Ao
mesmo tempo em que é importante considerar as preocupações
imediatas que preocupam palestinos e israelenses em seu
dia-a-dia, precisamos fazê-lo dentro de um quadro que
proporcione uma definição clara e acordada sobre para onde
estamos indo e como chegaremos lá
[traduzido por MOISÉS
STORCH para a Revista
Espaço Acadêmico e o PAZ
AGORA/BR] |
Precisamos
de uma Visão Bifocal
Discurso
do Dr. Salam Faiad na 7ª Conferência Anual de Herzlia, 24/01/2007
Gostaria
de estender meus agradecimentos aos organizadores da conferência
por ter me convidado a lhes falar. Reconheço a importância desta
conferência – é este o lugar onde importantes plataformas políticas
israelenses já foram lançadas, incluindo mais recentemente o
unilateralismo na forma do “desligamento” israelense da Faixa de
Gaza. Como palestino que sentiu os efeitos dessas políticas, é
minha esperança que hoje um possa lançar alguma luz sobre esta
questão, e sobre como posemos juntos desenhar um futuro novo, mas
brilhante e promissor para o Oriente Médio – e não apenas para
nossos dois povos.
Seria
muito fácil para mim focalizar minha fala de hoje em economia e
finanças. Mas devido ao papel muito importante que a política tem
no sucesso ou fracasso de qualquer economia e mesmo sobre o futuro
de qualquer país, decidi focar meus comentários em questões políticas,
deixando de lado um pouco os assuntos de economia e finanças.
Examinando
os últimos seis anos deste conflito, eu caracterizaria as relações
israelense-palestinas ao longo deste tempo com tendo sido muito íntimas
– íntimas demais para os palestinos e para os israelenses. Vocês
podem ter ficado espantados
por esta caracterização, pois muitos a descreveriam de
forma oposta. Mas a natureza das relações atuais entre israelenses
e palestinos alcançaram níveis de micro-administração, onde
Israel está envolvido em detalhes mínimos das vidas dos
palestinos.
É
importante lembrar que as totalidades da Cisjordânia e da Faixa de
Gaza são governadas por ordens militares – não pela política, lógica
ou razão – mas por ordens militares com a “segurança”
ditando as regras do jogo. Seja pêra ereção de centenas de checkpoints
e bloqueios de estradas por toda a Cisjordânia – a maioria dos
quais não tem qualquer motivação de segurança, a exigência de
que os palestinos obtenham permissões para viajar mesmo entre
locais dentro da Cisjordânia ou algumas normas absurdas que são
normalmente desconhecidas pelos israelenses, a ocupação se
infiltrou em quase todo aspecto da vida palestina.
Tome,
por exemplo, a recentemente anunciada proibição de palestinos
viajar em carros israelenses de placas amarelas. Embora para muitos
isto tenha uma clara motivação de segurança, o que é ignorado são
as ramificações de tais políticas. Conheço muitos
ierosolimitanos para os quais esta nova política significa que não
poderão transportar seus próprios parentes que, por acaso, por força
da guerra, são classificados como “Cisjordanianos”. Também
conheço muitos palestinos – de Jerusalém ou não – cuja terra
foi tomada e cujas famílias foram divididas para a construção do
muro. Estes são detalhes aos quais poucos israelenses são
expostos, mas que são a realidade em que os palestinos continuam a
viver e sofrer diariamente.
E,
embora eu entenda que no planejamento dessas e outras medidas possa
haver alguma motivação de “segurança”, o efeito não é o de
criar mais segurança para Israel. Ao contrário cria condições
para futuras instabilidades. Por que? Porque em seu âmago, este
conflito NÃO é uma questão de segurança com ramificações políticas.
No lugar disto, é um conflito político com conseqüências de
segurança.
Lamentavelmente,
nos últimos seis anos e provavelmente há mais tempo, o foco foi
posto exclusivamente na segurança, ignorando a ligação inerente
entre a falta de segurança de Israel e a falta de liberdade dos
palestinos. Este não é um conflito humanitário precisando de uma
resposta humanitária. Nem é um conflito de segurança demandando
uma resposta de segurança. O que ambos estamos sofrendo é um
conflito político, que demanda uma solução política.
Teria
existido uma vez um foco na imagem maior – para além dos checkpoints,
caminhos intransitáveis sujos e salvo-condutos – em questões
políticas críticas: Jerusalém, fronteiras, refugiados,
assentamentos, etc.
Infelizmente,
o “processo” tomou conta do palco central, e não a necessidade
real por paz. Enquanto abundavam reuniões entre os dois lados e com
a comunidade internacional, foi ignorado se estava efetivamente
sendo feito progresso para terminar o conflito – a ocupação –
e para dar aos dois povos o que eles querem: paz.
Hoje
as reuniões foram reduzidas para discussões sobre pequenas e práticas
(às vezes nem tanto) questões periféricas ao conflito. Ao nos
focalizar sobre o periférico, não nos aproximamos de resolver
nossos problemas e portando não estamos mais próximos da paz.
Precisamos ampliar nossa visão e ver a política – não apenas
para os pequenos assuntos que não são os germes da natureza
fundamental deste conflito.
Não
Fazer Nada é Andar para Trás
É
fácil para Israel dar de ombros e não fazer nada. Israel – como
a parte mais forte neste conflito – dá-se ao luxo de não fazer
nada. Mas não agindo, Israel está fazendo algo: não está
contribuindo para resolver o conflito, o está fortalecendo. Muitos
acreditam que estamos condenados a optar entre fazer nada e adotar
abordagens unilaterais. Mas da nossa experiência deveríamos agora
saber que nenhuma dessas opções funciona: tanto fazer nada como
agir unilateralmente só serve para piorar as coisas.
