Ciência,
tecnologia e governabilidade no binômio emprego/desemprego (II)
Como
fica então a política de ciência e tecnologia, alardeadas como
principais fatores de mudança e de progresso?
O
debate sobre a política de ciência e tecnologia na sociedade
entrou novamente em uma fase crítica. Uma retrospectiva das últimas
décadas caracterizadas por investimentos elevados em Pesquisa e
Desenvolvimento revela poucos resultados em termos de melhoria das
condições de vida das camadas mais deserdadas da sociedade. Por
outro lado, as políticas de contenção e corte de gastos
governamentais em conseqüência da deterioração das contas
externas e internas do país, impõem um reexame crítico do destino
dado aos produtos gerados por cientistas e tecnólogos.
A
ciência pode ser considerada como uma forma privilegiada de
produzir conhecimentos, dentro da divisão social de trabalho. Mas,
como outras atividades humanas, a ciência é também um produto da
sociedade, e os cientistas, apesar de seu discurso portentoso de
objetividade e neutralidade, não diferem em seu comportamento
social concreto dos outros atores, indivíduos ou grupos. Assim, as
esperanças depositadas na ciência para tornar-se agente libertador
da humanidade, ao transformar os governantes de regimes autoritários
e clericais em gestores da causa pública, esclarecidos e democráticos,
não se concretizaram. Por outro lado, ciência e tecnologia também
produzem substâncias tóxicas, radioatividade, armas químicas e
biológicas letais, e condições de trabalho totalmente
alienadoras.
Não
basta pautar a conduta dos governantes pelos cânones da ciência.
Indubitavelmente, ela nos ajuda a explicar e interpretar a realidade
pela formulação de teorias e modelos conferindo aos seus
enunciados plausibilidade e até confiabilidade. A tecnologia, por
sua vez, nos remete à ação útil e eficaz, relacionando
instrumentalmente meios e fins. Mas, a tecnologia, especialmente a
tecnologia de ponta direcionada para e pelo mercado, alimenta e
suporta a estrutura de poder existente, qualificada como necessária
ou inevitável, portanto legítima pela ciência, apesar da miséria
e das injustiças decorrentes de seu uso.
Verifica-se,
assim, que a ciência e a tecnologia, ou cientistas e tecnólogos, não
escapam da determinação e, com isso, da encruzilhada ética nos
embates dos problemas políticos e econômicos da sociedade. Em vez
de acatar as normas do "possível", compete-nos a busca do
"desejável", daquilo que poderia ser diferente, como
alternativa concreta para a ação humana consciente e libertadora.
Em
sua essência, agir eticamente significa desafiar a cultura da
submissão e o medo da violência, impostos pelas elites dominantes.
É necessário questionar as teorias que legitimam a racionalidade
do mercado e proclamar a competitividade e eficiência como valores
universais, desconsiderando o tratamento desumano infligido aos
excluídos e derrotados.
Desemprego
– um desafio social e político
No
limiar do século vinte e um o desemprego tornou-se um problema de
dimensões mundiais, afetando os países ricos e pobres,
desenvolvidos e "emergentes".
Os
governos parecem incapazes de enfrentar as conseqüências sociais
de um contingente crescente de pessoas desempregadas, adotando uma
atitude fatalista diante os processos "inevitáveis" de
urbanização, industrialização e as transformações tecnológicas
deles decorrentes. Argumentamos que, sendo o desemprego um fenômeno
complexo, de raízes e dinâmica sistêmicas, a perda e a eventual
geração de empregos devem ser analisados em suas dimensões
psicossociais, políticas e humanas, além dos aspectos econômicos
e técnicos.
Os
desempregados não perdem apenas o salário ou a renda regular, mas
tornam-se alienados em suas relações produtivas com a comunidade e
toda a sociedade.
A
perda da função social de provedores da família resulta em perda
de auto-estima e também, do respeito dos outros , inclusive da
mulher e dos filhos.
Por
isso, o número crescente de desempregados tende a enfraquecer os laços
tradicionais de solidariedade, amparados por sentimentos de
pertencer e de identidade, sem os quais as pessoas se sentem
abandonadas, marginalizadas, inseguras e apreensivas quanto ao seu
futuro. Não rezando pela ideologia dominante que enaltece
a competitividade e os ganhos em produtividade "espúria"
como tábua de salvação, devemos questionar sobre as origens e a
dinâmica deste processo. Pois, em última análise, a dignidade
humana baseada em identidade individual e coletiva constitui um dos
pilares de um convívio social organizado e harmônico e de
estabilidade de suas instituições. Como podem os governos
legitimar essas políticas suicidas que minam as fundações da vida
pública e do bem estar econômico e social?
