De
volta à escola
O
reinício das aulas no sistema público e particular de ensino
fundamental e médio devolve a escola ao centro das atenções
cotidianas.
Com
que políticas os recém-empossados governos privilegiarão a educação,
tida de modo quase generalizado como a principal chave de acesso
para o futuro? Como pais e filhos se posicionarão diante de uma
escola que, justamente sobrevalorizada no imaginário social, não
consegue atender às expectativas e tem sido submetida a tantas
“reformas” e alterações que acabou por ficar sem cara,
deixando de gerar confiança e lealdade em seus usuários, os cidadãos?
E o que esperar de professores, estudantes e diretores em um
contexto que dá mostras seguidas de estar “fugindo do controle”
e provoca atritos e tensões de variado tipo, a ponto de fazer com
que o dia-a-dia escolar às vezes ganhe cores de verdadeiras
batalhas campais?
Não
devemos dramatizar em demasia o quadro, sob pena de convertê-lo em
algo incompreensível e de menosprezar os avanços que têm ocorrido
na área educacional. Mas a situação é delicada e merece reflexão.
A questão da escola deita raízes profundas em nossa forma atual de
vida, reflete a “confusão” que acompanha a reorganização
social nessa era de revolução tecnológica acelerada, reestruturação
produtiva, individualização e democratização dos
relacionamentos. A escola recebe todo o impacto desse processo
porque oferece, aos membros da sociedade, um palco privilegiado para
que sejam testados os novos arranjos que estão sendo esboçados em
termos de sociabilidade, convivência, aprendizado e organização.
A
época é de crises, dúvidas e paradoxos. Tudo está posto em xeque
e desafiado. Os sistemas falham seguidamente, as regras e normas têm
dificuldades enormes para aderir à vida, que se mostra muito mais
forte e ágil do que elas. O marco normativo e institucional é
refeito de forma incessante, como se a mudança ininterrupta pudesse
trazer luz e apaziguar os espíritos. Os estudantes que chegam aos
bancos escolares são a cada ano mais imprevisíveis, subvertendo
planejamentos, cálculos e procedimentos docentes. Lêem, estudam e
pesquisam de outro modo, exploram caminhos distintos para resolver
suas tarefas, usam informações surpreendentes, são quase sempre
hiper-ativos e dispersivos, não conhecem limites, instigados que
estão a ser livres e participativos. São crianças digitais e
eletrônicas, ainda que não tenham deixado de ser crianças. Operam
máquinas potentes, freqüentam redes ampliadas que dão asas à
imaginação e forçam as fronteiras do conhecido e mesmo do razoável,
e nem sempre sabem como agir nesse universo, como usá-lo a seu
favor sem prejudicar os outros, como se divertir nele mas também
aprender com ele.
De
que maneira assimilar recursos como o Orkut, o YouTube e o MSN sem
transformá-los em armas contra os outros – em armas contra os
professores ou contra os colegas, por exemplo – ou convertê-los
em mecanismos de entretenimento alienado? O que fazer com celulares
que podem quase tudo? Como ser convencido a ler e pesquisar livros
“físicos” quando tudo está digitalizado, muitas vezes
mastigado e pasteurizado, quando há mil formas de burla e de
facilidades ao alcance do mouse? Como ficar sentado, em silêncio e
concentrado em uma aula “presencial” quando o mundo “lá
fora” é puro frenesi de sons, imagens e movimento?
Há
uma lacuna ética nesse terreno, e ela não afeta somente os jovens.
A
escola realmente existente – a das massas e a das elites – não
tem como ser um ambiente de paz, consensos e certezas. Tornou-se um
espaço de confusões e expectativas mal-dimensionadas, seja por
parte de professores e alunos (que já não falam mais a mesma língua
nem respeitam o mesmo “pacto”), seja por parte das famílias,
que esperam tudo da escola, até mesmo uma oferta de
“disciplina” e “educação” que deveria se resolver dentro
de casa, seja por parte dos governos, que não sabem o que fazer com
ela. Ainda quando modernizada, ela traz na corrente sanguínea as
toxinas provenientes de políticas educacionais casuísticas, da crônica
e justíssima insatisfação dos professores, da infra-estrutura
inadequada, dos desajustes familiares, da pressão do mercado de
trabalho. A escola “sofre” por isso e também porque é o
resultado vivo da incapacidade que a sociedade, o Estado e a política
têm de se interessar ativamente por ela e defendê-la.
Em
vez, portanto, de ficarmos falando mal das escolas, reclamando das
falhas e das más-intenções governamentais e clamando por soluções
imediatas, deveríamos começar a fazer propostas concretas e a
recriar os contratos básicos: o contrato entre os educadores e
destes com os estudantes, o contrato entre a escola e a sociedade
(as famílias) e o contrato entre a escola e o Estado (os governos).
O
quadro não é desanimador. Ainda que em estado de sofrimento, a
escola persiste como principal recurso estratégico das comunidades
humanas. Não há outra instituição que possa fazer o que ela faz,
que espelhe tão bem o que as sociedades têm de bom e de mau, suas
tradições, sua força e suas possibilidades. Essa sua extraordinária
relevância e o fato mesmo de que ela se renova sem cessar, graças
à circulação de alunos e professores, são a maior garantia de
que a escola estará presente no futuro.
A
época nos atormenta, mas também amplia nossos horizontes. E até
prova em contrário, é melhor ter estudantes “desregrados” e
dispersivos mas conectados e inventivos do que estudantes
bem-comportados e obedientes mas ilhados e pouco comunicativos.
Participação excessiva e vontade exacerbada de confrontar podem
gerar ruído e desconforto, mas são preferíveis à verticalização
das decisões ou à autoridade unilateral do professor, pois têm
maior potência emancipadora e ajudam os jovens a se converterem em
sujeitos de todos os processos, incluído o do conhecimento.
por
MARCO
AURÉLIO NOGUEIRA