por RUDÁ RICCI

Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais. Coordenador do Instituto Cultiva, Professor da  Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/Brasil e e membro do Fórum Brasil do Orçamento

 

 

 

 

Eleições 2006

A queda dos velhos caciques ou a emergência de uma nova regionalização no país (II)

 

O futuro tem um coração antigo

Carlo Levi

 

O Brasil arcaico é parte integral do Brasil moderno

Kátia Mendonça

 

  1. Os grotões e o mundo visível da política brasileira

Numa entrevista polêmica concedida à revista Carta Capital (n. 420, 22 de novembro de 2006), Otávio Velho tentou explicar os efeitos do processo eleitoral de 2006 com uma afirmação de efeito. Citando a mudança ocorrida no Pará, afirmou

Eu não sei o que está acontecendo em todo o país, mas, é claro, há sempre o risco de alguém tentar utilizar programas, como o Bolsa Família, com finalidade eleitoral. Mas a tendência principal não me parece ser essa. (...) Na medida em que mudou a imagem púbica do que significa ser índio, a identidade deixou de ser escondida. (...) Acho que as pessoas adquiriram um sentimento de dignidade maior. E isso, certamente, não acontece apenas no sul e sudeste do Pará. O povo se sente menos ameaçado. Certamente, a redemocratização, após o fim do regime militar, ajudou a provocar a mudança. Além do mais, há, hoje em dia, mais facilidade de comunicação e mais troca de informação entre eles do que supomos aqui, nas grandes cidades. Essas idéias de que os formadores de opinião é que vão fazer a cabeça dos cidadãos é errada. Elas têm os seus canais que, evidentemente, na maior parte dos casos, não é a internet. (...) Hoje, é a classe média que se sente ameaçada, principalmente pela violência e deterioração das condições de vida nas metrópoles. As pessoas que se sentiam ameaçadas estão se sentindo mais seguras. Os problemas delas persistem. Eles sentem, entretanto, que há mais possibilidades de resistência. OU, como eles dizem, de re-existência. (...) Não há mais pessoas isoladas e desinformadas. (...) Os grotões não existem mais. A nossa elite continua a não respeitar as formas de conhecimento da população, das camadas populares, que têm capacidade de se dar conta dos seus interesses concretos. Em primeiro lugar, existe um saudável ceticismo em relação aos políticos em geral. Isso não surge do nada. É da experiência deles. (...) E, ao lado disso, existe a avaliação concreta de quem, de alguma maneira, é capaz de sintonizar com os interesses deles tal como eles mesmos estão formulando.

Um dos destaques desta passagem de sua entrevista que mais vem custando o teclado de computadores a procura de uma resposta é a da relativa perda de poder dos formadores de opinião. O termo parece até envolto numa contradição. Durante todo o processo eleitoral de 2006, por diversas vezes as pesquisas de opinião revelaram nítida contradição entre a intenção da grande maioria da população pobre e com baixa instrução e os segmentos de classe média com alta instrução ou editoriais de jornais impressos e televisivos. O divórcio chegou a ser grotesco em alguns momentos. O efeito pedra no lago, em que a opinião da classe média e dos formadores clássicos de opinião (jornalistas, publicitários e outras profissões de impacto direto na opinião da grande massa) vai se espraiando entre os segmentos com mais facilidade de acesso aos meios de comunicação e assim sucessivamente, até atingir a base da estrutura social, muitas vezes foi invertido. A televisão continua sendo o principal meio de acesso de massas à informação, sete vezes mais importante que a internet em nosso país: 90,3% da população possuem acesso à televisão aberta, enquanto 13,2% à internet (IBGE, 2005). Este é um dos motivos para o divórcio entre opinião da classe média e as camadas menos abastadas do país.

Mesmo assim, a linha editorial da televisão brasileira segue uma linha de natureza liberal-conservadora, principalmente no que diz respeito à economia. É repisada diariamente a necessidade de cortes nos gastos públicos, a prioridade da agenda de reformas estruturais que limitam o poder estatal, a autonomia do Banco Central. O que parece estranho, então, é que a opinião política desses editoriais não repercutiu no processo eleitoral.

Entretanto, o voto em Lula foi acompanhado pelo voto em novas lideranças regionais, quase que formando novas estruturas de controle político em cada Estado. A renovação nos parlamentos não atingiu o patamar previsto no início do ano, que seria superior a 50%. A abstenção ficou próximo do patamar histórico de 20%, murchando a campanha nacional pelo voto nulo, resposta às denúncias de corrupção no governo federal, uma leitura que ficou nitidamente marcada pela vontade e leitura de uma parte da classe média brasileira.

Enfim, são sinais aparentemente trocados, entre o que Otávio Velho denominou de fim dos grotões, ou a integração nacional e formação de camadas populares com opinião e leitura de mundo próprias, e o aggiornamento do tradicional regionalismo, em detrimento de um projeto nacional, tal como Caio Prado Júnior tantas vezes vaticinou.

O que ocorre, afinal? Ocorre a expressão de uma cultura híbrida. De uma modernidade peculiar, nunca efetivamente realizada. Este é o país da desigualdade e, portanto, da leitura de mundo desencontrada permanentemente, o que faz das pesquisas de opinião, meramente quantitativas, um permanente dilema de interpretação em que o risco de ser devorado pela insegurança e nunca conseguir decifrar o enigma é uma constante.

  1. Explicando Godot

Kátia Mendonça, em seu instigante livro A Salvação pelo Espetáculo: Mito do Herói e Política no Brasil (Topbooks, 2002), sustenta que o Brasil é sempre uma versão de si mesmo. Em suas palavras, é expressão de um país onde a modernidade se processa através de fusões do antigo como novo que colocam por terra a clássica distinção entre sociedades modernas e tradicionais. Esta é a tese de tantos autores latino-americanos, tendo à frente o mexicano Nestor Canclini. Mendonça sugere que a estrutura política estamental se altera em termos de atores, mas as relações políticas continuam qualitativamente as mesmas.

Mas a possibilidade que esta linha analítica sugere é mais profunda do que aparenta. A aparência indica que o Brasil reinventa a roda, é música de uma nota só. Mas não é meramente isto. A conseqüência menos visível é que a visão do outro é sempre marcada pela percepção do diferente como arcaico, segundo a autora, fato que irá mascarar a ligação dialética existente aqui entre os contrários: estruturas políticas formalmente modernas e práticas políticas personalistas, racionalidade econômica e capitalismo politicamente orientado. Uma República mantida sob a sombra da espada, governantes paternais ou profetas, o eterno simbolismo do centro. Collor teria sido a expressão contemporânea mais acabada de um país desencontrado, uma imagem construída nos limites de nossa inusitada modernidade.

Então, o Mito do Salvador se refaz ano a ano. Esta parece ser a chave de explicação dos sinais trocados na política nacional. Os grotões se libertam dos currais eleitorais clássicos, mas reafirmam novos blocos de poder regional, dividindo o país em fatias que não se compõem na construção de um projeto nacional. O Congresso Nacional é expressão física deste mosaico sem alma brasileira, mas que, ao mesmo tempo, é a imagem mais verossímil de um povo que se expressa por um profundo ressentimento em relação ao centro do poder.

Ressentimento ou a indiferença disfarçada parece ser a tônica do voto teclado nas urnas eletrônicas. Um voto na proximidade, no popular mais próximo, mas não na transformação. Um voto no Salvador, mas não na emancipação.

É verdade que um país não visto e mudo, o país dos 27 mil conselhos de gestão participativa, do orçamento participativo, do orçamento participativo mirim, das Escolas da Cidadania, da auto-gestão dos reassentamentos coordenados pelo Movimento de Atingidos por Barragens, e tantas outras experiências de co-gestão ou auto-gestão do país, movimentam uma transformação desta natureza trágica da política nacional. Mas também é verdade que a participação popular é ainda pouco popular.

É assim que podemos explicar um país que votou dramaticamente na derrota de velhos caciques, mas que reafirmou o poder das regiões, tão distintas, na refundação de blocos regionais mais coesos e fortes, dificultando ainda mais a engenharia da governabilidade do Poder Central. O que parece ainda mais impressionante é que esta segmentação regional se reproduz nos próprios Estados. Este é o caso de tantos novos governos, como o de Pernambuco e São Paulo, que se ressentem da falta de unidade. A composição dos novos governos é um jogo de xadrez em que o xeque mate parece mais e mais distante, a cada eleição.

O Brasil, assim, constrói sua alucinante lógica presidencial-parlamentarista, da maneira mais cruel e reveladora de sua imagem real. Um país ao mesmo tempo fortalecido pela formação da forte opinião das populações menos favorecidas (as camadas subalternas de Gramsci), mas que ainda não se descobriu como fonte de real poder político. O Brasil se reconstrói por partes, a passos pequenos.

Otávio Velho, assim, parece precipitado. Os grotões não acabaram por completo. Refizeram-se, em novos termos. Nunca o Brasil foi tão parecido como uma bricolage.

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