Ruminações
arqueológicas
Na
semana passada, nos jornais de Madri, dois assuntos
aparentemente desconectados me chamaram a atenção. O primeiro
foi a descoberta de um fóssil de mais de 40.000 anos, e o outro
foi o fim de semana de violências na comunidade chamada Alcorcón,
um bairro que contém um grande número de imigrantes da América
Latina.
Quais
seriam os pontos em comum entre estas duas notícias?
Indo
por partes: o fóssil encontrado está provocando polêmica
entre os arqueologistas e pesquisadores, porque ele parece
conter características de dois grupos diferentes, os chamados
Neanderthals e os que são chamados humanóides. Antes desta descoberta, estava estabelecido que um grupo tinha eliminado e
substituído o outro. Agora, pelo que esse fóssil indica, houve
mescla dos dois grupos, como comprovam os ossos da cabeça
encontrada, que mostram os dentes dos dois tipos de grupos. Como
eu não sou arqueóloga, e de dentes só entendo que custam caro
pra consertar, e que devem ser mantidos limpos o tempo todo,
tendo a acreditar nesta notícia fria (40.000 anos é,
convenhamos, tempo suficiente pra esfriar uma história) do
cruzamento dos dois grupos.
Já
em Alcorcón, as notícias são todas quentes, e apaixonadas.
Cada um tem uma opinião, e quase todas são mutuamente
excludentes. Dependendo de quem esteja dando a entrevista à
televisão ou ao jornal, a história é que os espaços públicos
da comunidade estão se tornando em campos de batalha nos quais
os jovens da América Latina, especialmente da República
Dominicana, lutam entre si e com os jovens espanhóis pelo
direito de habitar estes espaços. Os grupos latinos formaram
gangues, e os jornaizinhos tablóides distribuídos
gratuitamente na capital espanhola trazem desenhos dos símbolos
e saudações dos grupos, assim como sua data e lugar de formação
(alguns existem desde os anos 40), cores, traje, área de influência,
e número de detidos.
Este
fenômeno, que talvez seja muito comum em grandes cidades
brasileiras, parece ter pego os espanhóis de surpresa. Um grupo
de espanhóis de mais idade, quando entrevistados pela televisão,
disseram que na semana anterior ao tentarem sentar-se no banco
da praça, foram impedidos por um grupo de jovens
latino-americanos, que queriam cobrar-lhes dois euros para
usarem o lugar público. Uma mulher entrevistada disse que seu
filho foi atacado por um bando de dominicanos. O jornal ADN
trouxe no dia 22 de janeiro a manchete, “Estallido social en
Alcorcón”.
Já
o mesmo jornal em 23 de janeiro traz uma notícia com o título,
“Tenemos miedo”, e um subtítulo que diz que os latinos,
intimidados, já não saem à rua. Desta vez, os entrevistados são
jovens latino-americanos da faixa etária que compreende as
“gangues.” “J.,
de 17 años, no fue ayer al instituto. Tiene miedo. Es
ecuatoriano y cuenta que estos días por la calle de Alcorcón
se oye demasiado a menudo: ‘Latino que vea, latino que
pego”. O jovem
assegura que não é parte de nenhuma gangue, mas que tem medo
que o confundam e lhe dêem uma surra, “ou alguma coisa
pior”. Amigos seus, dois colombianos e um peruano, também
decidiram não ir à escola e ficar em casa, para evitar ataques
por parte dos espanhóis.
2.
Nos
arredores da pequena cidade de Alcalá de Henares, situada
a uns 40 km ao leste de Madri, existe um parque dentro do
qual existe uma subdivisão chamada “Ecce Homo”, que fica no
meio de colinas. É uma região que tem uma proteção natural e
também fica perto do rio Henares. Aqui, no Ecce Homo, no século
VIII, existia uma povoação muçulmana protegida por uma
pequena fortaleza, que no século X foi elevada à categoria de
castelo e recebeu o nome
de Qal’at’abd al Salam, ou seja,
Castelo de Salam. As ruínas da torre principal do castelo ainda
existem e, de acordo com a informação dada na página de
internet da cidade de Alcalá de Henares, o interior da torre
ainda tem vestígios de outras construções muçulmanas (ver www.callemayor.com.es)
Como
sabemos, a luta contra os mouros na península ibérica foi
iniciada assim que o domínio mouro foi imposto, e nesta região
à volta de Madri, já em 1118 tropas cristãs sob o comando do
arcebispo de Toledo, Bermardo de Sedirac, tomaram Alcalá dos muçulmanos.
