por CRISTINA MARIA DA SILVA

Socióloga - Mestre em Ciências Sociais. Doutoranda em Ciências Sociais – UNICAMP / CNPq.  

As discussões aqui presente se esboçaram durante a 25ª Reunião da Associação Nacional Brasileira de Antropologia, realizada em junho de 2006 no Grupo de Trabalho: Narrativas Biográficas, Etnografia e Antropologia: Antinomias e intersecções, coordenado pela Profª Drª. Suely  Kofes. 

 

Narrativas da Socialidade Contemporânea na literatura de João Gilberto Noll

 

As paredes forradas de livros. Passei a mão sobre eles como quem se belisca para confirmar a realidade do que está a viver. Não que eu me sentisse vivendo uma irrealidade, dessas que podem nascer de um simples sonho e desembocar num pesadelo do qual nos resta apenas fugir acordando suados, trêmulos, confusos. 

(NOLL, 2004, p. 15).

 

João Gilberto NollNeste ensaio, pretendemos perceber as narrativas da socialidade na escrita literária de João Gilberto Noll, nascido em 1946. Mas, somos como todos os leitores, que são antes de tudo viajantes que circulam nas “terras alheias, nômades caçando por conta própria através dos campos que não escreveram”, como afirma Certeau (1994, p. 269-270).

O ato da escrita na literatura nos fascina por essa indagação constante diante das palavras e da vida. Nada parece como dado, mas antes sentido, exalado pelos poros daquele que escreve, que movimenta as tintas do vivido, invocando palavras.

Interessamo-nos pela obra do escritor gaúcho, de Porto Alegre, pelo que ela nos revela sobre essa “socialidade”, e porque ela guarda essa transfiguração na linguagem literária. Seguimos em seus escritos os “rastros da socialidade” e os passos do indivíduo nessas veredas sociais, falamos tanto do autor, como das vidas que ele experimentou, sobretudo com o olhar.

O autor vem inscrevendo sua obra no cenário brasileiro desde a década de 1980, e suas narrativas guardam uma estreita relação com o que é vivido social e historicamente, mas como narrativa já não consegue ser inteira e nem serve para todos, é antes concisa, composições de fragmentos, ainda que não se tenha uma nítida percepção se algo foi partido, pois cada fragmento traz um todo refletido.

Uma literatura que acompanha o movimento da vida social numa escritura que não pretende reduzi-la à palavra, ao contrário, a põe em movimento por meio dela. Faz circular o que é instituído e também o que oscila como resistência, anomia na invenção da realidade sócio-cultural, que não aparece apenas como espelho das questões sociais mais imediatas, mais como um “acontecimento”, pois traz “o leitor para um horizonte ritualístico, um horizonte litúrgico. É como se ele sentasse, que fosse lá no palco e participasse junto com o ator”, como lembra Noll (Por ele mesmo, s/d).

Quem é esse narrador contemporâneo e o que o é narrado nessa escrita literária? O narrador é alguém que vive, encarna a experiência da perda, “é alguém que perdeu”, não se sabe bem o que ou quando, mas sua escrita muitas vezes frustra o leitor que procurou uma narrativa com começo, meio e fim. “Nada se pode esperar do narrador”, ele não tem conselhos a dar, somente palavras. “O leitor terá que se aproximar desses livros para se constituir, justamente, como leitor”, como aponta o escritor Ricardo Lísias. Da mesma maneira que o pesquisador nas ciências sociais, aproximando-se dessas narrativas, pode construir leituras para a vida social e criar em seus textos uma realidade inteligível, mas sensível. Entretanto, para encontrar o narrador, será preciso: “compreender o sentido de sua ruptura e reconstruir os pedaços dessas incompletudes”  (LÍSIAS, 2005, p. 110; 116).

Se a narrativa literária está atrelada à experiência social e histórica, entendemos que a experiência social contemporânea está impregnada por “socialidades”, esclareceremos isso mais adiante.

