Os
negros não se deixaram escravizar
Temas
para as aulas de história dos afrodescendentes
1
- Falando do escravismo criminoso em sala de aula
Geralmente
os estudantes afrodescendentes não gostam de falar sobre o
escravismo criminoso
em sala de aula. Ficam envergonhados e acanhados, trata-se um
assunto indigesto. As razões desta aversão são muito simples: o
assunto é sempre tratado de forma inadequada e preenchido de
preconceitos e racismo que inferiorizam a população negra. As
aulas de história têm um discurso que penaliza a população negra
pelo escravismo sofrido; a vítima vira o culpado. A história
enaltece o bandido que foi o escravizador e ele continua sendo
tratado de senhor dos escravos.
O
escravo
nos livros didáticos de história do Brasil é tratado como o ser
sem cultura, incivilizado, ser bruto do trabalho braçal. O
escravizado não é tratado na história do Brasil como um ser
pensante, com características humanas, como sujeito de uma história
social.
A
forma que o tema do escravismo no Brasil é introduzido banaliza o
crime contra a humanidade realizado pelo sistema de produção
escravista. Os tratamentos dados ao tema sempre construíram idéias
que levam os leitores a absolverem os culpados e os beneficiados
pelo escravismo. As informações sobre o continente de origem dos
escravizados quase que inexistem. Os erros persistem em apresentar o
escravizado apenas como coisa, como ser movente, como peça de comércio,
retirando a humanidade do ser escravizado (GOMES, 1996). Dada à
pobreza de informação e aos erros de enfoque dessas apresentações
não é de se estranhar que os estudantes passem a detestar as aulas
de história que falam de escravidão. Não adianta dizer que
devemos tudo ao negro, se este tudo não é exemplificado e
esclarecido em detalhes. Além do mais, devido ao racismo, os alunos
negros são motivos de chacotas e insultos racistas pelos colegas.
As piadinhas e chacotas com os negros não são simples
brincadeiras. Elas são responsáveis pela desqualificação social
da população negra. Com estas piadas se aprende a desfazer da
imagem do negro.
Ainda
está presente nas aulas de história do Brasil uma versão alienada
do escravismo criminoso. As
formas que o escravismo criminoso é introduzido são lamentáveis.
O escravismo aparece como algum fato natural, nada condenável pela
ética e moral da sociedade. As apresentações dadas condenam a
população africana como predestinada ao escravismo por
supostamente ser intelectualmente inferior ou culturalmente menos
evoluída ou ainda, socialmente menos desorganizada (CUNHA JR.,
2005). Estas introduções desastrosas repetem as introduções
igualmente desastrosas que estes estudantes já tiveram na rua
durante a sua infância. Nelas, eles aprenderam diversas formas de
insultos e de como desqualificar socialmente a figura dos negros.
Estes insultos, os quais muitas pessoas consideram simples piadas, são
partes do racismo e perfazem uma pedagogia do ensino social do
racismo (CUNHA JR., 1996). O racismo é um problema social que se
aprende na rua e na escola.
Nós
somos insultados em dizeres como “negros da senzala”, “lugar
de negro é no tronco”, “fedido como negro escravo”, “lugar
negro é na senzala”, “lugar de negro é na cozinha” e outros
ditos racistas repetidos no cotidiano social e reafirmando um
processo de constante linchamento social e desqualificação da
população negra. Piadas diversas e formas agressivas são tratadas
com sutileza perversa em acusar e recusar a população negra.
Existem versões da historia, também bastante equivocadas, nas
quais é afirmado ou fica subtendido que o escravismo teria sido um
beneficio para o negro, pois fomos trazidos para a civilização
portuguesa que teria nos livrado da suposta selvageria das
sociedades africanas. Esta versão mostra dois outros erros. Um erro
sobre o desconhecimento da história africana, sendo que entre os séculos
12 e 16, muitas das nações africanas eram mais desenvolvidas
cultural e comercialmente que os europeus.
Outro erro é encontrar justificativa para um regime de produção
desumano e sanguinário como foi o processo de aprisionamento e
escravização.