O então rei, Alfonso VII, doou a região ao arcebispado de
Toledo. E assim foi: nos próximos 700 anos, esta região ficou
sob o domínio do arcebispado de Toledo. Muitos dos prelados se
mudaram para cá, e promoveram o desenvolvimento de Alcalá como
uma cidade das letras e da ciência. Aqui, em 1499, o cardeal
Cisneros, confessor da rainha Isabel (aquela mesma que custeou a
viagem de Colombo à América), fundou a Universidad de Alcalá,
e isto transformou a cidade em importante foco intelectual da época.
Além da permissão e financiamento para a viagem de Colombo,
desta pequena cidade também vem um evento de grande importância
religiosa, lingüística e cultural: a tradução poliglota da Bíblia
(a chamada Bíblia Complutense).
3.
Morar
em uma cidadezinha da Espanha perto de um rio importante sempre
é uma aventura. Às vezes a aventura é muito mundana, como
conseguir passar pelas calçadas de meio metro de largura quando
um grupinho de pessoas está caminhando nesta mesma calçada,
batendo o maior papo do mundo, sem pressa. Ou a gente vai para a
rua e arrisca ser atropelada pelos carros que vêm passando
pelas ruazinhas de 4 metros de largura, ainda competindo pelo
espaço com os carros estacionados, ou a gente pede licença
(grita), ou se resigna a chegar tarde ao trabalho, diminui o
passo, e aproveita pra escutar a conversa dos outros. A melhor
opção depende da manhã e do humor. Mas estas são aventuras
mundanas. Mesmo assim, em pleno século XXI, elas nos lembram
que estamos convivendo com um tempo diferente. As ruas são mais
estreitas, feitas de pedra. As construções, quase todas, têm
uns 400 anos. As pessoas nativas de Alcalá em geral vêm de famílias
que se conhecem há muitas gerações.
E
é aqui que entra a parte não mundana da experiência. Uma
parte dela é puramente imaginativa: como sabemos que esta parte
do mundo teve habitantes dos quais lemos em nossos livros de colégio
e faculdade, não é muito difícil imaginar um grupinho de
humanóides, vestidos de peles, caçando pelas colinas ao redor
de Alcalá. Mas outra parte da experiência precisa ser
completada com uma visita a um museu arqueológico. Será aí
que nos defrontaremos com artefatos, objetos, ossos, de uma ou
mais civilizações muito antigas que viveram nesta região.
Assim,
no museu arqueológico de Alcalá, se fica sabendo, por exemplo,
que há uma lenda que soldados fenícios, vindos da guerra de Tróia,
vieram até estas colinas e aqui fundaram a mítica Iplacea. No
vale, se criou um bairro chamado Al-hala. O museu também nos
informa que, embora esta Iplacea possa ser mítica, o que se
sabe ao certo é que pesquisadores encontraram restos de povoações
dos períodos Neolítico, Idade do Bronze, e da Idade do Ferro.
Nesta última, já a população era formada pelos celtíberos,
um povo que foi conquistados pelos romanos. Destes celtíberos
existe prova, em escrito: foi encontrado um grupo de moedas nas
quais se encontra o primeiro nome da cidade: Ikesancom Kombouto.
Estudiosos também acham que o nome romano “complutum” dado
a esta região talvez tenha sido resultado do termo latino “compluvium,”
“lugar onde convergem as águas”. De fato, aqui convergem três
rios, o Henares, o Camarmilla e o Torote. Esta região é
chamada, muito apropriadamente, “Complutense”.
Os
romanos, em sua época de dominação, impuseram sua língua,
seus costumes, suas medidas, sua cultura. Como todos nós que
falamos uma língua romance sabemos, nada destas imposições
permaneceram como vieram. O latim se reconfigurou em uma dezena
de outras línguas, cada uma trazendo parte de todas as que a
compõe, tanto a do invasor como a do povo autóctone. Assim, o
espanhol, por exemplo, é parecido, mas não é igual, ao
português, ao francês, ao italiano, ao galego, ao catalão. E
assim por diante.
