Resenha:
Losurdo,
Domenico. Liberalismo, Entre a Civilização e a barbárie.
Editora Anita Garibaldi,
São Paulo, 2006
No rastro
das mazelas do liberalismo
”Finalmente
regressa o colonialismo; já era hora” – esta manchete do jornal
estadunidense The New York Times, do início da década de 1990,
exprime com felicidade um dos aspectos centrais do reacionarismo
imperialista contemporâneo. Ela se refere a uma entrevista com o
historiador britânico de extrema direita Paul Johnson e é lembrada
por Domenico Losurdo em um dos ensaios que compõe este livro para
ilustrar de forma crítica a continuidade entre o pensamento liberal
do passado e seus atuais continuadores, que fazem a apologia da
agressividade norte-americana contra os povos do mundo. Na mesma
ocasião, Karl Popper, o famoso filósofo austro-britânico, dizia
que as colônias foram libertadas “cedo demais”.
Domenico
Losurdo, um dos mais notáveis pensadores marxistas da atualidade,
tem se dedicado, em uma obra já considerável, à análise crítica
dos ideólogos do liberalismo. Ele mostra como o elitismo daquele
pensamento olhava o mundo com um metro de classe rígido, segundo o
qual toda a cultura e a civilização são apanágios legítimos dos
proprietários, cabendo aos demais as durezas do trabalho, das carências,
da miséria. Um pensamento que já se manifestava no século XVIII,
quando Wilhelm von Humdboldt escreveu que “a felicidade a que um
homem está destinado não é mais do que a que lhe provê sua própria
força”, uma apologia do crasso individualismo que, no século XX
foi expressa, por exemplo, por Ludwig von Mises: “a posição
social de cada um depende da própria ação”.
Há
uma linhagem que une este pensamento, que chega triunfante ao começo
do século XXI deixando seu trajeto repleto de destroços dos povos
e dos trabalhadores moídos para a construção da felicidade de
poucos. Losurdo reconstrói cuidadosamente esta tradição e seus
desastres. Mostra como ela é o biombo da exploração dos
trabalhadores na Europa e também da hierarquização do mundo em raças
inferiores e superiores, cujo topo é ocupado pelas elites brancas
européias. Ele tem o mérito de colocar, no centro da análise –
que nunca deixa de ser, como bom marxista, a análise das classes e
da luta de classes – também o racismo e o machismo. Racismo que
se traduz na idéia da supremacia branca presente tanto no topo da
burguesia estadunidense como na Alemanha nazista. Com uma diferença:
enquanto as nações européias exerciam sua supremacia branca sobre
povos de outros continentes, como a Ásia, a África e a América
Latina, os EUA sobrepunham-se dentro de seu próprio território a
povos indígenas e aos africanos para lá levados para o trabalho
forçado das fazendas. E a Alemanha hitlerista, por sua vez,
procurou no leste da Europa o espaço para o exercício dessa política
racista voltada para a escravização e extermínio dos povos
considerados inferiores.
É
uma tese ousada, inovadora e, certamente, polêmica. Mas que
introduz a análise da situação contemporânea na mesma linhagem
que, no passado, considerava os povos não europeus como infantis ou
bárbaros, e hoje conduz aos rogue states, os Estados bandidos de
George Bush, justificando assim a agressão e opressão de povos que
não se enquadram nem se acomodam aos desígnios de Washington.
Análise
que se desdobra no exame de alguns temas: é possível que uma nação
leve a felicidade (ou a “democracia”, na linguagem do aparelho
ideológico do imperialismo) para outra? É possível exportar a
revolução? Losurdo questiona esta possibilidade. Ele parte da análise
da partilha da Polônia, no século XVIII, entre a Prússia e a Rússia;
os iluministas franceses apoiaram o monarca prussiano, lembra ele, a
pretexto de que levava a civilização para uma nação atrasada.
Situação semelhante à de alguns intelectuais que, hoje, apóiam a
agressão estadunidense contra o Iraque e outras nações do Oriente
Médio, com a mesma desculpa.
Este
tema leva diretamente a outro, intimamente relacionado com ele, a
questão nacional. Losurdo lembra o que Engels dizia, na década de
1870: “Um movimento internacional do proletariado só é possível
entre iguais”. Caso contrário, o internacionalismo transforma-se
em chauvinismo, em opressão imperialista. Engels criticava a
pretensão francesa de uma “missão de libertação mundial” –
que, desde o século XIX, encontrou outra roupagem na tese
estadunidense de “destino manifesto” de seu país, que teria
recebido de deus a tarefa de “civilizar o mundo”. E, em carta a
Kautsky, em 1882, Engels insistiu, de forma ainda mais incisiva:
“Sou de opinião de que na Europa duas nações têm não só o
direito mas mesmo o dever de serem nacionais antes mesmo de
internacionais: os irlandeses e os poloneses. Estes são
internacionais, no melhor sentido do termo, quando são
autenticamente nacionais”. Isto é, desde Engels, mais tarde
reafirmado por Lênin, a tradição marxista reconhece a íntima
associação entre a luta do proletariado pela emancipação da
humanidade, e a luta das nações por sua soberania.
Há
um mérito na insistência feita por Losurdo em questões como estas
e na denúncia do racismo e da pretensa missão civilizatória das
grandes potências imperialistas que acompanham o pensamento das
classes dominantes e que hoje, sob Bush, chega ao paroxismo em
agressões bélicas que repetem ações semelhantes no século XIX,
como a guerra do Ópio, dos ingleses contra a China, ou a agressão
nazista contra o leste europeu e a URSS, no século XX. O mérito,
aqui, é a retomada do universalismo de Lênin, para quem existe
apenas uma humanidade, sem raças, inferiores ou superiores, mas
dividida em classes que dominam e outras que são obrigadas a
trabalhar em seu benefício.
Para
o leitor brasileiro, trata-se de ensaios esclarecedores. Também
aqui a idéia de supremacia branca se manifestou, de forma disfarçada
mas efetiva, na herança dos 388 anos de escravismo que dominou
nosso país e forjou uma elite racista. Nunca é demais lembrar que
a Constituição Imperial de 1824 tratou os escravos como se fossem
estrangeiros e, portanto, à margem da lei, que a eles não se
aplicava. Como se a nação fosse cindida em dois corpos – um,
formado por descendentes de europeus, brancos e dominantes; outro,
formado por escravos mas também pelos mestiços de brancos, negros
e índios e, de acordo com os preconceitos dominantes, racialmente
inferiores. O racismo foi o esteio do pensamento social da elite
brasileira durante a maior parte dos séculos XIX e XX, e mesmo das
atitudes políticas dessa elite. Ele está subjacente, por exemplo,
à tese de que o brasileiro não sabe votar (por não ter a mesma
compreensão que a elite tem das “complexidades” da política e
do governo); está também na base da idéia de que o país é pouco
desenvolvido por que o povo não tem escolaridade, e que para avançar
é preciso investir na educação do povo. Uma idéia canhestra e um
tanto cínica: primeiro, porque supõe uma inferioridade do povo
ante a elite “educada”, já que supõe que as camadas da base da
sociedade não partilham dos mesmos valores da elite, e que esta,
aquelas parcelas da população, o mesmo papel “civilizatório”
que as elites européias se atribuem para legitimar o domínio sobre
povos não europeus. E, depois, porque, sendo governante, esta elite
brasileira é a responsável direta pelo descalabro do sistema público
de educação no país, perpetuando, assim, aquela situação de carência
educacional que ela identifica nos de baixo.”
por
JOÃO
QUARTIM DE MORAES & JOSÉ CARLOS RUY