A
educação brasileira ainda introduz o escravismo sem condenação
do sistema, fazendo a triste afirmação: “O índio não deu para
a escravidão e aí trouxeram os negros”. Além de se tratar de
uma informação errada, precisamos analisar o que significa tal
afirmação. Ela cristaliza a idéia de que o negro era fadado ao
escravismo. Deveríamos perguntar se existe povo apropriado para um
regime de produção escravista criminoso. Se não bastasse este
imenso erro de percepção, ainda temos outros na abordagem do tema.
Os erros, que pela sua forma de apresentação, funcionam como princípio
de desqualificação social e depreciativa da população negra na
sociedade brasileira. Temos ainda outro problema grave de abordagem
do tema. Diz-se que a escravização do africano foi um processo fácil,
pois o sistema de escravidão já existia na África. Erro sobre
erro, visto que a escravização dos africanos não foi nada fácil;
envolveu muitas guerras e lutas, os aprisionados foram sempre
trazidos à força, acorrentados e fortemente vigiados. Ninguém se
deixou escravizar. A outra é que a escravidão doméstica africana
era muitíssimo diferente do escravismo implantado no Brasil. Sempre
se omite informação de que a mesma forma de escravidão doméstica
existia na mesma época na Europa e na Ásia, não sendo
particularidade da África.
Permanece
o enfoque também equivocado de que o escravismo no Brasil teria
sido brando, refletindo a crueldade das nossas idéias. O que
significa um sistema criminoso ser brando? Aquele que mata
lentamente. Bem, a cena que assistimos está sempre procurando
desculpar o escravizador dos seus crimes. Existe uma construção
que nos faz ter pena dos escravizados e justifica a impunidade do
escravizador. Era ruim, mas não era tanto assim... As matanças
durante os ataques às cidades e vilas nas nações africanas para o
aprisionamento, os sucessivos enforcamentos, mutilações e
constante tortura não são narrados de forma completa pela história
do Brasil ensinada nas escolas. O escravismo criminoso era um regime
de constante terror, coerção física e mental dos escravizados.
Somente o terror e a violência constantes permitiram a dominação
sobre a população escravizada (GOULART, 1972), (GOMES, 1992).
Mesmo sob as pressões do clima de terror constante, os africanos e
afrodescendentes sempre realizaram lutas contra o sistema. Os
quilombos existentes aos milhares na história do Brasil é a prova
mais concreta da lutas contra o sistema. Diariamente existiam fugas
nas cidades e nas plantações. Não tem sentido pensarmos que
escravismo criminoso poderia ter sido brando. Mas a construção de
uma história mentirosa, ou de meias mentiras sobre o escravismo
depende destas coisas exposta de forma incompleta ou distorcida.
Denominamos aqui de história mentirosa ou de meias mentiras aquela
que omite deliberadamente o protagonismo histórico de africanos e
afrodescendentes para construir uma narrativa histórica de aparente
harmonia social entre escravizados e escravizadores. A narrativa da
construção harmônica parte da suposição falha de que o africano
já estava acostumando ao escravismo, portanto não teriam
realizados grandes reações violentas contra o sistema, outra que
este sistema seria ameno devido a formação religiosa dos
portugueses e a aceitação que estes teriam dos africanos devido
terem se mestiçados como eles. Então, escravizados e
escravizadores teriam vivido em certa harmonia social. Esta é a síntese
que se prega para justificar a sociedade brasileira como pacífica e
de completa integração entre africanos e europeus, entre negros e
brancos. A má consciência imposta pelo livro “Casa Grande &
Senzala” permanece. Ali se exalta o colonizador, o escravizador, o
criminoso, por ter estuprado as escravizadas e tem-se aí a afirmação
da boa convivência do sistema, onde a escravizada se mestiçou como
o escravizador (FREIRE, 1994). O fato é trabalhado como positivo.