Me
faz lembrar aquela linda música do Lulu Santos, “Nada do que
foi será/ do jeito que já foi um dia/ tudo passa/ tudo sempre
passará.”
4.
Na
cidade de Toledo, que fica a uns 100km a sudoeste de Madri,
existe uma sinagoga no bairro chamado “Judería”. Estes
bairros existem em praticamente todas as cidades espanholas. A
sinagoga de Toledo me chamou a atenção de maneira especial
porque a cidade sempre teve características aristocráticas, e
porque foi uma importante cidade durante a época da reconquista
do país dos mouros.
Perto
da catedral da cidade, a sinagoga é um prédio ínfimo. Aliás,
o prédio foi muito reconstruído, e muito pouco do que era
antes da expulsão dos judeus em 1492 permanece. O prédio –
assim como muitas propriedades dos judeus expulsos ou mortos
pela Inquisição – foi dado a ordens religiosas cristãs, que
o utilizou para vários fins didáticos e sanitários. Hoje, se
podem ver partes do piso original, e existe uma escavação no
local mostrando a parte inferior do prédio quando ele era usado
como sinagoga.
O
que me parece fascinante neste edifício, cuja visita recomendo
a todos que vierem à Espanha, não é nem o fato que ele hoje
abriga as cicatrizes da história dos judeus de Toledo, objetos
históricos da vida dos judeus, livros, fotos, obras de arte.
Estas coisas são importantes, mas o mais importante é que
existe um consenso no país de que tem que saldar esta dívida e
expor seus passos, mesmo os mais errados.
Hoje,
há muitos judeus vivendo de volta em Toledo. Ainda não tive a
oportunidade de conversar com as pessoas judias que conheço e
perguntar o que elas sentem sobre esta história. Mas imagino
que devam sentir, pelo menos, que a Espanha está tentando
lembrar-se de onde vem, de todos os eventos, não só os
gloriosos, não só as conquistas.
Atualmente,
quando os nacionalistas Bascos estão tentando criar um país
separado para eles – parte em território espanhol, parte em
território francês – este é um assunto que tem suma importância.
A resistência basca, em dezembro do ano passado, depois de
haver dito que iria seguir um caminho diplomático, fez uso da
violência mais uma vez, explodindo uma bomba no estacionamento
do aeroporto, matando duas pessoas inocentes em seus carros. As
duas pessoas, coincidentemente, eram dois homens
latino-americanos, que tinham ido ao aeroporto receber parentes
que chegavam.
5.
Eles
são chamados “cayucos.” São africanos que chegam às
praias de Andalusia, às vezes mais mortos que vivos. Vêm pelo
mar, em canoas e botes sem a menor segurança. As estatísticas
são de que, de três africanos que se aventuram, um não chega
às praias de Andalusia.
E
onde estão eles, os que sobrevivem e conseguem entrar? Em todos
os lugares, todas as cidades. Que fazem? O que podem. Alguns
vendem coisas nas ruas. Outros conseguem empregos mal pagos.
Outros, pela necessidade, acabam se dedicando a atividades menos
honestas.
A
África continua com as portas abertas, e um grande contingente
de seus filhos, a maioria homens, mas também mulheres, agora vêm
por própria conta, mas sempre acossados pelas péssimas condições
de vida em seus países. Sem contarmos com os que morrem na
travessia, o continente perde muitos dos seus mais fortes, mais
saudáveis. A vida, para eles, é difícil na Europa. São
relativamente poucos os que realmente conseguem se estabelecer e
criar raízes estáveis, formar famílias. Mas ainda assim
continuam vindo, tentando, buscando.
Quem
pode julgá-los?
6.
A
mulher, de uns 60 anos, me pára na Calle Mayor, a rua principal
de Alcalá de Henares. Nas mãos, traz vários raminhos de
alecrim. Ela me coloca dois nas mãos, e diz, “Para sua sorte,
senhora.”
Pega
de surpresa, não tenho tempo de reagir antes que ela estenda a
mão e me peça uma moeda. Sem ter dinheiro à mão, acabo
devolvendo os dois raminhos e me desculpando muito com a mulher.
Saio quase correndo, fugindo mesmo. E me sinto muito, muito mal,
por não ter podido ajudá-la.
