Custos
de transação e governança:
novas
tipologias de relações interfirmas
Introdução
Este
artigo tem por objetivo promover uma breve discussão teórica
acerca das principais idéias associadas ao que se convencionou
chamar no pensamento econômico de teoria dos custos de transação.
O artigo foi confeccionado levando em consideração a pertinência
desse arcabouço teórico para a definição das relações de
governança realizadas inclusive em países periféricos como o
Brasil.
Assim,
o mesmo encontra-se dividido em apenas duas rápidas seções. A
primeira apresenta sucintamente às relações entre risco, custos
de transação e práticas de governança. A seguir, discute-se a
tipologia de governança proposta recentemente por Humphrey e
Schmitz (2000 e 2001). Por fim, encerra-se o artigo com as considerações
finais, as quais chamam a atenção para o elevado poder exercido
pelas grandes corporações em suas relações com o mercado.
Custos
de transação e suas implicações para a governança
Os
custos de transação, ou seja, aqueles custos incorridos quando das
transações entre agentes econômicos, difíceis de precificar e
que correspondem principalmente às incertezas existentes quanto às
possibilidades de comportamento oportunista e não atendimento de
padrões pré-acordados impelem à firma decidir se a produção de
determinado bem deve ou não ser internalizada ou contratada à
outra. Caso os custos de transação sejam relativamente elevados, a
firma preferirá internalizar a produção. Por outro lado, se as
incertezas quanto ao atendimento das exigências da firma
contratante forem pequenas e por isso gerarem custos de transação
baixos, então a firma preferirá contratar a produção.
As
commodities e os produtos standart,
que requerem pouco controle da firma compradora tendem a ser
negociados com base nas relações de mercado. Contudo, quando o
produto passa a se tornar mais customizado ou mais elaborado, as
necessidades de coordenação por parte da firma compradora crescem,
uma vez que as incertezas quanto as capacidades da firma fornecedora
se elevam. O resultado geral é um aumento dos custos de transação
associados à maior complexidade do produto. A governança mais
custo – efetiva, ou seja, aquela que promove uma maior economia de
custos de transação, neste caso, é a promovida pela hierarquia ou
a internalização da produção de determinado bem.
Grosso
modo, Jones et al. (1997) e Williamson (1979), a partir das
contribuições apresentadas por Coase (1937) em sua obra seminal
The Nature of The Firm, propõe uma taxonomia de coordenação econômica
que divide-se em: (i) mercado; (ii) redes e (iii) hierarquia. A
governança, coordenação das atividades econômicas através de
relações não – mercadológicas, se resume segundo estes dois
autores, na coordenação das redes e das hierarquias.
Nova
taxonomia de governança
Humphrey
e Schmitz (2001), apresentam uma taxonomia de coordenação econômica
diferenciada, estes autores introduzem as relações de quase –
hierarquia. A governança para os mesmos então divide-se em redes,
quase – hierarquia e hierarquia. As relações de mercado, não são
assim, consideradas como parte das coordenações de governança, as
mesmas, inclusive, são chamadas por Jessop (apud Humphrey e Schmitz,
2001) de anarquia das trocas. Assim a tipologia de governança
proposta por Jones et al. (1997) e Williamson (1979), é
qualitativamente diferente da desenvolvida por Humphrey e Schmitz
(2000 e 2001). Uma vez que, a primeira, ao considerar as relações
presentes nas redes, como ocorrendo entre firmas mais ou menos
iguais, ignora a presença das assimetrias nas relações de poder
que caracterizam a quase – hierarquia proposta pelos últimos
autores. Assim, Humphrey e Schmitz (2000 e 2001), adicionam uma
categoria a mais na governança, identificando desta forma as
variadas relações de poder entre as firmas.
Quanto
à governança pode-se dizer que a coordenação baseada nas redes diz respeito a cooperação intensiva entre firmas, na qual
existe dependência recíproca e a confiança é um elemento
fundante, é algo próximo da simetria. As relações de quase
– hierarquia, propostas por Humphrey e Schmitz (2001),
caracterizam-se pela existência de assimetrias entre as firmas.
Claramente existe uma firma que exerce controle sobre as demais,
especificando as características e o modo como se deve produzir
determinado bem. Por exemplo, o comprador duvida da capacidade de
seus fornecedores e por isso, necessita coordenar as atividades por
eles desenvolvidas. Já nas relações que dizem respeito a governança
promovida pelas hierarquias,
a firma internaliza, ou seja, compra partes da cadeia produtiva de
determinado bem.