Veja, o estupro sobre a escravizada não é apresentado como tal,
como crime abominável. Fixam-se no imaginário social as formas
reproduzidas pelas novelas como um romance livre entre seres com a
mesma autonomia social. Não como um ato de coerção e de mau
trato, de imposição machista e racista. Não é apresentado como
crime dado ao fato de ser a base da mestiçagem brasileira. A mestiçagem,
por sua vez, é narrada como o fator conciliador entre negros e
brancos no Brasil. Fica
como se a mestiçagem tivesse resolvido os problemas sociais. Nós
temos que lembrar que os mestiços foram vendidos pelos seus pais,
escravizador, como escravos. Eles não herdaram as propriedades e as
contas bancárias. Ficaram no lugar do negro, no meio da população
escravizada.
Nas
aulas de história, quando se conversa abertamente sobre o
escravismo criminoso, se dá um contexto mais amplo de informação.
Primeiramente sobre as sociedades e nações africanas, depois sobre
a Europa do século 14 e 15 e sempre surge, com grande
inconformismo, a pergunta: Mas por que o africano se deixou
escravizar? Vemos que o sistema continua sendo uma incógnita para
estes alunos. A resposta de que eles não se deixaram e de que foram
forçados ainda não satisfaz; precisa-se de outras informações e
de outras respostas. Não é um assunto fácil devido à quantidade
de informações errada que foram incutidas anteriormente. Além de
informação racista, existe a desinformação persistente. O
cotidiano sempre informa de forma desfavorável a identidade e a
auto-estima das populações afrodescendentes. Assim este assunto
precisa ser mais bem trabalhado e retomado de diversas formas. Aqui
faremos uma delas, procurando retirar algumas dúvidas sobre o tema.
O silêncio sobre o tema é muito ruim, reforça apenas o
desconhecimento e organiza as atitudes racistas. Organizam-se estas
atitudes racistas pelo fato de dar sentido à confirmação das
teorias racistas que aluno aprende na rua.
2-
O inicio da escravização dos africanos pelos portugueses
O
aprisionamento e escravização dos africanos pelos portugueses são
de longa e complicada história que começa muito antes do inicio da
colonização do Brasil.
No
século 15, os portugueses já haviam se organizado como reino e
estavam em crescimento econômico e de poder geopolítico. Haviam
iniciado uma expansão comercial sobre as regiões do norte africano
e da África ocidental. Nesta expansão passaram a realizar
pirataria e pilhagem comercial sobre pequenas cidades da costa
africana, onde se situavam pequenos reinos com grandes riquezas e
pouco poder militar. Sabemos que em agosto de 1444, 235 africanos
foram trazidos para Portugal, tendo sido aprisionados num ataque
pirata na Foz do Rio Senegal, região de importância comercial da
África Ocidental, naquele período. Estes aprisionados foram
convertidos em escravos em Algarves, Portugal. Iniciou-se aí o
ciclo de escravização de africanos em Portugal. Tratava-se de uma
forma de exploração pirata ilegal mesmo para os portugueses.
Este
período da história européia era uma fase de extrema importância
da Igreja Católica e do poder dos papas sobre os reinos europeus.
Assim, em 1452, o Papa Nicolau V, através de uma Bula Papal,
concede a Portugal a soberania sobre as terras que descobrisse nas
suas navegações e autoriza a este reino a escravizar as nações
encontradas (SANTOS, 2006), (CONNIFF/ DAVIS, 1994). A Igreja Católica
é quem legalizou o escravismo dos portugueses sobre os povos que
eles encontrassem nas navegações, fora da Europa cristã. O
decreto vale não apenas para africanos, mas para todos os povos não-cristãos.
Por esta razão, os portugueses implementaram um sistema de viagens
de exploração comercial e ataques às cidades africanas e asiáticas,
seguido de pilhagens, saques e aprisionamento das populações e a
seguinte escravização na Europa. Foi assim que Portugal iniciou a
produção de açúcar com conhecimentos e mão-de-obra africana.
Sistema que depois realizou, em larga escala, na colonização do
Brasil.
