|
por
EDUARDO A. WERNECK RIBEIRO
Prof. de Geografia da Uniesp - SP.
Mestre pela UNESP de Pres. Prudente e doutorando em Geografia
pela UFPR
|
|
Arena,
Atores e o SUS na trajetória da gestão de saúde:
o caso de
Presidente Prudente
Apresentação
O
Brasil ainda não tem um modelo de atenção adequado aos problemas
de saúde da população, organizado sob a ótica da universalidade,
eqüidade e integralidade. Os modelos vigentes, na maioria dos municípios,
são curativos e individualizantes, incapazes de dar conta das
complexas necessidades de saúde da população. O objetivo deste
texto, portanto, é apresentar uma reflexão sobre o processo de
democratização da gerência de um sistema local de saúde, aqui
entendida como a habilitação para a gestão plena da saúde
mediante a interlocução efetiva de interesses sócio-políticos
plurais e divergentes.
Para
o desenvolvimento deste texto, foi considerado um episódio na
trajetória da municipalização da saúde em Presidente Prudente,
município da região oeste do interior do Estado de São Paulo, com
uma população aproximada de 200.000 habitantes, economicamente
ligada à pecuária e à prestação de serviços. O episódio
estudado mostra o percurso da crise da saúde em Presidente
Prudente, por meio das notícias publicadas
nos periódicos locais até o momento em que a autoridade municipal
reverteu o processo da municipalização do SUS. Além de evidenciar
a arena de disputa e os principais atores, também será apresentada
a opção feita pelo gestor do sistema de saúde público local em
estudo.
Introdução
ao tema:
A
construção de um modelo de gestão municipal em saúde, que
privilegie uma relação com a sociedade baseada na circulação de
informações, na responsabilidade solidária e no controle social
das ações do governo, exige uma série de mudanças nas práticas
de gestão normalmente adotadas pela tradição política
brasileira. Neste sentido, a Constituição Federal de 1988
consolidou frutos do processo de (re)democratização do Estado e
das lutas dos movimentos sociais dos anos 70/80, os quais criticavam
e se opunham contundentemente ao Estado centralizador, técnico-burocrático,
normativo, excludente, tanto da participação política quanto das
políticas sociais e, em particular, ao sistema de saúde público.
Naquela época, exclusivamente voltado para os trabalhadores do
segmento formal do mercado de trabalho e centrado no diagnóstico
individual e na cura da doença.
Na
Constituição de 1988, a Saúde foi reconhecida como dever do
Estado e direito de cidadania estendido a todos os brasileiros.
Naquele momento político, os atores integrantes do movimento
da Reforma Sanitária propuseram a descentralização político-administrativa
e a democratização do sistema de saúde brasileiro. A partir da
institucionalização do SUS, com a intensa participação daqueles
atores, a democratização da gestão da saúde vem sendo buscada
através de uma “reengenharia” nas relações de poder das três
esferas de governo, calcada em relações recíprocas entre Estado e
Sociedade.
Regulamentada
pela Lei 8.142, de 28 dezembro de 1990, a “participação da
comunidade” dentro do âmbito do Estado está prevista sob a forma
de Conselhos de Saúde, definidos legalmente como instâncias políticas
de caráter permanente e deliberativo, compostos por diferentes
grupos sócio-políticos: governo, prestadores de serviços,
profissionais de saúde e usuários. As diretrizes estruturais deste
processo de reforma, estão formuladas tanto nas leis do SUS quanto
nas normas formuladas pelo Ministério da Saúde (Normas
Operacionais Básicas 01/93 e 01/96): a universalidade do sistema,
com assistência garantida mesmo para aqueles que não estão
inseridos na economia formal, a descentralização e a municipalização
da gestão do sistema, a integralidade da atenção e participação
popular nos conselhos deliberativos.
Segundo
Heimann et al. (1998) a descentralização no sistema de saúde
avançou depois da implantação da gestão descentralizada,
conferindo poder aos gestores municipais. Os efeitos foram
positivos. Estes desenvolveram sua capacidade gerencial, aumentaram
a oferta de ações e serviços de saúde, estabeleceram um novo
padrão de relacionamento entre os setores públicos e privado e
imprimiram maior dinâmica na participação da comunidade no
controle público do sistema de saúde. Obviamente, o processo de
implementação do SUS está longe de poder ser considerado concluído.
