetivo da criação de uma
rede de empresas irá definir o tipo. No entanto, o foco desta
pesquisa é levantar a melhor forma de se articular cooperativas em
rede, fomentando o empreendedorismo levando em consideração os
princípios do cooperativismo e o desenvolvimento local.
A
experiência da Cooperação Cooperativa Mondragón nos exemplifica
essa possibilidade de pensar o desenvolvimento local a partir das
estratégias de empreendedorismo aplicado para a empresa. Além
disso, os princípios do cooperativismo foram respeitados ao longo
do processo de formação de uma rede de cooperativas em forma de
cadeia produtiva e sem uma hierarquia entre as cooperativas, isto é,
em forma de rede flexível, mesmo a Cooperação ter tomado proporções
de uma transnacional.
2.
Redes – conceito
Cássio
Martinho conceitua redes como “uma
forma de organização democrática constituída de elementos autônomos,
interligados de maneira horizontal e que cooperam entre si”
(MARTINHO, 2003). Já Casarotto (2001, pp111) caracteriza as redes
de relacionamento como o processo mais importante de comunicação e
de operacionalização. Acrescenta ainda que as redes podem ser
divididas em dois planos. O primeiro envolve a integração interna
entre os grupos de trabalho. No segundo plano, as redes são
formadas para a articulação externa, envolvendo a interlocução
com os segmentos públicos e privados externos.
Segundo
Hermann (2005, pp70), “redes são sistemas organizados capazes de
reunir indivíduos e instituições, de forma democrática e
participativa, em torno de objetivos e/ou temáticas comuns”.
Não
se diferenciando de Martinho (2003) quando o mesmo cita que as redes
se caracterizam como de cooperação, com confiança mutua entre os
membros, pactuação, diversidade, uma conversão de mão dupla. E a
formação tem como pré-requisitos um objetivo comum e afinidades. A organização se torna horizontal e sem hierarquia,
possibilitando o surgimento de multilideranças. Sendo assim, as
formas de decisão são democráticas, havendo a negociação e
resolução de conflitos e decisões colegiadas. Porém, não
caracteriza uma anarquia, pois há uma coordenação, seja ela
colegiada, secretariada ou outra forma.
Mance
(2002, p.23) destaca a formação de redes solidárias locais e
mundiais interligando cadeias produtivas formadas por cooperativas
solidárias. As redes são facilitadoras da transmissão de informação
que, no caso da economia solidária, torna viável a troca de
conhecimento e o comércio. Assim como esse processo de formação
de redes dinamizou o fluxo de capitais, vem dinamizando também a
formação de redes de mobilização social em torno de uma
alternativa global ao capitalismo.
Esses sistemas já ocorrem em diversos países como é o
exemplo de Mondragón, no norte da Espanha e no Brasil, com experiências
de redes solidárias como a CONSOL, em Novo Hamburgo – RS.
3.
Tipos de redes
Casarotto
(2001) destaca as diferenças entre dois modelos de redes. O
primeiro tem características marcantes de vem ao encontro das
teorias de economias solidária que são as redes flexíveis, onde
empreendimentos se unem com objetivos amplos ou mais restritos. A
estrutura pode ser em forma de cadeia produtiva em que os vários
empreendimentos produzem partes de um equipamento ou em forma de
consócios em que empreendimentos de um mesmo ramo de atividades
unindo com objetivos específicos, como por exemplo, a exportação.
Fonte:
Adaptado de Casarotto (2003, pp36).
Figura
1 – Rede flexível.
Singer
(2002, pp98) demonstra o exemplo da Corporação Cooperativa de
Mondragón, formada por um complexo de cooperativas e produção
industrial e de serviços comerciais com um banco cooperativo, uma
cooperativa de seguro social, uma universidade e diversas
cooperativas focadas no desenvolvimento de tecnologias.
Este complexo foi estruturado sempre dentro dos moldes do
cooperativismo, contratando no máximo 10% de assalariados. O
restante é cooperado, isto é, donos do empreendimento.
Já
o outro modelo apresentado por Casarotto é o modelo de rede topdown
ou modelo japonês. Esse
tipo de rede é o mais comum no sistema capitalista. Os pequenos
empreendimentos, e também cooperativas, são fornecedores de uma
empresa-mãe o que torna a rede altamente dependente das estratégias
deste empreendimento principal.
Fonte:
Adaptado de Casarotto (2003, pp36).
Figura
2 – Rede Topdown
Em
sua pesquisa os pequenos empreendimentos podem ter competitividade
através de diferenciação no mercado, liderança de custo ou na
flexibilidade/custo. A diferenciação de seus produtos no mercado
é características da maioria dos pequenos empreendimentos, pois
estes ao atender sua localidade ou região. A vantagem competitiva
está num produto diferenciado e de qualidade, geralmente voltado
para um nicho de mercado.
