O Satânico
Dr. Go:
Golbery e
um Projeto de Desenvolvimento e Dependência para o Brasil
| Resumo:
Este artigo aborda aspectos da biografia e do pensamento do
general Golbery do Couto e Silva (1927-1911),
personagem-chave em eventos da história do País desde os
anos 1950. Mostramos como sua atuação prática é coerente
com seu pensamento, exposto principalmente em Planejamento
estratégico, de 1955, e Geopolítica
do Brasil, de 1981. Suas idéias baseiam-se, de um lado,
numa concepção instrumental da liberdade (a manutenção
de um nível mínimo de liberdade é importante para a
ordem) e de negociações com a oposição; e, de outro,
numa articulação subordinada com os Estados Unidos para
levar o Brasil à condição de grande potência. Segurança
e desenvolvimento, ou ordem e progresso, não por coincidência
também eram o lema da ditadura militar. Entender o
pensamento de Golbery é fundamental para compreender as
características e conseqüências desta. |
Interlocutor
respeitado por líderes como D. Paulo Arns, Júlio de Mesquita Neto
e Ulysses Guimarães. Odiado pela linha-dura e radicalmente
anticomunista e antidemocrático. Nacionalista e defensor da
industrialização subordinada ao estrangeiro. Pensador autodidata,
eclético, de estilo rocambolesco e árido, que não dispensava
consultas a pais-de-santo. Em uma palavra: controvertido. Este é o
perfil de Golbery do Couto e Silva, homem do poder, mas que preferia
os subterrâneos aos holofotes.
Nascido
em agosto de 1911, sua participação ativa na história se iniciou
em 1952, quando ingressou na ESG, dando início a uma relação
estreita e profícua. Em 1954 redigiu o Memorial dos Coronéis, estímulo à demissão do ministro do
Trabalho, Jango, e o Manifesto
dos Generais, contra o próprio presidente Vargas. Em 1955, foi
um dos articuladores da “novembrada”, movimento que visava a
impedir a posse do presidente eleito JK e seu vice, Jango, o que o
levou à prisão.
Nomeado
para o Conselho de Segurança Nacional do governo Jânio Quadros,
foi surpreendido pela renúncia do presidente e movimentou-se
amplamente pelo impedimento da posse do vice Jango. Foi dele a idéia
de oferecer a Goulart a Presidência sob regime parlamentarista,
solução de compromisso finalmente aceita. Já na reserva, passou a
liderar o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), e
ligou-se ao Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e ao
Movimento Anticomunista na intensa conspiração contra o governo.
Com
o sucesso do golpe de 1964, foi nomeado por Castelo Branco chefe do
Serviço Nacional de Informações (SNI), com status de ministro.
Juntamente com Geisel, tinha grande influência sobre o presidente,
mas caiu no ostracismo durante o predomínio da linha-dura, que
chegou ao poder com Costa e Silva, e foi trabalhar na filial
brasileira da multinacional Dow Chemical em 1969.
Retornou
ao poder em 1974, na Chefia do Gabinete Civil de Geisel. Na condução
da transição transada,
cujo ritmo queria aumentar, realizou muitos contatos com membros da
Igreja Católica e outras lideranças. Para ele, a “distensão política”
deveria ter ocorrido ainda no momento de auge do autoproclamado
“milagre brasileiro”, diminuindo as resistências da direita e
agradando controladamente à esquerda.
Mesmo
com as promessas de distensão, o governo Geisel foi palco de graves
violações aos direitos humanos, censura e arbitrariedades. Era, em
parte, obra da linha-dura, que resistia a qualquer proposta de
abertura e criava artificialmente um clima de conspirações
comunistas. Mas o grupo no poder não tinha muita convicção na
democracia: em 1977, diante da rejeição do anteprojeto do governo,
de reforma do Poder Judiciário, o Congresso foi fechado por 14 dias
e baixado o célebre Pacote de Abril, mudando no meio do jogo as
regras eleitorais e buscando garantir o controle do processo de
auto-reforma.
Golbery
aconselhava a “distribuir pauladas à esquerda e à direita”,
mas também a demonstrar boa vontade para com ambos, como em 1978,
quando ocorreu a revogação do AI-5, o restabelecimento do habeas-corpus para crimes políticos, a anistia aos cassados 10 anos
antes. Acreditava que inimigos deveriam ser enfraquecidos e
monitorados, nunca aniquilados, para não fortalecer demais um outro
lado nem criar mártires. Guiou-se por essa visão ao conduzir a
distensão.