A
globalização ou a mundialização do capital trazem novos desafios
às economias dos países em desenvolvimento, seja pela concorrência
no mercado interno, seja pela ampliação das estratégias em escala
mundial.O fato é que a exacerbação da concorrência leva as
firmas a desenvolverem “respostas sustentáveis” a este novo
contexto, o upgrade
produtivo, dessa forma, constitui-se como pré – requisito para a
sobrevivência das firmas neste ambiente hostil.
O
conceito de quase – hierarquia é fundamental para compreender
como os países em desenvolvimento realizam este upgrade
produtivo e quão benéfico é sua inserção nas cadeias produtivas
globais. As relações de coordenação econômica, presentes nas
quase – hierarquias verificam-se principalmente nos países em
desenvolvimento, enquanto que a governança baseada nas redes é
mais comum nos países centrais do capitalismo. Assim sendo, essas
relações assimétricas típicas das quase – hierarquias ocorrem
nos países em desenvolvimento, pois: (i) a distância dos mercados
nos quais os produtos serão vendidos, e a conseqüente ignorância
quanto as características desse mercado, aliada ao gap
tecnológico necessário para se inserir nos mercados mundiais, faz
com que as firmas dos países em desenvolvimento se submetam a
coordenação das grandes compradoras internacionais; (ii)
verifica-se grande crescimento do setor de varejo, notadamente
intermediário, que cria marcas e padrões de qualidades que
identificam o produto, assim, como no caso dos supermercados, não
é possível produzir todos os produtos vendidos, mas os mesmos têm
de apresentar certas características, determinadas pelos grandes
varejistas. Portanto, a supervisão de determinadas atividades das
cadeias torna-se necessária; (iii) as crescentes preocupações com
a preservação ambiental, com a saúde humana e as condições de
trabalho, criaram um mercado para bens cuja produção ocorra, em
linhas gerais, de forma sustentável. Estes credence
goods, necessitam de grande monitoramento a fim de garantir as
características que os definem. Assim, a dúvida quanto a
capacidade do fornecedor em garantir estas características e o
conseqüente risco no qual o comprador incorre fazem que estas
atividades produtivas sejam controladas pelo último. Finalmente, (iv)
a crescente complexidade dos produtos e a pressão por adequação
logística aumentam o risco de falha do fornecedor, a fim de dirimir
este risco, a quase – hierarquia é a coordenação posta em prática
(Humphrey e Schmitz, 2000).
A
construção da tipologia de quase – hierarquia ocorre após
Humphrey e Schmitz (2000 e 2001), traçarem as inter – relações
entre a teoria dos clusters industriais e a das cadeias globais.
Apenas a compreensão das relações que se processam entre o nível
local e o global permite avaliar o grau de assimetria existente
entre os elementos. Uma vez que, a governança presente na abordagem
dos clusters não extrapola o componente local e por outro lado, a
governança verificada na teoria das cadeias globais não considera
as implicações locais. Dessa forma, o entendimento das quase –
hierarquias num contexto de interação entre clusters e cadeias
globais permite compreender as possibilidades de upgrade produtivo e as reais chances de inserção das economias em
desenvolvimento no atual cenário internacional.
A
adoção de coordenação econômica baseada nas redes ou nas quase
– hierarquias se dá através da percepção da capacidade do
fornecedor. Quando esta capacidade de fazer frente as necessidades
do comprador é elevada, incorre-se, em linhas gerais, na governança
baseada nas redes, na qual existe uma relação de cooperação, por
outro lado, quando as incertezas quanto as capacidades dos
fornecedores são elevadas, busca-se a coordenação através das
quase – hierarquias.
Dessa
forma, compreender como se dão as relações quase – hierárquicas
no âmbito dos clusters é em boa medida entender a dinâmica de
funcionamento das possibilidades de upgrade
das firmas presentes nos países em desenvolvimento. Uma vez que, a
exacerbação dos padrões de concorrência presentes na atual
realidade econômica forçam as firma, de uma maneira geral, a
adotar estratégias que possibilitem a otimização das atividades
produtivas e a conseqüente redução dos custos. Este ambiente de
extrema concorrência, caracterizado pela perda de importância
relativa das fronteiras nacionais, impele às firmas à definição
de estratégias em níveis globais e não mais nacionais.
