Um
retrato da Bolívia
É
cedo na grande La Paz. Devagar, os pequenos comerciantes de rua começam
a abrir suas caixas de lata, onde guardam as mercadorias durante a
noite. O frio dos Andes é cortante nas primeiras horas da manhã,
mas, depois, o sol vai aquecendo a vida, embora as mulheres autóctones
permaneçam com seus longos xales de pura alpaca. Dê o tempo que dê,
elas não mudam a indumentária. Saias rodadas, que aumentam as
ancas – símbolo da fertilidade e da beleza originária - chapéu
preto e mantos de lã. E
são elas, na maioria das vezes, as que garantem o sustento da casa
com o trabalho no mercado informal. Muitas vieram do interior do país
buscando vida melhor. “A gente não tem terra e lá não tem
trabalho”, dizem. Ali, nas ruas, pelo menos conseguem dar jeito na
comida dos filhos.
O
trabalho informal na Bolívia não é tão visível quanto na
Venezuela. Em La Paz, se concentra nas imediações da igreja de San
Francisco, onde também está o mercado de artesanato. Também é
possível se ver algumas bancas ao longo do Prado, uma larga e longa
avenida que corta a cidade, ou em determinados pontos nos bairros
mais pobres. Mas, no centro histórico da cidade, como na região da
Praça Murillo, quase não se apresentam os ambulantes. O que se vê
– e é curioso – são pessoas sentadas em frente a velhas máquinas
de escrever. Elas fazem o serviço de preenchimento de guias, ofícios
e até escritura de cartas.
Pela
rua do comércio, que é uma espécie de calçadão central, a
cidade fervilha. A gente da chamada nova Bolívia observa o governo
Evo Morales com muitas reservas. E não é sem motivo. Porque,
afinal, ao longo de toda a vida republicana deste povo, muitos foram
os que se elegeram dizendo que iam mudar a vida de todos. Também
muitos foram os tiranos, mas não houve um que não fosse lançado
fora quando necessário. As gentes sempre souberam quando era hora
de se rebelar e virar o jogo. Foi o que aconteceu agora, na história
recente, em 2004, na caída de Sánchez de Lozada.
Por isso, entre os mais pobres, não se vê aquele fervor
como o que se observa na Venezuela de Chávez. Os bolivianos são
mais céticos. “Está indo bem até agora”, diz a vendedora de
chicha morada – uma bebida típica feita de milho – Marisol
Oblitas. Abrigada do sol do meio-dia numa tenda de plástico onde
oferece seu produto, ela analisa o governo de Evo com a perspicácia
de quem é letrada em coisas de estado. “A gente vê que ele tem
boa vontade, mas está muito mal assessorado. A gente sabe que não
é do dia para a noite que se muda um país, por isso estamos vendo
onde isso vai dar. Penso que o presidente precisa dar mais atenção
para a questão do emprego. Tem muita gente indo embora da Bolívia
porque não tem como trabalhar. Eu mesmo gostaria de ter um emprego
fixo e não ficar aqui vendendo chicha. Vamos ver como vai ficar”.
Marisol
sabe o que diz. Em frente ao setor que libera passaportes a fila é
imensa. Centenas de pessoas deixam o país a cada dia. E não é só
agora durante o governo de Evo. Faz muito tempo que é assim. A
migração é um fenômeno em toda a América Latina. Em alguns países,
e a Bolívia está nesse rol, são os migrantes os responsáveis por
grande parte do dinheiro que circula. É que, dos países onde
buscam abrigo, eles enviam dólares para os parentes que ficaram e,
a partir deles, fazem girar a economia nacional. “Eu não tenho
onde trabalhar. Preciso crescer, ser alguém”, diz a bonita aymara
de 25 anos, Luiza Huilka, na fila há três dias esperando o
passaporte. Quer arriscar a vida na Espanha, que é para onde vão
centenas de bolivianos todos os anos. Ela acredita que Evo Morales
vai fazer mais pelo povo. “Ele é um de nós”, diz. Mas, ainda
assim, não pretende ficar para ver.
A
nacionalização do gás
É
segunda-feira, dia 30 de novembro de 2006. Nada nas ruas diz da
revolução que acontece no interior dos centros de poder
bolivianos. Só os jornais gritam a manchete em letras garrafais.
