por ALINE DE CALDAS COSTA

Mestranda em Cultura & Turismo da Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus (BA). Bolsista CAPES. Grupo de pesquisa Identidade Cultural e Expressões Regionais (ICER)

 

Reflexões sobre cultura e poder social: uma abordagem transversal para o conceito de local

 

Introdução

Na tentativa de colaborar para a compreensão do que seja o “local”, o presente trabalho busca reunir aspectos conceituais acerca do debate contemporâneo sobre pontos de articulação entre cultura e poder social.

Vale lembrar que a pluralidade de significados existentes em torno destes conceitos faz inviável a tentativa de universalizar qualquer construção que se pretenda fixa para definir o “local”, dada a dinâmica das relações sociais e especificidades de cada território.

Cultura e território

A partir do final do século XX, as grandes migrações e o avanço das novas tecnologias transformaram os campos da cultura, da economia e do social, gerando dois movimentos contrapostos.

O primeiro deles é o movimento de globalização (CANCLINI, 1997), no qual surge uma rede planetária de processos industriais, tecnológicos e culturais, entre outras características, que interpela sujeitos diferentes, em dimensões espaciais diversas, através de informações, bens simbólicos, novas tecnologias etc. Surge o conceito de desterritorialização (Ibid.), em que os limites entre locais, bem como o tempo de acesso a eles se tornam mais relativos, comprimido a segundos, no caso da internet.

Paralelo ao movimento globalizador, surge o movimento de localização da cultura e da economia (HALL, 1999; YÚDICE, 2004). Neste caso, ocorre uma retomada das tradições locais, num processo de busca por traços culturais capazes de marcar a diferença entre os povos e o sentimento de pertença destes aos seus territórios de origem, bem como impulsionar uma produção simbólica que os possibilite acumular capitais cultural, social e econômico frente ao primeiro movimento.

As negociações entre os dois movimentos implicam em novas identidades, híbridas e, sobretudo, intensificam os debates sobre sustentabilidade e inclusão social. Nesse sentido, é enfatizada a tendência à descentralização do poder, cuja raiz está nas novas possibilidades de estabelecer trocas e acumulação de capitais, culminando no questionamento do papel e estrutura do Estado nesse momento de busca crescente por autonomia por parte dos diversos atores sociais.

Conseqüentemente, esse último fenômeno põe em cheque as “certezas” sobre o futuro do desenvolvimento, uma vez que cada território possui, em nível local, idiossincrasias próprias, maneiras específicas de relacionar-se com a globalização, de modo a extrair dela benefícios ou acumular prejuízos.

Sobre isso, Felix Guattari e Suely Rolnik falam em uma postura de contraposição aos bens simbólicos que representam a existência concomitante da “cultura-valor” – cultura como meio de distinção dos sujeitos e acumulação de cultura erudita -; da “cultura alma coletiva”, característica dos grupos, das sociedades, e por fim, da “cultura-mercadoria” ou cultura de massa. Também se deve considerar que, para os autores, esta última definição histórica de cultura se faz elemento da construção da força de trabalho, da “força coletiva de controle social” Os autores acreditam na possibilidade de construção de “processos de singularização”, ou seja,

uma maneira de recusar todos esses modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e telecomando, recusá-los para construir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular (GUATTARI; ROLNIK, 1993: 16).

O que fica enfatizado nas discussões sobre o conceito de cultura no pensamento de Guattari e Rolnik é a postura de democratização da cultura conectada com os processos de singularização, com as minorias culturais ativas. Os autores, assim, ressaltam a necessidade de pensar as questões em âmbitos micropolíticos, locais.

O local como espaço social e político

Tânia Fischer (2002) caracteriza o “local” partindo de duas idéias complementares e antagônicas: “inércia” e “movimento”. O “local” remete, neste primeiro olhar, à configuração geográfica, estática. Já a segunda característica constitui-se numa instância dinâmica em virtude de possíveis relações com o global, as quais o tornam também espaço de interação virtual.