No
entanto, não se pode deixar iludir por todos os efeitos positivos
citados por Heimann. Isto não é a realidade de todos os municípios
do Brasil. A municipalização da saúde precisa considerar a existência
ou não de tradição em matéria da gestão de políticas públicas
de saúde. A grande maioria dos municípios brasileiros não a tem.
Ao assumir a gestão de sistemas locais de saúde, estes municípios
estão assumindo compromissos interinstitucionais num ambiente
totalmente adverso à boa gestão da coisa pública, onde os
resultados costumam ser desastrosos.
Os
conflitos que um sistema como esse possa gerar com os mais diversos
interesses é um obstáculo tanto técnico como político para o
avanço desta proposta de saúde pública universal.
Segundo Vianna (2001), deve-se lembrar que os municípios não
podem ser considerados de forma simétrica, ou seja, não se pode
imaginar que todos os municípios sejam iguais, funcionem do mesmo
modo, tenham o mesmo nível de necessidades ou, mais
especificamente, tenham o mesmo padrão de receitas e despesas. O
leitor verificará através do exemplo de Presidente Prudente,
analisado a seguir, como estas cidades que não participaram da
discussão do SUS estão encontrando dificuldades em administrar o
setor.
A
crise da saúde de Presidente Prudente em 2004
Conselho
aprova desabilitação da gestão plena.
Esta foi a manchete estampada na primeira página do Jornal O
Imparcial, no dia 18 de setembro de 2004. De acordo com este
jornal, o Conselho Estadual de Saúde havia aprovado a desabilitação
da gestão plena do SUS (Sistema Único de Saúde) do município de
Presidente Prudente. Tal fato é interessante, aqui, para a
identificação dos atores políticos envolvidos na questão, bem
como o jogo de interesses e as disputas entre eles. Em função
deste acontecimento, é importante ater-se à seqüência de fatos
noticiados pela imprensa local no decorrer do ano de 2004, visando
buscar elementos para esta análise. Como neste ano, o tema da saúde
ganhou enorme destaque nos jornais,
devido à eleição municipal, foram selecionados em um quadro as
principais notícias para o propósito deste estudo:
Quadro
1 – Fatos e Notícias na mídia impressa
 |
Em
9 de janeiro de 2004, o jornal O Imparcial,
já alertava em sua coluna Plantão que o governo
repassava, em média, 1,7 milhões de reais por mês ao
município e que haveria muito pano para manga (sic)
com a forma da aplicação e a com a falta de fiscalização
da verba da saúde
|
|
 |
No
dia 15 de janeiro, dois meses depois do anúncio da Santa
Casa (novembro de 2003) em não atender mais pelo SUS, o
Pronto Socorro passa a ser atendido pelo Hospital
Universitário. A
Santa Casa alegou ser impossível manter o funcionamento
do Pronto Socorro após a prefeitura anunciar mudanças no
valor do repasse que fazia às instituições prestadoras
de serviços conveniadas ao SUS (Sistema Único de Saúde).
A verba do SUS, enviada pelo governo federal, era
complementada pela prefeitura, que decidiu remanejar os
valores.
|
|
 |
No
dia 25 de janeiro, a notícia, no mesmo periódico, era
que a Prefeitura decidiu pela redução de
R$900.000,00 reais no repasse aos prestadores de serviços
de saúde do município, diminuindo em 34% o teto
financeiro para esta rubrica. Com a determinação do
corte do teto, houve várias manifestações diante da
prefeitura. Dentre estas, a manifestação que ganhou
grande destaque no jornal O imparcial, foi aquela
realizada pelos funcionários dos hospitais de saúde
mental, Allan Kardec e Bezerra de Menezes
que começaram a dar altas a seus pacientes sob alegação
de não ter recursos para mantê-los.
