Sociologia
e Ensino Médio: conquistas e desafios
O
objetivo deste pequeno texto é o de fazer algumas considerações a
respeito do parecer nº 38/2006 do Conselho Nacional de Educação,
aprovado no último dia sete de julho de 2006, dispondo sobre a
inclusão obrigatória da disciplina “Sociologia” como
componente curricular do Ensino Médio em todo o território
nacional. Se por um lado, a aprovação unânime da Câmara de Educação
Básica representou uma grande conquista para os profissionais de
Sociologia, em termos de abertura de mercado de trabalho e de
legitimidade frente a outras disciplinas, por outro, desafios vários
para a prática docente em ciências sociais são colocados: Que
conteúdos podem e devem ser socializados? De que forma? Para qual público?
Com quais objetivos? O acúmulo de conhecimento no campo faz do
cientista social um professor? O estudante de licenciatura é, de
fato, preparado para lecionar? Que significado queremos e podemos
construir acerca de sua presença na formação escolar média e na
atuação do sociólogo?
O
tema da inclusão e da exclusão dessas disciplinas na formação do
estudante de nível médio é um debate centenário, que pode e deve
ser acompanhado através de uma série de trabalhos acadêmicos
(dissertações, textos, artigos e de comunicações em diversos
eventos). Fazendo referência à socióloga britânica Margaret
Archer (1998; 2000; 1995), que tende a analisar o desenvolvimento, a
expansão e as transformações dos sistemas nacionais de educação
como conseqüência das ações de agentes que lutam pelo monopólio
da definição, estrutura e organização do próprio campo
educacional, sendo este estreitamente relacionado a um projeto de nação,
poderíamos apontar que no Brasil, a Sociologia como disciplina da
educação básica esteve, historicamente atrelada à presença (ou
ausência) de determinados atores na cena política nacional, que
disputaram e ainda disputam a legitimidade de visões específicas
deste nível de ensino como mecanismos de promoção de mudanças
sociais e de redefinição de modelos de acumulação vigentes.
Uma
versão possível da história da disciplina, seguindo os “ciclos
morfogênicos” de Archer (1998; 2000; 1995), seria a identificação
de três macro-contextos sócio-históricos que permitiriam
compreender a inclusão ou a exclusão da disciplina no currículo
da educação básica: o período de institucionalização, de 1891
a 1941; o período de alijamento, de 1941 a 1982; e o período de
retorno gradativo, a partir de 1982 (Bragança, 2001). A intenção,
aqui, entretanto, é somente a de resgatar a luta mais recente e
refletir sobre o significado que queremos construir sobre a presença
obrigatória da Sociologia no Ensino Médio e sobre os desafios a
serem enfrentados para consolidar sua legitimidade e identidade
diante dos outros componentes curriculares, e de sua ação na formação
de indivíduos, ou mais precisamente, de “cidadãos e
trabalhadores”. E, não qualquer “cidadão” e
“trabalhador”, mas aqueles devem se adaptar à “terceira
revolução industrial”, na qual o conhecimento tem um lugar
central nos processos de desenvolvimento de uma economia
globalizada, que organiza as relações de trabalho de maneira flexível,
onde a produtividade concentra-se na tecnologia de geração e
processamento de informação e de comunicação de símbolos.
Nos
últimos dez anos o país ganhou uma nova LDB (Lei nº 9.394, de 20
de dezembro de 1996), instituindo que a educação escolar deve
vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social, ou seja,
preparar o educando para o exercício da cidadania, qualificá-lo
para ocupar um lugar na estrutura ocupacional e para progredir em
estudos posteriores (Título I, Art. 1º, § 2º e Título II, Art.
2º). Esta mesma Lei deixa de se referir aos componentes
curriculares como “disciplinas”, proclamado “áreas de
conhecimento” a serem trabalhadas pelos professores junto a seus
alunos. Tal fato é, no mínimo, problemático para a Sociologia,
pois da diluição dos conteúdos das ciências em áreas do saber,
e da possibilidade do desenvolvimento de um trabalho
interdisciplinar, as Ciências Sociais foram tratadas, muitas vezes,
quando foram tratadas (!), como uma espécie de “sobrado de caráter
acidental” pelos professores formados em História, Geografia,
Literatura, entre outros, o que pode não representar uma tentativa
de se oferecer aos educandos um ensino de boa qualidade e uma
contribuição direta do olhar e da “imaginação sociológica”.
