Ocasiões
e cerimoniais natalinos
O
episódio da árvore mais linda do mundo
Era
uma vez, há muitos anos (mais ou menos 40), numa vila então
distante de uma cidade chamada Maringá, num estado em que todos
trabalhavam (de acordo com o seu lema), um grupo de crianças da
vila decidiu fazer uma árvore de Natal. Todos eles já tinham
visto a árvore da igreja de Santo Antônio, que era linda:
cheia de luzinhas, e de bolas coloridas.
Pra
essas crianças, as alegrias do Natal eram as requeridas –
missa, hinos, sermões intermináveis que contavam a história
do nascimento de um menino chamado Jesus – e as inesperadas,
tais como quando alguma dela ganhava um presente de verdade, e não
somente outro guarda-pó pra escola, ou lápis e canetas e
cadernos pro ano que vem. Estamos aqui falando de um grupo de
crianças de uma vila pobre, lógico.
Mas
aquela árvore de Natal na igreja era realmente uma das melhores
coisas de dezembro. Uma vez, algumas daquelas bolas caíram, e
as meninas esperaram todo mundo sair da igreja, e recolheram os
pedacinhos. Como eram lindos! Elas guardaram tudo numa caixinha.
Mas,
desta vez – eram os idos de 1965 – elas resolveram fazer a
sua própria árvore. Ninguém tinha um tostão, nem como ganhá-lo,
mas isto não era problema: iam usar um arbusto dos muitos que
se encontravam na beira da estrada. Arrancaram o arbusto, e
levaram pra frente do quintal da casa de uma das meninas cuja mãe
tinha concordado em deixar que a árvore de Natal fosse feita
diante da sua casa.
O
arbusto era muito pequeno. E torto. As meninas resolveram que
assim mesmo estava bom. Mas o arbusto não parava em pé, e começou
a murchar imediatamente depois de arrancado. Aqui estava o
primeiro problema.
O
segundo, foi que elas perceberam que a caixinha com caquinhos
das bolas de Natal da igreja do ano anterior tinha sumido. A
menina que tinha ficado encarregada de guardar a caixinha tinha
dois irmãos pequenos. Decerto eles tinham consumido a caixinha.
E
agora, que fazer? Uma árvore de Natal sem enfeites não tinha
graça nem era árvore de Natal.
As
meninas resolveram falar com Joana. Ela ia com o pai todas as
tardes pra praça da rodoviária. O pai era cego, e pedia
esmola. Joana sempre trazia papéis brilhantes e coloridos de
carteiras de cigarro que ela achava na praça. Joana então
entrou no grupo, e ficou encarregada de juntar muitas carteiras
de cigarro. E assim foi feito. Em alguns dias, as meninas –
agora quatro – tinham muitos papéis para fazer as bolas. Por
sorte e coincidência, no outro dia a irmã mais velha de Joana
estava encarregada de levar o pai ao centro.
As
quatro meninas embolaram pedaços de jornal para fazer as bolas,
e embrulharam com o papel alumínio e papel dourado das caixas
de cigarro. Mas como colocar as tais bolas na árvore? A mãe de
uma das meninas emprestou agulha e linha, e elas resolveram este
pequeno problema técnico. Em umas duas horas, elas fizeram umas
trinta bolas para a árvore.
Então,
era hora de voltar ao problema número um. E bem na hora, porque
o Natal estava chegando muito perto, e a árvore tinha que ser
enfeitada. Depois de alguma discussão, concluíram que a melhor
coisa seria arrancar outro arbusto, e plantar na frente da casa
escolhida. Um dos meninos foi encarregado de ajudar a procurar a
“árvore” e arrancá-la. E assim foi feito: em meia hora, o
arbusto escolhido foi retirado do mato, trazido pro quintal, e
plantado no buraco. Com um bom balde de água jogado no pé do
arbusto, as meninas tiveram certeza que desta vez a árvore não
ia murchar. Agora só faltava colocar as bolas.
E
assim foi. No fim da tarde, a árvore de Natal estava feita. Era
a primeira vez que elas viam uma árvore de Natal tão linda. As
mães e as crianças pequenas que vieram ver o resultado acharam
a árvore linda também. Outros adultos vieram espiar e disseram
que estava linda.
As
meninas estavam radiantes. Mal puderam jantar direito e já
voltaram correndo pra olhar a árvore e fazer planos para uma
maior no ano que vem. Estava de fato tão boa a árvore, que até
os meninos, que riram no começo do “projeto,” vieram olhar
também. (O que tinha arrancado o arbusto e ajudado a plantar não
se denunciou, e pediu às meninas que não revelassem que ele
tinha ajudado. Algumas coisas eram sagradas, e menino não
brincava com menina naquele tempo!)
Por
fim, cansadas de admirar sua obra prima, as meninas foram
dormir.
Naquela
noite, caiu um toró. De manhã, olhos cheios de sono, quando
elas foram olhar a árvore, viram que a chuva tinha derretido as
bolas, e a enxurrada tinha desenterrado a árvore, que jazia no
chão, como um defunto. Só os fiozinhos das linhas pendiam dos
galhinhos do arbusto.
Naquela
noite, dia 24 de dezembro, com arames e pedaços de papel de
seda verde, a mãe de uma das meninas fez outra árvore de Natal
e enfeitou com fotos de flores tiradas de revistas, coladas em
pedacinhos de papelão e presas na pequena árvore com fios de
linha. Agora, por via das dúvidas, a árvore estava dentro de
casa. Embaixo dela, estavam quatro embrulhos, cada um com o nome
de uma das meninas.
