O
PT e o extravio ético
O
senso comum ideologicamente consumado, vendido pela hipocrisia midiática
e aceito passivamente pela média do senso “crítico” da inteligência
petista, considera que o principal extravio do PT nos últimos anos
foi o da ética na política. Não supõe, por certo, que este
extravio tenha outro – mais grave – por pressuposto: o
comprometimento organizativo e programático institucionalista, coetâneo
do afastamento do PT de sua base social ativa e de seus compromissos
históricos de classe. Por isso, alguns imaginam que o PT carece
apenas de algo como um “resgate” ou “choque de ética”,
quando, na verdade, desde antes da débâcle
moral, a ostentação do discurso centrado
na ética na política (virtude administrativa) já era, ela mesma,
uma retórica substitutiva ideologicamente rebaixada, que refletia o
desbotamento do ideário socialista transformador do partido.
O
discurso autonomizado da ética na política, apartado de um
compromisso programático anti-capitalista, não é suficiente para
indicar o confronto com a relação
anti-ética fundamental da sociedade moderna, que está
sacramentada em quase todas as constituições e na ideologia
dominante, que é a da exploração do trabalho pelo capital. Ora,
qualquer governo de direita que seja sério em sua formação ideológica
e política, pode, a rigor, ser tanto ou mais ético com a coisa pública
do que certos governos de esquerda. O que não quer dizer que traga
a mínima contribuição para suprimir a relação anti-ética par excelence do capitalismo, na qual o trabalhador nunca passa de
um meio para o fim que é a acumulação privada do capital. Esta distinção
implica na questão ética decisiva
para todo e qualquer partido que aspire à dignidade de se
considerar de esquerda. Logo, a ética administrativa
da política não é a principal diferença entre a esquerda e a
direita. Como tal, ela só denota a sua própria natureza, qual
seja, a visão institucionalista da política, onde a disputa por
espaços no stablishment
se torna o interesse predominante, que engana a prioridade das
necessidades sociais.
Desde
a crise do Leste ou do socialismo real, o PT passou,
majoritariamente, a revisar suas posições socialistas rumo ao
centrismo político. Tanto que a perspectiva de um novo Estado de
bem-estar é o máximo que a intervenção petista passou, em geral,
a propugnar. Não se trata de uma discussão entre tática e estratégia,
nem entre projeto ideal e presente possível. Tratam-se de dois
passos atrás sem visar um passo à frente. A ótica que o filósofo
Alain Badiou chamou de “ideologia ética contemporânea” passou
a ver, não mais nas forças da opressão de classe, mas nas próprias
tentativas emancipatórias dos oprimidos, a verdadeira fonte do mal,
protótipos de sistemas autoritários. A linguagem alternativa da
emancipação foi substituída pela linguagem tradicional da política,
requentada do palavrório dos inimigos de classe de antes. Conceitos
como revolução socialista, luta de classes e superação do Estado
cederam lugar – supostamente em nome da liberdade e do pluralismo
– aos fetiches da cidadania universal e da democratização
“infinita” do Estado.
O
fácil e politicamente rentável abandono da reflexão séria sobre
a dialética contrabandearam para o ideário petista um certo
neokantismo conservador, que desaprendeu grandemente a pensar a ética
no interior do irrevogável cenário dos sujeitos sociais em luta,
preferindo, muitas vezes, resolvê-la pela pregação de valores
morais. Não há dúvida de que o valor da solidariedade, por
exemplo, seja importante. Mas o egoísmo e a violência não denotam
um “defeito” humano a ser moralmente
corrigido. Denotam formas de ser e de sobreviver típicas de um
mundo em que o reconhecimento social se baseia na dominação e não
em relações livres entre os homens. Por isso, compreender por que
os homens agem como agem é uma questão radicalmente anterior ao
superficialismo de recomendar-lhes máximas sobre como devem agir.
Nesse
cenário, a ética na política pode ser um valor salutar. Mas daí
a dar crédito e vender a ilusão de que existe uma ética
“exemplarista” do agir capaz de universalizar-se no seio de uma
vida social de agudas desigualdades – como se houvesse uma esfera
moral que pairasse acima desses condicionamentos –, já é uma
atitude que está mais para os jogos retóricos do que para a
realidade. Guardadas as devidas proporções, é por tais meandros
que, venha de quem vier, e seja contra quem for, o discurso
meramente moralista sobre a corrupção é uma tese de direita. O
lacerdismo, o janismo e as páginas de periódicos como a Veja
o ilustram fartamente. Contra suas próprias convicções majoritárias,
o PT experimentou toda a dureza dessa verdade em 2006. Quando viu
arruinada a pretensa superioridade do discurso da ética na política,
com Alckmin se apropriando da antiga máxima das campanhas petistas
(“Por um Brasil decente”), Lula se viu obrigado a retomar o
acento do discurso social de classe – uma ironia da história política
do PT, mas que os pobres não tiveram dificuldade de compreender.
Resta saber até que ponto a inteligência do PT e o próprio Lula
extrairão as conseqüências teóricas e políticas necessárias do
teor dessa clara e viva lição social.
O
extravio ético capital do PT não foi o gerencial-administrativo de
alguns grupos ou figuras. Foi o extravio do que lhe competia
eticamente no plano programático, em seu compromisso radical com os
oprimidos, o que refreou seu papel na luta pela igualdade social e
econômica. Um partido com forte origem nos mundos do trabalho e dos
movimentos sociais tornou-se progressivamente refém das peias do
poder. O vértice de sua força política desloca-se da pressão
pela mobilização social para os jogos institucionais “pelo
alto”, onde a política adquire muito mais facilmente as cores de
um negócio privado do que de um meio para a disputa com vistas à
justiça social. Em tais limites, a refundação ética centrada
apenas no plano comportamental-administrativo soa como um purismo
que seria ingênuo caso não fosse ideologicamente pensado.