Em
1979, foi reconfirmado no Gabinete Civil pelo novo presidente, João
Figueiredo. Sua permanência seria curta: em 1981, divergindo da
atuação em relação ao recrudescimento do terrorismo de direita,
saiu do governo e ingressou na diretoria do Banco Cidade. Até sua
morte, em 1987, aos 76 anos, manteve-se afastado da vida pública.
Se bem que “pública” não é o melhor termo para definir sua
atuação prática e sua ideologia. Estava a serviço da burguesia
brasileira, devotado à busca de uma ideologia voltada a responder
conservadoramente aos problemas da realidade nacional.
A
quase integralidade da sua teoria baseava-se na questão primária
do medo advindo da insegurança
da vida humana. Preso a uma angústia existencial, não surpreende
que o homem que retrava buscasse a todo custo a segurança que o
mundo não lhe oferecia. Assim, explicação hobbesiana, acabou por
engendrar uma entidade à qual, em troca de proteção, alienou
parte de sua autonomia e de sua liberdade individuais, o Estado.
Para
Golbery, nas esferas interna e externa, os intérpretes e paladinos
dos interesses nacionais eram os Estados. Este seria um árbitro
imparcial, capacitado a decidir com sabedoria salomônica as
perigosas divergências que ocorressem no interior do grupo. Também
no nível internacional, acreditava, cada um dos Estados criados
pelo “raciocínio lógico e escorreito” dos homens busca atingir
determinadas aspirações, por vezes contrapostas ou idênticas às
de outros povos, o que os leva à luta para fazer valer seus próprios
interesses.
Naquela
conjuntura de guerra total – a sufocante guerra fria volta e meia
se materializava –, os perigos haviam crescido exponencialmente.
Falhara a busca de segurança pela criação do Estado e o responsável
por isso era o liberalismo, ultrapassado e nocivo, que pregava o
Estado abúlico e indefeso. Por isso, para Golbery, tendia a se
repetir o escambo liberdade/segurança, agora em condições muito
mais perigosas, em face do “antagonismo vital” entre comunismo e
capitalismo. Nascia o superleviatã,
o organismo político multinacional exigido pelo panorama de guerra
total.
Note-se
que Golbery buscava transferir a guerra hobbesiana de todos contra
todos do âmbito individual para o do Estado – criado justamente
para trazer a harmonia. Ao mesmo tempo, apontar essa origem queria
transmitir a idéia de que o Estado eliminara os conflitos e diferenças
sociais mais graves e representava os interesses de toda uma
sociedade – em vez de classes antagônicas, o povo
ou, como ele preferia, a nação. O general estava ideologicamente impedido de trabalhar com
a idéia de nação dividida,
elidindo as divisões sociais em função de uma visão
homogeneizante. Por isso o Estado aparecia em seus escritos como um
ente abstrato, a-histórico, a quem toda a sociedade serviria.
O
nacionalismo também era conceito-base no seu pensamento. Muitas
vezes confundida com o Estado, a nação só podia existir em
segurança, integrada e em função de aspirações comuns. A
segurança nacional estaria garantida quando se barrassem os
antagonismos a estes objetivos nacionais. Fortemente influenciado
pelo organicismo, Golbery percebia a sociedade como um organismo
regido por leis análogas às da natureza, do que decorria que tudo
que a fortalecesse era visto como positivo e natural, enquanto
perturbações à ordem seriam patológicas. Aperfeiçoar, não
transformar, tinha como corolário a radical desconsideração de
qualquer forma alternativa de organização social e a abertura para
tachar de inimigos internos todos os que abraçassem causas
diferenciadas.
Odiava
o comunismo materialista, oriental e internacionalista, que se valia
traiçoeiramente do nacionalismo das massas para promover os
interesses soviéticos. Ao nacionalismo da esquerda ele contrapunha
o nacionalismo verdadeiro,
maduro, realista e crítico, distanciado da “corruptora histeria
demagógica” e cujo campo promissor era a América Latina.
Por
outro lado, mesmo repudiando o liberalismo Golbery não defendia o
“totalitarismo” de tipo soviético, que teria avançado para além
do recomendável na condução da vida de cada indivíduo. A oposição
entre liberalismo e “totalitarismo” (ou seja, o comunismo) não
se dava, pois, em termos de amplitude da ação estatal, mas de método
de controle social.
Para
ele, rejeitar o liberalismo não significava abdicar também da
essencial liberdade humana, valor inestimável para o Ocidente. No
fundamental, contudo, a liberdade não podia ser anulada porque é
essencial para a manutenção da ordem
e do progresso. Segundo a lei
dos rendimentos decrescentes, segurança, liberdade e
desenvolvimento mantêm entre si relações estreitas e
interdependentes. Os três têm de ser minimamente garantidos, do
que depende o equilíbrio do todo e o desenvolvimento de cada um.