De
manhã, quando a filha acordou e viu a árvore, ela não podia
acreditar. Logo as quatro meninas se juntaram olhando aquela
maravilha. A mãe lhes disse que alguém tinha trazido os
embrulhos durante a noite, e fez a distribuição.
Dentro
dos embrulhinhos, cada uma encontrou uma revistinha, e uma
mensagem que dizia, simplesmente, “Feliz Natal para a menina
que fez a árvore de Natal mais linda do mundo.”
As
compras natalinas
No
dia depois do Dia de Ação de Graças, a televisão americana
sofre não uma metamorfose, mas uma intensificação: os
programas são quase todos sobre o Natal, e os comerciais são
todos sobre o Natal. Este ano, particularmente, senti que estes
comerciais são como um cerco ao meu ser. Me sinto manipulada,
mandada, julgada, ordenada a consumir, consumir, consumir a
qualquer custo, sob pena de perder minha identificação com a
espécie humana.
Um
destes comerciais mostra um casal jovem na cama, dormindo. O
homem abre os olhos, se levanta e caminha, pé ante pé, a um
outro quarto, e volta trazendo uma corrente com um pendente de
brilhante, que ele coloca sobre o tórax da mulher. Uma música
de fundo pergunta, “Como posso dizer que eu amo você, sem
usar nenhuma palavra?” A mulher acorda, apanha a jóia, olha,
e se volta sorrindo para o homem, que agora faz de conta que está
dormindo. A música aumenta, e a música insiste, “Como posso
dizer que amo você?” Os dois se beijam.
A
mensagem é clara: você pode dizer que ama uma pessoa com um
presente. E quanto mais caro o presente, maior o amor. A fórmula
tem uma beleza matemática: presente + caro = + amor. O que nos
leva a concluir que presente
– caro= – amor. Então, se você quer ter amor, vai já
já indo pra uma loja comprar o presente mais caro que você
puder.
No
dia 24 de dezembro, nas notícias vespertinas, anunciaram que o
povo americano este ano gastou um récord de quase oito bilhões
de dólares só nos dois dias anteriores, e o gasto total no país
para este ano se calcula em uns 72 bilhões de dólares. As
pessoas entrevistadas, correndo feito baratas tontas ou postadas
nas filas das lojas, diziam que tinham que fazer suas “compras
de Natal.” Quer dizer: presente + caro = + amor. Ou então é
realmente uma espécie de hipnose geral, ou todos se transformam
em robôs que têm que seguir a ordem de “comprar! Comprar!”
Ou
será que não? O que são realmente estes presentes de Natal?
Somente um sucumbir à fúria consumista? E o que dizer daquela
grande maioria de pessoas que gasta no Natal além de suas
posses e acaba endividada por muitos anos pagando juros? Ou será
que estas compras todas indicam alguma outra coisa, a
necessidade de resolver alguma insatisfação, insegurança? Ou
será um jogo social em que cada um procura demonstrar que
conhece a pessoa presenteada tão bem que vai saber escolher o
presente ideal?
É
bem possível que todas estas opções estejam corretas, e que
existam muitas outras. Eu pessoalmente prefiro achar que a
presenteação excessiva que vejo nos Estados Unidos ilustra um
desejo, por parte do/a presentador/a, de mostrar que a) tem
dinheiro, b) tem conhecimento da pessoa presenteada, c) que
acredita na fórmula “presente + caro = + amor,” e que, de
uma certa forma, querem manter o contacto com a pessoa
presenteada. Os mais espertos, e os que não têm dinheiro
suficiente, recorrem ao estratagema chamado de “regifting”
– representear: guardam os presentes recebidos e os dão a
outra pessoa. As possibilidades de erros e inúmeras situações
embaraçosas e comédicas são enormes. Já houve, por exemplo,
gente que recebeu de volta presentes que tinha dado no ano
anterior; gente que recebeu presente com o cartãozinho ainda
atado ao pacote, contendo o nome de outra pessoa, com seus votos
etc à que agora a presenteava. Um dado interessante, de acordo
com a tevê americana: os moradores do leste, e democratas, são
os que mais “representeiam.”
E
onde ficamos, com tudo isto? É muito negativo fazer este reboliço
todo com os presentes? Gastar além da conta com os presentes?
(Depois que o Natal passar, vêm as contas, assim como diz a canção,
“depois que a saudade passar, a conta vem.”)
Ao
fim e ao cabo, eu pessoalmente acredito que uma das melhores
coisas do Natal é que as pessoas se mandam cartões, cartinhas,
mensagens de email, desejando felicidades, saúde, e “muito
dinheiro”. Mesmo que seja algo automático, e em algumas ocasiões
até mesmo obrigatório, de qualquer maneira é uma forma de as
pessoas se relembrarem da existência uma das outras. No nosso
mundo atual, em que já não moramos todos os conhecidos em uma
vila em que as crianças amigas podem se reunir num projeto de
árvore de Natal, pelo menos esta rede de cumprimentos
atravessando cidades, estados, países, é uma forma de reavivar
nossas relações com nossos conhecidos, amigos e parentes, de
recordarmos que estamos todos juntos num projeto que nem sequer
entendemos direito, mas que faz bem recordar.
Isso
sim, vale a pena. E não custa quase nada, a não ser relembrar
as pessoas que tocaram nossas vidas, e mandar um sinal de que
estamos vivos, estamos aqui ainda, e que elas são parte desta
vida.
por
EVA PAULINO BUENO