“Fechado o acordo com as petroleiras”. Depois de várias semanas
de completo terrorismo midiático, no qual as grandes redes e
jornais falavam de uma fuga em massa das empresas petroleiras da Bolívia,
o governo logra um acordo histórico. As doze empresas estrangeiras
que exploram o gás no país e que vinham fazendo declarações bombásticas
sobre juízos na justiça, indenizações milionárias por quebra de
contrato etc.., cordialmente assinam novos contratos em que a parte
do leão da exploração e comercialização do gás fica com o
Estado boliviano. Não há fugas, nem processos. A oposição se
obriga a declarar que o acordo é mesmo muito bom para a Bolívia
que vai ficar com quase 85% da renda do gás. As vozes que antes
vociferavam contra o “autoritarismo” do governo boliviano, se
calam diante do pacífico acordo. Evo Morales fala à nação
dizendo que agora não haverá mais cláusulas de confidencialidade
nos contratos, o que significa que todo mundo vai poder saber o que
dizem as “letras pequenas”.
Aqueles
que até então se faziam donos dos recursos naturais da Bolívia,
passam a condição de sócios. É outra relação. Há muito para
avançar, diz Morales, mas vai ser pouco a pouco. Mais de um bilhão
de dólares devem ser investidos no setor e o governo já pensa até
em discutir um projeto de industrialização, buscando oferecer mais
empregos para o povo. “Essa era a promessa principal da campanha
do Evo. Por isso derrubamos Lozada. Por isso votamos por uma nova
Bolívia”, diz um militante mais exaltado na Praça Murillo. Ele
é um dos que tem muita esperança de que as coisas realmente mudem.
“A Bolívia é um país riquíssimo em prata, estanho e gás.
Temos recursos e a gente é miserável. Isso precisa mudar. Penso
que o presidente vai fazer a riqueza da Bolívia se estender para
todos”.
Dentre
todas as petroleiras a que mais relutou em aceitar o acordo foi a
Petrobrás, que leva o selo do Brasil, embora grande parte da
empresa já não esteja mais no controle do governo brasileiro. Na
verdade, ela se comporta, na Bolívia, como uma típica
transnacional e talvez por isso seja tão antipatizada pela população.
Não é à toa que, agora, a empresa está realizando uma campanha
massiva de mídia, mostrando os projetos sociais que desenvolve na
Bolívia. Ainda assim, fechado o acordo, as informações são
desencontradas. O governo boliviano insiste em dizer que a Petrobrás
vai prestar serviços ao país, já a empresa afirma que isso não
está em questão, mantendo uma posição arrogante, apesar de ter
capitulado ao acordo. Resta ao Congresso boliviano ratificar todos
os contratos e isso deve ser tranqüilo porque, nem mesmo a mais
ferrenha oposição consegue enxergar furos no acordo. “É bom
para a Bolívia”, dizem os deputados do PODEMOS (partido de oposição).
A
revitalização das minas
E
é nas entranhas da terra que se esconde uma outra batalha. Naqueles
dias de começo de novembro de 2006, na região mineira da Bolívia,
os trabalhadores amanheceram armados. Muitos encheram os bolsos de
dinamite e se dispunham a atos extremos caso o governo decidisse
ocupar as minas, no processo de nacionalização divulgado pelo
presidente. Por incrível que possa parecer, os mineiros estão na
defesa das multi e transnacionais, não querendo permitir que as
minas passem para as mãos do governo. O maior rechaço é dos
mineiros da Mina Porco, a qual era do ex-presidente Sanchez de
Lozada. Como a maioria dos trabalhadores do setor está organizada
em cooperativas – são 56 mil mineiros nessa condição – há o
medo de perder o controle do processo de produção, daí a relutância
em aceitar uma parceria com o governo. “Se todos passam a ser
trabalhadores públicos, isso significa o fim das cooperativas”,
dizem.
Em
função da crise que se avizinhava e buscando evitar novos
conflitos como o da região de Huanuni, onde em outubro deste ano vários
trabalhadores acabaram mortos no confronto entre mineiros
assalariados e cooperativados, o governo de Evo Morales decidiu
adiar o processo de nacionalização das minas. Assim, enquanto
todos esperavam que, fortalecido pela vitória diante das
petroleiras, ele anunciasse a decisão, o que aconteceu foi o anúncio
do que o presidente chamou de “revitalização do setor”. A
primeira medida foi a reativação da COMIBOL (Corporación Minera
de Bolívia) e é a partir dela que serão contratados os
trabalhadores para a extração do estanho das minas de Huanuni. Já
no dia primeiro de novembro, o governo anunciava o fechamento de
acordo com várias cooperativas e o investimento de 10 bilhões de dólares
no setor. No lado dos assalariados houve aprovação. Segundo o
presidente da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores em Minas
da Bolívia, Próspero Mamani, esta foi a melhor decisão, pois
garante salário digno aos trabalhadores e evita o confronto
desnecessário. “De qualquer forma estaremos vigilantes para que
os recursos naturais do país sigam administrados pelo Estado”.