A autora faz uma caracterização dos estudos teóricos em nível local referentes às décadas de 80 e 90, de modo a afirmar que a produção de conhecimento sobre o (ou um determinado) local remete ao estudo de três instâncias: (1) o poder enquanto relação de forças; (2) conceito de espaço delimitado e (3) formação de identidades e práticas políticas específicas. Acredita-se que a terceira instância de análise esteja vinculada às duas primeiras. Isto porque as relações de poder se constituem a partir da formação de grupos que se identificam, agem e produzem comportamentos baseados em determinada visão; que assumem ou trabalham para a implementação de práticas políticas também determinadas; que se efetuam em um espaço delimitado não somente por critérios físicos de delimitação, como também pela extensão das redes sociais.

É nesse aspecto que o conceito de local se expande por meio das novas tecnologias e ganha uma nova abordagem. “É quando o lugar deixa de se restringir ao espaço físico-ambiental da geografia, rompendo com a relação lugar-espaço com o que se apresenta aos olhos” (SOUZA; COSTA, 2006: s/p.). O ciberespaço, espaço de interação entre computadores, gera a cibercultura, em que a estrutura técnica permite mobilidade, anonimato, formação de novas identidades e tribos. A internet constitui-se em mais uma possibilidade de organização social transversal, um espaço virtual para debate, conflito e denúncia em nível global.

Tânia Fischer refere o pensamento de Degenne (1986) para chegar à questão da estruturação do “local” a partir de redes sociais. De acordo com a autora, o local deve ser pensado numa perspectiva ampla, capaz de ultrapassar, sem descartar, os limites da geografia, para chegar às questões do cotidiano junto às políticas públicas e ações de autoridades locais. Desse modo, o “local” também estaria estruturado em conjuntos de relações sociais, a exemplo da família e do trabalho, como bem coloca Degenne, de modo que outros círculos sociais mais complexos, concêntricos aos pertencentes ao indivíduo, possam ser formados com base em interesses compartilhados por coletivos. Aqui reside a “questão agrupadora em foco” das redes, sobre a qual Villasante (1988) acrescenta a possibilidade de reunião de diversos coletivos, compondo um tecido social associativo e estável.

Pensado na perspectiva das redes, o local se caracteriza como construção social, a qual reúne comportamentos e relações coletivas. O local surge a partir do agrupamento de indivíduos em torno de interesses afins, visando a interações, diálogo, negociações com outros grupos, e, no pensamento gramsciano, conflitos.

Nesse sentido, Francisco de Oliveira se reporta à visão gramsciana de “sociedade civil enquanto espaço de conflito pela hegemonia” (2001: 22), para tratar do conceito de “desenvolvimento local”. De um modo geral, o autor coloca que o contexto da “localização” como tentativa para solucionar os problemas dos Países em Desenvolvimento (PED) perpassa por uma disputa ideológica de ordem interpretativa: de um lado, mecanismos de participação, como a descentralização e a formulação de políticas públicas específicas, podendo funcionar como uma alavanca para o desenvolvimento local; de outro, os mesmos recursos funcionando enquanto estratégias para deslocar do Estado competências que os municípios não estão estruturados para gerir.

O autor dá ênfase à participação social enquanto possibilidade para o exercício da cidadania, para a “democratização da democracia”, em alusão a Boaventura Sousa Santos (s.d.), quando escreve que a emancipação social estaria condicionada ao confronto com as formas de poder através da “globalização contra-hegemônica”, da inclusão da polifonia que compõe a sociedade dos países periféricos e semiperiféricos.

Tal polifonia alude à metáfora de “rizoma”, proposta por Guattari e Deleuze. Segundo estes autores, a imagem do rizoma, proposta pela biologia, enquanto formações anexas e extensas das raízes das árvores, que ora se comunicam, ora se afastam por variadas direções, pode ser utilizada também pelas Ciências Humanas para analisar as relações sociais e sua problemática relação com o espaço.

Mais do que multiplicidades arborescentes e outras que não o são, há uma arborificação das multiplicidades. É o que acontece quando os buracos negros distribuídos num rizoma se põem a ressoar juntos, ou então quando os caules formam segmentos que estriam o espaço em todos os sentidos, e o tornam comparável, divisível, homogêneo (isto foi visto especialmente no caso do Rosto). É também o que sucede quando os movimentos de 'massa', os fluxos moleculares, se conjugam sobre pontos de acumulação ou de parada que os segmentam ou os retificam. Porém, inversamente, ainda que sem simetria, os caules de rizoma não param de surgir das árvores, as massas e os fluxos escapam constantemente, inventam conexões que saltam de árvore em árvore, e que desenraizam: todo um alisamento do espaço, que por sua vez reage sobre o espaço estriado. Mesmo e, sobretudo os territórios são agitados por esses profundos movimentos (GUATARRI; DELEUZE, 1997: 221).

Os autores ilustram as alianças e conjunções e mesmo as formações dissidentes que surgem do tecido social, compondo movimentos transversais e polifônicos que intensificam a pluralidade de pensamentos e comportamentos. A ênfase está na questão processual, complexa e paralela de desenvolvimento dos tecidos sociais. As estruturas dos tecidos sofrem, a todo momento, novas germinações, que tanto podem conduzi-las a novas direções, como pode segmentá-las, estratificá-las ou mesmo rompê-las.

É nesse sentido que se observa a questão do contraste entre globalização e localização, chamando a atenção para a possibilidade da primeira constituir-se em alavanca para o desenvolvimento do segundo. Acredita-se que os limites e as potencialidades dos PED estariam na participação, no fortalecimento da cidadania, uma vez que a globalização desmonta a “democracia representativa” (OLIVEIRA, 2001: 16) e abre espaços para movimentos contra-hegemônicos, para os processos de “desregulamentação” e “desformalização”.

Estes processos se constituem em instrumentos de dispersão do poder centralizado, característico do modelo da democracia representativa. A proposta de dissolução do poder centralizado e implementação de novas formas de gestão fundamentadas na racionalidade da cidadania participativa, constituem as grandes possibilidades para o desenvolvimento local dos PED.

As limitações desses mecanismos estão na chance de sua apropriação por parte da ideologia hegemônica, com sua conseqüente anulação ou distorção semântica para manutenção de interesses oblíquos.

É nessa linha de pensamento que Moura (2006) critica o financiamento da cultura, com o argumento de que este tipo de “parceria” entre poder privado e terceiro setor pode apresentar inúmeras limitações à emancipação cidadã, acabando por desestabilizar e mesmo dissolver mecanismos simbólicos sociais, culturais e políticos de grupos minoritários. O autor argumenta que a intervenção de empresas junto a movimentos sociais, tomando como exemplo a intervenção da Petrobrás junto ao bloco Ylê Ayê, em Salvador, tem levado ao fim do fenômeno “Afro”[1], estabilizando os conflitos e possíveis reivindicações.

Também Peter Fry contribui para esse argumento com o exemplo das escolas de samba cariocas. O autor, apesar de generalizar os resultados obtidos com do referido estudo, Fry conclui que as formas de financiamento e incentivos para o crescimento e implantação de infra-estrutura para as escolas apaziguaram as relações entre as classes envolvidas, levando a uma perda de poder por parte do grupo minoritário, o qual acaba por anular as chances de concretizar aí um processo de singularização com base em seus recursos simbólicos particulares.

Daí a importância do conflito, uma vez que este compõe oportunidade para apropriação dos significados por parte das redes sociais, visando ao surgimento, transformação ou defesa de diferentes ideologias e chances para a instauração de uma real democracia, cidadania participativa e desenvolvimento local.

O local como espaço transversal

Os “acordos” com grupos pertencentes à ideologia dominante teriam como conseqüências, que de fato existem no Brasil, a manutenção da ordem, ou seja, do não conflito, do não diálogo, da aceitação da exclusão social e desinteresse pelas questões de ordem econômica, política e social, especialmente por parte das camadas sociais mais pobres, como bem coloca Oliveira (op. cit.). Isso também resulta na redução da noção de sociedade civil para um bloco de “atores privados”, reduz as chances de emancipação social, bem como camufla os interesses obtusos.

Os mecanismos instituídos pela Constituição Federal de 1988 no Brasil formam uma tentativa de fortalecer o debate e estimular a inserção de atores sociais no espaço político. Acredita-se ainda que esse tipo de ação privilegie as camadas menos favorecidas economicamente, à medida que dá voz a qualquer cidadão que queira participar, sugerir, gerir em conjunto, fiscalizar o poder político local, em especial, com a possibilidade de criação de redes digitais polifônicas. Nesse exercício, tais espaços se fortalecem e possibilitam uma gestão local mais democrática. Entretanto, não se pode garantir que estes espaços sejam de fato inclusivos.

Pode-se entender a tentativa de virtualização como uma estratégia de poder e de exclusão. Mesmo na anárquica internet, ainda que não haja mecanismos de controle de conteúdo eficientes, já se aplica o critério de classificação dos sites, interditando aqueles que dizem o que não pode ser dito, conforme as regras da sociedade e da distribuição do poder. A cibercultura, embora uma síntese complexa de alguns elementos presentes na cultura técnica e simbólica, não está livre das condições as quais emerge e, menos ainda, dos seus elementos constitutivos (SOUZA; COSTA, 2006: s/p.).

Não se pode negar que existe hegemonia no espaço sócio-político brasileiro. Não se pode lançar sobre uma sociedade tão desigual um olhar apaziguador a tal ponto. Exemplos de casos de sucesso há, como descreve Francisco de Oliveira, mas ainda não alcançam a maior parte da sociedade brasileira, em que ocorre a manutenção da ideologia capitalista e neoliberal, mesmo após a eleição de um líder de “oposição”.

Considerações finais

O local, mais que território físico, constitui-se em espaço de discussão social em que a problemática da inclusão e da manifestação política encontra campo fértil. A dimensão do fenômeno, nesse momento de crescente apropriação de tecnologias de interação, é tanto de expansão global quanto de conversão de interesses locais.

O que se conclui é que existe de fato a necessidade de multiplicar os espaços de participação, sejam estes de natureza geográfica ou virtual. Mais que isso, tais espaços devem servir aos ideais de luta a favor de uma polifonia que traga à tona os mais variados discursos, para redefini-los num exercício da cidadania, considerada enquanto recurso para o desenvolvimento local.

 

Referências

CANCLINI, N. G. Culturas Híbridas. São Paulo: EDUSP, 1997.

FISCHER, T. Poderes locais, desenvolvimento e gestão: introdução a uma agenda. In: ____ (Org.). Gestão do desenvolvimento e poderes locais: marcos teóricos e avaliação. Salvador: Casa da qualidade, 2002. pp. 12-32.

FRY, P. “Feijoada e soul food 25 anos depois”. In: Neide Esterci, Peter Fry e Mirian Goldenberg (org.). Fazendo Antropologia no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A, 2001

GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Cultura: um conceito reacionário? In: Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 1996 (15-24)

DELEUSE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Trad.: Peter Pál Pelbart
São Paulo, Ed. 34, 1997

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Guacira Lopes. Rio de Janeiro: DP & A, 1999.

MOURA, M. Dos novos textos sobre a negritude no carnaval de Salvador. In: Anais do VII Seminário de Literaturas luso-afro-brasileiras. Ilhéus: Editus, 2006

OLIVEIRA, F. de. Aproximações ao enigma: o que quer dizer desenvolvimento local? São Paulo: Instituto Polis; Programa Gestão Pública e Cidadania/ EAESP/ FGV, 2001.

SANTOS, B. de S. Democratizar a Democracia: os caminhos da democracia participativa. Coleção Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos. Disponibilizado em http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/res/01/01introducao.php Acesso em ago/2006

SOUZA, C. H. M. de; COSTA, M. A. B. Abordagens antropológicas e sociais do (não) lugar. Revista Espaço Acadêmico. Nº 62. Maringá, PR, 2006. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/062/62souzacosta.htm Acesso em Jan/2007

VILLASANTE, T. Redes comunitárias y nuevas cosmologías. Alfoz, Madrid, 1986.

YÚDICE, G. A conveniência da cultura: usos da cultura na era global. Trad.: Marie-Anne Henriette Jeanne Kremer. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

 

por ALINE DE CALDAS COSTA

 

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[1] O autor cita que a empresa enviou, no ano de 2005, um agente especializado para treinar integrantes do referido bloco em elaboração de projetos, visando a uma parceria baseada no financiamento de determinadas atividades. Em sua crítica, Moura acredita que o interesse da empresa seja compor uma imagem socialmente responsável, ainda que os projetos patrocinados apresentem resultados muito aquém do desejável, a exemplo do infocentro, montado com equipamentos obsoletos, entre outros aspectos, que, de acordo com o autor, somente corroboram para fortalecer a imagem da empresa e reduzir o poder de “singularização” da comunidade em questão, à medida que se tornam parceiras daqueles que seriam o “poder hegemônico”. Assim o autor justifica o pensamento sobre o fim do fenômeno Afro, sob o ponto de vista de um movimento de resistência.

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