Sociologia
no Ensino Médio:
mudanças
profundas na educação brasileira
No
último dia 10 de julho de 2006, o Conselho Nacional de Educação,
antigo CFE, órgão de Estado, tomou uma das decisões mais
esperadas por todos que lutam por melhorias na educação
brasileira: aprovou – por unanimidade – a volta do ensino das
disciplinas de Sociologia e Filosofia em todas as 23.561 escolas de
Ensino Médio, públicas e privadas, existentes no Brasil já a
partir de 2007. Deu um prazo de um ano para a sua implementação,
prazo esse necessário para que os estados que ainda não adotam
essa decisão, possam se adequar. Outra data que devemos valorizar
ocorreu no dia 11 de agosto, um dia importante no país – dia do
estudante. Nesse dia, o ministro da Educação Fernando Haddad
homologou a nova Resolução do CNE, em ato com a presença de mais
de cem pessoas no ministério da Educação em Brasília.
Especialmente
os que lutaram anos e anos para ver essa decisão implementada terão
ainda que deixar a “poeira assentar”, para que possamos melhor
avaliar os impactos reais dessa decisão na vida de 9.031.302
estudantes das escolas públicas e privadas do país (dados do Censo
de 2005). De ora em diante, nossas tarefas serão maiores das que
tivemos até a presente data. Nosso objetivo neste trabalho é traçar
um breve retrospecto da luta e apontar perspectivas e iniciar um
processo de avaliação da decisão tomada.
A
luta mais recente
Todos
sabem que nossa luta é mais que centenária. Ela vem de 1891, desde
que Benjamin Constant era ministro do governo que saiu da constituição
desse ano e quando este, positivista histórico, ocupava o cargo de
Ministro da Educação. Nunca é demais lembrar ainda que a nossa ciência,
a Sociologia, havia sido reconhecida como tal – uma
ciência – havia pouco mais de quatro anos, pois a
Universidade de Bordeaux na França, na Faculdade de Educação, uma
decisão de 1887 determinou que os currículos dos cursos de
Pedagogia naquele ano passariam a ter Sociologia. E ainda indicou
como docente titular na época, um jovem educador, então com 28
anos, chamado Emile Durkheim. Benjamin, fez um plano nacional para a
educação, que previa o ensino de Sociologia em todas as escolas de
Ensino Médio à época. Infelizmente, acabou falecendo apenas seis
meses depois de tomar posse como ministro.
Para
este trabalho, devemos restringir nossa avaliação, neste momento,
aos últimos 10 anos. Nesse período, o país ganhou uma nova LDB, nº
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que veio com o viés neoliberal
forte que marcou os anos 1990 no país. Essa Lei deixava de falar em
“disciplina” e menciona apenas áreas de conhecimento, negando
ciências e profissões, desregulamentando tudo à sua frente, sob o
pretexto de “dar autonomia” às escolas. Negava o caráter
nacional da educação, o que é negar a própria nação. Essa
mesma Lei, porém, em seu artigo 36 e incisos mencionava uma
determinação de que os estudantes egressos do EM deveriam
demonstrar “conhecimentos de Sociologia e Filosofia” para
exercerem sua cidadania.
Ocorre
que, nessa época, o Brasil vivia o auge do neoliberalismo com
Fernando Henrique Cardoso. Seus representantes no MEC e no CNE e em
várias secretarias estaduais de ensino, passaram a dar a infeliz
interpretação de que o artigo 36 não obrigava a que se lecionasse
“nenhuma disciplina”, mas sim que estas fossem estruturadas por
“áreas de conhecimentos”. Assim, em 1997, todas as escolas
brasileiras seguiram adotando o sistema de disciplinas, com as
tradicionais português, matemática e tantas outras, mas negava o
direito de Sociologia e Filosofia figurarem nos currículos, ainda
que a nova Lei falasse claramente desse conhecimento.