Gilberto Noll afirma não escrever de modo biográfico, no entanto afirma ser a sua existência que move sua ficção. Não se sente um escritor autobiográfico, apenas vê que em seus escritos traz as marcas do que viveu e das coisas que quisera ter vivido, aparece como o escritor de seu livro Lorde, “vomitando seu passado”. Em suas palavras:

Parto de manchas, idéias vagas, sentimentos difusos. Nesse sentido, acho que o ato de escrever é uma aventura, uma coisa um pouco cega. O que escrevo não é biográfico, mas tenho uma visão um pouco existencialista da literatura. Acho que é a existência do eu - parece uma coisa mais anônima -que vai gerar o espírito daquele romance, daquele conto. Nesse sentido, acho a coisa muito trabalhosa, um pouco sacrifical. A cada livro, você extrai uma coisa que não vai poder repetir no outro. E você se despoja dessa coisa no livro, tornando-a imagem, símbolo. É muito cansativa essa coerência. E há fidelidade, pelo menos, na busca (NOLL, Entrevista Regina Zilbermann, Carlos Urbim e Tabajara Ruas, 1990).

Intuímos que em sua literatura estejam presentes os fios narrativos da socialidade contemporânea, que aparece como embate diante dos limites, o que significa pensar uma vida social que se dá não só pela ordem, mas pelos conflitos, pelas angústias, pelo que falta aos sujeitos e nada consegue suprir. Deparamo-nos com uma escrita de vivências, sobretudo do olhar. Segundo Noll, “há toda uma alquimia, uma elaboração”, neste processo. Sendo assim, “é biográfica nesse sentido. Aquela coisa do olhar (...) vai acompanhando o autor, o que ele tem para narrar. Assim, na minha forma de ver as coisas, a literatura é existencialista” (Ibidem). Noll ressalta:

Não que o que faça seja biográfico - factualmente, nunca vivi aquelas coisas. Essa experiência talvez seja o retrato daquilo que pode ser chamado de alma. Aquilo que nos faz humanos e não pedras. Apesar disso, toda questão da contemplação é muito forte no que escrevo (...) A contemplação é a chave do que faço. Minhas personagens perambulam à procura de lugares em que (...) possam, enfim contemplar - e não serem apenas uma mercadoria diante de outras mercadorias: onde possam ser realmente seres no esplendor de um repouso (NOLL, In: Entrevista por Ronaldo Bressane 2000).

A literatura de Noll exprime o avesso da vida, mostra suas “travessias penosas”. Conduz-nos a pensar nas marcas da biografia humana, pois seus personagens sem dados biográficos seguem na fúria de uma vida que se esgota, esfacela-se entre o lembrar e o esquecer. Ele exprime: “Quando pensamos estar imersos no presente, vem o passado e nos agrilhoa. Os personagens sem dados biográficos, meus protagonistas, são seres caminhando nesse sentido. Sabem que viver é prazeroso, mas difícil” (Ibidem).

Resta ao escritor, aos personagens e ao leitor uma linguagem, na qual as rasuras, as descontinuidades e inadequações encenam. Ficamos diante de uma vida na qual ‘o lar é sempre uma conquista difícil e precária’ e a memória falha diante da insuficiência da realidade. O vivido é narrado com as marcas do que é íntimo e singular e também pelo o que se institui simbolicamente na instituição imaginária da cultura e da sociedade. Encontramos um texto de um sujeito que tatua gestos e sentidos na sua própria pele ou encontramos as travessias dele e de uma vida social em seus embates com alteridades de sentidos? O narrador conta histórias, cuja autoria é a da condição humana, desvelando a fúria do quieto animal humano diante do que parecia abrigar.

Rastros da socialidade

Intuímos que a obra de João Gilberto Noll nos traz essas dimensões da socialidade, que a nosso ver é uma escritura de fúria do corpo social, marcas de uma escritura da falta como composição da existência humana, o escritor que narra em convulsão.