Assim,
as possibilidades dos clusters estão indissoluvelmente ligadas à
forma como os mesmos estão integrados nos cadeias globais. Ou seja,
a inserção ou não das economias em desenvolvimento esta atrelada
à governança a que elas se submetem.
Três
parecem ser as possibilidades de upgrade:
(i) processo (otimizar a transformação de inputs em outputs com
base em reorganização ou introdução de novas tecnologias); (ii)
produto (mover-se em direção a produtos mais elaborados, o que
Gereffi apud Humphrey e Schmitz, 2000) chama de sucessão
organizacional e finalmente, (iii) upgrade funcional
(desenvolvimento de atividades de design, marketing e marca).
O
conceito de quase – hierarquia permite compreender como se dão as
relações entre os clusters presentes nos países em
desenvolvimento e as cadeias globais. Pois, por ser uma relação
assimétrica, ou desigual, as possibilidades de upgrade para estes
clusters são limitadas pelo interesse dos poucos compradores
internacionais. Assim, quando a competência central do comprador
esta na consolidação da marca, do design ou das estratégias de
marketing as possibilidades de upgrade
limitam-se à produto e processo.
Humphrey
e Schmitz (2000 e 2001), com o caso do cluster calçadista do Vale
dos Sinos, dos supermercados ingleses e em certa medida, Quadros
(2001), com o segmento de autopeças do ABC paulista, ilustram bem a
realidade assimétrica encontrada pelas firmas dos países em
desenvolvimento. Num primeiro momento, por interesse dos grandes
compradores, verifica-se uma considerável melhora na qualidade da
produção e um conseqüente upgrade
tanto em produto quanto em processo. Nesse contexto, é extremamente
pertinente a análise da busca pela certificação por parte das
firmas produtoras de autopeças, que tencionando fazer parte da
cadeia global procuravam criar e demonstrar capacidade de fazer
frente as exigências dos grandes compradores, mesmo que as relações
entre os pequenos fornecedores e os grandes compradores se dessem
através de arm`s length
market relations, era evidente o controle dos últimos quando
exigiam certificações cada vez mais personalizadas à produção
de determinados insumos.
Quando
a coordenação econômica planejada pelo comprador é de quase –
hierarquia, o processo produtivo deve ser de perto acompanhado,
atendendo as exigências determinadas por este. Assim, verifica-se a
dinamização do tecido produtivo local quando da inserção nas
cadeias globais, mas este dinamismo só ocorre na medida que seja
interessante para o grande comprador internacional. Caso os
fornecedores tencionem realizar atividades que estejam na competência
central da grande corporação internacional os mesmos são
desincentivados a fazê-lo e podem ser excluídos da cadeia. Ou
seja, o upgrade produtivo
tende a ocorrer nos países em desenvolvimento até a fase de
melhoramento de produto ou de “sucessão organizacional”.
Considerações
Finais
De
maneira geral, a inserção dos clusters e das economias locais no
cenário mundial vai depender da forma de relacionamento e da
coordenação econômica em que eles incorrerem com seus
compradores. Caso seja uma relação baseada nas redes, existirá
total possibilidade de upgrade
e construção conjunta de competências. Por outro lado, se os
fornecedores se enquadrarem numa relação baseada na quase –
hierarquia estarão subordinados ao controle e interesse do
comprador, o que limitará sua estratégia e inviabilizara o upgrade
funcional.
Dado
que a relação assimétrica entre compradores e fornecedores é típica
de países em desenvolvimento, apenas as relações de governança
que consideram a existência das quase – hierarquias permitem
entender a real dinâmica econômica entre fornecedores locais e
grandes compradores internacionais. Uma vez que, essa forma de
relacionamento interfirma, é marcada justamente pela assimetria de
poder entre compradores e fornecedores, quase sempre em detrimento
dos últimos.
Nesse
sentido, ao considerar a inserção nas cadeias globais como estratégia
de desenvolvimento regional, há que se compreender o poder de
barganha exercido por grandes corporações internacionais. Pois,
mesmo numa era supostamente marcada pela emergência de estruturas
flexíveis de produção, baseadas sobretudo nas redes, a grande
empresa transnacional ainda parece ser o lócus
privilegiado de valorização do capital.
por
ANDRÉ TORTATO RAUEN