RESENHA
DARONCO,
Leandro Jorge. À
sombra da Cruz: trabalho e resistência servil no noroeste do Rio
Grande do Sul. Passo Fundo: Ed.
Universidade de Passo Fundo, 2006 (291 p.)
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Escravidão,
resistência e consciência no norte do RS
A
historiografia sulina privilegiou tradicionalmente o estudo do
Litoral, da Campanha, da Fronteira, da Depressão Central,
secundarizando o norte do RS, voltado no Oitocentos à criação de
mulas, à agricultura de subsistência, ao extrativismo de
erva-mate. O próprio nordeste colonial-camponês rio-grandense foi
objeto de análises sistemáticas apenas a partir de 1975. A
marginalização do setentrião sulino quanto à história da
escravidão foi ainda mais profunda. Essa realidade deveu-se ao mais
tardio e desenvolvimento da metade norte do RS e ao fato de que os
principais centros historiográficos sulinos ocuparam-se
principalmente do centro e do sul do Estado.
Nos
últimos anos, diversas investigações contribuem, em forma direta
e indireta, para preencher um hiato historiográfico que dificulta
uma avaliação geral da história sulina e de sua inserção no
Brasil e no Cone Sul da América. Esse avanço muito deve ao
fortalecimento dos centros universitários da metade norte do RS, em
geral, e à contribuição do Programa de Pós-Graduação em História
da UPF, em especial, que tem como principal campo de atuação a
História Regional.
Leandro
Jorge Daronco defendeu, em 25
de maio de 2006,
no PPGH da UPF, a dissertação de mestrado “À sombra da cruz:
trabalho e resistência servil no noroeste do Rio Grande do Sul.
Segundo os processos criminais. 1840-1888”, que orientamos e,
agora, temos o prazer de comentar seu lançamento sob forma de
livro, com o mesmo título e sem modificações de forma e conteúdo.
Além do orientador, participaram do exame da dissertação as
doutoras Beatriz Loner, da (UFPel), e Janaína Rigo Santin (UPF).
Escravidão,
economia, sociedade
O
trabalho de Jorge Daronco – À sombra da Cruz: trabalho
e resistência servil no noroeste do Rio Grande do Sul – inicia-se
com análise sintética da história rio-grandense e de sua metade
norte, em especial; da historiografia da escravidão no Brasil e
no RS; da importância da escravidão na região no antigo
município de Cruz Alta e do amplo silêncio da historiografia sobre
ela. Mesmo não sendo o seu objetivo principal, o autor
delineia importantes cenários da produção escravizada na região
– naturalidade, profissões, idade,
etc. dos trabalhadores escravizados.
Entre
outros importantes fenômenos, Leandro Daronco assinala
que os 123 inventários de escravistas estudados registraram
a posse de 669 cativos, ou seja, uma média de 5,4 trabalhadores
escravizados por propriedade. Uma realidade que reforça a importância
da mão de obra escravizada na fazenda pastoril e que não difere,
em muito, dos números encontrados para outras regiões do RS, da
mesma época.
Leandro
Daronco registra a forte importância dos cativos crioulos –
nascidos na região –, outro indício de reprodução vegetativa
do trabalhador escravizado na fazenda pastoril, e os importantes vínculos
dessas paragens com Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Comumente,
são daquelas províncias os principais personagens do trama social
abordado – cativos, escravistas, camaradas, tropeiros, etc.
Constitui importante registro o uso mão de obra servil no trabalho
da erva-mate.
Na
sua investigação sobre o escravismo no antigo município de Cruz
Alta, Leandro Daronco delimita importantes espaços historiográficos
a serem investigados por próximos trabalhos, com destaque para a
escravidão urbana, a demografia escrava, o movimento abolicionista
nas duas últimas décadas da escravidão. O trabalho sugere que,
nos últimos tempos do cativeiro, na luta pela liberdade civil, os
cativos começaram a receber o apoio de homens livres, em geral de distinção,
sobretudo para a exploração das brechas legais permitidas pela
legislação.
Violência
e resistência
O
grande escopo de estudo À sombra da Cruz: trabalho e
resistência servil no noroeste do Rio Grande do Sul, de
Leandro Daronco, é a análise da resistência do cativo e da violência
da sociedade escravista no antigo município de Cruz Alta, investigação
empreendida sobretudo a partir de detida análise de duzentos inventários
post-mortem e 42 processos-crimes, dos anos 1840 a 1888,
referentes àqueles territórios .
A
definição da documentação determina certamente a investigação.
Apoiando-se nos casos de violência que, pela gravidade, ensejaram
registro judiciário, Leandro Daronco traça cenário que não
reflete o mundo escravista da época e região como um todo. Os
casos excepcionais que estuda circunscrevem indiscutivelmente a violência
habitual com que eram tratadas as classes subalternizadas, com
destaque para os cativos.