Quando falamos em socialidade nos inspiramos nas observações de Michel Maffesoli e de Marilyn Strathern (1999), que vêem, por diferentes abordagens, cabe ressaltar, a socialidade como a face anômica da vida social, como os conflitos inerentes ao exercício da alteridade. Desse modo, se a expressão sociabilidade procurou traduzir as relações, os processos e as estruturas sociais, enfim, a sociedade em sua face institucional; a socialidade busca apreender o questionamento dessas relações, desses processos e dessas estruturas, busca compreender o questionamento dos limites seja dos sentidos, dos valores, dos corpos e dos afetos na sociedade contemporânea.

Se a sociabilidade se definiu nas interpretações teóricas sobre a vida social como a percepção dos lugares, das funções, das institucionalizações sociais, a socialidade procura ler os nomadismos que perpassam as ações sociais e os lugares, aparentemente demarcados e definidos.

A socialidade contemporânea na literatura de Noll aparece nos deslocamentos encenados em sua escrita por seus personagens, que revelam as marcas de um sujeito diante de uma realidade social e cultural que não o completa. Uma escritura da falta, uma literatura que é rasura e ao mesmo tempo dá conta dos limites da condição humana. A socialidade revela as trajetórias subterrâneas e os embates na e da vida social, e nossa hipótese é que na literatura contemporânea, e aqui apontamos a narrativa de Gilberto Noll, encontramos esse lado avesso da vida social sendo encenado.

A literatura é uma provocação diante das clausuras da linguagem, permite que saíamos de nosso próprios limites pela pluralidade que a acompanha e nos faz seguir as ações humanas em “seu jogo complexo de diferenças e alteridades”. (MAFFESOLI, 1988, p. 84). Não existe, nas palavras de Noll, para “homologar, pra referendar uma ideologia prévia, uma ideologia pronta e dada, isso não. (...) é um terreno de liberdade muito grande. E de aventura”. Ele afirma que a literatura é:

A descrença no pensamento absolutista, seja ele de que latitude for. Monolítico, absolutista. Eu acredito que a literatura é um nicho dialético por excelência. As contradições ficam à flor da pele, as contradições humanas, e é nesse atrito entre elas que o gozo literário se faz, nesse embate aí entre as paixões humanas. A literatura expõe isso. É botar em questão até seus próprios fundamentos, a realidade tal qual ela se apresenta. É o confronto até com a possibilidade da loucura [...] (NOLL, In: Entrevista Bruno Dorigatti, s/d).

Sua literatura expõe as marcas da socialidade, nos personagens que carregam angústias e um sentimento de orfandade diante da vida. Personagens que sofrem um sentimento de negação, que se sentem como desterrados diante de insígnias e bandeiras. Confrontam-se com o cotidiano estabelecido, vivem em “desacordo profundo com aquilo que se lhe apresenta no cotidiano”, (...) estão sempre em locomoção, estão sempre fugindo de alguma coisa que eles não identificam e indo atrás de outras tantas coisas que eles também não identificam” (Ibidem) ou não encontram. Um caminhar incessante, sensivelmente apreendido pela escrita e tragicamente vivenciado pelo ser humano, diante do qual:

O poeta torna-se vidente por meio de um longo, imenso e calculado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele (...) esgota em si próprio todos os venenos, para guardar deles apenas as quintessências. Inefável tortura...(...) devassidão poética... (MAFFESOLI, 2004, p.16).

Nas obras de Noll se esboçam, sua percepção do limite, mas também o gozo do narrador, envolto em suas “palavras em pássaros”. As palavras de Noll e de seus personagens são errantes diante da realidade, revelando-nos a constante fuga do que dela dizemos e como a olhamos, desvelam o avesso do que somos.

Não havia remédio, os meus sentidos se comportavam dispersos, não me permitiam fixar as imagens do mundo, concatená-las, redesenhá-las na mente se preciso. Eu estava vivo, mas as coisas em volta não me davam permanência. Eu executava meu raciocínio, mas quem cultiva a paciência de digerir o pensamento, quem estava comprometido com o meu confinado comentário? Quem? Mas quem? (...) eu estava ali entre todos, mas era um forasteiro, ainda por cima francamente desmemoriado, sem saber claramente o que fazia...(NOLL, 1999, p. 32).

