RESENHA
FRANÇA
Fº, Genauto Carvalho de, LAVILLE, Jean-Louis, MEDEIROS, Alzira e
MAGNEM, Jean-Philippe (Organizadores.). Ação
Pública e Economia Solidária: uma perspectiva internacional.
Porto
Alegre: Ed.
da UFRGS; Salvador: EDUFBA, 2006, 326 pp.
____________________________________________
As
políticas públicas de economia solidária no Brasil e na França:
conteúdo, limites e avanços
A
economia solidária (ES) tem ocupado espaços crescentes na
atividade econômica, nas reflexões acadêmicas e na
institucionalidade. Tal crescimento não está restrito ao Brasil,
verifica-se em vários países, sobretudo na França. O fenômeno
que para alguns pode ser tomado como novidade, já possui história
e uma trajetória complexa. Assim, não obstante o fato que os
Estados nacionais ocidentais estejam arquitetados para promoverem o
capitalismo, o movimento por uma ES tem conseguido fazer com que
esferas de governo desenvolvam políticas públicas voltadas para
ES, tais como: políticas redistributivas: (renda familiar mínima,
alocação de trabalho para jovens, idosos, “minorias” ou
portadores de necessidades especiais); políticas emancipatórias: (microcrédito
e capacitação ocupacional, sobretudo para trabalhadores
informais); políticas de apoio ao desenvolvimento local: (cadeias
econômicas, programas de incubação de iniciativas populares solidárias,
ações de fortalecimento à organização de redes associativas e
grupos socioprodutivos, ações de constituição de centros públicos
de economia solidária etc.).
Neste
contexto foi lançado o livro “Ação
Pública e Economia Solidária: uma perspectiva internacional”,
organizado por Genauto Carvalho de França Filho, Jean-Louis Laville,
Alzira Medeiros e Jean-Philippe Magnem (Porto Alegre: Ed. da UFRGS/
Salvador: EDUFBA, 2006, 326 pp.) . Constituída de 20 textos
de autoria de pesquisadores, gestores públicos, militantes e políticos
que atuam na área; observadores privilegiados, a partir de prismas
distintos, da demanda e da aplicação de políticas púbicas em
economia solidária. Os artigos são oriundos de estudos de casos,
depoimentos, ensaios teóricos e relatos de pesquisas que buscam
analisar as políticas, identificando os protagonistas, o contexto
em que são aplicadas, o nível de territorialidade e a escala de
poder institucional que origina tais intervenções. E,
principalmente, o conteúdo, as realizações e os limites de tais
políticas públicas.
O
livro está dividido em sete partes. Inicialmente, realiza-se um
quadro conceitual e uma contextualização da economia solidária
nos dois países. Laville trata da ação pública a partir da
modernidade, enfatizando a importância e o papel da solidariedade
reciprocitária e da solidariedade orgânica (jurídica
redistributiva) na problemática articulação entre política e
economia. França Filho apresenta a economia solidária no Brasil,
destacando sua gênese e sua relação com a economia popular. No
texto seguinte, Chanial e Laville contextualiza a economia solidária
na França, salientando sua relação com a economia social.
Na
segunda parte, o texto da Secretaria Executiva do Fórum Brasileiro
de Economia Solidária (FBES) recupera os principais marcos de
construção do movimento no Brasil a partir de 2001. Já sobre o
contexto francês, Madeleine Hersent traça o painel da atuação
das Inter-Redes de Economia Solidária (IRES, um coletivo de
pesquisadores, grupos de apoio, atores do campo e organizações
internacionais de solidariedade). Ela ressalta a dinâmica que
possibilitou um melhor inter-reconhecimento entre os participantes
da economia social e da economia solidária. França Filho e Silva Júnior
completam esta parte analisando o caso do Banco Palmas (organização
situada na periferia de Fortaleza), destacando-o como base empírica
para compreensão da economia solidária a partir da antropologia e
da sociologia econômica.
A
terceira e quarta partes historiam o exercício de políticas públicas.
Explicita-se como foram desenvolvidas tais políticas, a partir de
experiências municipais (Nantes, Rennes, Recife e São Paulo) e
experiências regionais (Rio Grande do Sul e Nord-Pás-de-Calais).
Na
quinta parte, o Secretário de Estado para Economia Solidária na
França (2000-2002), Guy Hascoët e Paul Singer, coordenador da
Secretaria Nacional de Economia Solidária, órgão do Mistério do
Trabalho e do Emprego do Brasil, discorrem sobre a atuação de cada
órgão.
Além
do registro das políticas públicas de economia solidária,
busca-se, através de um aporte sociológico, antropológico e da ciência
política, analisar a formatação e aplicação destas políticas.
Para tanto, é desenvolvido um quadro teórico de interpretação,
problematizando em que medida tais políticas estão pautadas nos
marcos da democracia participativa, na construção de espaços públicos
de proximidade e, principalmente, se elas estão garantindo o
aparecimento de novos sujeitos e o atendimento a distintas demandas.
A
sexta parte do livro dedica-se a discutir temas transversais: comércio
justo (Taisne. A-F. e Torres, A. P.), espaço público (Gaiger,
L.I.), ação pública (Fraisse, L.), e poder político (Martins, P.