Por isso o sistema totalitário soviético estaria fadado ao
fracasso: o sacrifício da liberdade em nome da segurança, abaixo
de certo nível mínimo, tornava-se contraproducente.
Ainda
nos anos 50, pondo-se entre o liberalismo inativo e o totalitarismo
opressor, propunha como “terceira via” a democracia
participativa e o planejamento democrático, instrumentos para
transformar o potencial nacional em poder efetivo. Comparava um possível
processo de industrialização autônomo à história do Barão de Münchhausen,
que teria alçado da areia movediça a si mesmo e ao cavalo que
montava puxando-se por um fio de cabelo. A saída: industrialização
pelo empuxo externo.
Reputava
inevitável o recurso à poupança externa para levar adiante o
processo de desenvolvimento nacional num prazo razoável e com maior
probabilidade de sucesso. Sua ilusão necessária era empregar
capitais externos para tornar o Brasil uma grande potência.
Entendia
que o nacionalismo sadio existente em toda a América Latina abolira
antigos receios quanto aos Estados Unidos, gerando ressentimentos
contrários: o reclamo por ajuda. Entristecia-o opelo fato de os EUA
não lerem nas imutáveis massas continentais o destino grandioso do
Brasil, que deveriam ajudar a construir. Afinal, o País tinha toda
uma série de trunfos, dos quais ressaltava o promontório
nordestino, de valor estratégico inestimável para a defesa
continental. Além do mais, a soberania brasileira seria ameaçada
por ambições colonizadoras, mas pela sua importância geopolítica
para o mundo comunista, que pretenderia daqui armar um ataque
fulminante contra os EUA, o que mais nos aproximava deles.
O
general reiterava a disposição do País de utilizar essa vantagem
em prol dos interesses americanos e da defesa do ocidente contra o
imperialismo comunista. Desta forma, a soberania nacional poderia
ser objeto de escambo, desde que fosse uma barganha
leal: por exemplo, em troca de um subimperialismo regional.
Convocava
as nações centrais do mundo capitalista: subtrair os países
subdesenvolvidos do âmbito de influência do comunismo insidioso
seria oferecer-lhes uma alternativa à estagnação, de um lado, e
ao totalitarismo, de outro. Era preciso, dizia, mostrar a vitalidade
e a criatividade da democracia na resolução do drama da miséria.
Uma
experiência deste tipo só poderia alcançar a devida repercussão
se realizada na América Latina – e como a profundidade da
intervenção deveria ser proporcional às responsabilidades e
compromissos assumidos, no Brasil, representante desta América
Latina e dos subdesenvolvidos. Forte, poderoso, estratégico, o País
teria importância ímpar para as “imperiosas necessidades de
defesa do Ocidente” e poderia se tornar locus
de uma sorte de Plano Marshall latino-americano, em cujo espelho
as nações subdesenvolvidas de todo o mundo pudessem se mirar e que
redundasse em um aumento do desenvolvimento continental.
Não
deixa de ser ingênua a pregação pelo controle político do
capital e a crença no desenvolvimento subordinado como o caminho
para o Brasil-potência. Mas estas foram, grosso
modo, as bases sobre as quais se assentou a política econômica
da ditadura, não obstante as diferenças específicas com o
pensamento de Golbery. As conseqüências desta opção marcaram
definitivamente a história brasileira.
Referências
bibliográficas:
ASSUNCÃO,
Vânia Noeli Ferreira de. O
satânico Dr. Go: a ideologia bonapartista de Golbery do Couto e
Silva. (1999) Dissertação (mestrado) apresentada à PUC-SP. Disponível
em: < http://www.verinotio.org/dissertacoes_cienciassociais.htm
>.
COUTO
E SILVA, Golbery. Conjuntura política nacional: o poder executivo & Geopolítica
do Brasil. Rio de Janeiro, José Olympio, 1981.
GASPARI,
Elio. A ditadura derrotada.
O Sacerdote e o Feiticeiro. São Paulo, Cia das Letras, 2003.
MELLO,
Leonel I. A. “Golbery revisitado: da democracia tutelada à
abertura controlada”. In:
MOISÉS; ALBUQUERQUE. Dilemas
da consolidação da democracia. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1989.
SCHILLING,
Paulo. O expansionismo
brasileiro: a geopolítica do general Golbery e a diplomacia do
Itamaraty. São Paulo, Global, 1981.
por
VÂNIA
NOELI FERREIRA DE ASSUNÇÃO