É na região de Huanuni que está uma das maiores reservas
de estanho do mundo.
Agora,
diz Evo Morales, a prioridade vai ser para o fechamento definitivo
dos acordos do gás. A questão das minas vai ficar para mais tarde
e todo o processo vai se amparar em quatro pilares: A COMIBOL, do
Estado; as Cooperativas que reúnem mais de 56 mil mineiros, a
Associação dos Mineiros Medianos e a Câmara Nacional da Mineria,
estas duas reunindo um número menor de trabalhadores. A idéia é
trabalhar com a normatização do setor no que diz respeito à extração,
transporte e tributação que, segundo o ministro Guillermo Dalence,
“está uma bagunça”.
A
política de assistência
A
propaganda da televisão dá conta das mudanças na política
boliviana. Um menino, indígena, caminha por entre os enormes prédios
coloniais do centro de poder de La Paz. Ele olha, extasiado, as
enormes construções. Logo, passa pela porta do palácio
presidencial. Vai entrando, sem que ninguém o detenha. O seu olhar
é de assombro e encantamento. Ele perscruta as paredes, os quadros,
vai entrando a passos lentos. A câmera mostra os pés pequenos, calçados
com um chinelo velho. O bonezinho na cabeça, meio virado, dá um ar
de picardia. Então, ele abre lentamente uma porta e espia. Lá
dentro está o presidente Evo Morales em sua mesa de trabalho. O
homem sorri e o chama para sentar em frente a ele. Então, sentados,
o pequeno aymara e o presidente estabelecem uma conversa alegre e
fraterna. “Evo promete, Evo cumpre, Bolívia Cambia”, fecha o
institucional.
É
assim que o governo boliviano mostra o início do projeto
“Juancito Pinto”, uma espécie de bolsa-escola. A partir de
agora, todo garoto ou garota que esteja cursando da primeira até a
quinta série do ensino fundamental terá direito a 200 bolivianos,
o equivalente a 30 dólares. Com isso, pretende o governo, vai ser
possível manter as crianças na escola. Para Juana Rodriguez, que
tem três filhos na escola e mora no bairro Chamoco Chico, esse
dinheiro é uma benção. “Agora vamos ter dinheiro para comprar o
material escolar e também para comer”. Segundo Evo Morales, este
projeto se configura como uma medida de emergência. “Com a
entrada de recursos da nacionalização do gás e a revitalização
do setor mineiro a Bolívia vai poder desenvolver sua indústria e
isso significa trabalho. As medidas assistenciais caminham junto com
as estruturais”. Para Mário Duran, morador da cidade de El Alto,
o “juancito” é só um salva-vidas. “Não podemos ser
rentistas, viver do dinheiro do Estado. O governo tem que gerar
emprego”.
Os
pontos de estrangulamento
Mas
nem todas as notícias são boas. No dia três de novembro os
jornais de La Paz anunciaram a ida de uma tropa de soldados
bolivianos para o Haiti, participar da chamada “força de paz”.
O tom do discurso midiático era o mesmo que foi usado no Brasil.
Embarcavam os bolivianos para ajudar os haitianos. Mas, sabe-se
muito bem a quem servem as forças militares no país de Toussaint
Louverture: aos interesses estadunidenses que ficam se escorando nos
“países gerentes”, para evitar mais desgaste do que o que vive
no Iraque. Foram as forças estadunidenses que desestabilizaram o
Haiti, agora usam os “exércitos amigos” para fazer o serviço
sujo. Na Bolívia, nenhuma voz se ergueu para condenar a decisão.
Além
disso, na mesma semana, o embaixador estadunidense, Filip Golbert,
saiu-se com a proposta de trazer para a Bolívia uma tropa de
marines para realizar “serviços comunitários”. Segundo ele, as
negociações já estariam adiantadas e também estaria prevista a
construção de uma base militar no país. Mas, ao contrário do
envio das tropas para o Haiti, essa notícia rendeu confusão.
Dirigentes ligados ao partido de Evo Morales, Movimiento
al Socialismo, logo deram entrevistas dizendo que aquilo era
impensável. “Isso não se justifica politicamente, nem
ideologicamente”, dizia o deputado Javier Zabaleta, do MAS.