Quando
a vantagem competitiva se encontra numa produção de escala, os
pequenos empreendimentos são direcionados a formação de redes no
modelo topdown, onde estes participam como fornecedores de um
grande empreendimento. A estratégia passa a ser a liderança de
custos.
A
estratégia de flexibilização envolve a diferenciação do produto
com estratégias para minimizar custos de produção combinando as
vantagens competitivas das duas estratégias.(CASAROTTO,
2003, pp31).
A
articulação dos pequenos empreendimentos em rede visa o
“compartilhamento de conhecimento e ampliam o acesso a recursos e
financiamentos de capital, diminuindo os riscos, os custos e a
incerteza em relação à inovação” (GRANKOW, 2002, pp.48).
Na
busca por competitividade, o empreendedor encontra na articulação
em rede o ambiente propício para a inovação tecnológica do
empreendimento, além das estratégias de ganho de mercado, seja
pela flexibilidade da produção, seja pela produção em escala.
Para
tanto, um ambiente onde a articulação se dá em rede de forma
horizontal ou, como mencionado pelo Casarotto (2003, pp.35) em redes
flexíveis, as cooperativas possuem menos dificuldades para competir
no mercado, visto que estariam agindo em conjunto.
4.
Por que a articulação de cooperativas em redes flexíveis se
mostra como um instrumento mais adequado para o desenvolvimento
local
As
redes do tipo topdown são muito freqüentes na agropecuária
catarinense, onde grandes empresas avicultoras utilizam-se do
fornecimento de frangos dos pequenos produtores organizados em
cooperativas. O que viabiliza a economia local até certo ponto,
pois toda a estratégia está centrada nesta empresa. Qualquer mudança
na economia nacional ou mundial que afete as estratégias da
empresa-mãe negativamente poderá pôr a perder toda a estrutura
construída em volta dela, incluindo fornecedores e empresas e
cooperativas ligadas diretamente ou criadas exclusivamente para
usufruir o privilégio desta dentro do mercado. Todas as outras
pontas da rede, assim como os fornecedores, não têm acesso às
estratégias e decisões da empresa-mãe, restando acatar com as
conseqüências da política empresarial desta.
Este
tipo de rede ganhou amplitude com movimento da globalização dos
mercados. Grandes empresas se instalam numa região promovendo o
desenvolvimento econômico repassando atividades periféricas para
as cooperativas de trabalho ou de produção, como uma terceirização.
Milton
Santos (2001, pp.106) explica que essa verticalização dos sistemas
produtivo onde os empreendedores têm que adaptar os comportamentos
locais aos interesses globais acaba desestruturando a organização
estratégica traçada na região. Esse processo de integração
vertical se torna dependente e alienadora, visto que as “decisões
concernentes aos processos locais são estranhas ao lugar e obedecem
a motivações distantes” (SANTOS, 2001, pp.107).
O
mesmo autor situa a questão do empreendedor estar voltado para os
interesses corporativos, ao invés da evolução do território, da
economia e das sociedades locais. As grandes empresas assumem um
comportamento predatório, pois se alocam onde possuem benefícios
fiscais ou mão-de-obra barata e a migração passa a ser a conseqüência
da insatisfação da rentabilidade da empresa relacionando com a
competitividade no mercado. Essa não preocupação pelo meio onde o
empreendimento está locado pode se voltar contra o próprio
empreendimento. Neste caso, o empreendedor deve ter consciência que
seu empreendimento estará prestando serviço ou vendendo um produto
para uma massa falida. Por isso, a responsabilidade do
desenvolvimento local não é somente do poder público.
Celso
Furtado (2000) cita que Schumpeter relaciona ainda o empreendedor
com o desenvolvimento local ao associá-lo com agente transformador
das estruturas produtivas. Esse empresário inovador é quem tem poder de usufruir ou não dos
recursos locais de forma a reverter em benefício de todos. Na visão
de Hermann (2005):
“Novas
empresas contribuem de forma significativa para o desenvolvimento
econômico. Ao ter sucesso, os novos empresários criam empregos,
expandem segmentos de mercado, aumentam a produção de bens e
serviços e dinamizar a economia das comunidades onde operam”.
Portanto,
a articulação em rede pelos empreendedores promove, mesmo que
indiretamente, o desenvolvimento local, pois o envolvimento de toda
uma cadeia produtiva regional ou a união de concorrentes locais em
um consórcio para uma nova estratégia estará mexendo com a
estrutura econômica e social do local.