Uma
valiosa discussão sobre a Justiça escravista introduz o leitor na
análise dos casos exemplares estudados. Leandro Daronco aborda e
esmiúça as
funções e ações as autoridades judiciárias; as penas em que
incorriam os réus; a presença dos cidadãos de destaque como juízes
e jurados, etc. Registra os esforços de escravistas em livrar os
cativos da Justiça, certamente para não perderem o tempo de
trabalho de seus negros e não terem o prestígio pessoal
arranhado pela condenação de uma sua propriedade.
No
registro da violência da Justiça escravista, são exemplares os
casos apresentados de prisioneiros livres presos a gargalheiras,
literalmente massacrados a sangre frio após tentativas de fuga, e
as repetidas condenações à morte de cativos, executadas na região,
como praxe. Destaque-se também o singularmente longo período de
detenção média dos réus, antes de irem a julgamento, assinalado
pelo autor – nove longos meses!
A
voz dos silenciados
Em
À sombra da Cruz: trabalho e resistência
servil no noroeste do Rio Grande do Sul, Jorge Daronco não
empreende discussão pretensamente neutra ou narrativas
piedosas e apologéticas. Sobretudo,
esforça-se para ler o passado do ponto de vista do trabalhador
escravizado, a partir de reflexão e métodos científicos. O que
lhe permite contribuir igualmente para a problematização de questões
cruciais em discussão pela historiografia especializada.
Tem-se
proposto a classificação das fugas de trabalhadores escravizados
em “fugas rompimento” ou “definitivas” e “fugas temporárias”
ou “reivindicativas”. As
primeiras, mais raras, objetivariam a ruptura total dos laços
escravistas e procurariam, portanto, afastar-se o máximo possível
das mãos dos escravizadores. Nesses casos, os fujões
embrenhariam-se nos matos, escapariam para regiões distantes,
procurariam as fronteiras.
As
fugas-negociação, mais comuns, constituiriam-se, ao contrário, de
ausências temporária que comportariam, desde o início, uma decisão
de retorno à escravidão. O cativo fugiria e se esconderia em regiões
próximas aos locais de escravização, com o objetivo precípuo de
pressionar o escravizador, pela ausência, a conceder melhores condições
de existência, “na escravidão”. Seria, assim, uma espécies
de greve pré-moderna, de um homem só.
Os
casos estudados por Leandro Daronco registram o rústico planejamento
de atos de resistência, que denotariam um comumente profundo
hiato entre o ato de ruptura-agressão à sociedade escravista e o
prosseguimento dessa iniciativa, sobretudo no que se refere a fugas
breves ou a atos de violência extrema contra homens livres,
possivelmente impensados, produtos de uma exasperação insuportável.
Estrada
sem saída
O
cativo Leandro foge para coxilha próxima ao local de trabalho,
atacando gravemente o proprietário quando da captura. Maximiano
fere o oficial de Justiça que o encontra em casebre vizinho à
moradia do escravizador. Damaso embosca e mata o proprietário a
tiros de garrucha, revela o fato a companheiros, permanece na
propriedade onde é preso.
Felipe
mata a machadadas dois tropeiros para roubar-lhes e apresenta as
feridas das vítimas como produto do estouro de animais
escapados da mangueira! Marcos justiça seu escravizador,
carreteiro, e fica perambulando pela região, onde é conhecido,
portando o poncho da vítima! Leandro Daronco refere-se a cativos
incapazes de nomear os proprietários, de dizer se haviam sido
alugados e vendidos, de declinar as profissões.
Muitos
cativos que fugiam e permaneciam próximos às moradias, resistindo
à prisão ou apadrinhando-se para apresentar-se diante do
escravista, faziam-no, não porque queriam voltar ao jugo
escravista, mas por não saberiam simplesmente aonde ir e o que
fazer. Um fato que possivelmente explique a enxurrada de fugas,
durante a Guerra Farroupilha, em direção ao Uruguai, onde os
cativos encontravam, nesses anos, condições de se inserir naquela
sociedade, como soldados, peões, etc.
Violentamos
a história ao exigir ao cativo níveis de cultura, consciência
e resistência qualitativamente superiores aos permitidos pelas
condições gerais de existência que conheciam na escravidão
colonial. À exceção dos casos singulares, nascidos e crescido na
dura labuta escravista, sob o forte arbítrio do negreiro, ao cativo
era em geral objetiva e subjetivamente impossível comportamentos próprios
a sindicalistas e diplomatas modernos.
À
sombra da Cruz:
trabalho e resistência servil no noroeste do Rio Grande do Sul, de Leandro Daronco, constitui valiosa contribuição ao melhor conhecimento
da escravidão rio-grandense, em geral, e do norte do RS, em
especial, que apenas agora começa a desvelar seus segredos
internos, mantidos cuidadosamente à margem da revelação
historiográfica.
por MARIO MAESTRI