Apresenta uma escritura híbrida que segue os rastros das misérias humanas, mas envolvendo sua face cruenta com o véu da prosa e da poesia. Tem sob os seus ombros a sombra da heterogeneidade que as palavras lhe trazem e o vazio das representações que o rondam e aparecem falhas, rasuradas, narrativas amnésicas. Para ele, seu romance existe exatamente pelo conflito que há entre o que vivenciamos concretamente e o que sentimos. A literatura aparece não como uma pedagogia nem como sensatez, “é um conhecimento às avessas, como se você precisasse transfigurar o mundo para poder extrair algum substrato do seu mistério - pois esse, sim, deve ser reconstituído a partir da tal diáspora que os mitos literários recontam sem cessar”. (NOLL, Depoimentos, s/d).

Talvez por isso venha a aprimorar o olhar do conhecimento sócio-antropológico para o (in) quieto animal no humano, que constrói seus passos entre o que o cerca e prende, mas que nem por isso deixa de farejar “liberdades intersticiais” que ensinam como: “Preencher os minutos sem se aborrecer, com coisas que nos tiram da atualidade para nos levar a um audacioso nomadismo destruidor de qualquer rastro paradeiro fixação ao solo e outras coisas mais”. (NOLL, 1999, p. 21).

Gilberto Noll lapida sua literatura como um acontecimento, seduzido pelo instante, mas movido por uma sensação de carência diante do que não pode definir. Percebe a literatura como um acontecimento que vai abrindo espaço dentro da construção da linguagem, uma voz embriagante a cantar uma melodia subversiva, criadora, um território de liberdades na linguagem. Em suas palavras notamos o modo como encarna a alquimia literária:

Realmente me encanta na atividade literária você mexer com o Mal. Porque nesse sentido não tem nada a ver com a literatura politicamente correta. Não estou vendo as coisas de cima, com um olhar complacente, como as minorias - o Mal é um atrativo muito forte: quero justamente apontar pra ele, levantar esse tapete onde se coloca debaixo todos os detritos que não se quer que sejam vistos socialmente. Não sei como a gente pode iluminar o drama humano com boas intenções. A convulsão é passar da órbita mesmo, sem ter gente pra afinar, pra dar uma sinfonia adequada. Por isso acho muito importante dar vazão a esse sentimento mais selvagem, mais inadequado, mais gauche. Acho que a literatura que me interessa é essa que não consegue se adequar. (NOLL, In: Entrevista por Ronaldo Bressane 2000). 

Nessa perspectiva, o autor, “sabe reconhecer o que cabe ao diabo, e lhe faz bom uso”. O que vemos em suas palavras é o jorrar dessas ações humanas em suas dimensões trágicas. Não há como negar o humano em sua inteireza em nome de um pensamento totalitário e reducionista, e nesse sentido a obra de Gilberto Noll nos coloca diante de nossa demasiada humanidade e da “face obscura de nossa natureza. Aquela mesma que a cultura pode em parte domesticar, mas que continua a animar nossos desejos, nossos medos, nossos sentimentos, em suma, todos os afetos”. (MAFFESOLI, 2004, p. 16; p. 29).

De mãos vazias é como nos sentimos diante das palavras de Noll, não há um enredo linear para ser contado, como não há na vida, mas isto não quer dizer que não estejamos a escutar a voz do poeta entre as ações e relatos. Tatuando gestos em si, o escritor segue com a sensação de perda, dizendo em cada movimento da escrita: “estou de mãos vazias e vou usá-las hoje porque não sei o que foi feito delas ontem”. (NOLL, 1990, p. 300. O narrador está como o poeta-suicida de sua obra Bandoleiros, como “alguém que se perde no meio da história e já não tem semântica suficiente para explicar o extravio”. (NOLL,1989a, p.16). Um “desmemoriado, sem nada para dar” (NOLL, 2004, p. 26).