5.
A experiência Cooperação Cooperativa Mondragón (MCC)
Mondragón
fica na região basca no norte da Espanha. A Cooperação
Cooperativa Mondragón surgiu na década de 1940 a partir da ação
do padre D. José Arrizmendiarrieta (Arizmendi) que objetivava
diminuir a alta taxa de desemprego numa época de recuperação pós-guerra.
Para tanto, funda uma escola de formação para jovens. Com a ajuda
financeira da comunidade, Arizmendi e o grupo constituíram a
primeira cooperativa com a compra de uma indústria falida. Com os
princípios do cooperativismo e de empreendedorismo, a cooperativa
ganhou mercado tornando-se expressiva na economia regional. Quando a
cooperativa cresceu a ponto de apresentar sinais de democracia
exacerbada e muita burocracia nas decisões, o grupo decidiu criar
indústrias, na forma de cooperativas, para um inchaço das
estruturas organizacionais. Outras estratégias foram tomadas como a
formação de uma cooperativa de crédito para gerenciar as finanças
das cooperativas e com o tempo passou a oferecer os serviços bancários
para os cooperados.
Portanto,
anos depois da criação da primeira cooperativa, estava formada uma
rede de organizações interligadas numa cadeia produtiva. A rede de
cooperativas ou cooperação, como é chamada possui cooperativas
que podem ser comparadas com estruturas de uma grande empresa.
A
Cooperação Cooperativa Mondragón é um exemplo claro de formação
de rede horizontal ou flexível que obteve sucesso no mercado. As
cooperativas de produção e de prestação de serviços não teriam
alcançado níveis atuais de tecnologia e desenvolvimento se não se
unissem numa articulação conjunta e sempre obedecendo aos princípios
do cooperativismo no que tange a intercooperação, a gestão democrática
e a autonomia e independência, por exemplo.
Hoje,
são mais de 20 cooperativas de produção e serviços, com mais de
78.400 cooperados, que estão interligadas entre si. O
desenvolvimento local foi conseqüência da gestão coletiva dos
recursos humanos e naturais além da tecnologia adquirida e
produzida de forma consciente e solidária.
O
objetivo das pessoas que formam a MCC é o desenvolvimento local de
Mondragón. As estratégias de empreendedorismo focadas na inovação,
instrumentos utilizados em empresas capitalistas de sucesso, foram
implementadas para promover empreendimentos que não visam somente o
lucro de um grupo de empresários e sim o desenvolvimento econômico
dos moradores de uma região.
Em
toda história da MCC, foi criada a cultura de inovação em todos
os âmbitos, a geração de novas idéias, o fomento a criatividade
e exploração de novas áreas. Isso por meio da intercooperação
entre as instituições que fazem parte da MCC, como a universidade,
os centros de pesquisas e tecnologias e as próprias cooperativas do
grupo.
A
gestão é voltada para o crescimento competitivo no mercado
internacional, porém a geração de emprego e desenvolvimento local
são sempre levados em consideração ao traçar as estratégias
empresariais. Além disso, buscam gerar uma área de influência e
de desenvolvimento econômico baseados na aplicação inovadora do
conhecimento.
6.
Considerações Finais
Presenciam-se
muitas cooperativas, assim com muitas pequenas empresas, quebrarem
nos primeiros anos por diversos fatores, como a deficiência de
informações e de gerência, insuficiência de força para ganhar
mercado e até falta de recursos para alavancar o negócio. A gestão
do negócio nem sempre se aprende na sala de aula, e sim na prática
e na troca de experiência entre os empreendedores.
Para
isso, a formação de redes é importante, pois proporciona um meio
de troca de informações e articulação de negócios entre os
empreendimentos. Tornar mais acessível à promoção de consórcios
com o intuito de fomentar estratégias e de evitar o desaparecimento
de empreendimentos que sozinhos não conseguem sobreviver.
Ao
mesmo tempo em que empresários defendem que os empreendimentos
devem traçar suas estratégias somente para a obtenção do lucro,
outros colocam em prática que o desenvolvimento local também é de
responsabilidade deles. Além disso, o desenvolvimento do
empreendedorismo ganha grandes proporções num ambiente de articulação
em rede como é o caso da Cooperação Cooperativa Mondragón que
objetiva o desenvolvimento local.
Este
assunto deve ser desenvolvido com mais profundidades para buscar
respostas com relação as reais interferências da formação de
redes nas estratégias de cooperativas e como as ações do
empreendimento interferem no desenvolvimento local.
Referência
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por
LETÍCIA
CRISTINA BIZARRO BARBOSA