Aponta-se
para o progresso técnico vertiginoso das últimas décadas como a
causa do desemprego na indústria, em analogia com o desenvolvimento
da agricultura mecanizada no fim do século passado, particularmente
nos Estados Unidos. Este argumento algo simplista não se sustenta
à luz de evidências empíricas. Sem negar o impacto da inovação
tecnológica na perda de postos de trabalho geralmente menos
qualificados, devemos atentar também para a criação de novos
empregos, mais qualificadas e melhor remunerados, em conseqüência
do progresso técnico. Por outro lado, foi a indústria japonesa que
introduziu mais robôs e máquinas-ferramenta de comando numérico,
enquanto sua taxa de desemprego ficou a mais baixa entre todos os países
industrializados, membros da OECD. O desemprego nesses vinte e cinco
países passou de 10 milhões em 1970 para 35 milhões em 2000,
gerando tensões e conflitos sociais com profunda repercussão no
sistema político e na governabilidade de suas sociedades.
O
fracasso das doutrinas econômico e de seus instrumentos de intervenção
na sociedade transferiu os impactos da crise para a esfera da
legitimidade das políticas públicas tradicionais e da própria
organização burocrática do Estado e de seus aparelhos ideológicos.
Argumentamos a favor de uma abordagem sistêmica em oposição à
fragmentação disciplinar "piecemeal" adotada nas análises
convencionais e que, "de tantas árvores não enxerga a
floresta". Trata-se de desmistificar o progresso técnico
schumpeteriano como fator fatal e inevitável da desgraça de
centenas de milhões de seres humanos.
Sem
dúvida, as novas tecnologias – microeletrônica, biotecnologia,
automação, informática e novos materiais, exigem menos matéria-prima,
energia e espaço para suas máquinas e equipamentos e, portanto,
menos mão de obra nos processos de produção. Por outro lado,
requerem contingentes da força de trabalho mais qualificados e
treinados, com remuneração mais elevada. O saldo desse jogo de
demanda e oferta por mão de obra dependerá, em última análise,
do fluxo de investimentos que, por sua vez, é função da poupança,
e das condições políticas, econômicas e infra-estruturais em
cada país.
Portanto,
uma força de trabalho com elevado nível de emprego, gera mais
renda cujo excedente forma a poupança interna capaz de alimentar um
nível de investimentos condizente com as necessidades da sociedade.
É o nível de investimentos o principal fator responsável pelo
equilíbrio do mercado de trabalho, induzindo sua dinâmica um
"círculo virtuoso" de crescimento e bem-estar. O baixíssimo
coeficiente de investimentos no país (aproximadamente 15% do PIB,
nos últimos vinte anos), sugere que a maior parcela do excedente
crescentemente apropriado pelo capital, quando não transferido para
os paraísos fiscais no exterior, vem a alimentar a ciranda da
especulação financeira, baseada em taxas de juros quatro a cinco
vezes superiores àquelas vigentes nos mercados financeiros
internacionais. A suposta atração que esta política iria exercer
sobre investimentos estrangeiros não passa de pura mistificação.
Os recursos que ingressam e saíam livremente são de curto prazo e,
portanto, altamente especulativos. Os maiores embora declinantes
fluxos de investimentos são dirigidos prioritariamente para os países
industrializados e alguns emergentes, a fim de garantir mercados
cativos e excludentes, em função da reorganização da economia
mundial, sob forma de mercados regionais integrados. A segunda opção
para os investimentos de capital e tecnologia, hoje facilmente
transferíveis pelo mundo, é oferecida pelos países que além das
tradicionais vantagens comparativas estáticas (matéria prima e
energia abundantes e de baixo custo) dispõem também de uma força
de trabalho barata e relativamente qualificada. Efetivamente, um
volume crescente de recursos tem sido canalizado para os países da
Europa Oriental: Polônia, República Tcheca, Hungria, e Romênia,
além da China e da Índia.
O
terceiro fator explicativo da redução de oferta de empregos se
prende às possibilidades abertas pela difusão do novo paradigma técno-econômico,
baseado em redes de comunicação globais e operando
ininterruptamente "on-line".
Isto permite contratar a produção de peças e componentes, bem
como os serviços auxiliares de empresas autônomas para limpeza,
manutenção , refeições e transportes.
Além
de reduzir o custo de produção, livrando-se dos encargos sociais,
a terceirização facilita a mobilidade do capital , sempre em busca
de retorno maior e mais rápido sobre os investimentos.