Foi
assim que, nesse mesmo ano, o então deputado Padre Roque (PT/PR),
apresenta em outubro um projeto de Lei que altera o artigo 36 da LDB,
dando-lhe um caráter obrigatório a ambas as disciplinas. Tal Lei
tramitou por quatro anos e em setembro de 2001, foi, finalmente,
aprovada no Senado da República (mesmo com orientação contrária
da liderança do governo FHC, a votação foi de 40 votos a favor e
20 contrários). A comunidade acadêmica e estudantil, que tanto se
bateu por essa aprovação, comemorou com festas. Mas, a felicidade
duraria pouco. Em 8 de outubro desse mesmo ano, o sociólogo e
presidente Fernando Henrique Cardoso veta integralmente a Lei
aprovada (que na Câmara, o fora por unanimidade).
A
luta, por orientação da então Federação Nacional dos Sociólogos
– Brasil – FNSB, entidade que à época tivemos a honra de
presidir, passava para as esferas estaduais, aguardando um novo
governo que poderia reverter essa situação, seja por via
administrativa, seja para ajudar a derrubar o veto presidencial no
Congresso Nacional. Assim, voltamos aos estados e pelo menos em 17
unidades da Federação, neste ano de 2006 até a data da aprovação
da nova Resolução do CNE, já obrigavam o ensino de Sociologia e
Filosofia em todas as escolas médias.
O
Sinsesp (Sindicato dos Sociólogos do Estado de SP), presidido pelo
Prof. Dr. Paulo Roberto Martins, a mais antiga entidade sindical do
país, que sempre esteve à frente de nossas lutas nacionais, por
sugestão de seu diretor Amaury César Moraes, da USP, apresentou
uma proposta ao MEC, para que, pela via administrativa, com mudança
na resolução de 1998 do CNE, a situação pudesse ser modificada.
Tal proposta caminhou em várias instâncias do ministério e
finalmente, chegou ao CNE em final de 2005, quando pudemos ter a
honra e a felicidade de termos com relator da matéria, um sociólogo,
o Prof. César Calegari, até então presidente da Câmara do Ensino
Básico do CNE. O nosso colega César Calegari, de forma democrática,
ouviu todas as entidades representativas do setor em audiência pública
ocorrida em 1º de fevereiro e conseguiu construir um brilhante
parecer, com base na própria LDB. Dessa forma, nossas escolas de
Ensino Médio, a partir de 2007 e início de 2008 terão que se
adaptar à nova realidade de ensino, com a presença de duas novas
disciplinas no currículo escolar.
Mesmo
dentro do CNE a batalha não foi fácil. Em abril, extinguiram-se os
mandatos de vários conselheiros. A correlação de forças nos era
desfavorável. Em maio, tomariam posse pelo menos seis novos
conselheiros, de um total de 12. A comissão de relatoria, além de
César Calegari, era composta por Adeum Sauer, também sociólogo e
pelo ex-ministro da Educação Murílio Hingel, geógrafo, também
favorável à mudança na Resolução de 1998. A realidade se
alterou pelas novas presenças dos conselheiros, especialmente de
Isabel Noronha, que representava a Apeoesp, Sindicato dos
Professores do Ensino Oficial de SP e pela primeira vez um professor
de rede pública, sindicalistas, tinha assento num conselho de
Estado.
Essa
luta que hoje comemoramos, foi árdua e neste momento de reflexão,
devemos nominar os que diretamente nela se envolveram. Ao longo
desses quase dez anos de luta intensa, alguns se destacaram mais,
mas muitos deram suas contribuições. Alguns pelo menos assinaram
um grande manifesto nacional com 700 assinaturas, entregue aos
conselheiros do CNE, dos quais 350 entidades nacionais e estaduais,
entre elas a CNBB, a UNE, a UBES, a CUT e demais centrais, o MST, a
ABI, a UJS e todas as entidades universitárias e dezenas de outras
representativas de todos os segmentos sociais. Claro que sentimos
algumas ausências, mas isso hoje não importa.
Cabe-nos,
neste momento, agradecer de público a alguns apoios, sem os quais a
luta dificilmente teria sido vitoriosa. Em primeiro lugar, aos três
relatores, César Calegari, Adeum Sauer e Murílio Híngel, que
foram unânimes em seu parecer e convenceram todos os outros
conselheiros. No MEC, tivemos a felicidade de ter a compreensão do
ministro Fernando Haddad, desde os primeiros momentos um grande
entusiasta da aprovação. Ainda nesse órgão, o Secretário do
Ensino Básico, Francisco Chagas e sua Diretoria do EM, Lúcia Lodi,
também grandes apoiadores da aprovação. Por fim, na academia,
entre tantos amigos e apoiadores, não poderíamos nos esquecer dos
nossos três colegas, redatores das Orientações Curriculares
Nacionais – OCNs, os colegas Amaury César Moraes, da USP,
Elisabeth Fonseca Guimarães, da UFU e Nelson Tomazi, da UEL (já
aposentado).
Em
termos de entidades, a vitória não ocorreria sem que a Apeoesp –
o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP – tivesse
assumido a luta. Com a compreensão de sua diretoria e o apoio
material que nos deu nessa luta, a vitória foi possível. O diretor
Paulo Neves, do Educacional e o presidente Carlos Ramiro, foram peças
chave nessa campanha nacional. Também em plano nacional, jogou
papel as duas confederações de professores, a CNTE (da rede pública)
e a CONTEE (da rede privada). A nossa sociedade científica, a SBS,
sempre esteve presente nessa trajetória. Os estudantes, sempre
presentes, com a representação da UBES, na figura de seu
presidente Thiago Franco e Osvaldo Lemos, diretor e a Federação de
Estudantes de CS – FEMECS bem como da própria UNE pelo seu
presidente Gustavo Petta. Por fim, o apoio que tivemos no passado,
da CNPL, deve ser sempre registrado.
Os
desafios, perspectivas e desdobramentos
Certa
vez Lênin disse a um camarada que “é bem mais fácil morrermos
para a revolução do que vivermos para ela”. Eu faria uma comparação,
dizendo que a parte mais difícil de nossa vitória será o que
ainda virá. A aprovação da obrigatoriedade será visto, em
perspectiva, como a parte mais fácil de nossa caminhada, tantos são
os desafios que teremos de ora em diante. Sabemos dos muitos
desafios e problemas que teremos pela frente. Não conseguimos ainda
aquilatar os impactos gerais dessa decisão de retorno da Sociologia
e Filosofia em todas as escolas, onde quase dez milhões de jovens
terão acesso a um conhecimento antes negado a grande maioria.
Gostaríamos de listar pelo menos quatro desses grandes desafios,
apontando ao final algumas perspectivas e propostas que temos
apresentado:
1.
O desafio da formação – Precisaremos formar professores de
Sociologia e Filosofia. Especialmente em nossa área, muitos que
eram licenciados em CS, portanto professores de Sociologia acabaram
por fazer complementações de estudos, virando professores de história
ou geografia, prestando concursos públicos dessas disciplinas.
Estes devem retornar para a sua área de origem, se assim desejarem,
precisando fazer cursos de reciclagens. Existe aqui a necessidade de
que novos cursos sejam abertos e devemos fortalecer e prestigiar os
que resistiram apesar de toda a crise (somos 85 cursos de CS no país
e de filosofia são 170). Acreditamos que será necessária a
contratação de pelo menos 10 mil professores novos de ambas as
disciplinas, num prazo de três anos, o que fará com que tomemos
providências, juntos com as Universidades, para a abertura de novas
e boas escolas de CS e de Filosofia. Precisamos assegurar que devem
lecionar Sociologia apenas e tão somente os licenciados em Ciências
Sociais (da mesma forma, os licenciados em Filosofia devem lecionar
essa matéria).
2.
O desafio dos conteúdos – Se fizermos um estudo dos currículos
que são ensinados nos 17 estados onde ambas as disciplinas são
obrigatórias, veremos que provavelmente cada um deles adota um
conteúdo curricular distinto. Da mesma forma que entendemos que uma
nação deve ter uma educação nacional, um conjunto de disciplinas
que devem fazer parte do mínimo que nossa juventude deva estudar,
sem prejuízo de outras adotadas em cada escola, da mesma forma
devemos sugerir um conteúdo curricular mínimo em plano nacional
para cada disciplina estudada. E isso deve valer também para a
Sociologia. Nesse sentido, as OCNs nos auxiliam e devem ser tomadas
como ponto de partida, mas é preciso ainda avançar mais, com um
maior detalhamento, sugestões bibliográficas.
3.
O desafio do livro didático – Em nossa área de Sociologia,
ainda são poucos os livros didáticos. Isso porque os maiores
estados, como SP e MG, não são todas as escolas que adotam a nossa
disciplina e o número global de escolas no país atinge por volta
de metade das escolas existentes. Assim, teremos que estimular
autores novos e os mais antigos, não só a produzirem material didático
apropriado, como a reverem os que já foram publicados. Para isso
será preciso apoio governamental e das editoras. Esperamos que já
para 2007 o mercado editorial já esteja preparado ou que pelo menos
em 2008, possamos ter um leque maior de opções de livros didáticos
e para-didáticos aos professores.
4.
O desafio da carga horária – Por fim, teremos o desafio de
quantas aulas semanais de cada disciplina teremos nas redes públicas
e privadas do EM no país. Com a entrada das nossas duas
disciplinas, os alunos do EM terão pelo menos 12 matérias a serem
estudadas ao longo de três anos. Se esses jovens tiverem seis aulas
por dia, terão tido, ao longo de uma semana, 30 aulas semanais em
cada ano e 90 aulas ao longo de três anos. Sabemos que poderá
existir uma disputa corporativa por espaços, mas entendemos que não
é possível trabalhar conteúdos em cada ano com menos que duas
aulas semanas. Assim, ao longo de três anos, defendemos 12 aulas de
Sociologia e Filosofia – duas de cada em cada ano. Isso terá
significado apenas e tão somente 13% de todo a carga horária. Se
acrescermos essa mesma carga horária para História e Geografia,
somando quatro disciplinas da área de humanidades (um terço das
disciplinas gerais), teremos 26%, ou um quarto da carga total dos
alunos nessa área. Perfeitamente defensável.
Em
função desses desafios, estamos propondo a realização do 1º
Encontro Nacional sobre o Ensino de Sociologia e Filosofia. Vimos
discutindo isso há tempos com a nossa maior parceira na luta de
quase dez anos, que é a Apeoesp. A sugestão que esse Encontro
Nacional, seja realizado com o patrocínio do MEC e organizado pela
CNTE, CONTEE e UBES com apoio da UNE, e deve ocorrer em SP, com data
indicativa entre os dias 16 e 18 de março de 2007. Os debates
iniciais sugerem um encontro de caráter não sindical e indicativo
em suas decisões, para nortear o debate nos estados. Será um mesmo
encontro, para abrigar duas áreas distintas, com especialistas em
mesas separadas. O desafio é discutir “o que e como ensinar”,
na medida em que a batalha do “porque ensinar” vencemos com a
nossa luta nesses últimos dez anos.
Esperamos
ver envolvidos todos os nossos 85 cursos de CS, os 170 de filosofia,
os 27 sindicatos estaduais de professores e os mais de 60 da rede
privada, os nossos 10 sindicatos de sociólogos, além da SBS, Anpof
e Anfope, além de nossas entidades nacionais já mencionadas.
Esperamos poder contar com a presença de 600 professores para
debater os novos rumos para o nosso movimento. Sabemos que estamos
muito atrasados se compararmos com as outras dez disciplinas
tradicionais dos currículos das escolas médias, mas estamos
dispostos e a recuperar esse terreno, com ampla unidade e consenso
entre nossos especialistas.
Ainda
que em caráter provisório, o tema sugerido para o encontro esta
sendo “Sociologia e Filosofia e as novas diretrizes para garantir
uma escola de qualidade”. Todas as pessoas e as entidades mais
diretamente envolvidas nessa luta tem um encontro marcado, para
discutir os preparativos finais do evento nacional, no próximo dia
18 de outubro, quarta-feira, a partir das 14h, na sede da Apeoesp,
em SP (Praça da República, 282).
PS:
Esta é uma segunda versão de texto escrito logo depois da promulgação
feita pelo ministro Fernando Haddad da decisão do CNE, em 11 de
agosto de 2006. Ela foi ampliada especialmente para a conferência
que proferi em Curitiba em 2 de outubro de 2006, num Simpósio de
Sociologia organizado pela Secretaria da Educação do Estado do
Paraná, para 250 professores concursados de Sociologia.
por
LEJEUNE
MATO GROSSO XAVIER DE CARVALHO