O
sujeito em Locke e a sua crítica à concepção cartesiana
A
confrontação de características dos conceitos de sujeito, tal
como o concebe Locke, e o
de Descartes permite vislumbrar posturas filosóficas que se opõem, de
modo rigoroso, quando da substancialidade do termo e apenas
divergem, entre si, embora mesmo derivando da oposição referida,
quanto à identidade desse sujeito. Ambos os pensadores a entendem
necessária, mas a compreendem diferentemente, orientados por seus
pressupostos. Os parágrafos seguintes têm a pretensão, de modo
limitado e sucinto, de confrontar elementos destas duas concepções
modernas de sujeito.
Para
Locke a substância é
algo incognoscível, chegando a ironizar dizendo que seu conceito
surgiu da necessidade de se sustentar os acidentes , portanto, é um termo,
no mínimo, obscuro. O uso feito por Descartes – distinguindo as substâncias Deus, mente e corpo
– é confuso e contém erros devido à dubialidade do termo usado
neste contexto. Opondo-se ainda mais a Descartes vai dizer o filósofo inglês, que não se deveria ter
maior distinção ou clareza no conhecimento de substâncias
espirituais particulares de que de corpos materiais (MICHAUD, 1986:
135). Tal discordância entre os filósofos reflete-se na questão
do EU.
Para
Descartes o eu é
substancial e é esta (substância) quem garante sua identidade
frente à ação do tempo e do espaço. Através do cogito, Descartes
desenvolve a tese de que o pensamento é simultâneo à existência;
pois, se pensa, pensa, antes de tudo, que existe. E se poderia ainda
dize que se é capaz de pensar é porque existe. Isto dentro duma
simultaneidade. Não seria possível pensar e não existir e existir
e não pensar; o eu é uma descoberta.
A
concepção lockeana destoa de tudo isto de Descartes.
Em Locke o eu perde esta substancialidade e também a
estaticidade cartesianas O empirista inglês não concebe o eu
como um ser ontológico, mas refere-se à consciência de si mesmo;
ligados às idéias de identidade e de diversidade. Estas são idéias
de relação. Ocorre também a unificação do eu com o termo
pessoa. E este, Locke
o atribui somente aos seres inteligentes, legisladores, ou seja,
sociáveis; capazes de serem feliz ou não (YOLTON,
1996: 189). É, portanto, necessário, a esta espécie de seres,
admitirem a existência do próprio eu; pertencente a si. Mas
o que poderia assegurar a identidade deste eu lockeano, ao
longo do tempo se lhe é tirada a substancialidade?
No
que se refere à identidade dos corpos esta se dá em termos de
continuidade de espaço e tempo. Todavia, se faz difícil julgar a
identidade humana a partir da continuidade apenas do corpo. Nem é
suficiente somente a identidade da alma, para Locke.
Estabelece então a distinção entre homem, substância
e pessoa. O homem é entendido apenas em sua questão biológica:
corpo físico. E este se encontra em constantes mudanças; que
identidade atribuímos à pessoa ou qual ela mesma se atribui,
que lhe garanta ter sido, ser e continuar sendo a mesma?
Locke
parece codificar sua idéia de sujeito evidenciando mais o que este
não é. Partamos, portanto, do que o eu não pode ser. Não
pode ser o pensamento, pois, para o autor, o pensamento não é uma
atividade contínua da alma e ainda há uma propriedade no indivíduo
que lhe permite ter consciência do que pensa e de quando pensa.
Presume-se que não pode existir algo que tenha consciência do eu
e que não seja este mesmo eu ou que provenha deste, tal
consciência. Mas seria o sujeito (eu) de Locke
a alma, como em Descartes
que eu, mente, alma são sinônimos? Deixemos esta abordagem
para determo-nos agora na inconstância do eu enquanto
relacionado à pessoa. Locke considera que enquanto dorme, Sócrates, é uma pessoa e
quando acordado, Sócrates, o homem – corpo e alma –, é outra
pessoa. Afirma isso, possivelmente, por sua crença na imortalidade
da alma e que esta se separa do corpo durante o sono,
devido à sua imaterialidade e independência do corpo.
E daqui se poderia entender que o eu lockeano não é a alma,
porém é difícil dizer sobre uma relação entre ambos; se
existir, que tipo de relação seria esta? Ambos são incognoscíveis.
Todavia,
o eu em Locke
possui três propriedades determinadas: identidade, consciência
e moral. É uma coisa pensante (consciente) e que tem consciência
que pensa. Na questão da identidade, Locke vai falar da ação da mente de comparar uma coisa com outra;
em diferentes tempos. Quando se compara uma coisa, existente, em
diferentes tempos e lugar determinado, a compara consigo mesma,
existente em outro tempo e lugar. O que lhe vai garantir esta permanência
é sua consciência; consciência que teve de si e que agora tem e
que confirma sua identidade em face do que é diverso. E tal consciência
é dada pela relação com o mundo sensível: a experiência.
O aspecto moral do eu está no dado de sua relação com a idéia
de vontade, pois, é o sujeito que tem vontades e que age. Quem
ainda pode escolher entre o prazer e a dor. Um eu agente que,
não só percebe sensitivamente, as coisas físicas, mas interage
com elas, construindo, assim, idéias na mente.
A
construção do eu é fruto do processo do conhecimento em Locke; a sensação recebida produz as percepções que enviam as idéias
à mente. O acúmulo de experiências provoca a expansão desse eu.
A aquisição de ações de que se fala em uma de suas definições
é o processo de acumulação de ações que aceito como minhas,
pelas quais assumo a responsabilidade; elas possuem valor moral e
influem na minha felicidade e dignidade moral (YOLTON,
1996: 190). Entende-se isso a partir da noção de ser dono da minha
pessoa. Locke
expressa, nessa noção, uma característica central do seu conceito
de pessoa: algo que temos de adquirir, construir (no tempo e espaço).
Já
dissemos acima, mas para mais esclarecer, o eu lockeano não
é metafísico, pois, somente conhece as suas faculdades e não sua
substância. Porque Locke descarta a identidade substancial, afirmando que esta não
possuía nenhuma relação com a identidade da pessoa. Para o filósofo,
nem o corpo é constituído substancialmente, mas a partir de
referencias a qualidades: solidez, extensão, figura e movimento.
O eu é um “eu” gramatical, algo nominal; é também lógico,
porque pensa, ordena as idéias na mente, faz associações das idéias
com a realidade externa; e ainda é um eu psicológico,
porque é individual; cada pessoa tem o seu eu particular;
diz respeito à sua subjetividade: paixões, emoções, enfim,
sentimentos dessa estrutura.
Temos
aqui mais uma divergência entre o eu cartesiano e o lockeano.
Descartes definindo o
sujeito como metafísico o pretende de natureza universal, apesar de
possuir suas individualidades. A mais o eu cartesiano é um
“eu” puro, epistêmico e metafísico enquanto que para Locke
o eu se relaciona com os sentimentos e os objetos empíricos.
A
imutabilidade do eu de Descartes
é negada (não superada) no eu de Locke
que o entende como algo em construção, portanto, não possuidor de
nenhum principio inato na mente como queria o pai da Modernidade,
mas uma tábua rasa ou uma folha em branco; e através da experiência
é que se vai produzir todo o conteúdo deste EU.
Referências:
MICHAUD,
I. Locke.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.
YOLTON,
J. W. Dicionário de Locke. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.
por
MÁRCIO MOREIRA COSTA