|
|
 |
No
dia 8 de fevereiro de 2004, o governador Geraldo
Alckimin, em visita a cidade, afirmou que aguardava a
posição da auditoria da Comissão Bipartite (Conselho
dos secretários de saúde da região e a Direção
Regional de Saúde- DIR) de Saúde para manifestar se
o Estado iria assumir a gestão local. O governador
comentou ainda que o responsável pelo pagamento aos
prestadores de serviços de saúde era o poder público
local e que estava informado de uma série de denúncias
do não pagamento dos serviços prestados.
|
|
 |
No
mesmo dia, em seu editorial, O Imparcial afirmava que os
interesses pessoais, caprichos políticos e a postura da
maioria da Câmara Municipal em não fiscalizar
acabaram conduzindo o sistema de saúde pública em
Presidente Prudente ao caos. Não bastasse, a coluna Plantão
cobrava, do mesmo dia, que no relatório
da Comissão de Acompanhamento e Avaliação do
Setor de Saúde da Câmara deveria conter a denúncia
do prefeito contra seus ex-secretários — o
vereador Alfredo Penha e sua esposa, Luciana Penha —
por omissão. Fato que não foi apreciado pela mesa
diretora.
|
|
 |
Em
uma reunião realizada no dia 11 de fevereiro, os
secretários municipais de saúde da região aprovaram
o relatório da Comissão Bipartite e a sugestão para o
descredenciamento da gestão plena de Presidente Prudente.
Não foi uma decisão final, mas uma sugestão que ainda
seria enviada para apreciação da Comissão Estadual.
|
|
 |
No
dia 27 de fevereiro, o Editorial do Imparcial, ressaltou a
importância da construção do hospital do Câncer,
que naquele momento comemorava-se a primeira laje construída.
Descrevia também, algumas contribuições financeiras
como a do Estado de São Paulo com R$ 4,7 milhões
e da fundação Bradesco com R$ 250.000,00 - sem
contar as muitas em menor escala dos munícipes.
Incentivou, o editorial do jornal, para o empenho em
continuar contribuindo e apontava que com a organização
das comunidades locais e regionais chegariam a meta o mais
rápido possível.
|
|
 |
Contrapondo
este editorial, na coluna Plantão, a noticia era que o Instituto
de Radioterapia estava tomando uma atitude drástica
em cortar até 60% o número de atendimentos a seus
pacientes devido ao corte do repasse de verbas. Também na
mesma coluna, a Câmara Municipal estaria realizando
naquela data, a audiência pública da Secretaria
Municipal da Saúde de Presidente Prudente para
apresentar à sociedade dados da suas atividades nos últimos
quatros meses, por força de lei do setor. O
“interessante” que nos dias seguintes não houve
nenhum comentário sobre o resultado desta audiência.
|
|
 |
4
de março foi o dia em que a Comissão Estadual iria dar o
parecer sobre a possível perda da gestão plena de Saúde
do município, ao contrário do que muitos poderiam
imaginar, o prefeito não pareceu muito preocupado com a
possível perda da Gestão Plena de Saúde no município.
Na reportagem do jornal Oeste Notícias, do mesmo dia,
ele disse: ‘‘Vejo isso com muita satisfação.
Eu não quero a gestão plena’’.
Ale do mais,
o prefeito deixou claro que, da forma como o Ministério
da Saúde vem administrando os recursos do SUS
(Sistema Único de Saúde) no município, a Gestão Plena
não é um bom negócio. Segundo o prefeito Agripino de
Oliveira Lima: ‘‘o Ministério da Saúde manda R$ 1,6
milhão para 30 prestadores de serviços, o que eu faço
com isso?’’, questionou. ‘‘O Estado que tome
conta, porque eu não quero mais a Gestão Plena’’,
completou. Agripino também sugeriu que os prestadores de
serviço do SUS na cidade recorram ao Governo Federal
‘‘na hora que precisarem de dinheiro’’, caso a
perda se confirme hoje. ‘‘Eles [os prestadores] que vão
para Brasília falar com Lula, quero ver se eles têm
coragem. Vão pedir o dinheiro da CPMF’’, disse o
prefeito.
|
|
 |
Tardiamente,
o Conselho de Saúde se reúne para analisar a
situação da Saúde local, de acordo com a noticia do
Imparcial no dia 18 de março.