Diante de uma “escrita desastre”, perdemo-nos do autor, encontramos apenas seus rastros e somos confrontados a cada instante com incertezas, com cenas movediças e com o luto das origens. Apenas ouvimos cheios de prazer “seus lábios se mexendo, como se as palavras não tivessem semântica, mas um apelo”. (NOLL, 1991, p. 45). Deparamo-nos numa “narrativa de encontros”, entre o escritor e palavra, entre a literatura e as ciências sociais, entre a ficção e o entendimento da vida social, entre a leitura que construímos e o que permanece velado para ser descrito pelo leitor.

Gilberto Noll percorre a cegueira da escrita literária e a dança das palavras, ele abre espaços no interior da linguagem, itinerário incessantemente percorrido e jamais coberto, risco corrido e assumido diante dos códigos da língua e das convenções culturais. Segue “lutando o tempo inteiro por um verso” ou não desejando “pertencer a ninguém ou a nenhum fato”. (NOLL, 1989, p.15; 13). Uma sensação de perda, de vazio e de uma busca constante atravessa estas escrituras que são de vertigem ou escritas que vão despindo aos poucos a pele da linguagem. Uma impressão antiga:

de que (...) precisava fazer alguma coisa sem saber exatamente o quê. O meu costume era ficar no meio do caminho, entretido com algum detalhe que acabava mudando o meu rumo. Hoje já perdi as esperanças de recuperar a memória do que tinha que fazer lá no princípio.  (NOLL, 1990, p.60).

Arrastamos as palavras das narrativas para montar um mosaico de entendimentos sobre a vida social? Ainda não sabemos, apenas sentimos que as palavras que conhecemos não dizem a vida social, que nossas teorias estão sempre um passo atrás do vivido. Sentimos na brisa da literatura contemporânea de Noll sopros para uma escritura que acompanhe a intensidade dos movimentos e dos sentidos da sociedade contemporânea.

A escrita de Noll se esboça como passos que avançam entre o pensado e o vivido, onde não é possível fechar-se entre portas e nem cerrar-se nas palavras. O escritor é um corpo de palavras, corpo tomado por uma errância que o torna informe, invisível talvez. Seus olhos voam como uma lança, no entanto ao contrário de ferir apenas lapidam o mundo em palavras.

Eu precisava me manter à margem dos fios invisíveis que iam armando perigosamente o circuito das coisas lá para além da ilha, lá de onde eu viera; e eu seria feliz, bem feliz, bem sei, se pudesse ter um pouco do silêncio que me gerara no princípio que esqueci. (NOLL, 1999, p. 26).

Em suas obras, a fúria do corpo social vai sendo escrita nas narrativas de esquecimentos de seus personagens, das fraturas que eles expõem de si, nos diversos momentos em que se perdem do discurso social não deixando em silêncio os momentos em que se olham no espelho da sociedade onde estão e não vêem bandeiras, solo onde pisar e nem um rosto refletido, somente estilhaços do que são e do que foram. O humano é olhado em sua beleza, em sua face de fera e de fúria. A “parte maldita”, as implosões de sentido e o desgarrar do corpo, cenas tão comuns da vida aparecem nas páginas, nas formas, nos sons que as artes tentam imprimir.

Nos fragmentos da memória encontramos: “ausência de fronteiras geográficas, evidenciada pelos constantes deslocamentos do narrador por lugares vários e indefinidos”, isto faz com que a identidade apareça como uma ficção, pois se as referências aparecem como flashes de uma memória despedaçada, se esta configuração identitária aparece é como “uma espécie de desenho de linhas descontínuas e confusas” (PIRES, 2000, p.46).