Por outro lado, fontes ligadas ao governo admitiam que, há
tempos, os governos bolivianos têm aceitado recursos dos EUA para o
que chamam de campanha anti-drogas. Só no ano passado foram mais de
90 milhões de dólares.
A
coca como fronteira frágil
Este
é um tema bastante polêmico na Bolívia. Com uma maioria de população
autóctone que faz o uso regular da folha, o assunto coca não tem
como ficar de fora das preocupações do governo. No dia da sua
posse, o presidente – que foi dirigente cocaleiro – deixou bem
claro aos plantadores da folha sagrada que esta é uma cultura a ser
respeitada. “Não haverá a coca zero”, insistiu, referindo-se
ao desejo dos estadunidenses de que ninguém mais pudesse plantar a
folha na Bolívia. Mas, fez um acordo com os agricultores. Cada
plantador terá direito apenas ao “cato de coca”, ou seja, uma
área de 40x40 metros. Nada mais que isso. Com essa extensão
ficaria caracterizado o uso para o consumo próprio. Não há quem não
masque a coca na Bolívia, até porque, a folha, além de ser
sagrada, serve para enganar a fome e ajuda as pessoas a suportarem a
altura.
Nas
regiões da Yunga e Chapare, onde se concentra o plantio, fala-se em
mais de 27 mil hectares de plantação, embora o chamado cultivo
legal só seja permitido até 13 mil hectares. O certo é que há
muitos agricultores que ficaram fora do acordo e não aceitam
plantar apenas o cato de 40x40. Não é à toa que pela região
andam as ditas forças anti-drogas e muitos conflitos já se
registraram, inclusive o seqüestro de um vice- ministro - que durou
um mês - pelos cocaleiros que não fazem parte da Federação. Isso
mostra o quanto a política da coca ainda não está solidificada e
segue apresentando muitos conflitos nas duas regiões.
Não
é sem razão que as notícias de uma base militar e tropas
estadunidenses despertem um aviso de alerta. A tal base seria
consolidada no espaço de plantio da coca e os “trabalhos comunitários”
também. Para quem acompanha o processo de intervenção
estadunidense na Colômbia – sob o argumento de combate ao narcotráfico
– fica fácil reconhecer na oferta “humanitária”, a conhecida
“guerra de baixa intensidade” que o governo dos Estados Unidos
promove na região. Por conta de uma invenção que não saiu da
cabeça do povo originário, agora, declara-se a guerra ao plantio
da coca. “Não foram os indígenas que inventaram a cocaína. A
folha é sagrada para nós. Isso tem de ser respeitado”, dizem os
cocaleiros.
Nos
corredores palacianos fala-se a boca pequena que há uma espécie de
acordo entre a mídia, o governo e as transnacionais – onde se
incluem então os interesses estadunidenses - e que esse acordo se
expressa nos projetos via USAID, a Agência Internacional de
Desenvolvimento dos Estados Unidos. Esse braço econômico e político
se espraia a partir de projetos ligados a Organizações Não-Governamentais,
sobre os quais os governo não tem controle. A ação das ONGs
financiadas com dinheiro estadunidense é um ponto frágil deste
mapa de poder na Bolívia. Tampouco é por acaso que esses projetos
se concentrem nas regiões cocaleiras e na cidade de El Alto, espaço
primeiro da rebeldia boliviana. Não vai ser fácil para o governo
boliviano manejar esse tabuleiro.
A
terra madre
Além
dos problemas relacionados ao plantio da coca, o governo de Evo
Morales enfrenta outra frente de luta e reivindicação. São os
pequenos e médios camponeses que batalham por mudanças na Lei de
Terras, que já leva 10 anos e não se cumpriu. Esta lei permitia
sanear as terras agricultáveis, mas, passado todo esse tempo,
sequer 15% conseguiu ficar pronta para produzir. O maior problema se
concentra no ocidente boliviano, visto que no oriente abundam os
latifúndios da soja. Praticamente mais de 60% das terras estão com
a monocultura e é grande a presença de fazendeiros brasileiros.
Algumas línguas afiadas do setor intelectual boliviano acusam o
vice- presidente Álvaro Garcia de manter “boas relações” com
os latifundiários enquanto os pequenos
agricultores ficam a ver navios. “Ele funciona como um alvarito-mágico.
Acorda com os grandes”, dizem, aludindo à figura de uma varinha-mágica
que tudo apascenta.
