por NELI KLIX FREITAS

Professora efetiva do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina. Doutora em Psicologia

 

Formação humana, imagens formadoras, educação e sociedade: continuidades e rupturas

 

Resumo: O artigo apresenta tópicos teóricos e reflexivos, elaborados com base na pesquisa da autora sobre formação humana, que insere a questão das imagens formadoras, dos tempos iniciais da vida, presentes nas escolhas, vivências e experiências do cotidiano. O tema envolve uma complexa trama conceitual que integra funções psicológicas superiores, tais como: criatividade, imaginação, percepção, representações mentais, dentre outras. Trata-se de uma área que contempla também a interdisciplinaridade, particularizando a formação humana, permeada por continuidades e rupturas, especialmente em uma sociedade que valoriza o consumo, as novas mídias e domínios tecnológicos que, muitas vezes não estão a serviço da ética e da solidariedade social.

Palavras-Chave: Formação Humana, Imagens Formadoras, Educação, Sociedade, Representações Mentais.

 

O espaço de trabalho, assim como o cotidiano, muitas vezes transforma-se em um fazer destituído de significados, resultando daí um sujeito cindido de seu mundo, de si e de sua essência. Esse deixa então, de perceber uma parte da realidade exterior, e uma dimensão de seu universo psíquico, como se proibisse a si mesmo de pensar. Nessa direção, os homens devem protegidos de si mesmos. Muitas vezes, bloqueiam o trabalho intelectual, que poderia resultar em esquemas justificadores das ações disfuncionais.

Vygotsky (1984, 1986, 1987, 2001) dedicou-se ao estudo das funções psicológicas superiores tipicamente humanas, como a imaginação, a capacidade de planejamento, a memória, a construção de representações mentais, que incluem mecanismos interativos, com possibilidade de manter certa independência diante das características e pressões do momento, do tempo e espaço presentes. Trata-se de funções que não são inatas, mas que se originam nas relações entre indivíduos humanos, e desenvolvem-se ao longo do processo de internalização de formas culturais de comportamento.

As funções psicológicas superiores do ser humano surgem da interação dos fatores biológicos, que são parte da constituição física do Homo Sapiens com os fatores culturais, que evoluíram através das dezenas de milhares de anos da história humana (LURIA, 1992, p. 60).

As funções psicológicas superiores originam-se nas relações do indivíduo e seu contexto sócio-cultural. Isto é, o desenvolvimento humano não é dado a priori, não é imutável, não há passividade, nem independência do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana. A cultura é, portanto, parte constitutiva da natureza humana, já que sua característica psicológica se dá através da internalização dos modos historicamente determinados e culturalmente organizados de operar com informações (VYGOTSKY, 2001, p. 49).

Pode-se apreender que há imagens iniciais decorrentes de momentos mais primitivos da vida, mas que não são estáticas. Ao abordar a consciência humana há necessidade de estudar mudanças que ocorrem no desenvolvimento mental a partir do contexto social, que é mutável como a própria vida. Na realidade, o faber está sempre em nós. O sapiens entra na esfera da poiética, como noesis poieseôs.[1] Esse pensamento corrosivo evoca lembranças de acasos interiores aos contornos da conduta e, numa meditação mimética, retoma a formação humana inicial, possibilitando múltiplas revelações. As palavras, ações e lembranças possuem significados que são, ao mesmo tempo, evidentes e enigmáticos. A memória como tempos vividos relaciona-se com a consciência (memorial), nas bordas do passado. Ela revive e inventa lembranças. Através dos mitos pessoais, muitas vezes o dasein se faz história, a fim de figurar sob o olhar do outro. O outro está em nós, uma vez que a identidade se edifica e se configura em interação social. Pela história, o essencial abre um caminho, e a noite do pensamento tenta fazer memória. Há lembranças, há imagens iniciais e formadoras, nem sempre felizes, mas marcantes, que se constituem como essenciais na dinâmica da formação humana. Entretanto, muitas delas desaparecem, e outras permanecem vívidas na memória, podendo ser resgatadas nas vivências do cotidiano.

Refletir sobre a formação humana significa admitir que, para cada ser humano existe um percurso singular. Pelas diferenças e nas diferenças deflagra-se tudo aquilo que é particular, que se revela na expressão de linguagens também pertinentes a cada sujeito: verbal, visual, corporal, musical, dentre outras.

Pasolini (1990), cineasta, artesão da imagem e, por isso mesmo capaz de perceber o poder sutil da lente de uma câmara ao efetuar um desvelamento da face oculta da realidade, oferece uma análise sobre o mundo dos objetos criados pelo homem no mundo em suas diferentes profissões e trajetórias. A linguagem desempenha um papel primordial. Nesse aspecto, suas idéias coincidem com as de Benjamin (1987). É possível ler e decifrar, nas coisas, nos objetos, paisagens, gestos, atos, palavras códigos da cultura. A questão reside no fazer falar esse mundo dos objetos que age sobre as pessoas, revelando um potencial de sentido, que se desvela pela e na linguagem. A leitura da realidade ocorre pela via da palavra, assim como os significados das vivências são atribuídos também pela palavra.

As primeiras lembranças da vida são visuais. A vida, na lembrança, torna-se um filme mudo. Todos nós temos na mente a imagem que é a primeira, ou uma das primeiras da nossa vida. Pela palavra, o significado da imagem pode ser revelado, desvelado (PASOLINI, 1990, p. 63).