A obra de João Gilberto Noll começa a se configurar na década de 1980, com a publicação de O Cego e a Dançarina, a partir disso publica: A Fúria do Corpo (1981); o romance Bandoleiros (1985); Rastros do Verão (1986); Hotel Atlântico (1989); O Quieto Animal da Esquina (1991); Harmada (1993); A céu aberto (1996); Contos e Romances Reunidos (1997); Canoas e Marolas (1999); Berkeley em Bellagio (2002); Mínimos Múltiplos Comuns (2003); o romance Lorde (2004); e o livro de contos Máquinas de Ser (2006). Percorremos a narrativa fugidia do escritor gaúcho articulando-a ao romance que tece a vida social, encontramos a “socialidade” que pode parecer invisível, mas que mantêm a vida social, ou seja, a pulsão dos desejos que ultrajam e arrastam a esclerose mortífera do instituído. Em suas palavras,

se a literatura ainda tem uma função, é a de apontar que as engrenagens do cotidiano são escravocratas, te levam daqui prali sem que qualifiquem essa ação com uma produção de pendor verdadeiramente humano. Resta para você se sentir seduzido pela camisa da vitrine. Ou de escapar pelo sono. Quem foi que deu essa canhestra administração aos nossos dias? E o pior, quem nos dá alforria (doce esperança!) desse estado de entorpecimento que só nos dá alívio no sono? No sono, falei, não em sonho... (NOLL, s/d) [1].

Gilberto Noll fala do ser humano que é e não o que poderia ou deveria ser, revela em suas páginas as ambigüidades, os dramas humanos e lança nossos olhos que buscam histórias com começo, meio e fim no embaraço de nossas contradições e tensões não resolvidas. Expõe as fragilidades humanas, trilha pelas veredas de um território fluido da narrativa por onde escorrem a harmonia conflitual das interações humanas. Chama-nos a perceber nossa condição efêmera de andarilhos, tocando com a sua poesia as feridas abertas e as dores latentes. O nomadismo aparece na própria escrita de Noll, um escritor nômade, em trânsito, que fala de personagens anônimos que bandoleiam pela vida. Em sua escrita, ele nos abre pela configuração das palavras, o seu arquivo de vivências, porém não lança seus escritos em folhas pautadas e nem segue uma linearidade, ao contrário nos coloca diante do caráter ficcional e fantasmagórico do uno e de nossa condição plural.

O problema dessa vez, se problema realmente tivesse além desse de não saber me renovar, é que eu não lembrava mais. (...) eu ainda tinha esperança de que, guardando com zelo esse núcleo que formava a minha história naquele momento, eu poderia um dia quem sabe recuperar a memória do que sustentava esse núcleo, seus entrecruzamentos, conseqüências, estofos, rimas até (NOLL, 2004, p. 31).

Quem são os personagens de Noll, que dilemas trazem, de que lugares ele falam e onde habitam? Seus personagens são escritores desejando viver fora das páginas de suas obras, atores em crise, mendigos, andarilhos, seres anônimos que seguem entre “instantes ficcionais” compondo sua existência diante de fracassos, da solidão e da sensação dos limites do corpo e de sua deterioração. Vivem “rudimentos de ilusões” (NOLL, 1989b, p.30) em territórios desconhecidos seja de Londres, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro. Seus personagens estão sempre em movimento, falta-lhes terra debaixo dos pés. Estão em hotéis, estradas, rodoviárias, restaurantes, esquinas, trocando de casa ou perambulando pelas ruas, carregando um mal-estar insolúvel. Trazem um corpo em fúria diante de toda e qualquer domesticação, e o “corpo é o lugar de onde o sujeito ensaia um grito contra tudo o que a sociedade constrói (...) no espaço do corpo, os espaços geográficos se diluem, assim como o tempo”. (CARREIRA, s/d).

Nas reminiscências dos personagens a: “dificuldade de identificar um outro a partir do qual possam afirmar a sua própria identidade faz com que sigam como sujeitos sem nome, sem história, presos a acontecimentos cuja significação se esgota em mera faticidade” (CARREIRA, s/d). São nas palavras de Noll “utopias ambulantes” lutando contra as mortificações da vida. O narrador e os personagens são andarilhos, caminham atabalhoados, a esmo, “sem documentos nem língua nem memória”, um “amontoado de carne sem nome, destino ou moradia”. (NOLL, 2004, p. 33).

