por JOSÉ SARAMAGO

 

 

V FSM – José Saramago

Por utopias mais próximas

Em sua primeira participação em um Fórum Social Mundial, em janeiro de 2005, o prêmio Nobel de Literatura questionou as utopias e exigiu pressa em mudar o mundo. Confira os principais trechos das intervenções do escritor em dois debates e em entrevista coletiva

 

Sem utopia

A má notícia que tenho a vos dar é que eu não sou utopista. E a pior notícia ainda é que considero a utopia, ou o conceito de utopia, não só inútil como também tão negativo como a idéia de que, quando morrermos, todos, vamos ao paraíso.

A utopia, segundo se diz, começou com Thomas Moore, com seu livro A Utopia, publicado em 1516. E aí se coloca o nascimento de uma palavra, de uma idéia, mas poderíamos ir muito mais atrás. No fundo, a utopia nasce sem nome e talvez seja o que está ainda a atrapalhar aqui, tudo isso, seja o nome. Porque, a rigor, tudo o que foi dito antes poderia ter sido dito com igual rigor, com igual propriedade, com igual pertinência, sem a intenção da palavra utopia.

Há uma questão indissociável da utopia ou do pensamento utópico ou do anseio do ser humano por melhorar a vida, e não só no sentido material, mas também na dimensão espiritual, ética e moral. Está indissociavelmente ligado, e parece que não, à revitalização e, se quiserem, à reinvenção da democracia.

As 5 bilhões de pessoas que vivem na miséria, no conceito da palavra, nas sílabas, no som de utopia, não significam nada. E também não significarão muito depois de que tenham suas necessidades essenciais satisfeitas, que passem também a usar ou a divulgar ou a utilizar um discurso mais ou menos emotivo da palavra utopia, como se isso viesse a acrescentar algo àquilo que foi conquistado com trabalho, com luta.

Discurso do não-existente

Quando eu vos digo que não sou um utopista e que até admiti, com toda franqueza, que me desagrada o discurso sobre a utopia, é porque é o discurso sobre o não-existente. Toda gente sabe que a utopia é um lugar que está em um lugar qualquer e que, portanto, não se sabe, não se conhece o destino, também não se sabe o caminho para lá chegar. Também não se saberá quando.

A utopia, no fundo no fundo, em termos práticos, significa que eu necessito de umas tantas coisas, quer como pessoa, quer como membro de uma coletividade, de uma sociedade, mas sou consciente de que não se pode ter agora – porque os inimigos são mais poderosos, porque me faltam os meios, porque a fruta não está madura. E, portanto, digo: “Ponto. Isso que não pode ser agora, tem de sê-lo um dia”. Hitler também dizia que o regime nacional-socialista era para durar dois mil anos, e aqui está outra utopia. E vivemos utopias como vivemos há séculos de mitos, de crenças, vivemos de coisas que não têm nada que ver com a razão. Basta ver a multiplicação das igrejas, das seitas, de tudo isso, que não têm nada para dar, mas que têm tudo para prometer. E essas são formas de utopias.

Equívoco

O grande equívoco que temos é imaginar que aquilo que precisamos hoje, mas que não podemos ter por faltar-nos meios, devemos colocar para ter em um futuro. Isso se esquece de um pormenor muito simples. Vamos imaginar que aquilo que nós desejaremos ou desejaríamos ou desejamos ou estamos desejando agora mesmo, seja talvez realizável no ano 2043. Vamos imaginar isso... Não, não, de 2043 estamos muito perto, vamos imaginar que precisamos de mais 100 ou 150 anos para que nosso desejo seja possível de realização. Quem é que nos garante que as pessoas que então estejam no mundo, os vivos de então, descendentes nossos, daqui a 150 anos, porque nenhum de nós estará vivo para ver, quem é que nos garante que eles estarão interessados naquilo que nós agora estamos interessados?

Novo conceito

O dia de amanhã é a nossa utopia. É com o trabalho do hoje que se constrói não já a utopia de amanhã, porque essa, a utopia, já vemos que não é tão modesta; em questões da noção de tempo, sempre se projeta não se sabe quando, não se sabe onde, com essa pequena vida que temos e com a nossa relativa esperança de que amanhã ainda estaremos todos vivos. É com o trabalho do hoje que este amanhã será. E é com o trabalho do que está passando aqui no Fórum Social Mundial que o dia de amanhã poderá sofrer, perceber, captar alguma transformação.

A democracia amputada

Eu tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionário. Mas, enfim, não vou a tanto. Deixe ela lá estar, porque está quieta. O que eu queria dizer, é que há uma outra questão que tem de ser urgentemente revista. Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí como referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia seqüestrada, condicionada, amputada.

O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Onde está então a democracia?

Os direitos humanos

O século XXI será o século em que ganharemos ou perderemos a batalha dos direitos humanos. Essa frase foi proferida na declaração de 1948, em Nova Iorque, nas Nações Unidas. Em 1998, quando comemoramos improváveis 50 anos dessa carta, simpósios, artigos e ensaios foram escritos sobre o tema. Nas semanas que antecederam a data, foi o tema único nos órgãos de comunicação. A humanidade não só não progrediu na aplicação dos direitos humanos, como em muitos aspectos andou para trás. Em 2048, quando se voltar a falar sobre direitos humanos, acredito que esteja ainda pior.

Por que pior?

Quem manda no mundo? O mercado, o lucro, a ganância. Se os partidos que governam se submetem aos poderes econômicos, a quem serve o poder político? Apenas para adaptar legislações nacionais e ser vigia de manifestações de protesto? As multinacionais mandam no mundo. Que democracia é essa? Prefiro chamar a isso de Ditadura do Capitalismo. Nunca fomos uma democracia. Quero lembrar aos senhores que não há memória de uma greve em uma fábrica de armas sequer. É uma democracia de aparências.

Salto do Fórum

O FSM corre o risco, e me perdoem por atirar água fria na fervura do natural entusiasmo, de ser uma festa, uma espécie de lugar sagrado. Como se Porto Alegre fosse uma Meca para onde os fiéis, que somos nós, fôssemos e atirássemos pedras ao diabo, que não está em Meca e nem aqui. Por favor, não quero que o Fórum seja um partido político, mas que tenha algumas posições para aparecer na mídia e não só algo bonito uma vez por ano. Para cumprir objetivos que o fizeram nascer é preciso formular algo que se opõe ao que acontece no mundo.

Do contrário, corre-se o risco de sofrer com um processo de laminagem, em que se perde espessura até que se rompa por ser tão fino. Não sei se tenho razão, mas que se declare uma voz consensual, não voz única. Esse Fórum é o momento para um salto qualitativo, porque em quantidade somos mais que suficientes [no FSM 2005, foram 100 mil participantes].

 

Edição original (n.° 35): Renato Rovai.

No site www.revistaforum.com.br, releia a carta enviada pelo escritor aos participantes do Fórum de 2002, lida no encerramento do evento.

 

por JOSÉ SARAMAGO

   

Publicado sob autorização da Revista Fórum

Edição original (n.° 35): Renato Rovai

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