A
Lei, porém, em seu Título V, Capítulo II, Seção IV, Art. 36, §
1º, afirma que os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação
devem ser organizados de tal forma que ao final do Ensino Médio o
educando demonstre o domínio do conhecimento de Filosofia e de
Sociologia necessários ao exercício da cidadania. Infelizmente, o
então Presidente da República, o Professor Doutor em Sociologia
Fernando Henrique Cardoso, seus representantes no MEC e no Conselho
Nacional de Educação interpretaram que o Art. 36 não obrigava a
que se lecionasse nenhuma das duas disciplinas. Ainda em 1996, o então
Deputado Padre Roque (PT/PR) apresentou um Projeto de Lei que
pretendia alterar o Art. 36, dando um caráter obrigatório do
ensino da Sociologia e da Filosofia. O Projeto tramitou por quatro
anos e em setembro de 2001 foi, finalmente, aprovado pelo Senado,
tendo sido motivo de comemoração por nós, profissionais de
Sociologia, em todo o país. No entanto, no dia oito de outubro (dia
que marca o assassinato de Che Guevara na Bolívia), o Presidente
Fernando Henrique Cardoso (que não acordou com o pé direito!)
vetou integralmente a lei aprovada na Câmara por unanimidade e no
Senado por 40 votos a 20. As razões colocadas para o veto foram que
a inclusão das disciplinas no currículo implicaria na constituição
de ônus para os Estados e o Distrito Federal, pressupondo a criação
de cargos para a contratação de professores, e que não havia no
país formação suficiente de tais profissionais para atender a
demanda caso o projeto fosse sancionado.
Muitos
intelectuais apoiaram a decisão de FHC. O auto-intitulado filósofo,
Olavo de Carvalho (2002), se mostrou com medo de uma possível
disseminação da propaganda comunista. José Carlos de Azevedo
(2002), no artigo “Sabença Inútil”, apontou os gastos na
contratação de professores que só servem para “confundir os
alunos”. Para ele, a própria produção acadêmica na área de
Sociologia não tem utilidade e pode comprometer ideologicamente o
Ensino Médio, sendo que de maior proveito seria a aplicação do
dinheiro no Ensino Superior. O jornalista e advogado Themístocles
de Castro e Silva (2002), no artigo “Veto Oportuno” colocou que
a aprovação do projeto de lei “seria transformar as salas de
aula em palanques de protestos e de balbúrdia ideológica”. Por
outro lado, surgiram opiniões desfavoráveis ao veto, como o do
Professor de Ciência Política da UFRJ e da UERJ, Valter Duarte,
que, certa vez, argumentou de forma bastante irônica que o
Presidente FHC, ao vetar o Projeto de Lei, estaria alegando razões
técnicas que não permitiriam a execução da legislação pelo
Poder Executivo, talvez, por motivos extra-oficiais, dado que, os
alunos não teriam formação suficiente para o aprendizado da
Sociologia, havendo grande dificuldade de tirá-los do treinamento
precário que estão acostumados a receber.
Depois
do trágico episódio, a luta foi transferida para as esferas
estaduais. E, de 2001 a 2005 diversos pareceres da CEB/CNE
reiteraram a não obrigatoriedade da Sociologia e da Filosofia como
componentes curriculares específicos. A Câmara compreendeu que a
“Base Nacional Comum” não poderia se constituir como uma
camisa-de-força que tolhe a capacidade dos sistemas, dos
estabelecimentos de ensino e dos educandos de usufruírem da
flexibilidade que a lei permite e estimula através da organização
dos currículos em áreas de conhecimento e temas transversais.
Entretanto, conforme o próprio Parecer 38/2006, a maioria das
escolas mantém a concepção curricular mais comum, estruturada em
disciplinas com cargas horárias estabelecidas em calendário, sob a
responsabilidade de docentes devidamente habilitados para cada uma
delas. Uma questão se impõe neste ponto: como professores
comprometidos com o desenvolvimento do programa de suas disciplinas
têm condições de dar tratamento interdisciplinar e
contextualizado aos necessários conhecimentos de Filosofia e
Sociologia para o exercício da cidadania e para atender ao dever de
vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social, além das
obrigatórias “História e Cultura Afro-Brasileiras” e “Educação
Ambiental”, definidas pela Lei Nº 9.795/99?
Somente
em 2005 foi protocolado no Conselho Nacional de Educação o Ofício
Nº 9647/GAB/SEB/MEC, de 15 de Novembro, pelo qual o Secretário de
Educação Básica do Ministério da Educação encaminhou, para
apreciação, documento anexado sobre as “Diretrizes Curriculares
das Disciplinas de Sociologia e Filosofia no Ensino Médio”,
elaborado pela Secretaria, com a participação de representantes de
várias entidades, que continha uma série de considerações favoráveis
à inclusão obrigatória no currículo do Ensino Médio. O
documento foi dividido em três títulos: 1. Filosofia; 2.
Sociologia e 3. Filosofia e Sociologia no Currículo do Ensino Médio.
Nos três foram apresentadas razões que justificavam a inclusão de
cada uma como disciplina obrigatória, contrapondo-se às Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Parecer CNE/CEB Nº
15/98 e Resolução CNE/CEB Nº 3/98). Ao final da argumentação,
de acordo com o Parecer 38/2006, foi proposta a alteração da
Resolução CEB/CNE Nº 3/98, Art. 10, § 2º, com supressão da alínea
b e inclusão do § 3º com a seguinte redação: “As propostas
pedagógicas das escolas deverão assegurar tratamento de componente
disciplinar obrigatório à Filosofia e à Sociologia”.