Considerações

Nessa obra reconhecemos ou desvelamos essa dinâmica da vida social ou o seu avesso, dimensões subterrâneas da criação humana que muitas vezes revelam um constante desamparo e um inconformismo diante do instituído socialmente. Uma obra na qual o autor/narrador expressa seu desamparo e acompanha o de seus personagens.

Desamparo que é segundo Freud, “a fonte de todos os motivos morais”. Um desamparo incurável, diante da força esmagadora da natureza, da caducidade e fragilidade do corpo e dos dispositivos da cultura e da sociedade, que impulsionam o sofrimento humano. (Freud apud PEREIRA, 2000).

A narrativa de Noll não é a de uma escrita linear, épica e confortável, o que encontramos é uma epopéia do fragmento, as “chagas do amor”, “despojos partidos”, “semânticas enclausuradas”, um “improviso contínuo”, palavras destituídas de qualquer expressão, amarras invisíveis, a “experiência da agonia” de seres “sonâmbulos pelas ruas”, “desterrados” vivendo num “miasma aventureiro” e diante do “naufrágio da memória”. Um escritor “enfastiado de viver tatuando-se de gestos para neles inscrever sei lá que quantidade de significados” (NOLL, 1999, p. 44).

Mas eu não conseguia avançar do primeiro verso, e mesmo aquele único verso foi como que se diluindo na minha cabeça, em alguns minutos se desfez, na verdade parecia que de repente o meu destino tinha me ultrapassado, a mim e a todas as canções que costumavam sair de cor da minha boca, de tal modo, que chegaria um tempo em que eu viraria para trás e não teria mais nada que reconhecer. (NOLL, 1991, p. 39)

O narrador revelaria a autobiografia de um extravio, de uma errância do ser humano diante da vida social a que está exilado? As inquietações e nomadismos da sociedade contemporânea na obra de Noll revelariam a biografia de um sujeito que surge na rasura, na fratura das representações e no esquecimento da memória social? O sujeito para se reinscrever diante da vida social não precisaria esquecer o que nele tentam impregnar? A literatura não seria esse avesso que permite repetir o já dito da linguagem e ao mesmo tempo produzir uma outra escritura?

Talvez como Noll, que tem como sua utopia “dissolver as fronteiras entre a prosa e a poesia”, tenhamos como utopia andar entre as fronteiras da ciência e da literatura, abrindo-nos a um entendimento da vida social que não busque somente uma apreensão em conceitos, mas a acompanhe em seus movimentos nômades, inconstantes e que ultrapassam nossos entendimentos.  (NOLL, Entrevista por Ronaldo Bressane, 2000).

Sobre o poema que se esboça na sombra de suas palavras, Noll afirma; “dilacerava tudo - cortina rasgada, farelos da parede, sangue na lapela. Faltava alguma coisa ao final desse poema que há três idas eu suava em vão para encontrar”. (NOLL, 1991, p. 32).

Os livros de Noll são escritos de alguém, curioso pela porção mínima escondida detrás das coisas:

isso que alguns poetas dizem que vêem, que alisam, que vigiam, isso que praticamente deixa de existir quando se procura, isso encoberto, isso manso, isso que se autofulmina a cada tentação de se mostrar, isso que não é nem projeto nem passado, isso que quando de fato aparece é porque está forjando sem querer o instante no qual você respira, agora.” (NOLL, 1999, 83-84).

A fragmentação do que lemos não é porque haja impossibilidade de narrar, mas é porque tanto o escritor como os seus personagens já não se encontram contidos em algumas palavras, debatem-se diante do existente, do vivido, do contemplado, e seguem tateando outros significados para o que lhes aconteceu e pelo o que há de vir. Sobre isso, o escritor ressalta: “Tentei olhar cada coisa como se antes eu nunca tivesse visto figuras. Como se eu viesse de um mundo todo informe, sem contornos fixos” (NOLL, 1990, P. 92). Apresenta-se para nós como um escritor amnésico[2], retirando essas e outras imagens de suas entranhas, apreende os contornos da experiência social que tentamos olhar.

