Agroecologia
e desenvolvimento sustentável
O
debate acerca do desenvolvimento parece ter criado um certo consenso
na necessidade da sustentabilidade, principalmente ao tratar dos
recursos naturais e, em especial, da agricultura familiar. É
bastante propagada a idéia de que carecemos de um modelo de
desenvolvimento econômico viável, socialmente justo e
ecologicamente sustentável. No entanto, o conceito de
desenvolvimento sustentável, criou um modismo em torno da sua
utilização, sendo usado para designar propostas que poucas vezes
condizem com sua fundamentação teórica enquanto conceito. Surge,
então, a necessidade de sua definição. Para a Comissão Mundial
para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD (1988),
desenvolvimento sustentável é o “desenvolvimento que satisfaz as
necessidades da geração presente, sem comprometer as
possibilidades das futuras gerações em satisfazer as suas
necessidades”.
A
partir do conceito acima, podemos realizar várias constatações
dele decorrentes. Consideramos aqui duas observações fundamentais:
a) o desenvolvimento sustentável possui limitações em função da
disponibilidade de recursos naturais, sendo que a utilização
adequada desses é condição de
sua sobrevivência; b) é necessário unir vários objetivos
mesmo que esses tenham aparência conflitante. Nos referimos à
sustentabilidade na dimensão ecológica (sobrevivência do
ecossistema a longo prazo), social (distribuição eqüitativa dos
custos e benefícios, e o respeito a valores culturais) e econômica
(conciliação entre o manejo racional dos recursos naturais e a produção
num nível suficiente). Para ampliar a dimensão ecológica, Edgar
Morin é reflexivo: “A idéia de ‘desenvolvimento sustentável’
põe em relação dialógica a idéia de desenvolvimento, que
comporta aumento das poluições, e a idéia de meio-ambiente que
requer limitação das poluições (...) O problema do
desenvolvimento depara-se diretamente com o problema cultural/civilizacional
e o problema ecológico” (MORIN, 1995: 74-75).
Quando
nos referimos à agricultura familiar, também é fundamental
explicitar aqui o seu significado enquanto conceito. Neste sentido,
apresentamos 3 características centrais para sua definição, a
partir da compreensão da FAO:
a) a família sendo a gestora da unidade produtiva: b) a maior parte
do trabalho utilizada na produção ser proveniente da própria família;
c) a propriedade dos meios de produção serem de propriedade da família,
numa área total menor ou igual a 500 hectares (região Sul e
Sudeste do Brasil). Assim, temos uma delimitação do grupo de indivíduos
sociais envolvidos na agricultura familiar.
A
agroecologia como princípio de sustentabilidade da agricultura
familiar nos remete ao estudo da economia numa outra lógica. Os
economistas convencionais, com suas metodologias quantitativas, não
consideram a importância da natureza. Por outro lado, os
ecologistas convencionais acabaram esquecendo o ser humano enquanto
sujeito de relações, acentuando sua discussão somente na ótica
da natureza. A adoção da assim chamada economia ecológica poderia
constituir um pressuposto de análise coerente com os conceitos de
desenvolvimento sustentável e agricultura familiar?
Na
perspectiva da economia ecológica, a economia passa a ser encarada
como um subsistema dentro de um ecossistema maior, o que implica o
entendimento de que o crescimento econômico precisa,
obrigatoriamente, estar em harmonia com outras dimensões do
desenvolvimento. Segundo Herman Daly (1991), o subsistema humano
possui em torno de 25% do ecossistema total. O autor utiliza, como
base desta afirmação, a interferência humana de acordo com a
porcentagem da produção primária líquida derivada da fotossíntese
que é apropriada pelos seres humanos. Nesta perspectiva, com duas
duplicações da humanidade chegaríamos a 100% do ecossistema, o
que, possivelmente, ameaçaria sua sobrevivência. Alguns
consideram que a escala atual já é insustentável, enquanto
outros colocam a necessidade de crescimento da economia na ordem de
5 a 10 vezes para propiciar um desenvolvimento sustentável. A questão
fundamental é conseguirmos definir, do ponto de vista ecológico,
qual o tamanho ideal da economia em relação ao ecossistema total.