Decreto
Papal semelhante ao de Portugal foi concedido à Espanha em 1493,
permitindo a posse das terras encontradas na América e a escravização
das populações indígenas. Com o decorrer do tempo, todas as nações
européias entraram no tráfico de cativos africanos para serem
escravizados na América. O tráfico possuía, de início, outras
rotas que eram apenas da África para a América. Um exemplo disso
foi quando da colonização da África do Sul pelos holandeses, com
início em 1658. Estes importavam prisioneiros da Ásia (Índia e
Tailândia) e da própria África (Angola e Moçambique) (CLARK,
2001).
Precisamos
dizer que todas as igrejas cristãs européias participaram das
agressões contra os povos africanos depois da iniciativa da Igreja
Católica. Também que os motivos da Igreja Católica não eram
apenas religiosos. A igreja lucrava com a exploração do
escravismo. Bispos na Europa participaram do tráfico de cativos. A
Igreja mesmo teve muitos escravos em várias partes do mundo. O
texto bíblico foi deturpado e utilizado por varias igrejas cristãs
para justificar a sua posição com relação ao escravismo dos
africanos. Os falsos argumentos eram retirados de interpretações
de passagens bíblicas para dizer que os negros não tinham alma ou
que eram os povos destinados pela Bíblia a serem escravos. Problema
semelhante aos do passado ocorrem atualmente, com as mesmas conseqüências
graves para a segurança das pessoas, quando pastores fanáticos e
racistas dizem que os elementos da cultura negra são coisas do
diabo e abonáveis para uma sociedade cristã.
Nos textos originais bíblicos não existe nada neste
sentido. O que tem sido pregado atualmente é produto de uma forma
racista de conceituar as religiões africanas e os elementos da
cultura negra.
Importante
notar que, do século 6 ao 14, Portugal foi dominado pelos
Almorovitas, que nós denominamos de Mouros. Estes são povos
africanos islamizados constituíram um poderoso reino no norte da África.
Estes Almorovitas dominaram não apenas uma extensa região no
continente africano, como também uma imensa rede comercial que se
estendia pela Ásia e sul da Europa.
Os Almorovitas são hoje povos do Mali, Tuaregues e Berberes
do Marrocos e da Argélia. A relação de guerras entre africanos e
europeus datam deste período. As guerras eram dadas pelo comércio,
mas tinham também significado religioso. O cristianismo era uma
religião externa à Europa e que foi adotada pelos europeus,
passando a ser o símbolo da unificação dos reinos europeus e da
constituição da civilização ocidental. Então, o aprisionamento
de africanos e a escravização na Europa foram realizados
inicialmente por motivos religiosos. Por este motivo é que o Papa
Paulo II pediu perdão aos africanos pela escravidão.
Devemos
ressaltar que a origem deste ciclo do escravismo europeu que se
iniciou com as bulas papais de 1452 e 1493 e que vitimou milhões de
africanos, nada tinha de particular em termos de raça ou cor contra
os africanos. O desenvolvimento do sistema escravista criminoso, em
épocas subseqüentes, estigmatizou o africano apenas como escravo.
De um problema cultural religioso e com o passar de dois séculos,
resultou um problema racial cuja conseqüência vivemos até o
presente. Neste sentido, é preocupante o racismo religioso
anti-religiões africanas no presente. A Macumba e o Candomblé têm
sido estigmatizados como coisa do demônio. Trata-se de uma forma de
racismo com conseqüências atuais e futuras preocupantes. Na história
da humanidade são vários os exemplos da evolução de atitudes de
simples idéias chegando ao genocídio de povos. Do nada se faz um
ciclo de atentados criminosos contra um povo. Passam a pregar por
palavras, orientam a massa popular contra fatos simples, depois
transformam em normas sociais e, na seqüência, em leis criminosas,
perseguindo e por fim matando para eliminar o suposto mal.
3-
O escravo que aparece na história do Brasil é uma generalidade sem
pensamento
O
escravo e as senzalas aparecem sempre iguais nas histórias do
Brasil, na educação escolar (OLIVEIRA, 2000). O escravo fica como
sinônimo de africanos e de negros. O escravo é representado sempre
de trajes mínimos e dorso nu, geralmente apanhando. Lendo a história
do Brasil saímos com a sensação do escravo ser um coitadinho,
submisso e bem ajustado às ordens do senhor. Mais ainda, o escravo
é pensado como vindo da tribo dos homens nus. Tradução de lugar
nenhum onde nenhuma cultura se processou. Quem aqui não tem história,
passa como um ser que não pensa e não se realiza por si próprio,
apenas reage às ordens e aos maus tratos.