H.). No texto de Gaiger os impasses e desafios oriundos das relações
entre agentes mediadores e os atores populares são explicitados. E
por sua vez, Laurent Fraisse indica que o sucesso da ação pública
em favor da economia solidária está em “evitar a marginalização
da ação pública em um subsetor e instaurar modos de governança
local mais democráticos na estruturação das relações entre
governos e atores locais” (p. 237). Ele aponta para a necessidade
de conseguir a transversalidades das ações, sua ancoragem no plano
local e a afirmação de uma regulação plural da economia por
parte dos poderes públicos.
Na
sétima parte, através de dossiês e do Relatório de Pesquisa
sobre avaliação das políticas públicas de economia solidária,
elaborado pelo Ipea / Ministério do Trabalho e Emprego, são
listados categorias de análise (participação, gestão democrática,
autonomia e responsabilidade compartilhada) e questões
investigativas (como são estruturadas as políticas, qual é o público
alvo e como elas são executadas) que contribuem para a avaliação
das políticas. E tipifica-se essas políticas (o texto de Nunes e
de França Filho)
O
artigo de França Filho, também, diferencia as políticas de
emprego das políticas de geração de trabalho e renda,
caracterizando as políticas públicas de economia solidária como
um tipo específico do segundo grupo. Assim estas políticas se
distanciam do empreendedorismo tão em voga, por estarem centradas
numa concepção de economia plural e coletiva.
Alves
no seu texto privilegia a análise da participação da sociedade
civil, creditando à sensibilidade do gestor público a aplicação
das políticas. Daí ele conclui, ao menos para a região do Grande
ABC, “que a política de apoio à ES ainda não conseguiu
transformar o público da economia solidária em sujeitos sociais”
(p. 274).
Nenhum
texto da coletânea atribui à economia solidária o papel de se
tornar alternativa ao capitalismo. Com exceção de Paul Singer,
eles deixam claro que não cabe a economia solidária ambição tão
grande. Concomitantemente, eles não consideram à ES como algo
assistencial/caritativo para minorar os efeitos da pobreza. Os
textos deixam explícito que a ES tem um papel a cumprir: contribuir
para uma mudança institucional, redesenhando os contornos da ação
pública em matéria de economia e oferecer a sociedade um novo padrão
de regulação social e desenvolvimento.
O
sentido dessa mudança institucional está presente em todos os
textos, ou seja, reivindica-se a noção de economia plural e a
necessidade de compreender o fenômeno econômico como algo que
ultrapassa as trocas mercantis (mercado) e a redistribuição
(estado); bem como, a necessidade de democratização da economia.
Com efeito, afirma-se que a produção e circulação de bens e
serviços também é desenvolvida através de um extenso leque de
reciprocidades com atividades não mercantis e não monetarizadas,
por obra da sociedade civil.
Para
isto, faz-se necessário um novo padrão de desenvolvimento que
negue a exclusão provocada pelo mercado e o abandono do estado
diante do contexto de globalização e permita um papel relevante
para a sociedade civil como afirma o texto de P. H. Martins.
Todos
os artigos sustentam a necessidade de democratização da economia e
procuram saber, a partir de casos concretos, como a economia solidária
está contribuindo para tanto. Logo, as investigações sobre os
casos concretos de política pública de economia solidária são
guiadas pelo questionamento se tais políticas contribuem para uma
publicização de iniciativas, anteriormente ignoradas, se reagem
contra o crescimento das desigualdades, de esgotamento dos recursos
não renováveis e se insurgem contra uma visão modelar da regulação
baseada apenas no mercado.
A
leitura do livro indica que em ambos os países a economia solidária
é embalada pela confluência de movimentos sociais e frentes políticas
de esquerda, através de uma relação cheia de idas e vindas, o que
coloca em cheque concepções de Estado (tipo: Estado classista x
Estado universalista). Também nos dois países as políticas públicas
para economia solidária sofrem descontinuidades quando aquelas forças
políticas deixam de ocupar a direção dos governos. O que denota
uma maior sensibilidade para com a economia solidária por parte das
frentes de esquerda e ao mesmo tempo a necessidade do movimento de
economia solidária em ampliar sua representatividade com bem
abordar Gaiger no texto 16 e Martins no texto 18, quando elege o
Sistema Único de Saúde (SUS) como modelo para ser referenciado
pela economia solidária no tocante à mobilização e implementação
de políticas públicas.
O
livro possibilita ao leitor refletir pelo menos sobre três questões
controversas: a) o nível territorial da contribuição para a mudança
institucional deve se processar na esfera local (como parece se
inclinar os franceses) ou na esfera federal (segundo a aposta dos
brasileiros)? b) qual o papel das entidades de apoio na consecução
das políticas? c) sobre a concepção de Estado (classista ou
universalista)
Além
dessas questões, nota-se uma lacuna – a coletânea como um todo não
explora o papel do gestor público em economia solidária, não
informando ao leitor quem é? E qual sua peculiaridade em relação
a outros gestores.
Tal
lacuna não diminui o vigor das análises, pois, no geral, o livro
consegue atender seus objetivos realizando um amplo desenho do
contexto, do conteúdo e dos limites das políticas públicas de
economia solidária. Constituindo-se como referência para análise
e a elaboração de políticas públicas para economia solidária.
E, até supera seus propósitos, quando permite ao leitor
reconstruir parte considerável da trajetória da economia solidária
nos países e as principais polêmicas que este movimento enfrenta.
por
GILDÁSIO
SANTANA JÚNIOR