Segundo Daly, três instrumentos de análise são fundamentais:
“a) alocação ótima (objetivo
de eficiência, a cujo serviço está o instrumento dos preços
relativos); b) distribuição ótima (ótimo da eqüidade, a cujo
serviço estão os instrumentos de distribuição de renda e
riqueza); c) escala ótima (objetivo de sustentabilidade –
instrumento de limitação da população e/ou limitação do uso
per capita de recursos naturais)” (DALY, 1995: 07).
Diante
dessa problemática, o que mais nos interessa é a escala ótima.
Como não é possível voltar a uma situação onde a economia é
infinita em relação ao sistema total, a tendência dos economistas
é colocar a economia como a dimensão que abarca todo o restante.
Os defensores do livre mercado celebram o aumento das riquezas
mundiais, ao passo que os bens anteriormente gratuitos agora
tornam-se caros e passam a ter preço. O crescimento econômico sem
um parâmetro de escala ótima e uma distribuição das riquezas, não
gera condições propícias ao que entendemos por desenvolvimento
sustentável, tendo um custo maior do que o seu benefício.
No
entanto, a defesa do crescimento econômico ilimitado apresenta o
argumento de que o capital pode substituir os recursos naturais.
Neste aspecto em específico, Daly apresenta uma crítica interessante:
“a) Se os recursos naturais podem ser substituídos
perfeitamente por capital, o contrário também é válido. Mas, então,
por que a humanidade se
deu o trabalho de produzir tanto capital se a natureza já nos
supria com um substituto perfeito? b) A produção de capital
necessita dos recursos naturais enquanto matéria-prima. Como o
substituto requer para a sua produção aquilo que pode substituir?
c) A produção é um processo de transformação, sendo os recursos
naturais transformados pelo trabalho e capital em produtos acabados.
Assim, o capital é um agente de transformação (causa eficiente) e
os recursos são aquilo que está sofrendo transformação (causa
material). Causa eficiente e causa material são complementos e não
substitutos” (DALY, 1995: 18).
A
lógica econômica orienta no sentido de aumentar a produtividade e
suprir o fator limitante. Durante muito tempo o fator limitante foi
o capital. Por isso foram desenvolvidas várias tecnologias no
sentido de maximizá-lo, utilizando intensamente os recursos
naturais, sacrificando-os. Atualmente esta lógica precisa ser
invertida. Ou seja, os investimentos precisam ser direcionados para
a reconstituição dos recursos naturais, desenvolvendo tecnologias
que possam maximizar sua produtividade, visto que são o novo fator
limitante. Precisamos potencializar o uso dos recursos e não utilizá-los
simplesmente em função do crescimento econômico. É neste debate
que se insere a agroecologia como um princípio para o
desenvolvimento sustentável da agricultura familiar.
Para
a adoção de tecnologias coerentes com a agroecologia, necessitamos
de um novo paradigma, que possa privilegiar as seguintes características:
a) holismo e integração dos seres vivos; b) integração entre os
saberes; c) concepção de ser humano como um sujeito integrado em
todo o processo; d) prioridade pela qualidade de vida das pessoas;
e) sustentabilidade; f) visão diferenciada das relações do ser
humano com a natureza. Entendemos que nisto também se justifica o
conceito de ser socialmente apropriada, o que, nas palavras de Horácio
Martins de Carvalho significa:
“O conjunto de tecnologias de produto e de processo gerado num
determinado contexto histórico, pela pesquisa científica e tecnológica,
assim como aquele resgatado das práticas empíricas dos produtores
rurais que, atendendo a determinados critérios de sanidade e
desenvolvimento biológicos, sejam adequados aos diferentes
processos de trabalho das distintas frações das classes sociais
presentes na produção rural” (CARVALHO, 1990: 03).
Percebe-se
que vários autores colocam a questão dos recursos naturais como
intrinsecamente relacionada ao desenvolvimento sustentável. Na
agricultura, onde a relação com a natureza se manifesta de uma
forma direta, esta problemática remete à discussão de novas
tecnologias e processos de produção. A agroecologia, portanto, não
como um discurso apaixonado pela natureza, mas identificada como
alternativa de produção sustentável, pode contribuir
decisivamente para a mudança na estrutura produtiva de sistemas agrícolas
e para a utilização de tecnologias ecologicamente e socialmente
adequadas às condições locais.
por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI