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por
FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA
Doutor
em História Social pela Universidade de Berlin/UFF (1990) e Pós-doutor
pela Universidade Técnica de Berlin/USP (1999) . É Professor
Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Rio
Madeira Urgente
Recentemente
foram realizadas em Jaci-Paraná e Porto Velho as audiências públicas
para debater a viabilidade das hidrelétricas do Madeira, duas
usinas com capacidade de 6500 MW. Citado pelos principais candidatos
na campanha presidencial, o projeto é indispensável para evitar o
estrangulamento energético do país e para incrementar as condições
de vida na Amazônia. Em adição, não há alternativa para atender
a demanda projetada por energia, sobretudo porque a
termoeletricidade é mais cara, mais poluente, causa dependência
tecnológica e, paradoxalmente, de combustível para gerar energia.
E, para o crescimento econômico, os investimentos devem ser feitos
agora.
O
projeto terá impactos ambientais, embora sua concepção inove na
redução de tais efeitos, com turbinas do tipo bulbo, já
utilizadas na Europa e no Japão, que permitem reservatórios a fio
d`água, pouco superiores à calha do rio quando da cheia, além de
um sistema de transposição de peixes que simula as condições
naturais hoje existentes. Destaca-se, por isso, a discussão democrática
com a sociedade e a tecnologia nacional que permite que os impactos
sócio-ambientais do projeto se restrinjam Brasil, ao contrário do
que têm propalado ONGs financiadas e sediadas no exterior, que
tentam transferir as decisões do projeto para o âmbito do Direito
Internacional, onde podem acobertar formas de coerção exercidas
através de redes comunicacionais transfronteiriças, visando
influenciar “formadores de opinião” dos espaços nacional e
internacional.
As
audiências públicas giraram em torno dos erros e injustiças do
passado. O MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, atuante
entidade de protesto contra a arrogância burocrática – é o
produto político do passivo existente. E assim, em Jaci-Paraná ou
em Porto Velho, o que se viu foi uma vitória dos movimentos
sociais: tornou-se a ação do Estado presente e cuidadosa,
obrigando-o a ouvi-los. A situação não é diferente para os
empresários. Por isso, o debate deve focalizar o futuro. Caso
queiram ser parceiros do desenvolvido nacional e da valorização da
Amazônia, deverão levar em conta as suas especificidades. Para
estes, a questão é transformar o Projeto Madeira em um paradigma
do desenvolvimento auto-sustentado.
Algumas
tendências emergiram do debate:
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não
é possível repetir o passado: não há espaço político e
social para mais erros, que não serão tolerados num país
democrático e onde o movimento social é organizado e
vigilante. Assim, os esforços técnicos do projeto deverão dar
conta do conjunto das demandas sócio-ambientais, em uma
parceria com as diferentes esferas do poder público.
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não
é possível a imposição de papéis ou identidades culturais
ao “outro”: o projeto de futuro de cada um será decidido
pela população local, com tanto direito ao uso dos recursos
naturais do país quanto possui um paulista, pois não é aceitável
a imposição de cidadanias diferenciadas aos brasileiros em
nome da preservação ambiental: todos possuem os mesmos
direitos, incluindo-se aí o direito a empregos dignos e bem
remunerados;
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não
é possível transferir a esfera decisória do projeto para o âmbito
do Direito Internacional, no qual atores exógenos ao interesse
nacional possam “intervir em nome do bem comum”, subtraindo
tais decisões do âmbito do direito do Estado brasileiro,
responsável pelo bem-estar do povo de Rondônia e pela segurança
energética do Brasil.
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não
é possível aceitar a mal-intencionada tentativa de fazer do
projeto uma espécie de “novo contencioso” da relação
bilateral Brasil-Bolívia, uma vez que não há impactos naquele
país. Nestas condições é de se esperar que, assim como o
Brasil respeitou a decisão soberana da Bolívia quando da
nacionalização das suas reservas de hidrocarbonetos, a Bolívia
também respeite a soberania brasileira quando do
desenvolvimento do Projeto Madeira, não cedendo a um jogo de
ingerências veladas que tende somente a gerar vulnerabilidades
na região.
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não
é possível ceder ao discurso que prega a lógica da “redoma
sobre a Amazônia”, cujo objetivo é controlar os estoques de
natureza pertencentes ao espaço nacional – encarados como
reservas internacionais de recursos energéticos e relacionados
à biodiversidade, poupança para o uso futuro da
“humanidade” – mas cuja conseqüência real é a perpetuação
de uma dinâmica de degradação há muito implantada na região.
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Derrotados
em impedir as audiências, entidades descompromissadas com a população
e com o desenvolvimento do Brasil insistem em impor aqui uma velha e
falsa oposição – típica de países de alto IDH, cujas populações
vivem da predação dos recursos naturais do planeta – entre
agenda social e agenda ambiental. Não podemos cair na armadilha de
abrir mão do bem-estar de milhões de cidadãos brasileiros em nome
de um consumo incomensurável das elites ricas do planeta.
O desafio possível – para o Estado, para os empresários e
para o movimento social autônomo – é alinhar a questão social e
a questão ambiental, no âmbito da agenda do Estado-Nação.
por
FRANCISCO
CARLOS TEIXEIRA DA SILVA
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