Inclusão
Social: o vestibular na contramão
Introdução
Nesta
época em que muito é falado e noticiado sobre exclusão e inclusão
social e mesmo sobre a criação de cotas para permitir o acesso, a
universidades, de alunos excluídos, em particular os oriundos da
escola pública, como forma de diminuição dessa exclusão, fica a
pergunta: quais são os fatores que têm contribuído para a exclusão
e que podem contribuir para a não inclusão?
Este
texto tem como objetivo fazer uma reflexão sobre conseqüências de
uso de testes, neste caso sobre como o vestibular pode ser um
elemento colaborador da exclusão social. A reflexão é baseada nas
provas de inglês que compõe o vestibular para ingresso à Unicamp,
as quais usam como instrumento de coletada de dados sobre os
candidatos perguntas abertas como alternativa a questões de múltipla-escolhas
tradicionalmente usadas. Três serão os pontos discutidos: concepção
de leitura adotada, assuntos abordados, e tipos de texto usados. A
proposição será que a concepção de leitura adotada, os assuntos
abordados, e os tipos de texto usados podem estar contribuindo para
a não inclusão de candidatos que teriam ou terão direito à cota.
O
vestibular como elemento de não inclusão
O
desenvolvimento de testes de qualquer natureza requer, nas etapas
iniciais, definições como o construto medido, método usado para
coletar dados sobre desempenho no teste, como também o método de
pontuação. No caso de testes desenvolvidos para avaliar a competência
em leitura em inglês como língua estrangeira, definições sobre
concepção de leitura, assuntos a serem abordados e tipos de textos
usados devem fazer parte das definições iniciais, sempre com
justificativas teóricas para tal.
Dentro
da noção atual de validade, exposta por MESSICK (1989), e
reelaborada como utilidade de um teste por BACHMAN e PALMER (1996),
existe claramente uma preocupação com as conseqüências do uso de
testes, seu impacto individual e social. Um teste será mais defensável
se possibilitar ações com maior grau de validade, neste caso, de
adequação às conseqüências pretendidas. Como conseqüências
pretendidas, um teste deve ser capaz de discriminar aqueles com alto
grau daqueles com baixo grau da competência relevante. Qualquer
discriminação com base em fatores irrelevantes levará a ações
com menor grau de validade.
Parece
ser possível argumentar que as características da prova de inglês
do vestibular da Unicamp possam estar levando à discriminação
baseada não somente em diferentes níveis da competência
relevante, mas em diferenças culturais e sociais, que deveriam ser
consideradas irrelevantes. Tomemos para análise os 3 pontos
seguintes: concepção de leitura adotada, assuntos abordados, e
tipos de textos usados.
SCARAMUCCI
(2002) apresenta a concepção de leitura adotada nas provas de inglês
do vestibular “como um processo ativo de construção de
significado, o qual requer um leitor ativo, que seja capaz de usar
conhecimento prévio para interagir com os textos” (p. 66), que
pode ser considerada como uma concepção mais atual. Em sua
pesquisa com 3 professoras, uma de escola pública, uma de escola
particular de classe média-alta, e uma de curso particular preparatório
para vestibular (cursinho), a autora conclui que o efeito retroativo
da concepção de leitura adotada pelo próprio vestibular da
Unicamp foi mínimo em relação às três professoras, e foi o
menor no caso da professora de escola pública.
Assim,
a concepção de leitura mais distante daquela adotada pelo
vestibular da Unicamp é a concepção da professora da escola pública.
Apesar de a autora considerar condições externas, por exemplo
condições de trabalho, como fatores determinantes da maior distância,
ela considera, também, fatores internos como crenças pessoais e
experiência educacional. Cabe aqui a indagação sobre o por quê a
professora de escola púbica estava abandonada a uma concepção
antiga de leitura que está somente reproduzindo a exclusão, como
também indagar o por quê a mesma universidade não está cumprindo
seu papel social de cooperar para a superação das desigualdades
sociais. Parece haver no quesito concepção de leitura sinais de
exclusão.
No
que diz respeito aos assuntos abordados, cabem indagações sobre o
leitor ativo, sobre as habilidades superiores mencionadas no manual
do candidato, e sobre as respostas corretas. O leitor ativo, como
exigido pelo vestibular, é aquele que é capaz de usar seu
conhecimento prévio para interagir com o texto. Neste caso, é
simples argumentar que conhecer o assunto abordado permite melhor
desempenho no teste. O contrário também é verdadeiro: não
conhecer o assunto pode não permitir bom desempenho.
