por CELSO HENRIQUE SOUFEN TUMOLO

Pedagogo pela UNICAMP, Mestre e Doutor em Letras/Inglês pela UFSC, com pesquisa na área de validação em testes. Pesquisador colaborador do IPPSEA e membro do NEL, Núcleo de Estudos em Leitura, UFSC.

 

 

Inclusão Social: o vestibular na contramão

 

Introdução

Nesta época em que muito é falado e noticiado sobre exclusão e inclusão social e mesmo sobre a criação de cotas para permitir o acesso, a universidades, de alunos excluídos, em particular os oriundos da escola pública, como forma de diminuição dessa exclusão, fica a pergunta: quais são os fatores que têm contribuído para a exclusão e que podem contribuir para a não inclusão? 

Este texto tem como objetivo fazer uma reflexão sobre conseqüências de uso de testes, neste caso sobre como o vestibular pode ser um elemento colaborador da exclusão social. A reflexão é baseada nas provas de inglês que compõe o vestibular para ingresso à Unicamp, as quais usam como instrumento de coletada de dados sobre os candidatos perguntas abertas como alternativa a questões de múltipla-escolhas tradicionalmente usadas. Três serão os pontos discutidos: concepção de leitura adotada, assuntos abordados, e tipos de texto usados. A proposição será que a concepção de leitura adotada, os assuntos abordados, e os tipos de texto usados podem estar contribuindo para a não inclusão de candidatos que teriam ou terão direito à cota.

O vestibular como elemento de não inclusão

O desenvolvimento de testes de qualquer natureza requer, nas etapas iniciais, definições como o construto medido, método usado para coletar dados sobre desempenho no teste, como também o método de pontuação. No caso de testes desenvolvidos para avaliar a competência em leitura em inglês como língua estrangeira, definições sobre concepção de leitura, assuntos a serem abordados e tipos de textos usados devem fazer parte das definições iniciais, sempre com justificativas teóricas para tal.

Dentro da noção atual de validade, exposta por MESSICK (1989), e reelaborada como utilidade de um teste por BACHMAN e PALMER (1996), existe claramente uma preocupação com as conseqüências do uso de testes, seu impacto individual e social. Um teste será mais defensável se possibilitar ações com maior grau de validade, neste caso, de adequação às conseqüências pretendidas. Como conseqüências pretendidas, um teste deve ser capaz de discriminar aqueles com alto grau daqueles com baixo grau da competência relevante. Qualquer discriminação com base em fatores irrelevantes levará a ações com menor grau de validade.

Parece ser possível argumentar que as características da prova de inglês do vestibular da Unicamp possam estar levando à discriminação baseada não somente em diferentes níveis da competência relevante, mas em diferenças culturais e sociais, que deveriam ser consideradas irrelevantes. Tomemos para análise os 3 pontos seguintes: concepção de leitura adotada, assuntos abordados, e tipos de textos usados.

SCARAMUCCI (2002) apresenta a concepção de leitura adotada nas provas de inglês do vestibular “como um processo ativo de construção de significado, o qual requer um leitor ativo, que seja capaz de usar conhecimento prévio para interagir com os textos” (p. 66), que pode ser considerada como uma concepção mais atual. Em sua pesquisa com 3 professoras, uma de escola pública, uma de escola particular de classe média-alta, e uma de curso particular preparatório para vestibular (cursinho), a autora conclui que o efeito retroativo da concepção de leitura adotada pelo próprio vestibular da Unicamp foi mínimo em relação às três professoras, e foi o menor no caso da professora de escola pública.

Assim, a concepção de leitura mais distante daquela adotada pelo vestibular da Unicamp é a concepção da professora da escola pública. Apesar de a autora considerar condições externas, por exemplo condições de trabalho, como fatores determinantes da maior distância, ela considera, também, fatores internos como crenças pessoais e experiência educacional. Cabe aqui a indagação sobre o por quê a professora de escola púbica estava abandonada a uma concepção antiga de leitura que está somente reproduzindo a exclusão, como também indagar o por quê a mesma universidade não está cumprindo seu papel social de cooperar para a superação das desigualdades sociais. Parece haver no quesito concepção de leitura sinais de exclusão.

No que diz respeito aos assuntos abordados, cabem indagações sobre o leitor ativo, sobre as habilidades superiores mencionadas no manual do candidato, e sobre as respostas corretas. O leitor ativo, como exigido pelo vestibular, é aquele que é capaz de usar seu conhecimento prévio para interagir com o texto. Neste caso, é simples argumentar que conhecer o assunto abordado permite melhor desempenho no teste. O contrário também é verdadeiro: não conhecer o assunto pode não permitir bom desempenho.

Habilidades superiores de pensar, estabelecer correlações, desenvolver hipóteses, como descritas nos manuais do candidato, e confirmadas por SCARAMUCCI (2002) serem o objetivo do vestibular, são dependentes de conhecimento. Os modelos explicativos do processo de compreensão aceitos atualmente, como também as pesquisas desenvolvidas na área, mostram que conhecimento anterior, de mundo e de assunto, é um fator determinante para a uso de habilidades superiores envolvidas na leitura de um texto[1].

As habilidades superiores descritas por GAGNE et al (1993), diretamente influenciadas pelo conhecimento, são aquelas que envolvem processos de inferências: integração de informações relacionadas apresentadas no nível da sentença ou do parágrafo, como também no nível do discurso; sumarização do texto e estabelecimento das idéias principais; e elaboração, processo que permite estabelecer relações entre textos, entre conhecimentos. Assim, ter o conhecimento do assunto tratado pelo texto é fator determinante para o uso de habilidades superiores como aquelas requeridas no manual do candidato. Quem escolhe os assuntos tratados nos textos? A qual classe social interessa os assuntos escolhidos?

Ainda decorrente desta reflexão, podemos indagar: se compreensão está, como mostram os modelos explicativos atuais, diretamente relacionada ao tipo e quantidade de conhecimento do assunto tratado, quem tem a compreensão correta? Ou melhor, é possível haver compreensão correta? Estas indagações são pertinentes em particular em relação ao vestibular analisado, visto que questões abertas são usadas para avaliar os candidatos. Considerar incorretas respostas fornecidas a questões abertas implica necessariamente assumir que os elaboradores e corretores[2] têm a compreensão correta, o que pode ser um equivoco. Eles têm, sim, uma compreensão com elementos mais individuais e mais sociais, assim, uma compreensão de uma classe. Parece haver no quesito assunto abordado também sinais de exclusão.

No que diz respeito ao tipo de texto, o vestibular analisado adota tanto o tipo mais expositivo, com função predominante de informar, como também textos mais literários (poemas), com funções mais estéticas[3]. Textos expositivos informativos são normalmente caracterizados por linguagem formal, grande uso de elementos coesivos, clareza de exposição, redundâncias necessárias, de tal forma a possibilitar sua compreensão e restringir sua interpretação[4] e, assim, melhorar sua inteligibilidade.

Por outro lado, textos como poemas são mais caracterizados por sua abertura à interpretação, como também são letras de músicas. Quanto mais aberto um texto, maior a contribuição do conhecimento de mundo e do assunto para sua interpretação. Assim, candidatos com diferentes conhecimentos de mundo poderão ter diferentes interpretações, mais associadas às suas culturas e classes sociais. Considerando que as respostas consideradas corretas são definidas por elaboradores e corretores1 oriundos de uma classe mais intelectualizada, as interpretações alternativas vindas de candidatos de uma classe distinta podem ser consideradas incorretas. Parece haver também no quesito escolha de textos sinais de exclusão.

Conclusão

Seguindo a noção atual de validade, conseqüências do uso de testes devem ser consideradas para sua investigação. Um teste terá suas ações de pontuação, aprovação e reprovação com maior grau de validade se estiverem de acordo com as conseqüências previstas. Um dos objetivos principais de um teste é discriminar entre aqueles que têm daqueles que não têm a(s) habilidade(s) relevante(s). Será possível a não discriminação por fatores como conhecimento prévio e características culturais e sociais?

 

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[1] Para maiores esclarecimentos, ver TUMOLO (2005).

[2] Segundo Scaramucci (2002), os corretores são professores de inglês e estudantes de graduação que passam por treinamento e tem discussões sobre “quais deveriam ser consideradas respostas corretas” (p. 67).

[3] Baseado nas funções da língua descritas por BACHMAN e PALMER (1996).

[4] Para maiores esclarecimentos sobre a distinção compreensão e interpretação, ver TUMOLO (2005).

 

por CELSO HENRIQUE SOUFEN TUMOLO

 

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Bibliografia

BACHMAN, L.; PALMER, A. Language Testing in Practice. Oxford, UK: Oxford University Press, 1996.

GAGNÉ, E; YEKOVICH, C.; YEKOVICH, F. The Cognitive Psychology of School Learning. New York: Harper Collins College Publishers, 1993.

Scaramucci, M. Entrance Examinations and TEFL in Brazil: A case study. In: Revista Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 2 n. 1, 2002.

MESSICK, S. Validity. In: Linn, R. J. (ed.). Educational Measurement. Third Edition. New York: ACE/MacMillan, 1989, p. 13-103.

TUMOLO, C.H.S. Assessement of Reading in English as a Foreign Language: Investigating the defensibility of test items. Tese (doutorado em Letras/Inglês e Literatura Correspondente) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, 2005.

 

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