A realidade emerge pela via da linguagem, e não pode ser vivida senão nessa experiência existencial direta, concreta, dramática e corpórea.

A proposta que emerge de diferentes idéias de Pasolini (1990) e de Benjamin (1987) é a da existência de uma linguagem pedagógica das coisas, que permite resgatar a compreensão crítica da realidade, de recuperar o olhar sensível sobre o mundo, procurando lugares de refúgio do sagrado, ou seja, do significado de um rosto, de um objeto, de uma paisagem; ir em busca do invisível que se esconde e se presentifica na linguagem-imagem das coisas.

Considerações Finais

O respeito pelas coisas do mundo, presente ou passado, permitirá desenvolver uma nova ética do olhar. A linguagem pedagógica das coisas ensina que existe um modo novo de acercar-nos da verdade que se refugia nos objetos, nas paisagens, nos rostos das pessoas que povoam nossas lembranças. Trata-se de um olhar ético, que desperta pela linguagem, que possibilita a emergência de valores de expressão, de recriação de emoções já vividas, implícitas na construção do conhecimento e no convívio social solidário.

Perguntas e respostas distintas existem porque existem lembranças, que podem ser felizes, mas que são também conflitantes. Estes, relacionam-se com a complexa dinâmica existente entre realidade interna e externa. Por vezes, o ser humano não encontra um lugar seguro onde possa pousar a cabeça. Há pontos obscuros esperando sua vez de serem iluminados. Não pontos privilegiados do olhar. Olhar é, então, desviar o olhar (BION, 1977)

Seres humanos são por sua própria essência, questionadores. Inquietos, alguns mais do que outros buscam vetores de sentido para suas inquietações, diante de um mundo permeado por hipóteses prontas para se tornarem reais, para atualizar-se frente às demandas do cotidiano. A busca do novo pelo conhecimento possibilita atualizações constantes. Estas podem responder a muitas das demandas internas e externas dos sujeitos. Entretanto, há sempre uma busca por algo muito mais amplo do que a informação, do que a tecnologia como tendo um fim em si mesma, do que o consumo desenfreado de bens e serviços. Os vínculos que caracterizam a espécie humana necessitam de reabastecimento afetivo, para que as inquietações dominantes não aniquilem investimentos criativos. A civilização necessita desses investimentos para não sucumbir diante do sofrimento que emana das vicissitudes da vida, como a miséria social, a violência, o desemprego, a fome, a solidão das grandes metrópoles. Estados de letargia podem instalar-se quando não se encontram nexos entre as demandas do cotidiano e as imagens mais remotas da vida, inseridas na história e na memória de cada um

Trata-se de imagens formadoras, que convocam para tudo quanto é carregado de presença, como também para o que é carregado de ausência, desgastando cargas existenciais e espirituais. Caminhadas humanas são especulativas, impregnadas pelo desejo de ver, de ter, de ser, que impulsionam para a busca por lugares seguros, imaginários, utópicos ou, até mesmo, idealizados. Lugares para frente, lugares para mais atrás, antes e atrás das origens. Lugares humanos.

As primeiras impressões são sensoriais: visuais, táteis, olfativas, gustativas, sonoras. Mas, são significativas, uma vez estão inseridas na memória, tida como tempos vividos. Assim, na história de cada sujeito os pensamentos percorrem vias de acesso a pensamentos ainda não pensados, envoltos pelas aspirações e vinculados com o desejo: desejo de ser, de realizar, de conviver.

Segundo Vygotsky (1987) existe um percurso singular para cada ser humano e para cada contingência humana. Todas as formulações humanas são feitas a partir do convívio com o meio, motivado pelas interações sociais. Mas, as trajetórias são particulares, uma vez que cada um apropria-se do meio, da sociedade e da cultura de acordo com suas sensações, percepções, imaginação. As representações mentais, funções psicológicas tipicamente humanas permitem a permanência dos objetos e das vivências mesmo diante de sua ausência. Mas, até por serem humanas, são próprias a cada sujeito, e não há representações mentais idênticas.

É interessante observar que, mesmo nas proposições matemáticas que focalizam o máximo de objetividade, o percurso dos pensamentos de vários sujeitos nem sempre trilha os mesmos caminhos. É nessas diferenças que se deflagra tudo aquilo que é mais particular, que revela a expressão de linguagens distintas, pertinentes à singularidade dos sujeitos que, ao questionar e ao responder põem em ação a dinâmica da criação. O ser humano é parte da realidade observada e, como no esquema de Moebius, modifica a realidade externa na medida em que se modifica a si mesmo. Essa visão assinala para a importância da criatividade.

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[1] Noesis poiseôs, do grego.Significa pensamento de criação.(Passeron, 1997).

 

por NELI KLIX FREITAS

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Referências Bibliográficas

BENJAMIN, W. Magia-Técnica, Arte e Política. IN: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987.V.1.

BION, W. Volviendo a Pensar. Buenos Aires:Hormé, 1977.

LURIA, R. Memória e Pensamento. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BPASOLINI, P. Os Jovens Infelizes. São Paulo: Brasiliense, 1990.

PASSERON, R.  Elodge del Ombre. Paris: Minuit, 1997.

VYGOTSKY, L.S. Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

________. La Imaginación y el Arte en  la Infancia. Madrid: Akal, 1986.

________. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

________. A Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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