Esta
mulher, assim como duas outras que “trabalham” a Calle Mayor,
é cigana. Ou rumena, nao sei. Ou é uma cigana rumena. Durante
a orientação para professores e alunos na Universidade de
Alcalá, nós fomos advertidos que os ciganos e rumenos são
responsáveis por um
grande número dos furtos cometidos nesta área, especialmente
nas estações de metrô e nos locais turísticos, e que um dos
truques pra distrair a atenção da vítima é o raminho de
alecrim. Custo a acreditar que esta mulher seja parte deste
grupo.
Dias
mais tarde a revi, tentando entregar raminhos de alecrim a
outras pessoas. Ainda não creio que seus propósitos sejam algo
mais que conseguir algum dinheiro. Também já vi que ela está
relacionada com o sanfoneiro que toca canções românticas e
tristes debaixo das colunas centenárias da Calle Mayor. Os dois
conversavam animadamente um dia desses, em uma língua que não
reconheci.
Os
ciganos estão na Espanha há muitos séculos. Sua música, sua
dança, são parte importante da cultura espanhola. Muitos estão
completamente integrados à vida espanhola, exercem funções
comuns a todos os cidadãos. Como, então, estão aqui estes
outros ciganos?
É
bem possível que estes sejam recém chegados, especialmente da
Romênia, onde foram cruelmente perseguidos e mortos durante a
ditadura de Cescheuscu. Agora, seguindo a rota de muitos de seus
antepassados, aqui estão eles na Espanha, assim como em outros
países europeus.
7.
Às
vezes é uma grande tolice olhar o passado muito longe. Às
vezes é um consolo.
Neste
momento, na Espanha, algumas coisas indicam que toda esta história
arqueológica, e aquela documentada em livros, serviram para
alguma coisa. A história mais recente da Espanha, com os
horrores da guerra civil, com a ditadura de Franco, aliada a
toda a história das lutas, conquistas, reconquistas,
descobrimentos, guerras, derrotas, império e colônias, talvez
tenha ajudado a tornar o povo espanhol em um povo muito maduro,
e muito mais tolerante.
Ou,
pelo menos, um povo que sabe que, o que se faz, de alguma
maneira se paga. Se não hoje, então no futuro.
Quando
o frei Bartolomé de las Casas, em seus textos do século XVI
sobre a escravização dos índios sob o domínio dos
conquistadores espanhóis, amaldiçoou seu próprio país e
disse que a Espanha pagaria por seus pecados, ele não sabia que
em 1898 ela perderia suas colônias numa guerra desastrosa. Mas
alguns crêem que esta derrota, se não estava prevista nas
palavras de Las Casas, foi a punição pela atuação cruel dos
conquistadores espanhóis na América. Muitos historiadores
dizem que, daquela derrota (na guerra contra os Estados Unidos)
sugiram as condições que deram origem à guerra civil e à
ditadura de Franco. Para os que acreditam nesta idéia, então o
período desde a guerra civil até a subida ao poder do rei Juan
Carlos foi uma espécie de purgatório. O sofrimento do povo
espanhol durante aquele largo período deu lugar a um tempo de
abertura e democracia.
Mas
aqui estão as gangues de jovens latino-americanos. Que fazer
com elas? De um lado, os espanhóis estabelecidos, e seus jovens
(especialmente os rapazes) lutando contra os que são – ou são
considerados – “invasores”. Do outro, os
latino-americanos, todos vindos de países que são o resultado
histórico da conquista da América. A trincheira desta luta é
o espaço público, são as canchas de esporte, as praças, as
ruas. Como resolver esta situação?
Este
não é um problema de solução fácil, assim como certamente não
foi fácil para os muitos grupos humanos que viveram nesta península
nos últimos 40 mil anos. A vantagem – sem que queiramos ser
positivistas cegos – é que neste momento o povo espanhol está
tentando participar das discussões para resolver estes
problemas. Muitas discussões serão necessárias. Muita vontade
política será necessária. A beleza de tudo isto é que os
espanhóis sabem que têm que participar da solução, porque
nenhum governo, sozinho, pode legislar estas coisas.
Voltando
àquele fóssil encontrado recentemente, e nas lições que nos
sugere, é bem possível que diferentes grupos e idéias possam
conviver e, talvez, até criar algo novo.
por
EVA PAULINO BUENO