Habilidades
superiores de pensar, estabelecer correlações, desenvolver hipóteses,
como descritas nos manuais do candidato, e confirmadas por
SCARAMUCCI (2002) serem o objetivo do vestibular, são dependentes
de conhecimento. Os modelos explicativos do processo de compreensão
aceitos atualmente, como também as pesquisas desenvolvidas na área,
mostram que conhecimento anterior, de mundo e de assunto, é um
fator determinante para a uso de habilidades superiores envolvidas
na leitura de um texto.
As
habilidades superiores descritas por GAGNE et al (1993), diretamente
influenciadas pelo conhecimento, são aquelas que envolvem processos
de inferências: integração de informações relacionadas
apresentadas no nível da sentença ou do parágrafo, como também
no nível do discurso; sumarização do texto e estabelecimento das
idéias principais; e elaboração, processo que permite estabelecer
relações entre textos, entre conhecimentos. Assim, ter o
conhecimento do assunto tratado pelo texto é fator determinante
para o uso de habilidades superiores como aquelas requeridas no
manual do candidato. Quem escolhe os assuntos tratados nos textos? A
qual classe social interessa os assuntos escolhidos?
Ainda
decorrente desta reflexão, podemos indagar: se compreensão está,
como mostram os modelos explicativos atuais, diretamente relacionada
ao tipo e quantidade de conhecimento do assunto tratado, quem tem a
compreensão correta? Ou melhor, é possível haver compreensão
correta? Estas indagações são pertinentes em particular em relação
ao vestibular analisado, visto que questões abertas são usadas
para avaliar os candidatos. Considerar incorretas respostas
fornecidas a questões abertas implica necessariamente assumir que
os elaboradores e corretores
têm a compreensão correta, o que pode ser um equivoco. Eles têm,
sim, uma compreensão com elementos mais individuais e mais sociais,
assim, uma compreensão de uma classe. Parece haver no quesito
assunto abordado também sinais de exclusão.
No
que diz respeito ao tipo de texto, o vestibular analisado adota
tanto o tipo mais expositivo, com função predominante de informar,
como também textos mais literários (poemas), com funções mais
estéticas.
Textos expositivos informativos são normalmente caracterizados por
linguagem formal, grande uso de elementos coesivos, clareza de
exposição, redundâncias necessárias, de tal forma a possibilitar
sua compreensão e restringir sua interpretação e, assim, melhorar sua
inteligibilidade.
Por
outro lado, textos como poemas são mais caracterizados por sua
abertura à interpretação, como também são letras de músicas.
Quanto mais aberto um texto, maior a contribuição do conhecimento
de mundo e do assunto para sua interpretação. Assim, candidatos
com diferentes conhecimentos de mundo poderão ter diferentes
interpretações, mais associadas às suas culturas e classes
sociais. Considerando que as respostas consideradas corretas são
definidas por elaboradores e corretores
oriundos de uma classe mais intelectualizada, as interpretações
alternativas vindas de candidatos de uma classe distinta podem ser
consideradas incorretas. Parece haver também no quesito escolha de
textos sinais de exclusão.
Conclusão
Seguindo
a noção atual de validade, conseqüências do uso de testes devem
ser consideradas para sua investigação. Um teste terá suas ações
de pontuação, aprovação e reprovação com maior grau de
validade se estiverem de acordo com as conseqüências previstas. Um
dos objetivos principais de um teste é discriminar entre aqueles
que têm daqueles que não têm a(s) habilidade(s) relevante(s). Será
possível a não discriminação por fatores como conhecimento prévio
e características culturais e sociais?
Para maiores
esclarecimentos, ver TUMOLO (2005).
Segundo Scaramucci (2002),
os corretores são professores de inglês e estudantes de graduação
que passam por treinamento e tem discussões sobre “quais
deveriam ser consideradas respostas corretas” (p. 67).
Baseado nas funções da língua
descritas por BACHMAN e PALMER (1996).
Para maiores
esclarecimentos sobre a distinção compreensão e interpretação,
ver TUMOLO (2005).
por
CELSO
HENRIQUE SOUFEN TUMOLO