Os
problemas gerados pelo desemprego em massa, bem como a criação de
novos empregos depende de um conjunto de fatores intervenientes no
processo de transformação econômica e social. Numa sociedade
crescentemente urbanizada, os desempregados não produzem mais os
alimentos essenciais para sua sobrevivência e a de seus familiares.
Em algumas áreas rurais, a não ser em períodos de seca ou de
outras calamidades naturais, a sobrevivência física é menos
problemática, em função da persistência de estruturas comunitárias
tradicionais proporcionando apoio e solidariedade individual e
coletiva.
A
alegada produtividade maior dos habitantes das cidades deve ser
aferida à luz de custos sociais, embora menos tangíveis, da anomia
social típica das grandes aglomerações urbanas.
Apelos
ao governo para que crie empregos ou defenda os direitos dos
trabalhadores contra as novas práticas administrativas como a
reengenharia, organizações "enxutas" e flexibilização
da legislação trabalhista têm pouco ou nenhum efeito sobre a dinâmica
de investimentos e a geração de empregos.
Decisões
sobre a localização da fábrica, setores prioritários de
investimentos e a tecnologia a ser utilizada, são tomadas pelos
quartéis generais das corporações, em total autonomia do aparelho
governamental. Políticas fiscais inefetivas, menos tributos e
impostos recolhidos, combinados com crescentes pressões populares
clamando por mais gastos públicos para atender às reivindicações
das camadas mais pobres da população, criam um "círculo
vicioso" de instabilidade financeira e política, nas economias
"emergentes". Donde se infere que o principal problema das
sociedades contemporâneas, particularmente na América Latina, é
relacionado com a credibilidade de suas instituições políticas e
jurídicas, ou a governabilidade do sistema social.
É
preciso combater o desemprego
Admite-se
hoje que os modernos processos de desenvolvimento devem se basear na
criação de pequenas e medias empresas atuando em nível regional,
estabelecendo cadeias de produção e trabalhando sob forma de
cooperativas ou consórcios, em busca de eficiência coletiva, mais
do que da competitividade da empresa individual.
Para
ter sucesso nessas iniciativas torna-se imperiosa a articulação e
integração com as associações de classe, os sindicatos, as
prefeituras, os institutos de pesquisa e as universidades,
projetando além de novas formas de organização industrial,
poderosa mobilização e motivação da sociedade civil em prol do
desenvolvimento. Experiências exitosas vêm sendo conduzidas, há décadas,
na Itália , na Holanda, na Alemanha e no Japão, despontando como
um possível novo paradigma de desenvolvimento industrial, em oposição
ao modelo predominante de conglomerados gigantescos, verdadeiros
Leviatãs, cuja dinâmica de concentração e centralização
mediante fusões e incorporações, não pode ser considerada como a
famosa "destruição criativa" schumpeteriana.
Face
aos efeitos desarticulados e desestruturadores da vida econômica e
social de empresas, localidades e regiões, surge um novo paradigma
de desenvolvimento em escala humana, como alternativa para um
futuro, sustentável, auto-suficiente e independente.
O
gigantismo dos conglomerados e corporações transacionais, longe de
representar economias de escala, revela-se complexo demais e leva as
organizações à beira do caos.
O
esmagamento e a eliminação dos concorrentes se processa mais pelo
poder financeiro concentrado do que pela superioridade tecnológica
ou gerencial. Por outro lado, as fusões bilionárias trazem em se
bojo o desemprego para milhões de trabalhadores, agravando as
características desumanas e alienadoras do sistema capitalista,
cada vez mais oligopolista, centralizador e antidemocrático. A
legitimidade histórica do capitalismo industrial emergente nos
alvores do século dezenove, foi derivada da abertura de
oportunidades para a criação de novos empreendimentos
manufatureiros, bastando o domínio de tecnologia relativamente
simples, e o acesso a um capital mínimo que, naquela época, não
ultrapassava 3-5 salários mensais. Em comparação com o custo
atual de geração de um emprego na indústria, variando de um setor
para outro, de US$100.000 para US$ 1.500.000 pôr posto de trabalho,
fica patente a parcialidade da política de financiamento
governamental, favorecendo os investimentos de grande escala, com
pouca geração de empregos, em detrimento de pequenos empresários,
cuja criatividade e dinamismo, quando devidamente apoiados, poderiam
revitalizar e rearticular o sistema de produção, com efeitos
salutares na estrutura de poder e as relações políticas. Tendo em
vista a ineficácia de políticas de geração de empregos pelos
governos que proporcionam subsídios e créditos baratos a grandes
empresas e bancos cujo objetivo não é exatamente a criação de
empregos, prioridade deve ser atribuída a iniciativas cooperativas
de cidadãos, descentralizadas em escala local e micro-regional.