Então
o que precisa ser feito? Precisamos de lentes bifocais. Sim,
bifocais. Com isso quero dizer que precisamos ter uma visão clara
para abordar o curto prazo e o longo prazo. Ao mesmo tempo em que é
importante considerar as preocupações imediatas que preocupam
palestinos e israelenses em seu dia-a-dia, precisamos fazê-lo
dentro de um quadro que proporcione uma definição clara e acordada
sobre para onde estamos indo e como chegaremos lá.
Com
tanto ceticismo sobre soluções provisórias, a necessidade de uma
definição concreta de um “status final” vem sendo, há muito
tempo, percebida como muito importante para os palestinos. Mas eu
diria que os acontecimentos adversos dos últimos anos, incluindo os
equívocos do
unilateralismo, tornaram o trabalho para arranjos transitórios, na
ausência de um status final acordado, igualmente pouco atraente do
ponto de vista dos israelenses.
Uma
solução pacífica é inevitável. Sim. É impossível manter o status quo porque o status
quo não é estático. Ele é fluido e infelizmente só fica
pior, não melhora. Não há dúvida de que haverá estabilidade
quando os palestinos receberem sua liberdade. A visão lançada pelo
presidente Bush e abraçada pelo presidente Abbas é a da coexistência
pacífica. Para os israelenses, isto significa sentir segurança.
Para os palestinos significa estarem livres da interferência
israelense e também viver em segurança. Mas estas são apenas
palavras. O que realmente quero expor a vocês é uma visão para
relações positivas e não apenas coexistência.
Os
palestinos têm uma visão de paz. Queremos que nosso país seja uma
adição qualitativa à região e um modelo de valores democráticos
e boa governança. Quando falo de boa governança, o digo
concretamente – não como um objetivo remoto
e inatingível, mas sim de um país
onde prevaleça o domínio da lei e não o domínio da arma.
Os
palestinos tem o maior nível de titulares de PhD per capita do
mundo árabe (eu estou nessa estatística) e nosso foco estará em
criar uma geração de palestinos inteligentes e educados que não
se contentarão com menos que um sistema confiável de leis e de
respeito por direitos. Muitos podem perguntar o porquê disto ainda
não ter acontecido. A resposta está principalmente na ocupação e
na falta de liberdade para os palestinos. Quando se vive num
contexto onde não há respeito a leis, sob uma ocupação sufocante
e opressiva, é muito difícil exigir e fortalecer a civilidade.
Isto
posto, nunca usarei a ocupação como desculpa para nos permitir ser irresponsáveis
ou lenientes na construção do
nosso Estado. Como nacionalista palestino e comprometido a trabalhar
pelo fim da ocupação, exijo certas coisas do nosso Estado
Palestino independente para todos os palestinos. Quero ver um
país que seja livre, onde os direitos sejam respeitados (não
apenas alardeados), onde a educação seja uma prioridade e a
democracia o princípio-guia.
Estes
são assuntos que interessam a Israel. Mas mais importante, quero
explicitar uma visão de paz com Israel. Busco uma paz quente com
Israel. Não quero o calor de agora que vocês estão sobre as
nossas costas, mas quero uma paz quente. Eu busco laços políticos
fortes com Israel. Eu busco laços econômicos fortes entre os
Estados independentes de Israel e Palestina. Eu busco relações quentes com os israelenses.
Sim,
buscamos relações quentes com vocês. Não queremos simplesmente
chegar num ponto onde apenas aceitamos um ao outro. Queremos ter
relações quentes onde ambos reconheçamos os benefícios mútuos
econômicos, políticos, intelectuais e espirituais de viver e
trabalhar juntos. Não queremos fechar vocês do lado de fora das
nossas vidas. Queremos viver com vocês – como seus vizinhos e
seus iguais.
No
coração, sou um otimista. Por quê? Como? Após tanto esforço de
todas as partes e após um fracasso tão espetacular, muitos
questionam por que eu persisto no meu otimismo. A resposta está no
fato de eu saber que existe uma grande porção de boa-vontade nos
dois lados e da parte da comunidade internacional.
Isto
não significa que a solução é fácil. Não será. Se fosse,
obviamente já estaríamos lá. Sacrifícios políticos e outros são
necessários e teremos de ser firmes e explicar às nossas
respectivas populações o que queremos e como consegui-lo.
O
tempo está fugindo de nós. O tempo não está do nosso lado. Sou
parte da última geração de palestinos que enxerga israelenses de
forma normal, que se reúne com israelenses e que pode chamar
israelenses de “amigos”. A separação fria acoplada com a
micro-administração de assuntos deve desaparecer logo, porque caso
isso não acontecer jamais seremos capazes de viver juntos como
iguais que se respeitam.
Em
árabe existe um provérbio que é, ironicamente, oposto ao similar
em língua inglesa – “a ausência faz o coração tornar-se
frio”. Como pai e marido, temo que nossos corações estejam se
esfriando a medida que nos separamos. Eu quero um futuro para meus
filhos e estou certo que vocês também. O futuro que eu busco para
eles é quente e claro. E seu que vocês têm a mesma visão.
Tempo
demais foi desperdiçado. É hora de voltarmos aos trilhos e
trabalhar para terminar este conflito para que o futuro de nossos
filhos possa ser marcado por amizades entre palestinos e israelenses
e não pelo conflito.
© PAZ AGORA/BR
Reprodução permitida com os créditos
à autora e à tradução dos
Amigos Brasileiros
do PAZ AGORA - www.pazagora.org
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textos publicados visam subsidiar o diálogo e NÃO
representam necessariamente as posições do
Movimento PAZ
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Amigos Brasileiros do PAZ AGORA
e Revista Espaço Acadêmico
por
SALAM FAIAD