A
realidade da história do Brasil é de que a população escravizada
realizou um número enorme de profissões e atividades sociais
(REIS, 2004). Muitas cidades brasileiras conservam construções e
obras de artes que revelam a diversidade das realizações destes
escravizados. A iconografia brasileira revela uma variedade de
organizações sociais, vestimentas e costumes produzidos pelos
africanos e afrodescendentes durante o escravismo. Pelos hábitos
descritos e pelas imagens podemos mesmo reconhecer, em parte, as nações
ou regiões de origem dos escravizados no Brasil. Estas imagens
diversas sobre a vida dos escravizados podem ser vistas no livro de
Carlos Eugenio Moura, “A travessia da Calunga Grande: Três séculos
de imagens sobre o Negro no Brasil (1637-1899)” (MOURA, 2000).
Além
dos escravizados das grandes propriedades existiram diversas outras
maneiras de ser escravizado. Mesmo músicos, artistas e intelectuais
foram escravizados. Muitos escravizados foram médicos, enfermeiros
e farmacêuticos práticos. Muitos oficialmente reconhecidos pelo
poder público, apesar de escravizados (KARASCH, 2000).
Profissionais e artistas da área de construção de igrejas e
monumentos foram escravizados (GUTIEREZ, 1999). Vendedoras de
comidas, quitandeiras e comerciantes em feira públicas foram
escravizados-de-ganho. Também uma parcela significativa de
africanos e descendentes de africanos conseguiu a liberdade ou já
nasceu livre, dado à liberdade anterior de seus pais e avós. Nos
trezentos anos de escravismo, a diversidade e a complexidade da
composição da população negra eram enormes. Infelizmente a história
do escravismo que apresentamos na sala aula não traduz esta riqueza
de informações. O escravo é representando como uma generalização
imbecilizada e não como seres pensantes produtores de uma história
social.
4-
O escravismo é criminoso
Uma
aula não se resume em si própria; ela dialoga com outras informações
e se compõe com costumes e práticas sociais diversas, presentes e
ausentes na sala de aula. Ausentes como informações que deveriam
ter chegado à sala de aula e não chegam. Na atualidade, a aula
conversa com as imagens vindas das novelas da televisão. Nestas
novelas, a imagem da população negra e o tema do escravismo são
sempre tratados de forma sentimental e distante da realidade histórica.
O escravo sempre fala errado e senhor correto. A própria forma de
falar produz uma sensação de hierarquia cultural e social entre os
atores. Um sabe tudo, é firme e resoluto nas suas ações,
entretanto o outro está sempre assustado e não sabe nada. A aula
também dialoga com os racismos, com o que se pensa como os
africanos foram e como eram, partindo de informações racistas que
persistem até hoje.
Existem
e persistem diversos discursos que executam uma pedagogia de
desqualificação da cultura de base africana, dos africanos e de
seus descendentes. A relação do que se pensa da cultura com as
pessoas é automática. Na semana passada, num dos nossos cursos de
pós-graduação em educação, um dos estudantes, de maneira espontânea
e irrefletida, queria supor uma hipotética situação de atraso
cultural. Sem mais e sem uma razão específica, supôs ser o lugar
na África. Quando do protesto de uma das colegas que interrogava
por que África, o estudante ficou irritado e protestou, dizendo não
ser racista. Ele o é e não sabe. O grave é não ter o compromisso
de corrigir os problemas que carrega em possuir uma cultura racista.
O racista não apenas aquele que odeia negros e judeus. É também o
que pensa e age de forma racista. Os educadores facilmente podem
transformar suas aulas em partes da pedagogia do racismo. Para não
incorrer neste costume, é necessária uma vontade política,
coragem de não fugir aos problemas e uma preparação conceitual. O
ato mais comum é de colaborar para a manutenção da situação
atual fugindo das verdades, sendo omisso no tratamento adequado do
tema.
