por JOÃO QUARTIM DE MORAES* & JOSÉ CARLOS RUY**

* Filósofo, professor da Unicamp

** Jornalista e pesquisador

 

 

Resenha:

Losurdo, Domenico. Liberalismo, Entre a Civilização e a barbárie. Editora Anita Garibaldi, São Paulo, 2006

 

 

No rastro das mazelas do liberalismo

 

”Finalmente regressa o colonialismo; já era hora” – esta manchete do jornal estadunidense The New York Times, do início da década de 1990, exprime com felicidade um dos aspectos centrais do reacionarismo imperialista contemporâneo. Ela se refere a uma entrevista com o historiador britânico de extrema direita Paul Johnson e é lembrada por Domenico Losurdo em um dos ensaios que compõe este livro para ilustrar de forma crítica a continuidade entre o pensamento liberal do passado e seus atuais continuadores, que fazem a apologia da agressividade norte-americana contra os povos do mundo. Na mesma ocasião, Karl Popper, o famoso filósofo austro-britânico, dizia que as colônias foram libertadas “cedo demais”.

Domenico Losurdo, um dos mais notáveis pensadores marxistas da atualidade, tem se dedicado, em uma obra já considerável, à análise crítica dos ideólogos do liberalismo. Ele mostra como o elitismo daquele pensamento olhava o mundo com um metro de classe rígido, segundo o qual toda a cultura e a civilização são apanágios legítimos dos proprietários, cabendo aos demais as durezas do trabalho, das carências, da miséria. Um pensamento que já se manifestava no século XVIII, quando Wilhelm von Humdboldt escreveu que “a felicidade a que um homem está destinado não é mais do que a que lhe provê sua própria força”, uma apologia do crasso individualismo que, no século XX foi expressa, por exemplo, por Ludwig von Mises: “a posição social de cada um depende da própria ação”.

Há uma linhagem que une este pensamento, que chega triunfante ao começo do século XXI deixando seu trajeto repleto de destroços dos povos e dos trabalhadores moídos para a construção da felicidade de poucos. Losurdo reconstrói cuidadosamente esta tradição e seus desastres. Mostra como ela é o biombo da exploração dos trabalhadores na Europa e também da hierarquização do mundo em raças inferiores e superiores, cujo topo é ocupado pelas elites brancas européias. Ele tem o mérito de colocar, no centro da análise – que nunca deixa de ser, como bom marxista, a análise das classes e da luta de classes – também o racismo e o machismo. Racismo que se traduz na idéia da supremacia branca presente tanto no topo da burguesia estadunidense como na Alemanha nazista. Com uma diferença: enquanto as nações européias exerciam sua supremacia branca sobre povos de outros continentes, como a Ásia, a África e a América Latina, os EUA sobrepunham-se dentro de seu próprio território a povos indígenas e aos africanos para lá levados para o trabalho forçado das fazendas. E a Alemanha hitlerista, por sua vez, procurou no leste da Europa o espaço para o exercício dessa política racista voltada para a escravização e extermínio dos povos considerados inferiores.

É uma tese ousada, inovadora e, certamente, polêmica. Mas que introduz a análise da situação contemporânea na mesma linhagem que, no passado, considerava os povos não europeus como infantis ou bárbaros, e hoje conduz aos rogue states, os Estados bandidos de George Bush, justificando assim a agressão e opressão de povos que não se enquadram nem se acomodam aos desígnios de Washington.

Análise que se desdobra no exame de alguns temas: é possível que uma nação leve a felicidade (ou a “democracia”, na linguagem do aparelho ideológico do imperialismo) para outra? É possível exportar a revolução? Losurdo questiona esta possibilidade. Ele parte da análise da partilha da Polônia, no século XVIII, entre a Prússia e a Rússia; os iluministas franceses apoiaram o monarca prussiano, lembra ele, a pretexto de que levava a civilização para uma nação atrasada. Situação semelhante à de alguns intelectuais que, hoje, apóiam a agressão estadunidense contra o Iraque e outras nações do Oriente Médio, com a mesma desculpa.

Este tema leva diretamente a outro, intimamente relacionado com ele, a questão nacional. Losurdo lembra o que Engels dizia, na década de 1870: “Um movimento internacional do proletariado só é possível entre iguais”. Caso contrário, o internacionalismo transforma-se em chauvinismo, em opressão imperialista. Engels criticava a pretensão francesa de uma “missão de libertação mundial” – que, desde o século XIX, encontrou outra roupagem na tese estadunidense de “destino manifesto” de seu país, que teria recebido de deus a tarefa de “civilizar o mundo”. E, em carta a Kautsky, em 1882, Engels insistiu, de forma ainda mais incisiva: “Sou de opinião de que na Europa duas nações têm não só o direito mas mesmo o dever de serem nacionais antes mesmo de internacionais: os irlandeses e os poloneses. Estes são internacionais, no melhor sentido do termo, quando são autenticamente nacionais”. Isto é, desde Engels, mais tarde reafirmado por Lênin, a tradição marxista reconhece a íntima associação entre a luta do proletariado pela emancipação da humanidade, e a luta das nações por sua soberania.

Há um mérito na insistência feita por Losurdo em questões como estas e na denúncia do racismo e da pretensa missão civilizatória das grandes potências imperialistas que acompanham o pensamento das classes dominantes e que hoje, sob Bush, chega ao paroxismo em agressões bélicas que repetem ações semelhantes no século XIX, como a guerra do Ópio, dos ingleses contra a China, ou a agressão nazista contra o leste europeu e a URSS, no século XX. O mérito, aqui, é a retomada do universalismo de Lênin, para quem existe apenas uma humanidade, sem raças, inferiores ou superiores, mas dividida em classes que dominam e outras que são obrigadas a trabalhar em seu benefício.

Para o leitor brasileiro, trata-se de ensaios esclarecedores. Também aqui a idéia de supremacia branca se manifestou, de forma disfarçada mas efetiva, na herança dos 388 anos de escravismo que dominou nosso país e forjou uma elite racista. Nunca é demais lembrar que a Constituição Imperial de 1824 tratou os escravos como se fossem estrangeiros e, portanto, à margem da lei, que a eles não se aplicava. Como se a nação fosse cindida em dois corpos – um, formado por descendentes de europeus, brancos e dominantes; outro, formado por escravos mas também pelos mestiços de brancos, negros e índios e, de acordo com os preconceitos dominantes, racialmente inferiores. O racismo foi o esteio do pensamento social da elite brasileira durante a maior parte dos séculos XIX e XX, e mesmo das atitudes políticas dessa elite. Ele está subjacente, por exemplo, à tese de que o brasileiro não sabe votar (por não ter a mesma compreensão que a elite tem das “complexidades” da política e do governo); está também na base da idéia de que o país é pouco desenvolvido por que o povo não tem escolaridade, e que para avançar é preciso investir na educação do povo. Uma idéia canhestra e um tanto cínica: primeiro, porque supõe uma inferioridade do povo ante a elite “educada”, já que supõe que as camadas da base da sociedade não partilham dos mesmos valores da elite, e que esta, aquelas parcelas da população, o mesmo papel “civilizatório” que as elites européias se atribuem para legitimar o domínio sobre povos não europeus. E, depois, porque, sendo governante, esta elite brasileira é a responsável direta pelo descalabro do sistema público de educação no país, perpetuando, assim, aquela situação de carência educacional que ela identifica nos de baixo.”

 

por JOÃO QUARTIM DE MORAES & JOSÉ CARLOS RUY

 

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