Assim, o Conselho tentando dar uma satisfação à
população por meio de um relatório de defesa,
demonstrou a ineficiência - já constatada pela Câmara
Municipal no editorial do Imparcial do mesmo dia, e ficou
apenas no plano da discussão e possíveis encaminhamentos
sem alguma substancial repercussão.
|
|
No
decorrer dos meses seguintes, começaram as articulações políticas
para as eleições municipais e as manchetes sobre as notícias do
setor de saúde deixaram de ganhar notoriedade, até que começou o
pleito em julho. Quando, então, a situação da gestão do sistema
público de saúde em Presidente Prudente foi o principal alvo de
ataques da oposição ao prefeito Agripino Lima que, acrescente-se,
foi reeleito. O calor da disputa eleitoral fomentou um clima de
caos, levando a população a pensar que estava desassistida; e, o
que é pior, pensava que nada podia fazer para buscar soluções, a
não ser esperar pelo resultado das eleições, quando o “grande
salvador” viria e tudo ficaria bem, menosprezando a complexidade
da saúde pública.
As
decisões políticas não são atos singulares tomados em
determinado momento do tempo. Ao contrário, são resultados de uma
seqüência de decisões, tomadas por diferentes atores situados em
distintas posições institucionais. Torna-se imprescindível,
portanto, uma análise da luta que se trava na arena política,,
observando o papel dos atores nas imposições e ocupação de espaços
pelos atores para interferir na formulação das políticas públicas
que envolvem o tema. Os atores exercem, além da influência no
processo decisório tanto na esfera do legislativo como do
executivo, uma função fiscal.
Para
orientação da presente reflexão, apresenta-se abaixo um quadro
com os principais atores (grifados nas notícias descritas acima)
que participaram no confronto de posições, que redundaram (ou
redundam) na formulação de políticas públicas de saúde de
Presidente Prudente.
Quadro
2 – Atores políticos
 |
Jornal
O Imparcial: Um dos jornais mais antigos de Presidente
Prudente. Em sua história, o jornal tem demonstrado apreço
por causas filantrópicas/sociais locais e regionais, e apóia
atualmente, ações como a construção do Hospital do Câncer,
e tem dado ampla cobertura ao caso do fechamento do Pronto
Socorro (PS) da Santa Casa e aos problemas gerados com a
falta de remédios nas Unidades Básicas de Saúde do
município e região. Em vários de seus editoriais e matérias
publicadas ao longo do período analisado, O Imparcial
apontou supostas irregularidades na prestação de contas
da Saúde, como também criticou os trabalhos da Câmara
Municipal e
Conselho Municipal de Saúde. É visto na cidade como
jornal de oposição ao grupo político do prefeito
Agripino.
|
|
 |
Prefeito
Agripino Lima: político com grande hegemonia na política
local, é cotista da Associação Prudentina de Educação
e Cultura (APEC), que por sua vez é mantenedora do
Hospital Universitário da Universidade do Oeste Paulista
(Unoeste). É acionista de várias empresas de
telecomunicação como o Jornal Oeste Noticias e TV Hum
(Canal Futura) e de um plano de saúde Unoeste Saúde.
|
|
 |
Ministério
da Saúde: organismo do Estado que administra a Saúde na
esfera federal. È a ultima instância para a análise de
descredenciamento de uma cidade da gestão plena.
|
|
 |
Conselho
Municipal de Saúde: É o principal órgão deliberativo
da gestão local do SUS. A sua atuação não teve um
papel efetivo na condução da Saúde. Aprovou e não
questionou as manobras fiscais e políticas no repasse de
verbas do SUS. Esteve sempre atrasado nas discussões. A
própria reunião de dia 18 de março, mencionada
anteriormente, mostrou o descompasso e a falta de integração
com outros atores envolvidos. Não houve divulgação de
seus atos antes dos problemas surgirem.