Algumas cidades introduziram sistemas de apoio à micro e pequenas
empresas, simplificando o acesso ao credito e os procedimentos
legais para obter quase imediatamente, licença para o
funcionamento.
Outra
inovação é representada pela criação de empresas por associação
de pessoas com alguma poupança, desejando compartilhar seu espírito
empreendedor em assim chamadas "empresas sociais" que
ressaltam e reforçam os princípios de auto-ajuda e autogestão.
Algumas
municipalidades apelam às populações para juntar-se aos esforços
de melhorar a infra-estrutura local, gerando empregos em obras públicas,
pavimentando ruas, construindo moradias de baixo custo, arborizando
e cuidando da limpeza pública. Todas essas atividades requerem um
engajamento ativo e a participação consciente dos cidadãos,
mobilizados e motivados por ONGs- organizações não
governamentais. Um estágio mais avançado nesta tendência é
representado por um planejamento integrado e participativo em nível
local e regional, definindo áreas e diretrizes para a localização
de atividades industriais, saneamento básico e exploração
coletiva e intermunicipal de recursos naturais.
Muitos
dos problemas enfrentados por comunidades rurais e governos locais são
complexos e intricados demais para serem resolvidos por
municipalidades, por um esforço individual. Os desafios devem ser
enfrentados através da formação de consórcios para, por exemplo,
o gerenciamento de bacias hidrográficas ou a reciclagem e
tratamento dos resíduos orgânicos ou industriais.
Essas
formas de administração seriam do tipo de associação cooperativa
que independe da autorização do governo central. Sistemas de
irrigação regionais, redes de comunicação, serviços de
transporte constituiriam o passo seguinte para um planejamento
cooperativo regional que reforça a participação de cidadãos e
assim, a democracia local.
Entretanto,
todas essas e muitas outras iniciativas como a instalação de
bolsas de emprego regionais, devem ser concebidas como medidas
complementares de uma política nacional de desenvolvimento e de
geração de empregos que contemple, entre outros, as reformas
urbana e agrária. Terras ociosas e muita gente sem-terra exigem
reformas corajosas capazes de proporcionar a todos que desejam
cultivar sua gleba para produzir seus alimentos, este e outros
recursos produtivos como crédito e assistência técnica que
permitam alcançar um razoável grau de eficiência. Assentamentos
dos sem-terra em condições decentes poderão aliviar as
pressões sobre as cidades e, até induzir um êxodo urbano com
efeitos benéficos para a desconcentração econômica e humana .Por
último, mas não o menos importante, por quê não reduzir a
jornada de trabalho?
No
fim do século passado, lutava-se pela semana de 48 horas,
considerada uma desgraça certa pelos empresários da época, Ora, o
aumento real da produtividade conseguido mediante a melhoria das
condições de trabalho nas fábricas e pela extensão de serviços
de saúde e educação, públicas e gratuitas, tornou-se fator
fundamental para a emergência do Estado de Bem-estar e o
fortalecimento da democracia nos países industrializados do
Ocidente.
A
diminuição paulatina da jornada de trabalho recentemente adotada
como política oficial pelos governos da França e Alemanha,
combinada com uma oferta crescente de oportunidades de aperfeiçoamento
e reciclagem, e de variadas formas de lazer, recreação e
envolvimento em atividades culturais, constituirá um passo
importante na construção de uma sociedade sustentável que
restitui ao trabalho seu caráter criativo e libertador.
Em
conclusão, importa enfatizar que o desemprego não constitui um fenômeno
"natural" para cujas conseqüências fatais não haverá
remédio.
Da
mesma forma como os governos da União Européia resolveram reduzir
e igualar o déficit fiscal para chegar até 3%, decidiram também numa reunião mantida em Viena, em dezembro de 1998,
implantar um "Pacto para o Emprego".
O
próximo passo será definir "metas obrigatórias e verificáveis",
a serem cumpridas pelos respectivos governos nacionais. O Tratado de
Maastricht, concebido para padronizar as políticas econômico-financeiras
pode ser aplicado também para as questões sociais.
As
pressões populares que fizeram eleger-se governos social-democratas
na maioria dos países da União, hão de resultar em políticas públicas
"keynesianas" de combate ao desemprego, e na consecução
do desenvolvimento social e humano.
por
HENRIQUE
RATTNER