O
certo é que a tradição de luta do povo boliviano se expressa
muito rapidamente, para além das vontades governamentais. Assim,
reivindicando mudanças na lei, exigindo expropriações, distribuição
de terra e investimento para os pequenos produtores, centenas de
camponeses saíram em marcha desde Santa Cruz de la Sierra até La
Paz. Devem chegar ao centro do poder político – o Congresso –
no início de dezembro e exigem que os deputados tomem uma posição.
A oposição, caracterizada pelo PODEMOS, acusa o governo de estar
promovendo a marcha. Mas, na verdade, esta é mais uma ação autônoma,
de franca rebeldia, das gentes da Bolívia, sempre dispostas à luta
pelo que consideram os seus direitos.
E lá, no ocidente, a terra é um valor inestimável. Vencer
a monocultura, garantir o abastecimento interno e gerar empregos no
campo faz parte das promessas do MAS. Agora é ver como se comporta
mais essa queda de braço. O povo não fica passivo e tampouco está
cooptado. Como já vimos lá no início da reportagem, a posição
diante do governo é de uma cética esperança. “Se não faz o que
prometeu, derrubamos”, dizem os trabalhadores.
A
constituinte re-fundando a nação
Enquanto
todos esses pontos de tensão vão se fazendo e desfazendo ao longo
dos quase nove meses de governo, na cidade de Sucre, capital
institucional, uma outra batalha política, igualmente titânica, se
faz. É o trabalho da Assembléia Nacional Constituinte, chamada
para “re-fundar o país”. Apesar de o Movimiento
al Socialismo (MAS) ter a maioria dos constituintes, a oposição
tem feito seus estragos. Cenas de agressão já foram protagonizadas
e expressões visíveis de racismo também apareceram. Tudo isso
porque na conformação da Assembléia, a maioria é de povo originário,
trabalhadores, lutadores sociais e afro-descendentes, gente que, até
então, não tinha tido a chance de estar numa posição como essa.
Por
conta destes conflitos muito pouco dos trabalhos conseguiu avançar.
Na última semana a batalha foi pela formação de comissões temáticas.
Até agora, os constituintes já deliberaram por quatro grandes cenários
de discussão: Os princípios e valores constitucionais, direitos e
garantias; o Estado, sistema de governo e reformas políticas; a
organização territorial e autonomias e o modelo de
desenvolvimento. Mas, apesar de deliberados os temas, quase nada
caminhou.
O
fato é que não vai ser fácil mudar a cara do país, embora a
participação popular seja firme e intensa. São muitos os atores
sociais em disputa. O primeiro deles são os partidos, organizações
políticas, e o Estado. Depois, aparece o grupo das organizações
corporativas, setoriais e movimentos sociais. O terceiro grupo é o
das Organizações Não-Governamentais, intelectuais e propostas
particulares. Cada um desses setores tem apresentado propostas e
tudo isso precisa ser sistematizado e discutido. A idéia é fechar
os trabalhos em um ano, mas pode ser que ultrapasse o prazo.
Entre
os deputados constituintes – na maioria
- se percebe a grande vontade de mudar a forma como o Estado
se organiza, dando-lhe uma cara popular e participativa. Mas, também
é possível perceber uma certa fragilidade no que diz respeito a um
projeto global de nação. Cada deputado, eleito pelas comunidades
ou grupos sociais, tem suas demandas específicas e vai ser necessário
muito trabalho político para articular todas essas necessidades.
Re-fundar a Bolívia como uma república livre, soberana e
inter-cultural, baseada na autodeterminação de seus povos vai ser
uma tarefa gigantesca, num país ainda muito marcado pelo
preconceito e pelo racismo.
Os
desafios para o futuro
Estes
são apenas alguns dos aspectos de uma “mirada” sobre a nova Bolívia.
Há muito caminho para percorrer. Reorganizar a polícia e o exército
sob novas bases, por exemplo, já que a formação do aparato
militar é toda baseada na Escola das Américas. O poder judiciário,
que ainda está na mão de uma maioria conservadora, fruto do
passado, também precisaria de mudanças reais. Outro tema em pauta
– e bastante polêmico – é o processo de racialização da política.
Declarações racistas – de ambos os lados – estão se tornando
comuns e isso pode provocar uma divisão perigosa. “Há que se
pensar em construir uma nação para todos, sem que haja uma guerra
étnica”, diz Mário Duran, morador de El Alto.
Assim
vai caminhando a Bolívia, entre avanços e recuos. E, com ela, vai
boa parte da esperança de uma Abya Yala verdadeiramente soberana,
onde o povo autóctone e os novos filhos da terra possam viver em
harmonia.
por ELAINE TAVARES