|
|
 |
Câmara
Municipal: O prefeito tinha a maioria dos votos, a oposição
era praticamente voto vencido no plenário, mas conseguiu
instalar uma comissão de acompanhamento e avaliação do
setor de Saúde no final de 2003 para averiguar se houve
irregularidades. De certa forma, não contrariou —
quando deveria ao menos ter averiguado com cautela e
publicidade de atos — os termos aditivos oferecidos aos
prestadores de serviços da saúde quando a prefeitura
reduziu em R$ 900.000,00 reais as verbas destinadas a
estes, desviando tais recursos para o Pronto Socorro do
Hospital Universitário.
|
|
 |
Secretaria
Municipal da Saúde de Presidente Prudente: É o organismo
do Estado que
administra a saúde na esfera municipal. No período
estudado, o secretário municipal de saúde ao longo do
mandato do prefeito foi ocupado pelo vereador Alfredo
Penha e a engenheira Luciana Penha, sua esposa. Uma das
suspeitas levantadas pela Comissão da Câmara é que a
conta o fundo Municipal não está sob administração da
Secretaria de Saúde, mas do Gabinete do Prefeito.
|
|
 |
Hospital
do Câncer: Hospital filantrópico, ainda está na fase de
construção. É encampado por várias entidades tais como
Rotary, Lions, empresas privadas, corpo clínico da Santa
Casa e personalidades públicas.
|
|
 |
Prestadores
de serviços, Instituto de Radioterapia, hospitais psiquiátricos
Allan Kardec e Bezerra de Menezes: São ao todo 30
prestadores, todos dependem essencialmente do repasse de
verbas. Allan Kardec e Bezerra são hospitais psiquiátricos,
também são os prestadores locais que mais consomem
Autorizações de Internações Hospitalares (AIH) do
sistema de saúde local.
|
|
 |
Vereador
Alfredo Penha e Luciana
Penha: Marido e mulher, durante a gestão de Agripino Lima
(2000-2004) foram secretários da Saúde. Alfredo Penha em
outras campanhas, já foi candidato a vice-prefeito na
chapa apoiada pelo atual prefeito e também candidato a
deputado estadual, sempre com o apoio de Agripino Lima.
Saiu da secretaria para fazer parte da maioria na Câmara,
pois um vereador da base governista fora impugnado.
Luciana, que era secretária do planejamento foi
remanejada para a pasta que conduziu até surgirem às denúncias,
quando foi afastada do cargo. Ambos sofreram acusações
do prefeito que afirmava sem pormenores ter sido enganado
por eles por não o terem avisado da real situação da Saúde,
os ex-secretários teriam escondidos os fatos para o
prefeito.
|
|
 |
Jornal
Oeste Notícias: Faz parte das empresas da família de
Agripino Lima. É visto como o jornal da situação. Também
apóia a construção do Hospital do Câncer.
|
|
 |
Hospital
Universitário: Depois que o Pronto Socorro da Santa Casa
deixou de prestar atendimento aos pacientes do SUS, passou
a ser referência para toda a população carente da
assistência médica estatal. Atualmente passa por
dificuldades orçamentárias, conforme os próprios
jornais apontam.
|
|
 |
Santa
Casa de Miseridórida: Um dos principais prestadores de
serviços de Saúde do Município, esteve até em 2003,
com o pronto socorro municipal. Começou a passar por
dificuldades financeiras com os atrasos de repasses do próprio
SUS e com a diminuição do teto promovida pela secretaria
municipal. Nas eleições, os médicos ligados a este
hospital, tiveram um colega da categoria como
vice-prefeito em uma das coligações.
|
|
Na
figura1, a seguir, o leitor poderá observar um diagrama de
relacionamentos entre estes diversos atores descritos acima na
disputa pela agenda e verba da saúde pública no município de
Presidente Prudente.
Figura
1 - Presidente Prudente: atores políticos e suas interações na
gestão do SUS 2004

Org:
Ribeiro, 2004
De
acordo com a figura 1, observa-se, no centro dos relacionamentos
entre os atores políticos envolvidos na política de saúde, a
arena em disputa: a gestão do SUS local. Os cifrões representam o
volume de verbas destinado a cada prestador de serviços. O cifrão
maior significa um grande volume de recursos e o cifrão menor
significa um volume menor. As setas (preta e vermelha) identificam
as relações objetivas (apoios) e intenções de cada ator. As
setas pontilhadas mostram a participação do ator sob dois pontos
de vista: como empresário (acionista) e como provedor. Assim,
tem-se o prefeito Agripino, representado pelas setas em vermelho. As
suas relações mostram que existe estreita colaboração com a Câmara
Municipal, com o Conselho Municipal de Saúde e os secretários de
saúde. Desta maneira, estas relações que foram representadas com
a dupla seta e mais a palavra apoio. As setas
vermelhas pontilhadas mostram a participação empresarial do
prefeito no Jornal e no Hospital Universitário.
Mesmo
com a intervenção, o prefeito conforma-se com a decisão desde que
mantida o volume de verbas como existe hoje, ou seja, a manutenção
dos mesmos percentuais depois da intervenção. O outro grupo político
que podemos visualizar é aquele ligado aos prestadores de serviços:
Santa Casa, Allan Kardec, Instituto de Radioterapia entre outros.
Estes estão representados pelas setas pretas.
Na
análise das relações deste grupo, visualiza-se a luta pela
manutenção da gestão local, desde que mantido o volume de verbas
vigente que estava colocado antes do corte proporcionado pelo
Prefeito. Pode-se,
assim, apontar a participação do governo estadual no custeio da
construção do Hospital do Câncer, como também na ajuda às
outras entidades de assistência social ligadas a este grupo de
atores.
A população, principalmente os usuários do sistema público de saúde,
ao buscar informações sobre o tema nos veículos de comunicação
impressa do município (Oeste
Notícias e O Imparcial), poderá perceber que ambos estão posicionados de
acordo com seus pares políticos. Apesar destas diferenças, os
mesmos não deixam de simpatizar comumente por alguns temas, como é
o caso da construção do hospital do Câncer.
Independente
do grupo, as verbas destinadas à atenção primária (Unidades Básicas
de Saúde) sempre compõem o menor volume de investimentos. Desta
forma, pode-se visualizar a disputa de dois grupos distintos,
aqueles que não querem a gestão plena (grupo do prefeito),
beneficiando o pronto socorro do H.U. com a preferência na alocação
de verbas; e um outro grupo, que quer a gestão plena, desde que
esta beneficie os prestadores de serviços, como a Santa Casa,
dependente de Autorização de Internação Hospitalar. Chama atenção,
ainda, o fato de não se encontrar, ao longo do período estudado,
nenhuma manifestação da categoria médica sobre a questão nos
jornais. Todavia, cabe ressaltar que um número significativo desta
categoria presta os serviços ora na Santa Casa, ora no Hospital
Universitário e utiliza seus equipamentos por meio dos planos de saúde
privados. Desta forma,
a disputa entre hospitais incorpora grupos de médicos ligados a
estas instituições, dando uma falsa impressão de que os médicos
se ausentaram do debate, esperando comodamente o desdobramento final
deste episódio (Ribeiro, 2005).
É
válido lembrar, que a Autorização de Internação Hospitalar
é a forma pela qual são remunerados os prestadores de serviços de
saúde no Brasil. Este sistema consiste em montar uma tabela de
pagamentos que remunera cada um dos componentes que compõe o custo
médio da intervenção médica necessária para aquele diagnóstico.
Tal sistema de pagamento constitui-se num resquício do antigo padrão
de financiamento do INAMPS, que privilegiou uma lógica diferente
daquela adotada pelo SUS.
Sobre
as Unidades Básicas de Saúde (UBS): tratadas em segundo plano, em
nenhum momento durante a crise se questionou o volume das verbas
empenhadas. Apenas apontou-se a falta de suprimentos das farmácias.
Para ambas as vertentes políticas, não houve manutenção de
verba. É importante recordar que as UBS, unidades de saúde
voltadas à proteção e atenção básica, têm uma demanda popular
muito grande. É a porta de entrada do SUS. No mapa conceitual as
setas de interrogação mostram exatamente algumas indagações que
apenas o futuro poderá responder. Será que ao se efetivar a
intervenção, haverá uma melhor distribuição de verbas entre os
prestadores? As UBS serão tratadas realmente como porta de entrada
do SUS local? Seria de interesse do grupo ligado aos prestadores
apenas a manutenção do fluxo de verbas? Mesmo com a intervenção
do Estado, seria possível ao poder público municipal encampar a
gestão plena outra vez?
A
historia da gestão: o
que está em disputa?
A
conjuntura política, descrita no início deste texto, é um
indicativo do que está sendo observado: uma disputa de modelo de
gestão e não a ruptura dos paradigmas esperados por seus
idealizadores, como acesso universal e qualidade na prestação de
serviços. Entende-se que o modelo de gestão plena precisa fundar
suas estratégias na contínua evolução da correlação de forças,
conhecendo os diversos atores que podem facilitar ou dificultar o
processo conforme sua ação. Mas qual modelo de gestão está em
foco? De acordo com Teixeira (2001), o sistema de saúde brasileiro
está sendo disputado por atores com diferentes concepções.
Segundo esta autora, haveria, em linhas gerais, três modelos de
gestão.
O
primeiro deles é denominado de “modelo médico-assistencial-privatista”
de saúde, que privilegia os interesses dos fabricantes e
fornecedores privados de medicamentos e equipamentos médico-hospitalares
e serviços de saúde transformando-os em meras mercadorias.
Portanto, tem como prática comum colocar o lucro máximo sempre
acima dos direitos da saúde da população usuária. Neste modelo
de gestão, na oferta de serviços, predomina a assistência às
doenças, com alta porcentagem de assistência evitável ou
desnecessária. Os valores desse modelo são: a produção
quantitativa de serviços, de média e alta complexidade. Um
indicador deste modelo é o número de Autorizações de Internações
Hospitalares (AIH) comparado em um período de tempo.
O
segundo, o “modelo sanitarista”, tem como objetivo o controle de
doenças ou riscos à saúde em grupos populacionais específicos.
Este modelo ainda predomina no SUS, haja vista que o Brasil ainda é
um país muito carente em equipamentos públicos de saúde,
principalmente os de saneamento básico. Sendo assim, na oferta de
serviços predominam as campanhas sanitárias, programas de controle
da transmissão e dos fatores de risco de uma doença na perspectiva
epidemiológica, utilizando um conjunto de meios que compõem a
tecnologia sanitária, como educação em saúde, saneamento,
imunização e etc.
Finalmente,
um terceiro modelo de gestão é o denominado “vigilância em saúde”,
que privilegia os interesses e direitos de cidadania da população
usuária. De acordo com seus protagonistas, o ponto de partida do
planejamento das ações é sempre o das necessidades da população,
identificadas pelos indicadores sociais, epidemiológicos e pelas
informações das entidades representantes dos usuários. Neste
caso, na oferta de serviços predomina a defesa da vida e a proteção
da saúde, sem deixar de assistir os doentes, a partir de rede de
Atenção Básica à Saúde, eqüitativa e de acesso universal. Uma
síntese dessas idéias pode ser observada no quadro abaixo:
Quadro
2
Modelos
Assistenciais e Vigilância em Saúde

O
que se pôde observar na disputa pela gestão da saúde pública
municipal, em 2004, foi apenas a manutenção de um modelo médico
– assistencial privatista. Disputa esta em que os interesses dos
atores podem ser vistos como um reflexo do atual sistema de
financiamento da política de saúde. Afinal, na composição dos tetos fiscais de repasse de verba,
o AIH foi o determinante de maior relevância para a eclosão da
crise. Além disso, a discussão sobre política pública de saúde
apenas polarizou temas como: o pronto-socorro (abertura ou não da
Santa Casa?), quem será o secretário da saúde? (representante da
classe médica ou não?) e o abastecimento de remédios e
funcionamento das farmácias das Unidades Básicas. Quanto aos
atores sociais envolvidos, em momento algum houve o interesse destes
em debater a formação das políticas públicas e as definições
de prioridades das políticas públicas de saúde.
Conclui-se
daí, que a implementação do Sistema Único de Saúde num município
sem tradição na luta pela reforma sanitária, como é o caso de
Presidente Prudente, não provocou nenhum impacto na forma de gestão
dos serviços de saúde oferecidos à população. Assim como na década
de 1930, o centro do debate da política de saúde local continua
sendo o papel da Santa Casa de Misericórdia. Da mesma forma, a
beneficência – financiada pela verba pública – permanece sendo
a própria coisa pública. Analisando esta realidade, caso a gestão
da saúde pública neste município desde a implementação do SUS
resultasse na efetividade das ações, a própria discussão do
modelo de gestão não teria a menor relevância. Contudo,
infelizmente, os rumos tomados na política de saúde local não
resultaram em nenhum impacto significativo na melhoria da saúde da
população.
por
EDUARDO
A. WERNECK RIBEIRO
|
|

|
Clique
e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço
Acadêmico
|
|
Bibliografia:
BRASIL.
Lei nº 8.080 de 19 de
setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção,
proteção e recuperação da saúde, da organização e
funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências
(Lei Orgânica da Saúde).
BRASIL.
Lei no 8.142,
de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a participação da
comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as
transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área
da saúde e outras providências.
BRASIL.
Ministério da Saúde. Resolução nº 33, de 23 de dezembro de 1992. Dispõe sobre a
constituição e estruturação de Conselhos Estaduais e Municipais
de Saúde.
BRASIL.
Ministério da Saúde. Norma
Operacional Básica
- SUS 01/1991.
BRASIL.
Ministério da Saúde / SUS. Descentralização das ações e Serviços de Saúde: a ousadia de
cumprir e fazer cumprir a lei, 1993.
HEIMANN,
L.S. et al. A
descentralização do sistema de saúde no Brasil – uma proposta
de investigação sobre o impacto de políticas. Relatório
Final. Instituto de Saúde, São Paulo, 1998.
RIBEIRO,
Eduardo Augusto Werneck. A Análise geográfica dos gastos municipais em saúde.
Dissertação (mestrado). Universidade Estadual Paulista, Faculdade
de Ciências e Tecnologia. Presidente
Prudente: [s.n.], 2005, 139 f.
TEIXEIRA,
S. M. F., 1991. Avaliação
comparativa das ações integradas de saúde. Divulgação
em Saúde para Debate, 3: 78-81.
VIANNA
. A. Programas
sociais - efetividade, eficiência e eficácia como dimensões
operacionais da avaliação. Rio de Janeiro: IPEA, 2001.
Artigos
de Jornais
Vai
dar muito pano para manga. Jornal
O imparcial. Presidente Prudente, 9 de janeiro de 2004. Coluna
Plantão , A-3.
Pronto
Socorro passa a ser atendido pelo Hospital Universitário. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 15 de janeiro de 2004. Caderno Cidades, B-1.
Prefeitura
vai reduzir R$900 mil da saúde de PP. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 25 de janeiro de 2004. Caderno Cidades, B-3.
Promete
Polemizar. Jornal O
imparcial. Presidente Prudente, 8 de fevereiro de 2004.
Coluna Plantão, A-3.
Foi
necessária uma intervenção judicial para o prefeito repassar
recursos devidos à Santa Casa. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 8 de fevereiro de 2004. Editorial, A-3.
Unanimidade
pede destituição da gestão plena. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 11 de fevereiro de 2004. Caderno Cidades, B-4.
PP
pode perder gestão do SUS, afirma Alckmin. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 8 de fevereiro de 2004. Caderno Cidades, B-7.
Bipa
decidirá descredenciamento de Prudente. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 12 de fevereiro de 2004. Caderno Cidades, B-1.
Importância
da construção do hospital do Câncer. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 27 de fevereiro de 2004. Caderno Cidades, B-1.
Comissão
Estadual dará o parecer sobre a possível perda da gestão plena de
Saúde do município,. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 4 de março de 2004. Caderno Cidades, B-2.
Sem
confirmação.
Jornal Oeste Notícias. Presidente Prudente, 4 de março de 2004.
Coluna do Oeste, pg.3.
Conselho
se reúne para prestar esclarecimentos. Jornal
O imparcial. Presidente
Prudente, 18 de março de 2004. Caderno Cidades, B-3.
|
| | |