Para
uma aula de razoável base de informação sobre as origens e conseqüências
do escravismo criminoso, sugiro conhecerem e discutirem quatro
livros básicos. Para começar seria bom conhecerem o trabalho de
Walter Rodney “Como o europeu subdesenvolveu a África” (RODNEY,
1975). Este livro explica primeiramente a organização e o
desenvolvimento do continente africano antes da presença européia.
De início, o livro introduz uma discussão sobre o conceito de
desenvolvimento e subdesenvolvimento. Demonstra os interesses
europeus na África e a sucessiva política de desgaste do
continente depois do século 14, como os ataques e as explorações
mercenárias, os assassinatos em massa, os aprisionamentos e a
exportação para o escravismo criminoso. Conclui como a dominação
européia, depois de quatro séculos de lutas e que a Europa,
enriqueceu e a África ficou pobre. Pela força das armas e da
opressão, os europeus subdesenvolveram e dominaram a África.
A
luta e a organização dos africanos e afrodescendentes contra o
escravismo são bem representadas pela saga dos quilombos. Décio de
Freitas narra com boa profundidade esta atuação histórica em
“Palmares: a guerra dos escravos” (FREITAS, 1978). De maneira
contundente, fica registrada a atuação dos africanos e
descendentes como sujeitos ativos da história do Brasil.
Clóvis
Moura, no seu livro “De bom escravo a mau cidadão” (MOURA,
1987), proporciona uma síntese dos significados da história
brasileira em apresentar o escravo como ser dócil e perfeitamente
adaptado ao trabalho escravizado. Esta representação retira o
conteúdo de conflito da formação histórica brasileira. Reforça
a idéia descabida de que a nossa escravidão foi branda. A mesma
história representa, em seguida, o descendente de escravo como ser
irresponsável e culpado do seu estado de desigualdade social.
Representado como mau cidadão, não seriam as ausências de políticas
públicas especificas e nem os racismos responsáveis pelo insucesso
social da população negra. Deixa a sensação de que o próprio
negro seria o que se auto-discrimina e que seria o responsável pela
sua situação. A história apresenta o imigrante como o novo herói
e modelo do bom cidadão. Falta uma análise realística da situação
da população negra, dos benefícios e favorecimentos sociais
proporcionados aos imigrantes (CUNHA JR., 2006).
Sobre
a abolição do escravismo criminoso, Maria Helena Machado nos traz
um quadro interessante do pânico entre as classes dominantes em
virtude às constantes revoltas de escravizados e das dificuldades
de controle sobre os quilombos e mocambos existentes. O livro tem
com titulo “O Plano e o Pânico” (MACHADO, 1994). Trata-se de
uma explanação das tensões sociais, das propostas de reforma agrária
e de projetos sociais que foram pensados durante a campanha
abolicionista. Planos e projetos sociais que não se concretizaram,
mas demonstram uma amplitude de fatores internos que concorreram
para a abolição do escravismo criminoso. São conteúdos sociais
que vão muito além de pensar apenas nas pressões inglesas e na
necessidade de ampliação do mercado consumidor como razões para a
libertação em 13 de maio de 1888. O protagonismo social do povo
negro foi a principal razão da abolição do escravismo criminoso.
Razão que fica encoberta e menosprezada na maioria das aulas de
história do Brasil.
A
frase final deste texto é que os negros não se deixaram
escravizar, foram forçados, foram coagidos ao escravismo.
Escravismo é crime e os escravizadores que teriam de ter vergonha
do modo de produção que implantaram no Brasil. Não os
descendentes de escravizados que teriam de ter vergonha do passado.
O escravismo e o racismo sofridos por nós negros foram por causas
políticas e econômicas. Única e exclusivamente pela sede de poder
e dominação dos europeus. As outras justificativas como cultura e
inteligência são apenas formas ideológicas de se isentarem dos
crimes cometidos.
por
HENRIQUE
CUNHA JR.