[1] Entrevista de João Gilberto Noll. Os meus personagens sofrem de elefantíase mental.

[2] Sentimento expressado nas palavras do personagem escritor de seu livro Lorde: “Eu me sentia amnésico, eu retiraria das entranhas essa e outras imagens, vividas ou não, e delas extrairia, como se espreme uma laranja, aos poucos, com força, com a dificuldade exposta, valendo ponto - extrairia... o quê? [...]”. (p. 30).

 

por CRISTINA MARIA DA SILVA

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

Referências

CERTEAU, Michel de. Capítulo XI. Citação de Vozes. In: A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de Fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 269-270.

LÍSIAS, Ricardo. Outras arrebatações. In: Notas da Arrebentação. São Paulo: Ed. 34, 2005.

MAFFESOLI, Michel. O Conhecimento Comum: compêndio de uma sociologia compreensiva. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

__________. A Parte do Diabo. Rio de Janeiro: Record, 2004.

NOLL, João Gilberto. Bandoleiros. Rio de Janeiro: Rocco, 1989 a.

__________. Hotel Atlântico.  Rio de Janeiro: Rocco, 1989 b.

__________. O Cego e a Bailarina.  3ª. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

__________. Rastros de Verão.  Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

__________. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

__________.Canoas e Marolas. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.

__________. Lorde. São Paulo: Francis, 2004.

PIRES, Antônia Cristina de Alencar. Errância: transgressão (memória e identidade em Céu Aberto). In: Memórias do Presente: Ensaios de Literatura Contemporânea. Lauro Belchior Mendes (org). Belo Horizonte: Pós-Lit / FALE / UFMG, 2000.

PEREIRA, Mário Eduardo Costa. “Mineirinho” ou o horror do gozo: o desamparo e o Outro. In: Psychê: revista de psicanálise. – ano IV, n. 6 (nov. 2000). São Paulo: Unimarco Editora, 2000, p. 122.

Internet

CARREIRA, Shirley de Souza Gomes. Interpretações do eu: uma análise comparativa de A céu aberto, de João Gilberto Noll, e A cidade ausente, de Ricardo Piglia. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades. Acesso em: 19. Out. 2005.

NOLL, João Gilberto. In: Entrevista com Regina Zilbermann, Carlos Urbim e Tabajara Ruas. In Autores Gaúchos, n. 23, 1990. (Cronologia, Bibliografia, Por ele mesmo e Sobre ele). Acesso em: 26. Jan. 2004.

NOLL, João Gilberto. In: ‘Lorde’, a plástica espiritual de Noll. Entrevistado por Antonio Gonçalves Filho no O Estado de São Paulo, 17 de outubro. Acesso em: 07. Out. 2005.

NOLL, João Gilberto. Depoimentos: O Avesso do Conhecimento In: O Lugar do Escritor de Eder Chiodetto, Cossac & Naify. Acesso em: 26. Jan. 2004.

NOLL, João Gilberto. Entrevista: Em busca da obra em aberto, por Ronaldo Bressane. Revista A (2000). Acesso em: 26. jan. 2004.

NOLL, João Gilberto. Entrevista de Bruno Dorigatti: "A literatura é muito perigosa". Data da Consulta: 04. Set. 2004.

NOLL, João Gilberto. Entrevista de João Gilberto Noll. Os meus personagens sofrem de elefantíase mental. Acesso em: 07. Out. 2005.

STRATHERN, Marilyn. No limite de uma certa linguagem. Mana. [online]. Oct. 1999, vol.5, no.2 [cited 15 August 2005], p.157-175.  Acesso: 15 de Ago. 2005, p. 157-175.

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados