RESENHA:
CORRÊA,
Antenor Ferreira Corrêa. Estruturações
Harmônicas Pós-Tonais.
São Paulo: Editora da
Unesp, 2006 (224p.)
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Estruturações
Harmônicas Pós-Tonais
Tão
numerosas quanto as técnicas harmônicas surgidas no século XX são
as teorias que as tentam explicar. Poucos foram os compositores que
nessa época não se dedicaram a especulações a respeito de novas
formas de relacionar as alturas, da geração de novos acordes, da
criação de novos campos harmônicos e de procedimentos para
transformá-los e manipulá-los. Também poucos foram os
compositores dentre estes que não publicaram análises de suas próprias
obras, dissecando suas técnicas e procedimentos, e contribuindo sim
para a melhor apreciação destas obras, mas limitando o leque de
interpretações mais distanciadas que outros analistas poderiam
oferecer caso não os tivesse silenciado o veredicto pretensamente
definitivo do criador tanto da técnica quanto da obra.
Em
número ainda menor estão aqueles analistas que tentaram
compreender estas técnicas e teorias dentro do contexto em que se
inserem, levando em consideração aspectos além dos técnico-musicais,
como a história e a física. É neste pequeno grupo que se insere
Antenor Ferreira Corrêa, autor de Estruturações Harmônicas Pós-Tonais, recém-lançado pela
Editora Unesp. De forma bastante didática, o autor se propõe a
fornecer parâmetros para a compreensão das práticas harmônicas
vigentes na primeira metade do século XX, relacionando-as entre si
e às teorias e práticas do passado.
Antes
de dar início à discussão do tema central, Corrêa traça um
interessante histórico do desenvolvimento da teoria harmônica,
abarcando desde as práticas modais medievais e renascentistas,
passando pelo período tonal até o advento das novas estéticas do
século XX, quando estas teorias começam a se tornar ineficazes na
descrição dos processos harmônicos. Neste ponto, porém, o
enfoque do autor parece um tanto exagerado ao eleger a tonalidade
como objeto central do estudo. Amparado pelas idéias do musicólogo
Rudolph Réti, Corrêa substitui por várias vezes o termo
“modalismo” por “tonalidade melódica”, arrastando toda a música
da Idade Média e do Renascimento para dentro de um contexto no qual
as idéias de direcionalidade e centro tonal têm papel
preponderante. Este ponto de vista se justifica na medida em que
este repertório pré-clássico já apresenta uma clara hierarquia
entre as alturas, mas mereceria uma mais ampla discussão, de modo a
deixar claras certas diferenças essenciais que existiriam entre o
que seria esta tonalidade melódica e a tonalidade harmônica,
tradicionalmente assim intitulada. Este capítulo inclui ainda uma
vasta revisão dos tratados sobre harmonia, abrangendo desde os históricos
até alguns dos mais recentemente publicados.
Após
este panorama histórico, o autor parte para a discussão de dois tópicos
centrais no estudo da harmonia tonal: a oposição entre consonância
e dissonância e o conceito de função harmônica. Da mesma maneira
simples e didática, Corrêa recorre novamente à história para
apresentar a trajetória da idéia de dissonância, desde o tempo em
que elas recebiam um tratamento diferenciado nas composições até
sua emancipação na virada do século XIX para o XX.
Fundamentando-se em uma vasta bibliografia, o autor analisa de
maneira profunda os caminhos que seguiu esta emancipação e os níveis
em que ela se deu, não se limitando a repetir como as notas melódicas
se “fixaram” nos acordes, mas também demonstrando como as relações
harmônicas e as modulações a regiões cada vez mais distantes
favoreceram as sonoridades dissonantes e até contribuíram para uma
relativização das consonâncias.
Ao
lado desta visão histórica, a obra traz a discussão acerca da
dissonância para um terreno físico-acústico, na legítima intenção
de contrapor os fatores culturais que levam o ouvido a perceber
certos intervalos como dissonantes aos fatores físicos. Porém, se
o enfoque histórico se apresenta como um dos pontos altos do
trabalho, o físico peca por uma certa superficialidade.
O
segundo tópico abordado, referente ao conceito de função harmônica,
constitui outro mérito da obra. Partindo da confrontação entre várias
definições pertinentes ao termo – incluída aí a definição
fornecida pela matemática –, o autor se aprofunda na discussão,
enfocando a funcionalidade harmônica à luz de outros parâmetros
musicais em realidade indissociáveis da harmonia, mas que são
artificialmente desconsiderados em grande parte da literatura. Deste
modo, Corrêa demonstra a relatividade das funções harmônicas
frente a parâmetros como a sintaxe musical, a fraseologia e o
tempo.
Ao
final deste mesmo capítulo, porém, o autor parece pecar pelo mesmo
exagero verificado no capítulo histórico. Ao tratar do fenômeno
da refuncionalização, segundo o qual um acorde teria sua função
alterada por um determinado contexto, Corrêa parece novamente
querer expandir de forma exagerada os limites da tonalidade, desta
vez arrastando todo o repertório pós-tonal para dentro destes
limites. É seguro que o ouvido pode captar diferentes graus de tensão
em aglomerados harmônicos não tonais, graus estes conferidos pela
constituição intervalar destes aglomerados. Também se pode
afirmar que estes diferentes graus de tensão são um elemento comum
entre progressões harmônicas tonais e seqüências de acordes não
tonais. Todavia, verifica-se um certo exagero da parte do autor ao
apontar de forma categórica sensíveis e suas “resoluções” em
seqüências não tonais, desejando conferir uma direcionalidade
tipicamente tonal a estas seqüências, o que se mostra de duvidosa
confirmação pelo ouvido quando tocamos os exemplos fornecidos pela
própria obra.
Contudo,
Estruturações Harmônicas Pós-Tonais
se apresenta como uma bem-vinda contribuição ao estudo da harmonia
e suas teorias, não somente neste nebuloso século XX, como também
em épocas passadas, e é recomendável não somente para as salas
de aula, mas principalmente para aqueles que já se cansaram dos
velhos livros de harmonia repletos de leis e dogmas.
por
MATHEUS BITONDI