Cabe
ressaltar, ainda, segundo o Parecer, que em 1º de Fevereiro de
2006, a Câmara de Educação Básica promoveu reunião, na qual
foram convidadas mais de trinta entidades e pessoas para a discussão
do tema da “alteração das Diretrizes Curriculares Nacionais para
o Ensino Médio”, e que participaram desta audiência vinte, entre
sociólogos, professores de Filosofia e Sociologia, representantes
de entidades, estudantes e outros profissionais. A partir deste
encontro, o CNE entendeu que diante da iniciativa de sistemas
estaduais de ensino para suas redes públicas se criou uma situação
desigual no acesso aos conhecimentos de Filosofia e Sociologia aos
estudantes, havendo, portanto, toda uma população jovem posta à
margem destes conteúdos, particularmente, na rede particular. E, se
os sistemas estaduais e as instituições de ensino usam da
autonomia que lhes dá a Lei, organizando seus currículos com
componentes dissociados, deve dar tratamento igual a todos os conteúdos
obrigatórios, com professores habilitados em licenciaturas específicas,
além de outras condições (como acervos em bibliotecas), de forma
que as escolas médias se adaptem a esta nova realidade, com a
presença da Sociologia e da Filosofia. A conquista, entretanto,
como fica claro, se deu mais por argumentações lógicas em torno
da LDB, do que por uma batalha de persuasão do por que e para que
ensinar Filosofia e Sociologia, o que faz sentido em sociedades cada
vez mais dependentes da “judicialização da política e das relações
sociais”.
Marx
escrevera, no século XIX, que os homens fazem sua própria história,
mas que não fazem como a querem; a fazem sob circunstâncias que se
defrontam diretamente. A argumentação de um de nossos clássicos
é, a meu ver, bastante oportuna para pensarmos no caminho a seguir
diante dos fatos narrados. Que história pretendemos e podemos fazer
acontecer? Muitos seriam os desafios. Primeiramente, gostaria de
destacar o desafio dos conteúdos. E pensar sobre os conteúdos,
é, sem dúvida, pensar sobre o sentido que queremos atribuir à
Sociologia, afirmando com este sentido uma identidade. Identidade,
contudo, não implica que haja consenso, mas uma reflexão coerente
e consistente sobre o que a Sociologia tem de específico que não
se pode encontrar em outras disciplinas. Qual a sua especificidade
em relação às demais ciências humanas? E qual Sociologia deve
ser ministrada para formar que cidadão e que trabalhador? Um ser
humano reflexivo, investigador de seu meio e capaz de problematizar
seu próprio “eu”? Um ser humano capaz de dominar competências
como investigar, identificar, descrever, classificar, interpretar e
explicar fatos relacionados à vida social para que possa
“decodificar” esta mesma vida? E como se faz isso? Difundindo
uma Sociologia como um conjunto pronto e acabado de conceitos e
teorias? Como instrumental prático de intervenção na realidade
para controlá-la e modificá-la? Como um discurso sobre o real? Ou
uma Sociologia que procura desenvolver atividades pedagógicas
centradas nas problemáticas do cotidiano dos alunos? Ou as duas
posturas podem ser conjugadas? Que materiais didáticos seriam os
mais apropriados? Que estratégias de socialização dos conteúdos
das Ciências Sociais teriam maiores possibilidades de sucesso em
duas horas-aula semanais? E como tornar a Sociologia atraente a
alunos, professores e técnicos em educação presentes nos
estabelecimentos escolares que, muitas vezes nos tratam com desprezo
e desinteresse, ou como uma “carga” a mais em suas vidas?
Em
segundo lugar eu destacaria o desafio da formação. Há, de
fato, um esvaziamento do contingente de pessoas interessadas em
concluir a Licenciatura em Ciências Sociais e atuar como docentes,
diante da situação em que o professor de Ensino Médio se
encontra, com baixos salários e péssimas condições de trabalho.
Mas há 23.561 escolas de Ensino Médio no Brasil e 9.031.302 alunos
matriculados, segundo os dados do Censo da Educação Básica de
2005, sem contar com a educação profissional (disponível em http://www.inep.gov.br/basica/censo/dados.asp,
acesso em 15/11/2006). E quantos são os licenciados por ano nos 85
cursos de Ciências Sociais do país? São dados que não tenho.
Acredito que são menos do que o necessário, pois é comum
encontrarmos professores de História, Geografia e Pedagogos
ministrando aulas de Sociologia. E eu, particularmente, tive a
oportunidade de ver um Professor de Português/Literatura, de Educação
Física e um Psicólogo atuando tanto na rede particular de elite da
Zona Sul do Rio de Janeiro quanto na rede pública. Será, preciso,
portanto, desenvolver programas de incentivo à formação docente
em Ciências Sociais e de favorecimento de suas condições de
trabalho. É necessário apostar numa política de valorização do
magistério; permitir que os licenciandos tenham vivências de situações
escolares durante todo o curso; que se envolvam com a situação da
disciplina no contexto político nacional; que conheçam a trajetória
histórica da Sociologia como disciplina; que se aproximem do debate
do papel da Sociologia no Ensino Médio; e que acreditem na
possibilidade de reinvenção do outro – do aluno, o que só pode
ser feito sem se perder o encantamento de estar presente na vida de
tantas pessoas: adolescentes, jovens e adultos.
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por
GABRIELA DE SOUZA HONORATO